Introdução

om ajñāna-timirāndhasya jñānāñjana-śalākayā cakṣur unmīlitaṁ yena tasmai śrī-gurave namaḥ

śrī-caitanya-mano ’bhīṣṭaṁ sthāpitaṁ yena bhū-tale svayaṁ rūpaḥ kadā mahyaṁ dadāti sva-padāntikam

Nasci na mais profunda ignorância, e meu mestre espiritual abriu-me os olhos com o archote do conhecimento. A ele ofereço minhas respeitosas reverências.

Quando me dará Śrīla Rūpa Gosvāmī Prabhupāda, que estabeleceu dentro deste mundo material a missão de satisfazer o desejo do Senhor Caitanya, abrigo sob seus pés de lótus?

vande ’haṁ śrī-guroḥ śrī-yuta-pada-kamalaṁ śrī-gurun vaiṣṇavāṁś ca śrī-rūpaṁ sāgrajātaṁ saha-gaṇa-raghunāthānvitaṁ taṁ sa-jīvam sādvaitaṁ sāvadhūtaṁ parijana-sahitaṁ Kṛṣṇa-caitanya-devaṁ śrī-rādhā-Kṛṣṇa-pādān saha-gaṇa-lalitā-śrī-viśākhānvitāṁś ca

Ofereço minhas respeitosas reverências aos pés de lótus de meu mestre espiritual e aos pés de todos os vaiṣṇavas. Ofereço minhas respeitosas reverências aos pés de lótus de Śrīla Rūpa Gosvāmī, juntamente com seu irmão mais velho Sanātana Gosvāmī, bem como Raghunātha Dāsa e Raghunātha Bhaṭṭa, Gopāla Bhaṭṭa e Śrīla Jīva Gosvāmī. Ofereço minhas respeitosas reverências ao Senhor Kṛṣṇa Caitanya e ao Senhor Nityānanda, juntamente com Advaita Ācārya, Gadādhara, Śrīvāsa e outros associados. Ofereço minhas respeitosas reverências a Śrīmatī Rādhārāṇī e a Śrī Kṛṣṇa, juntamente com Seus associados, Śrī Lalitā e Viśākhā.

he Kṛṣṇa karunā-sindho dīna-bandho jagat-pate gopeśa gopikā-kānta rādhā-kānta namo ’stu te

Ó meu querido Kṛṣṇa, Tu és o amigo dos aflitos e a fonte da criação. És o senhor das gopīs e o amado de Rādhārāṇī. A Ti ofereço minhas respeitosas reverências.

tapta-kāñcana-gaurāṅgi rādhe vṛndāvaneśvari vṛṣabhānu-sute devi praṇamāmi hari-priye

Ofereço meus respeitos a Rādhārāṇī, cuja tez corpórea é como ouro fundido e que é a Rainha de Vṛndāvana. Tu és a filha do Rei Vṛṣabhānu, e és muito querida ao Senhor Kṛṣṇa.

vāñchā-kalpatarubhyaś ca kṛpā-sindhubhya eva ca patitānāṁ pāvanebhyo vaiṣṇavebhyo namo namaḥ

Ofereço minhas respeitosas reverências a todos os devotos vaiṣṇavas do Senhor, os quais podem satisfazer os desejos de todos, assim como as árvores-dos-desejos, e que são plenos de compaixão pelas almas caídas.

śrī Kṛṣṇa caitanya prabhu nityānanda śrī advaita gadādhara śrīvāsādi-gaura-bhakta-vṛnda

Ofereço minhas reverências a Śrī Kṛṣṇa Caitanya, Prabhu Nityānanda, Śrī Advaita, Gadādhara, Śrīvāsa e a todos os demais na linha da devoção.

hare Kṛṣṇa, hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, hare hare hare rāma, hare rāma, rāma rāma, hare hare.

O Bhagavad-gītā também é conhecido como Gītopaniṣad. É a essência do conhecimento Védico e um dos mais importantes Upaniṣads da literatura Védica. Naturalmente, há muitos comentários em inglês sobre o Bhagavad-gītā, e alguém poderia indagar a necessidade de mais um. Esta presente edição pode ser explicada da seguinte maneira. Recentemente, uma senhora americana pediu-me que lhe recomendasse uma tradução do Bhagavad-gītā em inglês. Naturalmente, na América há tantas edições do Bhagavad-gītā disponíveis em inglês, mas, até onde pude ver, não só na América como também na Índia, de nenhuma delas se pode dizer rigorosamente que seja autorizada, pois em quase todas o comentador expressou suas próprias opiniões sem tocar no espírito do Bhagavad-gītā como ele é.

O espírito do Bhagavad-gītā é mencionado no próprio Bhagavad-gītā. É exatamente assim: se quisermos tomar determinado remédio, então temos de seguir as instruções escritas no rótulo. Não podemos tomar o remédio segundo nosso próprio capricho ou conforme a orientação de um amigo. Ele deve ser tomado de acordo com as instruções do rótulo ou com as instruções dadas por um médico. De modo semelhante, o Bhagavad-gītā deve ser tomado ou aceito como o orienta o próprio orador. O orador do Bhagavad-gītā é o Senhor Śrī Kṛṣṇa. Ele é mencionado em cada página do Bhagavad-gītā como a Suprema Personalidade de Deus, Bhagavān. Naturalmente, a palavra “bhagavān” às vezes se refere a qualquer pessoa poderosa ou a qualquer semideus poderoso, e certamente aqui Bhagavān designa o Senhor Śrī Kṛṣṇa como uma grande personalidade; mas, ao mesmo tempo, devemos saber que o Senhor Śrī Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, como confirmam todos os grandes ācāryas (mestres espirituais), tais como Śaṅkarācārya, Rāmānujācārya, Madhvācārya, Nimbārka Svāmī, Śrī Caitanya Mahāprabhu e muitas outras autoridades do conhecimento Védico na Índia. O próprio Senhor também Se estabelece como a Suprema Personalidade de Deus no Bhagavad-gītā, e é aceito como tal na Brahma-saṁhitā e em todos os Purāṇas, especialmente o Śrīmad-Bhāgavatam, conhecido como o Bhāgavata Purāṇa (Kṛṣṇas tu bhagavān svayam). Portanto, devemos tomar o Bhagavad-gītā como o orienta a própria Personalidade de Deus.

No Quarto Capítulo do Gītā, o Senhor diz:

(1) imaṁ vivasvate yogaṁ proktavān aham avyayam vivasvān manave prāha manur ikṣvākave ’bravīt

(2) evaṁ paramparā-prāptam imaṁ rājarṣayo viduḥ sa kāleneha mahatā yogo naṣṭaḥ parantapa

(3) sa evāyaṁ mayā te ’dya yogaḥ proktaḥ purātanaḥ bhakto ’si me sakhā ceti rahasyaṁ hy etad uttamam

Aqui o Senhor informa Arjuna de que este sistema de yoga, o Bhagavad-gītā, foi falado primeiramente ao deus do Sol, e o deus do Sol o explicou a Manu, e Manu o explicou a Ikṣvāku, e desse modo, por sucessão discipular, de um orador a outro, este sistema de yoga foi descendo. Mas, com o decorrer do tempo, ele se perdeu. Em consequência, o Senhor tem de falá-lo novamente, desta vez a Arjuna no Campo de Batalha de Kurukṣetra.

Ele diz a Arjuna que lhe está relatando este segredo supremo porque ele é Seu devoto e Seu amigo. O significado disso é que o Bhagavad-gītā é um tratado especialmente destinado ao devoto do Senhor. Há três classes de transcendentalistas, a saber, o jñānī, o yogī e o bhakta, ou seja, o impersonalista, o meditador e o devoto. Aqui o Senhor diz claramente a Arjuna que está fazendo dele o primeiro receptor de uma nova paramparā (sucessão discipular), pois a antiga sucessão fora rompida. Era o desejo do Senhor, portanto, estabelecer outra paramparā na mesma linha de pensamento que descia do deus do Sol aos demais, e era Seu desejo que Seu ensinamento fosse distribuído novamente por Arjuna. Ele queria que Arjuna se tornasse a autoridade na compreensão do Bhagavad-gītā. Assim, vemos que o Bhagavad-gītā é instruído a Arjuna especialmente porque Arjuna era um devoto do Senhor, um aluno direto de Kṛṣṇa e Seu amigo íntimo. Por isso, o Bhagavad-gītā é mais bem compreendido por uma pessoa que tenha qualidades semelhantes às de Arjuna. Ou seja, ela deve ser um devoto numa relação direta com o Senhor. Logo que alguém se torna um devoto do Senhor, passa a ter também uma relação direta com o Senhor. Trata-se de um assunto muito complexo, mas, em resumo, pode-se afirmar que o devoto está em relação com a Suprema Personalidade de Deus de uma de cinco maneiras diferentes:

  1. A pessoa pode ser um devoto num estado passivo;
  2. A pessoa pode ser um devoto num estado ativo;
  3. A pessoa pode ser um devoto como amigo;
  4. A pessoa pode ser um devoto como pai ou mãe;
  5. A pessoa pode ser um devoto como amante conjugal.

Arjuna estava numa relação de amizade com o Senhor. Naturalmente, há um abismo de diferença entre esta amizade e a amizade encontrada no mundo material. Esta é uma amizade transcendental que não pode ser tida por todos. É claro que todos têm uma relação específica com o Senhor, e essa relação é evocada pela perfeição do serviço devocional. Mas, no atual estado de nossa vida, não somente nos esquecemos do Senhor Supremo, como também nos esquecemos de nossa relação eterna com o Senhor. Todo ser vivo, dentre muitos e muitos bilhões e trilhões de seres vivos, tem eternamente uma relação específica com o Senhor. Isso se chama svarūpa. Pelo processo do serviço devocional, a pessoa pode reviver esse svarūpa, e essa fase se chama svarūpa-siddhi—a perfeição de sua posição constitucional. Portanto, Arjuna era um devoto, e estava em contato com o Senhor Supremo em amizade.

Deve-se notar como Arjuna aceitou este Bhagavad-gītā. Sua maneira de aceitação é apresentada no Décimo Capítulo.

(12) arjuna uvāca paraṁ brahma paraṁ dhāma pavitraṁ paramaṁ bhavān puruṣaṁ śāśvataṁ divyam ādi-devam ajaṁ vibhum

(13) āhus tvām ṛṣayaḥ sarve devarṣir nāradas tathā asito devalo vyāsaḥ svayaṁ caiva bravīṣi me

(14) sarvam etad ṛtaṁ manye yan māṁ vadasi keśava na hi te bhagavan vyaktiṁ vidur devā na dānavāḥ

“Arjuna disse: Tu és o Brahman Supremo, o derradeiro, a morada suprema e o purificador, a Verdade Absoluta e a eterna Pessoa Divina. És o Deus primordial, transcendental e original, e és a beleza não nascida e onipenetrante. Todos os grandes sábios, como Nārada, Asita, Devala e Vyāsa, proclamam isso a Teu respeito, e agora Tu mesmo o estás declarando a mim. Ó Kṛṣṇa, aceito por completo como verdade tudo o que me disseste. Nem os deuses nem os demônios, ó Senhor, conhecem Tua personalidade.” (Bg. 10.12-14).

Após ouvir o Bhagavad-gītā da Suprema Personalidade de Deus, Arjuna aceitou Kṛṣṇa como Paraṁ Brahma, o Brahman Supremo. Todo ser vivo é Brahman, mas o ser vivo supremo, ou a Suprema Personalidade de Deus, é o Brahman Supremo. Paraṁ dhāma significa que Ele é o repouso ou a morada suprema de tudo; pavitram significa que Ele é puro, imaculado pela contaminação material; puruṣam significa que Ele é o desfrutador supremo; divyam, transcendental; ādi-devam, a Suprema Personalidade de Deus; ajam, o não nascido; e vibhum, o maior, o onipenetrante.

Ora, alguém poderia pensar que, por Kṛṣṇa ser o amigo de Arjuna, Arjuna Lhe dizia tudo isso à guisa de lisonja; mas Arjuna, justamente para afastar essa espécie de dúvida das mentes dos leitores do Bhagavad-gītā, fundamenta esses louvores no verso seguinte, quando diz que Kṛṣṇa é aceito como a Suprema Personalidade de Deus não apenas por ele, mas por autoridades como o sábio Nārada, Asita, Devala, Vyāsadeva e assim por diante. Estas são grandes personalidades que distribuem o conhecimento Védico tal como é aceito por todos os ācāryas. Por isso, Arjuna diz a Kṛṣṇa que aceita tudo o que Ele diz como completamente perfeito. Sarvam etad ṛtaṁ manye: “Aceito como verdadeiro tudo o que dizes.” Arjuna também diz que a personalidade do Senhor é muito difícil de compreender e que nem mesmo os grandes semideuses podem conhecê-la. Isso significa que o Senhor não pode ser conhecido nem mesmo por personalidades maiores do que os seres humanos. Então, como pode um ser humano compreender Śrī Kṛṣṇa sem tornar-se Seu devoto?

Por conseguinte, o Bhagavad-gītā deve ser abordado num espírito de devoção. Ninguém deve pensar que é igual a Kṛṣṇa, nem deve pensar que Kṛṣṇa é uma personalidade comum, ou mesmo uma personalidade muito grandiosa. O Senhor Śrī Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, ao menos teoricamente, segundo as afirmações do Bhagavad-gītā ou as afirmações de Arjuna, a pessoa que está tentando compreender o Bhagavad-gītā. Devemos, pois, ao menos teoricamente, aceitar Śrī Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus, e com esse espírito submisso podemos compreender o Bhagavad-gītā. A menos que se leia o Bhagavad-gītā num espírito submisso, é muito difícil compreender o Bhagavad-gītā, pois ele é um grande mistério.

Afinal, o que é o Bhagavad-gītā? O propósito do Bhagavad-gītā é libertar a humanidade da nesciência da existência material. Todo homem está em dificuldade de tantas maneiras, assim como Arjuna também estava em dificuldade por ter de lutar a Batalha de Kurukṣetra. Arjuna rendeu-se a Śrī Kṛṣṇa, e em consequência este Bhagavad-gītā foi falado. Não somente Arjuna, mas cada um de nós está repleto de ansiedades por causa desta existência material. Nossa própria existência se encontra na atmosfera da inexistência. Na verdade, não estamos destinados a ser ameaçados pela inexistência. Nossa existência é eterna. Mas, de uma forma ou de outra, somos postos em asat. Asat refere-se àquilo que não existe.

Dentre tantos seres humanos que sofrem, há uns poucos que de fato indagam sobre sua posição, sobre o que são, por que foram postos nesta posição incômoda e assim por diante. A menos que alguém desperte para esta posição de questionar seu sofrimento, a menos que perceba que não deseja sofrer, mas antes deseja encontrar uma solução para todos os sofrimentos, então não há de ser considerado um ser humano perfeito. A humanidade começa quando esse tipo de indagação desperta na mente. No Brahma-sūtra, essa indagação se chama “brahma-jijñāsā.” Toda atividade do ser humano deve ser considerada um fracasso a menos que ele indague sobre a natureza do Absoluto. Por isso, aqueles que começam a perguntar por que estão sofrendo, ou de onde vieram e para onde irão após a morte, são alunos apropriados para a compreensão do Bhagavad-gītā. O aluno sincero também deve ter um respeito firme pela Suprema Personalidade de Deus. Tal aluno foi Arjuna.

O Senhor Kṛṣṇa desce especificamente para restabelecer o verdadeiro propósito da vida quando o homem se esquece desse propósito. Mesmo assim, dentre muitos e muitos seres humanos que despertam, talvez haja um que de fato penetre no espírito de compreender sua posição, e para ele este Bhagavad-gītā é falado. Na verdade, todos nós somos perseguidos pelo tigre da nesciência, mas o Senhor é muito misericordioso para com as entidades vivas, especialmente os seres humanos. Com esse fim, Ele falou o Bhagavad-gītā, fazendo de Seu amigo Arjuna Seu aluno.

Por ser um associado do Senhor Kṛṣṇa, Arjuna estava acima de toda ignorância; mas Arjuna foi posto em ignorância no Campo de Batalha de Kurukṣetra justamente para interrogar o Senhor Kṛṣṇa acerca dos problemas da vida, de modo que o Senhor pudesse explicá-los em benefício das futuras gerações de seres humanos e traçasse o plano da vida. Então o homem poderia agir de acordo e aperfeiçoar a missão da vida humana.

O tema do Bhagavad-gītā implica a compreensão de cinco verdades básicas. Antes de tudo, explica-se a ciência de Deus, e em seguida a posição constitucional das entidades vivas, os jīvas.īśvara, que significa controlador, e há os jīvas, as entidades vivas que são controladas. Se uma entidade viva diz que não é controlada, mas que é livre, então é insana. O ser vivo é controlado sob todos os aspectos, ao menos em sua vida condicionada. Assim, no Bhagavad-gītā, o tema trata do īśvara, o controlador supremo, e dos jīvas, as entidades vivas controladas. Prakṛti (a natureza material), o tempo (a duração da existência de todo o universo, ou da manifestação da natureza material) e o karma (a atividade) também são discutidos. A manifestação cósmica está repleta de atividades diversas. Todas as entidades vivas estão ocupadas em atividades diferentes. Do Bhagavad-gītā devemos aprender o que é Deus, o que são as entidades vivas, o que é a prakṛti, o que é a manifestação cósmica e como é controlada pelo tempo, e quais são as atividades das entidades vivas.

Dentre estes cinco temas básicos do Bhagavad-gītā, estabelece-se que o Supremo Deus, ou Kṛṣṇa, ou Brahman, ou o controlador supremo, ou o Paramātmā—pode-se usar o nome que se queira—é o maior de todos. Os seres vivos são, em qualidade, semelhantes ao controlador supremo. Por exemplo, o Senhor tem controle sobre os assuntos universais, sobre a natureza material, etc., como será explicado nos capítulos posteriores do Bhagavad-gītā. A natureza material não é independente. Ela age sob a direção do Senhor Supremo. Como diz o Senhor Kṛṣṇa: “A prakṛti trabalha sob Minha direção.” Quando vemos coisas maravilhosas acontecendo na natureza cósmica, devemos saber que por trás desta manifestação cósmica há um controlador. Nada poderia manifestar-se sem ser controlado. É pueril não considerar o controlador. Por exemplo, uma criança pode pensar que um automóvel é algo bastante maravilhoso, por ser capaz de andar sem um cavalo ou outro animal a puxá-lo; mas um homem são conhece a natureza do arranjo de engenharia do automóvel. Ele sempre sabe que por trás do maquinário há um homem, um motorista. De modo semelhante, o Senhor Supremo é um condutor sob cuja direção tudo está funcionando. Ora, os jīvas, ou as entidades vivas, foram aceitos pelo Senhor, como notaremos nos capítulos posteriores, como Suas partes integrantes. Uma partícula de ouro também é ouro, uma gota de água do oceano também é salgada e, de modo semelhante, nós, as entidades vivas, sendo partes integrantes do controlador supremo, īśvara, ou Bhagavān, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, temos todas as qualidades do Senhor Supremo em quantidade diminuta, pois somos īśvaras minúsculos, īśvaras subordinados. Tentamos controlar a natureza, tal como presentemente tentamos controlar o espaço ou os planetas, e essa tendência de controlar existe porque está em Kṛṣṇa. Mas, embora tenhamos a tendência de assenhorear-nos da natureza material, devemos saber que não somos o controlador supremo. Isso é explicado no Bhagavad-gītā.

O que é a natureza material? Isso também é explicado no Gītā como prakṛti inferior, natureza inferior. A entidade viva é explicada como a prakṛti superior. A prakṛti está sempre sob controle, quer inferior, quer superior. A prakṛti é feminina, e é controlada pelo Senhor assim como as atividades de uma esposa são controladas pelo esposo. A prakṛti é sempre subordinada, predominada pelo Senhor, que é o predominador. As entidades vivas e a natureza material são ambas predominadas, controladas pelo Senhor Supremo. Segundo o Gītā, as entidades vivas, embora partes integrantes do Senhor Supremo, devem ser consideradas prakṛti. Isso é mencionado claramente no Sétimo Capítulo, quinto verso, do Bhagavad-gītā:Apareyam itas tv anyām.” “Esta prakṛti é Minha natureza inferior.” “Prakṛtiṁ viddhi me parām jīva-bhūtāṁ mahā-bāho yayedaṁ dhāryate jagat.” E, além desta, há outra prakṛti: jīva-bhūtām, a entidade viva.

A própria prakṛti é constituída por três qualidades: o modo da bondade, o modo da paixão e o modo da ignorância. Acima desses modos há o tempo eterno, e por uma combinação desses modos da natureza, e sob o controle e o alcance do tempo eterno, há atividades que se chamam karma. Estas atividades vêm sendo realizadas desde tempos imemoriais, e estamos sofrendo ou desfrutando os frutos de nossas atividades. Por exemplo, suponhamos que eu seja um homem de negócios e que tenha trabalhado muito arduamente, com inteligência, e tenha acumulado um grande saldo bancário. Então sou um desfrutador. Mas digamos, então, que eu tenha perdido todo o meu dinheiro nos negócios; então sou um sofredor. De modo semelhante, em cada campo da vida desfrutamos os resultados de nosso trabalho, ou sofremos os resultados. Isso se chama karma.

Īśvara (o Senhor Supremo), jīva (a entidade viva), prakṛti (a natureza), o tempo eterno e o karma (a atividade) são todos explicados no Bhagavad-gītā. Destes cinco, o Senhor, as entidades vivas, a natureza material e o tempo são eternos. A manifestação da prakṛti pode ser temporária, mas não é falsa. Alguns filósofos dizem que a manifestação da natureza material é falsa, mas, segundo a filosofia do Bhagavad-gītā, ou segundo a filosofia dos vaiṣṇavas, não é assim. A manifestação do mundo não é aceita como falsa; é aceita como real, porém temporária. Compara-se a uma nuvem que se desloca pelo céu, ou à chegada da estação das chuvas, que nutre os cereais. Logo que termina a estação das chuvas, e logo que a nuvem se vai, todas as colheitas que foram nutridas pela chuva secam. De modo semelhante, esta manifestação material ocorre em certo intervalo, permanece por algum tempo e depois desaparece. Tais são os funcionamentos da prakṛti. Mas este ciclo opera eternamente. Por conseguinte, a prakṛti é eterna; não é falsa. O Senhor refere-Se a ela como “Minha prakṛti.” Esta natureza material é a energia separada do Senhor Supremo, e, de modo semelhante, as entidades vivas também são energia do Senhor Supremo, mas não são separadas. Elas estão eternamente relacionadas. Assim, o Senhor, a entidade viva, a natureza material e o tempo estão todos inter-relacionados e são todos eternos. Contudo, o outro item, o karma, não é eterno. Os efeitos do karma podem ser, de fato, muito antigos. Estamos sofrendo ou desfrutando os resultados de nossas atividades desde tempos imemoriais, mas podemos mudar os resultados de nosso karma, ou de nossa atividade, e essa mudança depende da perfeição de nosso conhecimento. Estamos ocupados em diversas atividades. Sem dúvida, não sabemos que tipo de atividades devemos adotar para obter alívio das ações e reações de todas essas atividades; mas isso também é explicado no Bhagavad-gītā.

A posição de īśvara é a de consciência suprema. Os jīvas, ou as entidades vivas, sendo partes integrantes do Senhor Supremo, também são conscientes. Tanto a entidade viva quanto a natureza material são explicadas como prakṛti, a energia do Senhor Supremo, mas um dos dois, o jīva, é consciente. A outra prakṛti não é consciente. Essa é a diferença. Por isso, a jīva-prakṛti é chamada superior, pois o jīva tem consciência semelhante à do Senhor. A do Senhor, contudo, é consciência suprema, e ninguém deve afirmar que o jīva, a entidade viva, também é supremamente consciente. O ser vivo não pode ser supremamente consciente em nenhum estágio de sua perfeição, e a teoria de que pode sê-lo é uma teoria enganosa. Consciente ele pode ser, mas não é perfeita ou supremamente consciente.

A distinção entre o jīva e o īśvara será explicada no Décimo Terceiro Capítulo do Bhagavad-gītā. O Senhor é kṣetra-jñaḥ, consciente, assim como o é o ser vivo, mas o ser vivo é consciente de seu corpo específico, ao passo que o Senhor é consciente de todos os corpos. Por viver no coração de cada ser vivo, Ele é consciente dos movimentos psíquicos dos jīvas específicos. Não devemos esquecer isso. Também se explica que o Paramātmā, a Suprema Personalidade de Deus, vive no coração de cada um como īśvara, como o controlador, e que está dando direções para que a entidade viva aja como deseja. A entidade viva esquece-se do que fazer. Antes de tudo, ela toma a determinação de agir de certo modo, e então fica enredada nos atos e reações de seu próprio karma. Após abandonar um tipo de corpo, ela ingressa em outro tipo de corpo, assim como vestimos e tiramos roupas velhas. À medida que a alma migra dessa maneira, ela sofre as ações e reações de suas atividades passadas. Estas atividades podem ser mudadas quando o ser vivo está no modo da bondade, em sanidade, e compreende que tipo de atividades deve adotar. Se assim o faz, então todas as ações e reações de suas atividades passadas podem ser mudadas. Por conseguinte, o karma não é eterno. Por isso afirmamos que, dos cinco itens (īśvara, jīva, prakṛti, tempo e karma), quatro são eternos, ao passo que o karma não é eterno.

O supremo consciente īśvara é semelhante à entidade viva neste aspecto: tanto a consciência do Senhor quanto a da entidade viva são transcendentais. Não é que a consciência seja gerada pela associação com a matéria. Essa é uma ideia equivocada. A teoria de que a consciência se desenvolve sob certas circunstâncias de combinação material não é aceita no Bhagavad-gītā. A consciência pode ser pervertidamente refletida pela cobertura das circunstâncias materiais, assim como a luz refletida através de um vidro colorido pode parecer ter determinada cor; mas a consciência do Senhor não é afetada materialmente. O Senhor Kṛṣṇa diz: “mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ.” Quando Ele desce ao universo material, Sua consciência não é afetada materialmente. Se Ele fosse assim afetado, seria incapaz de falar sobre assuntos transcendentais como o faz no Bhagavad-gītā. Ninguém pode dizer coisa alguma sobre o mundo transcendental sem estar livre da consciência materialmente contaminada. Logo, o Senhor não é materialmente contaminado. Nossa consciência, no presente momento, porém, está materialmente contaminada. O Bhagavad-gītā ensina que temos de purificar esta consciência materialmente contaminada. Na consciência pura, nossas ações estarão ajustadas à vontade de īśvara, e isso nos fará felizes. Não é que tenhamos de cessar todas as atividades. Em vez disso, nossas atividades devem ser purificadas, e as atividades purificadas se chamam bhakti. As atividades em bhakti parecem ser como atividades comuns, mas não são contaminadas. Uma pessoa ignorante pode ver que um devoto está agindo ou trabalhando como um homem comum, mas tal pessoa, com seu escasso cabedal de conhecimento, não sabe que as atividades do devoto ou do Senhor não são contaminadas por consciência impura ou por matéria. Elas são transcendentais aos três modos da natureza. Devemos saber, contudo, que, neste ponto, nossa consciência está contaminada.

Quando estamos materialmente contaminados, somos chamados de condicionados. A consciência falsa exibe-se sob a impressão de que “sou um produto da natureza material”. Isso se chama ego falso. Aquele que está absorto no pensamento das concepções corpóreas não consegue compreender sua situação. O Bhagavad-gītā foi falado para libertar a pessoa da concepção corpórea da vida, e Arjuna se colocou nesta posição a fim de receber essa informação do Senhor. É preciso tornar-se livre da concepção corpórea da vida; essa é a atividade preliminar para o transcendentalista. Aquele que deseja tornar-se livre, que deseja libertar-se, deve antes de tudo aprender que não é este corpo material. Mukti, ou liberação, significa estar livre da consciência material. No Śrīmad-Bhāgavatam também se dá a definição de liberação: Mukti significa liberação da consciência contaminada deste mundo material e situar-se em consciência pura. Todas as instruções do Bhagavad-gītā destinam-se a despertar esta consciência pura, e por isso encontramos, no último estágio das instruções do Gītā, que Kṛṣṇa pergunta a Arjuna se ele agora está em consciência purificada. Consciência purificada significa agir de acordo com as instruções do Senhor. Esta é toda a soma e substância da consciência purificada. A consciência já está presente, pois somos partes integrantes do Senhor, mas, para nós, há a propensão a ser afetados pelos modos inferiores. O Senhor, contudo, sendo o Supremo, jamais é afetado. Essa é a diferença entre o Senhor Supremo e as almas condicionadas.

Que consciência é esta? Esta consciência é “eu sou”. Então, o que sou eu? Na consciência contaminada, “eu sou” significa “sou o senhor de tudo o que examino. Sou o desfrutador”. O mundo gira porque cada ser vivo pensa que é o senhor e o criador do mundo material. A consciência material tem duas divisões psíquicas. Uma é que “sou o criador”, e a outra é que “sou o desfrutador”. Mas, na verdade, o Senhor Supremo é tanto o criador quanto o desfrutador, e a entidade viva, sendo parte integrante do Senhor Supremo, não é nem o criador nem o desfrutador, mas um cooperador. Ela é a criada e a desfrutada. Por exemplo, uma parte de uma máquina coopera com a máquina inteira; uma parte do corpo coopera com o corpo inteiro. As mãos, os pés, os olhos, as pernas e assim por diante são todos partes do corpo, mas não são, de fato, os desfrutadores. O estômago é o desfrutador. As pernas se movem, as mãos fornecem o alimento, os dentes mastigam, e todas as partes do corpo estão ocupadas em satisfazer o estômago, pois o estômago é o fator principal que nutre a organização do corpo. Por isso, tudo é dado ao estômago. Nutre-se a árvore regando-lhe a raiz, e nutre-se o corpo alimentando o estômago, pois, se o corpo há de manter-se em estado saudável, então as partes do corpo devem cooperar para alimentar o estômago. De modo semelhante, o Senhor Supremo é o desfrutador e o criador, e nós, como seres vivos subordinados, estamos destinados a cooperar para satisfazê-Lo. Essa cooperação de fato nos ajudará, assim como o alimento recebido pelo estômago ajudará todas as outras partes do corpo. Se os dedos da mão pensarem que devem tomar o alimento para si mesmos em vez de dá-lo ao estômago, então ficarão frustrados. A figura central da criação e do desfrute é o Senhor Supremo, e as entidades vivas são cooperadoras. Pela cooperação, elas desfrutam. A relação também é como a do amo e do servo. Se o amo está plenamente satisfeito, então o servo fica satisfeito. De modo semelhante, o Senhor Supremo deve ser satisfeito, embora a tendência de tornar-se o criador e a tendência de desfrutar do mundo material estejam presentes também nas entidades vivas, pois essas tendências estão presentes no Senhor Supremo, que criou o mundo cósmico manifestado.

Encontraremos, portanto, neste Bhagavad-gītā, que o todo completo é constituído pelo controlador supremo, pelas entidades vivas controladas, pela manifestação cósmica, pelo tempo eterno e pelo karma, ou pelas atividades, e tudo isso é explicado neste texto. Tomados completamente, todos estes formam o todo completo, e o todo completo se chama Suprema Verdade Absoluta. O todo completo e a completa Verdade Absoluta são a Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. Todas as manifestações devem-se a Suas diferentes energias. Ele é o todo completo.

Também se explica no Gītā que o Brahman impessoal também é subordinado ao completo. O Brahman é explicado de modo mais explícito no Brahma-sūtra como sendo semelhante aos raios da luz do Sol. O Brahman impessoal são os raios reluzentes da Suprema Personalidade de Deus. O Brahman impessoal é a compreensão incompleta do todo absoluto, e assim também o é a concepção de Paramātmā no Décimo Segundo Capítulo. Ali se verá que a Suprema Personalidade de Deus, Puruṣottama, está acima tanto do Brahman impessoal quanto da compreensão parcial do Paramātmā. A Suprema Personalidade de Deus é chamada sac-cid-ānanda-vigraha. A Brahma-saṁhitā começa desta maneira: īśvaraḥ paramaḥ Kṛṣṇaḥ sac-cid-ānanda-vigrahaḥ/anādir ādir govindaḥ sarva-kāraṇa-kāraṇam. “Kṛṣṇa é a causa de todas as causas. Ele é a causa primordial, e é a própria forma do ser, do conhecimento e da bem-aventurança eternos.” A compreensão do Brahman impessoal é a compreensão de Seu aspecto sat (ser). A compreensão do Paramātmā é a compreensão do aspecto cit (conhecimento eterno). Mas a compreensão da Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é a compreensão de todos os aspectos transcendentais: sat, cit e ānanda (ser, conhecimento, bem-aventurança) em completo vigraha (forma).

As pessoas de menos inteligência consideram a Verdade Suprema como impessoal, mas Ele é uma pessoa transcendental, e isso é confirmado em todas as literaturas Védicas. Nityo nityānām cetanaś cetanānām. Assim como todos nós somos seres vivos individuais e temos nossa individualidade, a Suprema Verdade Absoluta também é, em última análise, uma pessoa, e a compreensão da Personalidade de Deus é a compreensão de todos os aspectos transcendentais. O todo completo não é desprovido de forma. Se Ele fosse desprovido de forma, ou se fosse menor do que qualquer outra coisa, então não poderia ser o todo completo. O todo completo deve ter tudo dentro de nossa experiência e além de nossa experiência, do contrário não poderia ser completo. O todo completo, a Personalidade de Deus, tem imensas potências.

Como Kṛṣṇa age em diferentes potências também é explicado no Bhagavad-gītā. Este mundo fenomenal, ou mundo material, no qual estamos situados, também é completo em si mesmo, pois os vinte e quatro elementos dos quais este universo material é uma manifestação temporária, segundo a filosofia Sāṅkhya, estão completamente ajustados para produzir os recursos completos que são necessários à manutenção e subsistência deste universo. Não há nada de supérfluo; nem há algo necessário. Esta manifestação tem seu próprio tempo fixado pela energia do todo supremo, e, quando seu tempo se completa, estas manifestações temporárias serão aniquiladas pelo arranjo completo do completo. Há completas condições para que as pequenas unidades completas, a saber, as entidades vivas, compreendam o completo, e toda sorte de incompletude é experimentada devido ao conhecimento incompleto do completo. Portanto, o Bhagavad-gītā contém o conhecimento completo da sabedoria Védica.

Todo o conhecimento Védico é infalível, e os hindus aceitam o conhecimento Védico como completo e infalível. Por exemplo, o esterco de vaca é o excremento de um animal e, segundo o smṛti, ou preceito Védico, se alguém toca o excremento de um animal, tem de tomar um banho para purificar-se. Mas, nas escrituras Védicas, o esterco de vaca é considerado um agente purificador. Pode-se considerar isso contraditório, mas é aceito por ser preceito Védico; e, de fato, ao aceitar isso, não se cometerá um erro; posteriormente, ficou provado pela ciência moderna que o esterco de vaca contém todas as propriedades antissépticas. Portanto, o conhecimento Védico é completo, pois está acima de toda dúvida e de todo erro, e o Bhagavad-gītā é a essência de todo o conhecimento Védico.

O conhecimento Védico não é uma questão de pesquisa. Nosso trabalho de pesquisa é imperfeito, pois pesquisamos as coisas com sentidos imperfeitos. Temos de aceitar o conhecimento perfeito que desce, como se afirma no Bhagavad-gītā, pela sucessão discipular paramparā. Temos de receber o conhecimento da fonte apropriada, na sucessão discipular que começa com o supremo mestre espiritual, o próprio Senhor, e é transmitido a uma sucessão de mestres espirituais. Arjuna, o aluno que tomou lições do Senhor Śrī Kṛṣṇa, aceita tudo o que Ele diz sem contradizê-Lo. Não se permite a ninguém aceitar uma porção do Bhagavad-gītā e outra não. Não. Devemos aceitar o Bhagavad-gītā sem interpretação, sem supressão e sem nossa própria participação caprichosa no assunto. O Gītā deve ser tomado como a mais perfeita apresentação do conhecimento Védico. O conhecimento Védico é recebido de fontes transcendentais, e as primeiras palavras foram faladas pelo próprio Senhor. As palavras faladas pelo Senhor diferem das palavras faladas por uma pessoa do mundo mundano, que está infectada por quatro defeitos. Um mundano 1) está fadado a cometer erros, 2) está invariavelmente iludido, 3) tem a tendência de enganar os outros e 4) é limitado por sentidos imperfeitos. Com estas quatro imperfeições, ninguém pode transmitir informação perfeita do conhecimento onipenetrante.

O conhecimento Védico não é transmitido por tais entidades vivas defeituosas. Ele foi transmitido ao coração de Brahmā, o primeiro ser vivo criado, e Brahmā, por sua vez, disseminou este conhecimento a seus filhos e discípulos, tal como originalmente o recebera do Senhor. O Senhor é pūrṇam, totalmente perfeito, e não há possibilidade de que Ele venha a ficar sujeito às leis da natureza material. Por isso, a pessoa deve ser inteligente o bastante para saber que o Senhor é o único proprietário de tudo no universo e que Ele é o criador original, o criador de Brahmā. No Décimo Primeiro Capítulo, o Senhor é tratado como prapitāmaha, pois Brahmā é tratado como pitāmaha, o avô, e Ele é o criador do avô. Portanto, ninguém deve reivindicar ser o proprietário de coisa alguma; deve-se aceitar apenas as coisas que são reservadas pelo Senhor como sua cota para sua manutenção.

Há muitos exemplos dados de como devemos utilizar aquelas coisas que nos são reservadas pelo Senhor. Isso também é explicado no Bhagavad-gītā. No início, Arjuna decidiu que não deveria lutar na Batalha de Kurukṣetra. Esta foi sua própria decisão. Arjuna disse ao Senhor que não lhe era possível desfrutar do reino após matar seus próprios parentes. Esta decisão baseava-se no corpo, pois ele pensava que o corpo era ele próprio e que suas relações ou expansões corpóreas eram seus irmãos, sobrinhos, cunhados, avós e assim por diante. Ele pensava dessa maneira para satisfazer suas exigências corpóreas. O Bhagavad-gītā foi falado pelo Senhor justamente para mudar este ponto de vista, e ao final Arjuna decide lutar sob as direções do Senhor, quando diz: “kariṣye vacanaṁ tava.” “Agirei segundo Tua palavra.”

Neste mundo, o homem não está destinado a labutar como os porcos. Ele deve ser inteligente para perceber a importância da vida humana e recusar-se a agir como um animal comum. Um ser humano deve perceber o objetivo de sua vida, e essa direção é dada em todas as literaturas Védicas, e a essência é dada no Bhagavad-gītā. A literatura Védica destina-se aos seres humanos, não aos animais. Os animais podem matar outros animais vivos, e não há questão de pecado de sua parte; mas, se um homem mata um animal para a satisfação de seu paladar descontrolado, deve ser responsável por infringir as leis da natureza. No Bhagavad-gītā, explica-se claramente que há três espécies de atividades, segundo os diferentes modos da natureza: as atividades da bondade, da paixão e da ignorância. De modo semelhante, há também três espécies de alimentos: alimentos na bondade, na paixão e na ignorância. Tudo isso é descrito com clareza e, se utilizarmos apropriadamente as instruções do Bhagavad-gītā, então toda a nossa vida se purificará e, por fim, seremos capazes de alcançar o destino que está além deste céu material.

Esse destino chama-se o céu sanātana, o eterno céu espiritual. Neste mundo material, observamos que tudo é temporário. Vem a existir, permanece por algum tempo, produz alguns subprodutos, definha e depois se desvanece. Essa é a lei do mundo material, quer tomemos como exemplo este corpo, quer uma fruta, quer qualquer coisa. Mas, além deste mundo temporário, há outro mundo, do qual temos informação. Este mundo consiste em outra natureza, que é sanātana, eterna. O jīva também é descrito como sanātana, eterno, e o Senhor também é descrito como sanātana no Décimo Primeiro Capítulo. Temos uma relação íntima com o Senhor e, por sermos todos qualitativamente unos—o sanātana-dhāma, ou céu, a sanātana Personalidade Suprema e as sanātana entidades vivas—todo o propósito do Bhagavad-gītā é reviver nossa ocupação sanātana, ou sanātana-dharma, que é a ocupação eterna da entidade viva. Estamos temporariamente ocupados em diferentes atividades, mas todas essas atividades podem ser purificadas quando abandonamos todas essas atividades temporárias e assumimos as atividades que são prescritas pelo Senhor Supremo. Isso se chama nossa vida pura.

O Senhor Supremo e Sua morada transcendental são ambos sanātana, assim como o são as entidades vivas, e a associação combinada do Senhor Supremo e das entidades vivas na morada sanātana é a perfeição da vida humana. O Senhor é muito bondoso para com as entidades vivas, pois elas são Seus filhos. O Senhor Kṛṣṇa declara no Bhagavad-gītā:sarva-yoniṣu…ahaṁ bīja-pradaḥ pitā.” “Eu sou o pai de todos.” Naturalmente, há toda sorte de entidades vivas, segundo seus vários karmas, mas aqui o Senhor reivindica ser o pai de todas elas. Por isso, o Senhor desce para reclamar todas essas almas caídas e condicionadas, para chamá-las de volta ao sanātana céu eterno, de modo que as sanātana entidades vivas possam reaver suas eternas posições sanātana em eterna associação com o Senhor. O Senhor vem Ele mesmo em diferentes encarnações, ou envia Seus servos confidenciais como filhos, ou Seus associados, ou ācāryas, para reclamar as almas condicionadas.

Por conseguinte, o sanātana-dharma não se refere a nenhum processo sectário de religião. É a função eterna das eternas entidades vivas em relação com o eterno Senhor Supremo. O sanātana-dharma refere-se, como afirmado anteriormente, à ocupação eterna da entidade viva. Rāmānujācārya explicou a palavra sanātana como “aquilo que não tem começo nem fim”; portanto, quando falamos de sanātana-dharma, devemos tê-lo como certo, com base na autoridade de Śrī Rāmānujācārya, que ele não tem começo nem fim.

A palavra inglesa “religion” é um pouco diferente de sanātana-dharma. “Religião” transmite a ideia de fé, e a fé pode mudar. A pessoa pode ter fé em determinado processo, e pode mudar essa fé e adotar outra; mas o sanātana-dharma refere-se àquela atividade que não pode ser mudada. Por exemplo, a liquidez não pode ser tirada da água, nem o calor pode ser tirado do fogo. De modo semelhante, a função eterna da eterna entidade viva não pode ser tirada da entidade viva. O sanātana-dharma é eternamente integral à entidade viva. Quando falamos de sanātana-dharma, portanto, devemos tê-lo como certo, com base na autoridade de Śrī Rāmānujācārya, que ele não tem começo nem fim. Aquilo que não tem fim nem começo não há de ser sectário, pois não pode ser limitado por nenhuma fronteira. Contudo, aqueles que pertencem a alguma fé sectária considerarão erroneamente que o sanātana-dharma também é sectário; mas, se aprofundarmos o assunto e o considerarmos à luz da ciência moderna, é possível vermos que o sanātana-dharma é a ocupação de todos os povos do mundo—ou melhor, de todas as entidades vivas do universo.

Uma fé religiosa não-sanātana pode ter algum começo nos anais da história humana, mas não há começo para a história do sanātana-dharma, pois ele permanece eternamente com as entidades vivas. No que diz respeito às entidades vivas, os śāstras autorizados afirmam que a entidade viva não tem nascimento nem morte. No Gītā se afirma que a entidade viva nunca nasce e nunca morre. Ela é eterna e indestrutível, e continua a viver após a destruição de seu corpo material temporário. Em referência ao conceito de sanātana-dharma, devemos tentar compreender o conceito de religião a partir do significado raiz da palavra em sânscrito. Dharma refere-se àquilo que existe constantemente com determinado objeto. Concluímos que há calor e luz juntamente com o fogo; sem calor e luz, não há significado para a palavra “fogo”. De modo semelhante, devemos descobrir a parte essencial do ser vivo, aquela parte que é sua companheira constante. Essa companheira constante é sua qualidade eterna, e essa qualidade eterna é sua religião eterna.

Quando Sanātana Gosvāmī perguntou a Śrī Caitanya Mahāprabhu acerca do svarūpa de cada ser vivo, o Senhor respondeu que o svarūpa, ou posição constitucional, do ser vivo é a prestação de serviço à Suprema Personalidade de Deus. Se analisarmos esta afirmação do Senhor Caitanya, poderemos ver facilmente que cada ser vivo está constantemente ocupado em prestar serviço a outro ser vivo. Um ser vivo serve a outros seres vivos em duas capacidades. Ao fazê-lo, a entidade viva desfruta da vida. Os animais inferiores servem aos seres humanos assim como os servos servem a seu amo. A serve a B como amo, B serve a C como amo, C serve a D como amo e assim por diante. Nestas circunstâncias, podemos ver que um amigo serve a outro amigo, a mãe serve ao filho, a esposa serve ao esposo, o esposo serve à esposa e assim por diante. Se continuarmos a buscar neste espírito, ver-se-á que não há exceção na sociedade dos seres vivos à atividade de servir. O político apresenta seu manifesto ao público para convencê-lo de sua capacidade de servir. Os eleitores, por isso, dão ao político seus valiosos votos, pensando que ele prestará valioso serviço à sociedade. O lojista serve ao freguês, e o artesão serve ao capitalista. O capitalista serve à família, e a família serve ao Estado nos termos da capacidade eterna do eterno ser vivo. Dessa maneira, podemos ver que nenhum ser vivo está isento de prestar serviço a outros seres vivos e, por conseguinte, podemos concluir com segurança que o serviço é a companheira constante do ser vivo e que a prestação de serviço é a religião eterna do ser vivo.

Contudo, o homem professa pertencer a determinado tipo de fé com referência a tempo e circunstância específicos e, assim, alega ser hindu, muçulmano, cristão, budista ou de qualquer outra seita. Tais designações são não-sanātana-dharma. Um hindu pode mudar sua fé para tornar-se muçulmano, ou um muçulmano pode mudar sua fé para tornar-se hindu, ou um cristão pode mudar sua fé e assim por diante. Mas, em todas as circunstâncias, a mudança de fé religiosa não afeta a ocupação eterna de prestar serviço aos outros. O hindu, o muçulmano ou o cristão, em todas as circunstâncias, é servo de alguém. Assim, professar determinado tipo de seita não é professar o próprio sanātana-dharma. A prestação de serviço é sanātana-dharma.

De fato, estamos relacionados ao Senhor Supremo em serviço. O Senhor Supremo é o desfrutador supremo, e nós, entidades vivas, somos Seus servidores. Somos criados para Seu desfrute e, se participamos desse desfrute eterno com a Suprema Personalidade de Deus, tornamo-nos felizes. Não podemos tornar-nos felizes de outra maneira. Não é possível ser feliz de modo independente, assim como nenhuma parte do corpo pode ser feliz sem cooperar com o estômago. Não é possível à entidade viva ser feliz sem prestar serviço transcendental amoroso ao Senhor Supremo.

No Bhagavad-gītā, a adoração de diferentes semideuses, ou a prestação de serviço a eles, não é aprovada. Afirma-se no Sétimo Capítulo, vigésimo verso:

kāmais tais tair hṛt-ajñānāḥ prapadyante ’nya-devatāḥ taṁ taṁ niyamam āsthāya prakṛtyā niyatāḥ svayā

“Aqueles cujas mentes estão distorcidas por desejos materiais rendem-se aos semideuses e seguem as regras e regulações específicas de adoração de acordo com suas próprias naturezas.” [[bg/7/20|(Bg. 7.20)]] Aqui se diz claramente que aqueles que são dirigidos pela luxúria adoram os semideuses, e não o Senhor Supremo Kṛṣṇa. Quando mencionamos o nome Kṛṣṇa, não nos referimos a nenhum nome sectário. Kṛṣṇa significa o prazer supremo, e está confirmado que o Senhor Supremo é o reservatório ou depósito de todo o prazer. Todos nós ansiamos por prazer. Ānandamayo ‘bhyāsāt. (Vs. 1.1.12) As entidades vivas, como o Senhor, são plenas de consciência, e estão em busca da felicidade. O Senhor é perpetuamente feliz e, se as entidades vivas se associam com o Senhor, cooperam com Ele e tomam parte em Sua associação, então também se tornam felizes.

O Senhor desce a este mundo mortal para mostrar Seus passatempos em Vṛndāvana, os quais são plenos de felicidade. Quando o Senhor Śrī Kṛṣṇa estava em Vṛndāvana, Suas atividades com Seus amigos vaqueirinhos, com Suas donzelas amigas, com os habitantes de Vṛndāvana e com as vacas eram todas plenas de felicidade. A população total de Vṛndāvana nada conhecia além de Kṛṣṇa. Mas o Senhor Kṛṣṇa chegou até a desencorajar Seu pai Nanda Mahārāja de adorar o semideus Indra, pois queria estabelecer o fato de que as pessoas não precisam adorar nenhum semideus. Elas precisam apenas adorar o Senhor Supremo, pois seu objetivo último é retornar a Sua morada.

A morada do Senhor Śrī Kṛṣṇa é descrita no Bhagavad-gītā, Décimo Quinto Capítulo, sexto verso:

na tad bhāsayate sūryo na śaśāṅko na pāvakaḥ yad gatvā na nivartante tad dhāma paramaṁ mama

“Essa morada Minha não é iluminada pelo Sol ou pela Lua, nem pela eletricidade. E todo aquele que a alcança jamais retorna a este mundo material.” [[bg/15/6|(Bg. 15.6)]]

Este verso dá uma descrição daquele céu eterno. Naturalmente, temos uma concepção material do céu, e pensamos nele em relação ao Sol, à Lua, às estrelas e assim por diante; mas, neste verso, o Senhor afirma que, no céu eterno, não há necessidade do Sol nem da Lua nem de fogo de espécie alguma, pois o céu espiritual já está iluminado pelo brahmajyoti, os raios que emanam do Senhor Supremo. Estamos tentando, com dificuldade, alcançar outros planetas, mas não é difícil compreender a morada do Senhor Supremo. Esta morada é mencionada como Goloka. Na Brahma-saṁhitā, ela é descrita de maneira bela: Goloka eva nivasaty akhilātma-bhūtaḥ. O Senhor reside eternamente em Sua morada, Goloka, mas pode ser abordado a partir deste mundo, e com esse fim o Senhor vem manifestar Sua verdadeira forma, sac-cid-ānanda-vigraha. Quando Ele manifesta esta forma, não há necessidade de imaginarmos com o que Ele se parece. Para desencorajar tal especulação imaginativa, Ele desce e Se exibe como é, como Śyāmasundara. Infelizmente, os menos inteligentes O escarnecem por Ele vir como um de nós e brincar conosco como um ser humano. Mas, por causa disso, não devemos considerar que o Senhor é um de nós. É por Sua potência que Ele Se apresenta diante de nós em Sua verdadeira forma e exibe Seus passatempos, que são protótipos daqueles passatempos encontrados em Sua morada.

Nos refulgentes raios do céu espiritual, há inumeráveis planetas flutuando. O brahmajyoti emana da morada suprema, Kṛṣṇaloka, e os planetas ānandamaya-cinmaya, que não são materiais, flutuam naqueles raios. O Senhor diz: na tad bhāsayate sūryo na śaśāṅko na pāvakaḥ yad gatvā na nivartante tad dhāma paramaṁ mama. Aquele que pode abordar esse céu espiritual não é obrigado a descer novamente ao céu material. No céu material, mesmo se abordarmos o planeta mais elevado (Brahmaloka), o que dizer da Lua, encontraremos as mesmas condições de vida, a saber, nascimento, morte, doença e velhice. Nenhum planeta no universo material está livre destes quatro princípios da existência material. Por isso, o Senhor diz no Bhagavad-gītā: ābrahma-bhuvanāl lokāḥ punar āvartino ‘rjuna. As entidades vivas estão viajando de um planeta a outro, não por arranjo mecânico, mas por um processo espiritual. Isso também é mencionado: yānti deva-vratā devān pitṝn yānti pitṛ-vratāḥ. Nenhum arranjo mecânico é necessário se quisermos viagem interplanetária. O Gītā instrui: yānti deva-vratā devān. A Lua, o Sol e os planetas superiores são chamados svargaloka. Há três diferentes condições de planetas: sistemas planetários superiores, intermediários e inferiores. A Terra pertence ao sistema planetário intermediário. O Bhagavad-gītā informa-nos como viajar aos sistemas planetários superiores (devaloka) com uma fórmula muito simples: yānti deva-vratā devān. Basta adorar o semideus específico daquele planeta específico e, dessa maneira, ir à Lua, ao Sol ou a qualquer dos sistemas planetários superiores.

Contudo, o Bhagavad-gītā não nos aconselha a ir a nenhum dos planetas deste mundo material, pois, mesmo se formos a Brahmaloka, o planeta mais elevado, por meio de algum tipo de engenhoca mecânica, talvez viajando por quarenta mil anos (e quem viveria tanto tempo?), ainda assim encontraremos os inconvenientes materiais de nascimento, morte, doença e velhice. Mas aquele que deseja abordar o planeta supremo, Kṛṣṇaloka, ou qualquer dos outros planetas dentro do céu espiritual, não se deparará com esses inconvenientes materiais. Dentre todos os planetas do céu espiritual, há um planeta supremo, chamado Goloka Vṛndāvana, que é o planeta original na morada da original Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. Toda esta informação é dada no Bhagavad-gītā, e, por meio de sua instrução, recebemos informação de como deixar o mundo material e iniciar uma vida verdadeiramente bem-aventurada no céu espiritual.

No Décimo Quinto Capítulo do Bhagavad-gītā, dá-se o verdadeiro quadro do mundo material. Ali se diz:

ūrdhva-mūlam adhaḥ-śākham aśvatthaṁ prāhur avyayam chandāṁsi yasya parṇāni yas taṁ veda sa veda-vit

“O Senhor Supremo disse: Há uma figueira-de-bengala cujas raízes apontam para cima e cujos ramos apontam para baixo, e cujas folhas são os hinos Védicos. Aquele que conhece esta árvore é o conhecedor dos Vedas.” Aqui o mundo material é descrito como uma árvore cujas raízes estão para cima e cujos ramos estão para baixo. Temos experiência de uma árvore cujas raízes estão para cima: se a pessoa se posta à margem de um rio ou de qualquer reservatório de água, pode ver que as árvores refletidas na água estão de cabeça para baixo. Os ramos vão para baixo e as raízes para cima. De modo semelhante, este mundo material é um reflexo do mundo espiritual. O mundo material não passa de uma sombra da realidade. Na sombra não há realidade nem substancialidade, mas, a partir da sombra, podemos compreender que há substância e realidade. No deserto não há água, mas a miragem sugere que existe algo como água. No mundo material não há água, não há felicidade, mas a verdadeira água da felicidade real está lá, no mundo espiritual.

O Senhor sugere que alcancemos o mundo espiritual da seguinte maneira:

nirmāna-mohā jita-saṅga-doṣā adhyātma-nityā vinivṛtta-kāmāḥ dvandvair vimuktāḥ sukha-duḥkha-saṁjñair gacchanty amūḍhāḥ padam avyayaṁ tat.

Aquele padam avyayam, ou reino eterno, pode ser alcançado por quem é nirmāna-moha. O que significa isto? Estamos em busca de designações. Alguém quer tornar-se filho, alguém quer tornar-se senhor, alguém quer tornar-se o presidente, ou um homem rico, ou um rei, ou algo mais. Enquanto estivermos apegados a essas designações, estaremos apegados ao corpo, pois as designações pertencem ao corpo. Mas nós não somos estes corpos, e perceber isso é o primeiro estágio na compreensão espiritual. Estamos associados aos três modos da natureza material, mas devemos desapegar-nos por meio do serviço devocional ao Senhor. Se não estivermos apegados ao serviço devocional ao Senhor, então não poderemos desapegar-nos dos modos da natureza material. As designações e os apegos devem-se à nossa luxúria e desejo, à nossa vontade de assenhorear-nos da natureza material. Enquanto não abandonarmos essa propensão de assenhorear-nos da natureza material, não haverá possibilidade de retornarmos ao reino do Supremo, o sanātana-dhāma. Esse reino eterno, que jamais é destruído, pode ser abordado por quem não é confundido pelas atrações dos falsos desfrutes materiais, por quem está situado no serviço do Senhor Supremo. Aquele que assim se situa pode facilmente abordar essa morada suprema.

Em outra passagem do Gītā, afirma-se:

avyakto ’kṣara ity uktas tam āhuḥ paramāṁ gatim yaṁ prāpya na nivartante tad dhāma paramaṁ mama.

Avyakta significa imanifesto. Nem mesmo todo o mundo material está manifesto diante de nós. Nossos sentidos são tão imperfeitos que não conseguimos ver sequer todas as estrelas dentro deste universo material. Na literatura Védica, podemos receber muita informação sobre todos os planetas, e podemos crer nela ou não. Todos os planetas importantes são descritos nas literaturas Védicas, especialmente o Śrīmad-Bhāgavatam, e o mundo espiritual, que está além deste céu material, é descrito como avyakta, imanifesto. Deve-se desejar e ansiar por esse reino supremo, pois, quando a pessoa alcança esse reino, não tem de retornar a este mundo material.

A seguir, alguém pode levantar a questão de como abordar essa morada do Senhor Supremo. A informação a esse respeito é dada no Oitavo Capítulo. Ali se diz:

anta-kāle ca mām eva smaran muktvā kalevaram yaḥ prayāti sa mad-bhāvam yāti nāsty atra saṁśayaḥ

“Todo aquele que, ao final da vida, abandona seu corpo lembrando-se de Mim, alcança imediatamente Minha natureza; e disto não há dúvida.” [[bg/8/5|(Bg. 8.5)]] Aquele que pensa em Kṛṣṇa no momento de sua morte vai a Kṛṣṇa. É preciso lembrar-se da forma de Kṛṣṇa; se a pessoa abandona seu corpo pensando nesta forma, aproxima-se do reino espiritual. Mad-bhāvaṁ refere-se à natureza suprema do Ser Supremo. O Ser Supremo é sac-cid-ānanda-vigraha—eterno, pleno de conhecimento e bem-aventurança. Nosso corpo atual não é sac-cid-ānanda. Ele é asat, não sat. Não é eterno; é perecível. Não é cit, pleno de conhecimento, mas é pleno de ignorância. Não temos conhecimento do reino espiritual, nem temos sequer conhecimento perfeito deste mundo material, onde há tantas coisas desconhecidas para nós. O corpo também é nirānanda; em vez de ser pleno de bem-aventurança, é pleno de miséria. Todas as misérias que experimentamos no mundo material surgem do corpo, mas aquele que deixa este corpo pensando na Suprema Personalidade de Deus alcança de imediato um corpo sac-cid-ānanda, como se promete neste quinto verso do Oitavo Capítulo, onde o Senhor Kṛṣṇa diz: “Ele alcança Minha natureza.”

O processo de abandonar este corpo e obter outro corpo no mundo material também é organizado. Um homem morre após se ter decidido que forma de corpo ele terá na próxima vida. Autoridades superiores, não a própria entidade viva, tomam esta decisão. Segundo nossas atividades nesta vida, ou nos elevamos, ou nos afundamos. Esta vida é uma preparação para a próxima vida. Se pudermos, portanto, preparar-nos nesta vida para obter promoção ao reino de Deus, então, certamente, após abandonar este corpo material, alcançaremos um corpo espiritual exatamente como o do Senhor.

Como explicado antes, há diferentes espécies de transcendentalistas, o brahmavādī, o paramātmāvādī e o devoto e, como mencionado, no brahmajyoti (céu espiritual) há inumeráveis planetas espirituais. O número desses planetas é muito, muito maior do que todos os planetas deste mundo material. Este mundo material foi estimado em apenas um quarto da criação. Neste segmento material, há milhões e bilhões de universos com trilhões de planetas e sóis, estrelas e luas. Mas toda esta criação material é apenas um fragmento da criação total. A maior parte da criação está no céu espiritual. Aquele que deseja imergir na existência do Brahman Supremo é de imediato transferido ao brahmajyoti do Senhor Supremo e, assim, alcança o céu espiritual. O devoto, que deseja desfrutar da associação do Senhor, ingressa nos planetas Vaikuṇṭha, que são inumeráveis, e o Senhor Supremo, por meio de Suas expansões plenárias como Nārāyaṇa, com quatro mãos e com diferentes nomes como Pradyumna, Aniruddha, Govinda, etc., associa-se com ele ali. Por conseguinte, ao final da vida, os transcendentalistas, ou pensam no brahmajyoti, ou no Paramātmā, ou na Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa. Em todos os casos, eles ingressam no céu espiritual, mas apenas o devoto, ou aquele que está em contato pessoal com o Senhor Supremo, ingressa nos planetas Vaikuṇṭha. O Senhor acrescenta ainda que disto “não há dúvida”. Isso deve ser firmemente acreditado. Não devemos rejeitar aquilo que não condiz com nossa imaginação; nossa atitude deve ser a de Arjuna: “Acredito em tudo o que disseste.” Por conseguinte, quando o Senhor diz que, no momento da morte, todo aquele que pensa nEle como Brahman, ou Paramātmā, ou como a Personalidade de Deus, certamente ingressa no céu espiritual, não há dúvida quanto a isto. Não há possibilidade de descrer disso.

A informação de como pensar no Ser Supremo no momento da morte também é dada no Gītā:

yaṁ yaṁ vāpi smaran bhāvaṁ tyajaty ante kalevaram taṁ tam evaiti kaunteya sadā tad-bhāva-bhāvitaḥ

“Em qualquer estado de existência que se abandone o corpo atual, na próxima vida alcançar-se-á, sem falta, esse mesmo estado de existência.” [[bg/8/6|(Bg. 8.6)]] A natureza material é uma exibição de uma das energias do Senhor Supremo. No Viṣṇu Purāṇa, as energias totais do Senhor Supremo, como Viṣṇu-śaktiḥ parā proktā, etc., são delineadas. O Senhor Supremo tem energias diversas e inumeráveis, que estão além de nossa concepção; contudo, grandes sábios eruditos ou almas liberadas estudaram essas energias e analisaram-nas em três partes. Todas as energias são da Viṣṇu-śakti, isto é, são diferentes potências do Senhor Viṣṇu. Essa energia é parā, transcendental. As entidades vivas também pertencem à energia superior, como já foi explicado. As outras energias, ou energias materiais, estão no modo da ignorância. No momento da morte, ou podemos permanecer na energia inferior deste mundo material, ou podemos transferir-nos para a energia do mundo espiritual.

Na vida, estamos acostumados a pensar, ou na energia material, ou na espiritual. Há tantas literaturas que enchem nossos pensamentos com a energia material—jornais, romances, etc. Nosso pensamento, que agora está absorto nessas literaturas, deve ser transferido para as literaturas Védicas. Os grandes sábios, portanto, escreveram tantas literaturas Védicas, tais como os Purāṇas, etc. Os Purāṇas não são imaginativos; são registros históricos. No Caitanya-caritāmṛta, há o seguinte verso:

māyā mugdha jīver nāhi svataḥ Kṛṣṇa-jñāna jīvera kṛpāya kailā Kṛṣṇa veda-purāṇa (Cc. Madhya 20.122)

As entidades vivas esquecidas, ou almas condicionadas, esqueceram-se de sua relação com o Senhor Supremo, e estão absortas em pensar nas atividades materiais. Justamente para transferir seu poder de pensamento ao céu espiritual, Kṛṣṇa deu um grande número de literaturas Védicas. Primeiro Ele dividiu os Vedas em quatro, depois explicou-os nos Purāṇas e, para as pessoas menos capazes, escreveu o Mahābhārata. No Mahābhārata é dado o Bhagavad-gītā. Em seguida, toda a literatura Védica é resumida no Vedānta-sūtra e, para orientação futura, Ele deu um comentário natural sobre o Vedānta-sūtra, chamado Śrīmad-Bhāgavatam. Devemos sempre ocupar nossas mentes na leitura destas literaturas Védicas. Assim como os materialistas ocupam suas mentes na leitura de jornais, revistas e tantas literaturas materialistas, devemos transferir nossa leitura para estas literaturas que nos foram dadas por Vyāsadeva; dessa maneira, ser-nos-á possível lembrar do Senhor Supremo no momento da morte. Esse é o único caminho sugerido pelo Senhor, e Ele garante o resultado: “Não há dúvida.” [[bg/8/7|(Bg. 8.7)]]

tasmāt sarveṣu kāleṣu mām anusmara yudhya ca mayy arpita-mano-buddhir mām evaiṣyasy asaṁśayaḥ

“Portanto, Arjuna, deves sempre pensar em Mim e, ao mesmo tempo, continuar a desempenhar teu dever prescrito e lutar. Com tua mente e atividades sempre fixas em Mim, e tudo dedicado a Mim, tu Me alcançarás, sem nenhuma dúvida.”

Ele não aconselha Arjuna a simplesmente lembrar-se dEle e abandonar sua ocupação. Não, o Senhor jamais sugere algo impraticável. Neste mundo material, para manter o corpo é preciso trabalhar. A sociedade humana está dividida, segundo o trabalho, em quatro divisões da ordem social—brāhmaṇa, kṣatriya, vaiśya, śūdra. A classe brāhmaṇa, ou classe inteligente, trabalha de um modo; a classe kṣatriya, ou administrativa, trabalha de outro modo; e a classe mercantil e os trabalhadores ocupam-se todos de seus deveres específicos. Na sociedade humana, quer a pessoa seja trabalhador, comerciante, guerreiro, administrador ou agricultor, ou mesmo que pertença à classe mais elevada e seja um homem de letras, um cientista ou um teólogo, ela tem de trabalhar para manter sua existência. O Senhor, portanto, diz a Arjuna que ele não precisa abandonar sua ocupação, mas que, enquanto está ocupado em sua ocupação, deve lembrar-se de Kṛṣṇa. Se não praticar lembrar-se de Kṛṣṇa enquanto luta pela existência, então não lhe será possível lembrar-se de Kṛṣṇa no momento da morte. O Senhor Caitanya também aconselha isso. Ele diz que se deve praticar lembrar-se do Senhor cantando sempre os nomes do Senhor. Os nomes do Senhor e o Senhor não são diferentes. Assim, a instrução do Senhor Kṛṣṇa a Arjuna de “lembrar-Se de Mim” e o preceito do Senhor Caitanya de sempre “cantar os nomes do Senhor Kṛṣṇa” são a mesma instrução. Não há diferença, pois Kṛṣṇa e o nome de Kṛṣṇa não são diferentes. No estado absoluto, não há diferença entre a referência e o referente. Por isso, temos de praticar lembrar-nos do Senhor sempre, vinte e quatro horas por dia, cantando Seus nomes e moldando as atividades de nossa vida de tal maneira que possamos lembrar-nos dEle sempre.

Como isso é possível? Os ācāryas dão o seguinte exemplo. Se uma mulher casada está apegada a outro homem, ou se um homem tem apego por uma mulher que não a sua esposa, então o apego deve ser considerado muito forte. Aquele que tem tal apego está sempre pensando na pessoa amada. A esposa que está pensando em seu amante está sempre pensando em encontrar-se com ele, mesmo enquanto executa suas tarefas domésticas. De fato, ela executa seu trabalho doméstico com ainda mais cuidado, para que seu esposo não suspeite de seu apego. De modo semelhante, devemos sempre lembrar-nos do amante supremo, Śrī Kṛṣṇa, e, ao mesmo tempo, desempenhar muito bem nossos deveres materiais. Um forte senso de amor é exigido aqui. Se temos um forte senso de amor pelo Senhor Supremo, então podemos cumprir nosso dever e, ao mesmo tempo, lembrar-nos dEle. Mas temos de desenvolver esse senso de amor. Arjuna, por exemplo, estava sempre pensando em Kṛṣṇa; era o companheiro constante de Kṛṣṇa e, ao mesmo tempo, era um guerreiro. Kṛṣṇa não o aconselhou a abandonar a luta e ir à floresta meditar. Quando o Senhor Kṛṣṇa delineia o sistema de yoga a Arjuna, Arjuna diz que a prática deste sistema não lhe é possível.

arjuna uvāca yo ‘yaṁ yogas tvayā proktaḥ sāmyena madhusūdana etasyāhaṁ na paśyāmi cañcalatvāt sthitiṁ sthirām

“Arjuna disse: Ó Madhusūdana, o sistema de yoga que resumiste parece-me impraticável e insuportável, pois a mente é inquieta e instável.” [[bg/6/33|(Bg. 6.33)]]

Mas o Senhor diz:

yoginām api sarveṣāṁ mad-gatenāntarātmanā śraddhāvān bhajate yo māṁ sa me yuktatamo mataḥ

“De todos os yogīs, aquele que sempre permanece em Mim com grande fé, adorando-Me em serviço transcendental amoroso, está mais intimamente unido a Mim em yoga, e é o mais elevado de todos.” [[bg/6/47|(Bg. 6.47)]] Portanto, aquele que pensa no Senhor Supremo sempre é o maior yogī, o supremo jñānī e o maior devoto ao mesmo tempo. O Senhor diz ainda a Arjuna que, como kṣatriya, ele não pode abandonar sua luta; mas, se Arjuna lutar lembrando-se de Kṛṣṇa, então será capaz de lembrar-se dEle no momento da morte. Contudo, é preciso estar completamente rendido no serviço transcendental amoroso ao Senhor.

Na verdade, não trabalhamos com nosso corpo, mas com nossa mente e inteligência. Assim, se a inteligência e a mente estão sempre ocupadas no pensamento do Senhor Supremo, então, naturalmente, os sentidos também estão ocupados em Seu serviço. Superficialmente, ao menos, as atividades dos sentidos permanecem as mesmas, mas a consciência está mudada. O Bhagavad-gītā ensina como absorver a mente e a inteligência no pensamento do Senhor. Tal absorção capacitará a pessoa a transferir-se para o reino do Senhor. Se a mente está ocupada no serviço de Kṛṣṇa, então os sentidos estão automaticamente ocupados em Seu serviço. Esta é a arte, e este é também o segredo do Bhagavad-gītā: a absorção total no pensamento de Śrī Kṛṣṇa.

O homem moderno tem se esforçado muito arduamente para alcançar a Lua, mas não se tem esforçado muito para elevar-se espiritualmente. Se a pessoa tem cinquenta anos de vida pela frente, deve ocupar esse breve tempo em cultivar esta prática de lembrar-se da Suprema Personalidade de Deus. Esta prática é o processo devocional de:

śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ smaraṇaṁ pāda-sevanam arcanaṁ vandanaṁ dāsyaṁ sakhyam ātma-nivedanam

Estes nove processos, dos quais o mais fácil é śravaṇaṁ, ouvir o Bhagavad-gītā da pessoa realizada, voltarão a pessoa para o pensamento do Ser Supremo. Isso a conduzirá a niścala, lembrar-se do Senhor Supremo, e a capacitará, ao deixar o corpo, a alcançar um corpo espiritual que é justamente apto para a associação com o Senhor Supremo.

O Senhor diz ainda:

abhyāsa-yoga-yuktena cetasā nānya-gāminā paramaṁ puruṣaṁ divyaṁ yāti pārthānucintayan

“Aquele que medita em Mim como a Suprema Personalidade de Deus, com a mente constantemente ocupada em lembrar-se de Mim, sem desviar-se do caminho, ó Pārtha, é certo que Me alcança.” [[bg/8/8|(Bg. 8.8)]]

Este não é um processo muito difícil. Contudo, é preciso aprendê-lo de uma pessoa experiente, de alguém que já esteja na prática. A mente está sempre voando para isto e aquilo, mas é preciso sempre praticar concentrar a mente na forma do Senhor Supremo, Śrī Kṛṣṇa, ou no som de Seu nome. A mente é naturalmente inquieta, indo para cá e para lá, mas pode repousar na vibração sonora de Kṛṣṇa. É preciso, assim, meditar em paramaṁ puruṣaṁ, a Pessoa Suprema; e, dessa forma, alcançá-Lo. As maneiras e os meios para a realização última, para a obtenção última, são afirmados no Bhagavad-gītā, e as portas deste conhecimento estão abertas para todos. Ninguém fica de fora. Todas as classes de homens podem abordar o Senhor pensando nEle, pois ouvir e pensar nEle é possível para todos.

O Senhor diz ainda:

māṁ hi pārtha vyapāśritya ye ’pi syuḥ pāpa-yonayaḥ striyo vaiśyās tathā śūdrās te ’pi yānti parāṁ gatim

kiṁ punar brāhmaṇāḥ puṇyā bhaktā rājarṣayas tathā anityam asukhaṁ lokam imaṁ prāpya bhajasva mām

“Ó filho de Pṛthā, todo aquele que se abrigar em Mim, seja uma mulher, ou um comerciante, ou alguém nascido em família baixa, pode ainda assim alcançar o destino supremo. Quão maiores, então, são os brāhmaṇas, os justos, os devotos e os reis santos! Neste mundo miserável, estes estão fixos no serviço devocional ao Senhor.” (Bg. 9.32-33)

Os seres humanos, mesmo nas condições inferiores de vida (um comerciante, uma mulher ou um trabalhador), podem alcançar o Supremo. Não se necessita de inteligência altamente desenvolvida. O ponto é que todo aquele que aceita o princípio do bhakti-yoga e aceita o Senhor Supremo como o summum bonum da vida, como o alvo mais elevado, a meta última, pode abordar o Senhor no céu espiritual. Se a pessoa adota os princípios enunciados no Bhagavad-gītā, pode tornar sua vida perfeita e dar uma solução perfeita a todos os problemas da vida que surgem da natureza transitória da existência material. Esta é a soma e a substância de todo o Bhagavad-gītā.

Em conclusão, o Bhagavad-gītā é uma literatura transcendental que se deve ler com muito cuidado. Ela é capaz de salvar a pessoa de todo temor.

nehābhikrama-nāśo ’sti pratyavāyo na vidyate svalpam apy asya dharmasya trāyate mahato bhayāt

“Neste empenho não há perda nem diminuição, e um pequeno avanço nesta senda pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de temor.” [[bg/2/40|(Bg. 2.40)]] Se a pessoa lê o Bhagavad-gītā sincera e seriamente, então todas as reações de seus malfeitos passados não recairão sobre ela. Na última porção do Bhagavad-gītā, o Senhor Śrī Kṛṣṇa proclama:

sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja ahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo mokṣayiṣyāmi mā śucaḥ

“Abandona todas as variedades de religiosidade e simplesmente rende-te a Mim; e, em troca, Eu te protegerei de todas as reações pecaminosas. Portanto, nada tens a temer.” [[bg/18/66|(Bg. 18.66)]] Assim, o Senhor toma toda a responsabilidade por aquele que se rende a Ele, e indeniza todas as reações do pecado.

A pessoa limpa-se diariamente tomando um banho de água, mas aquele que toma seu banho apenas uma vez na sagrada água do Ganges do Bhagavad-gītā lava toda a sujeira da vida material. Por o Bhagavad-gītā ser falado pela Suprema Personalidade de Deus, não é preciso ler nenhuma outra literatura Védica. Basta ouvir e ler o Bhagavad-gītā com atenção e regularidade. Na era atual, a humanidade está tão absorta em atividades mundanas que não é possível ler todas as literaturas Védicas. Mas isso não é necessário. Este único livro, o Bhagavad-gītā, será suficiente, pois é a essência de todas as literaturas Védicas e porque é falado pela Suprema Personalidade de Deus. Diz-se que aquele que bebe a água do Ganges certamente obtém a salvação; mas o que dizer de quem bebe as águas do Bhagavad-gītā? O Gītā é o próprio néctar do Mahābhārata, falado pelo próprio Viṣṇu, pois o Senhor Kṛṣṇa é o Viṣṇu original. É néctar que emana da boca da Suprema Personalidade de Deus, e diz-se que o Ganges emana dos pés de lótus do Senhor. Naturalmente, não há diferença entre a boca e os pés do Senhor Supremo, mas, em nossa posição, podemos apreciar que o Bhagavad-gītā é ainda mais importante que o Ganges.

O Bhagavad-gītā é exatamente como uma vaca, e o Senhor Kṛṣṇa, que é um vaqueirinho, está ordenhando esta vaca. O leite é a essência dos Vedas, e Arjuna é exatamente como um bezerro. Os homens sábios, os grandes sábios e os devotos puros devem beber o leite nectáreo do Bhagavad-gītā.

Nos dias de hoje, o homem está muito ansioso por ter uma escritura, um Deus, uma religião e uma ocupação. Portanto, que haja uma escritura comum para o mundo inteiro—o Bhagavad-gītā. E que haja um único Deus para o mundo inteiro—Śrī Kṛṣṇa. E um único mantra—Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. E que haja um único trabalho—o serviço à Suprema Personalidade de Deus.

A SUCESSÃO DISCIPULAR

Evaṁ paramparā-prāptam imaṁ rājarṣayo viduḥ. (Bhagavad-gītā, 4.2) Este Bhagavad-gītā Como Ele É é recebido por intermédio desta sucessão discipular:

1) Kṛṣṇa, 2) Brahmā, 3) Nārada, 4) Vyāsa, 5) Madhva, 6) Padmanābha, 7) Nṛhari, 8) Mādhava, 9) Akṣobhya, 10) Jaya Tīrtha, 11) Jñānasindhu, 12) Dayānidhi, 13) Vidyānidhi, 14) Rājendra, 15) Jayadharma, 16) Puruṣottama, 17) Brahmaṇya Tīrtha, 18) Vyāsa Tīrtha, 19) Lakṣmīpati, 20) Mādhavendra Purī, 21) Īśvara Purī, (Nityānanda, Advaita), 22) Senhor Caitanya, 23) Rūpa, (Svarūpa, Sanātana), 24) Raghunātha, Jīva, 25) Kṛṣṇadāsa, 26) Narottama, 27) Viśvanātha, 28) (Baladeva) Jagannātha, 29) Bhaktivinoda, 30) Gaurakiśora, 31) Bhaktisiddhānta Sarasvatī, 32) Bhaktivedanta Swami Prabhupāda.