Capítulo 13
Bg 13.1-2
अर्जुन उवाच ।
प्रकृतिं पुरुषं चैव क्षेत्रं क्षेत्रज्ञमेव च ।
एतद्वेदितुमिच्छामि ज्ञानं ज्ञेयं च केशव ॥१॥
श्रीभगवानुवाच ।
इदं शरीरं कौन्तेय क्षेत्रमित्यभिधीयते ।
एतद्यो वेत्ति तं प्राहुः क्षेत्रज्ञ इति तद्विदः ॥२॥
arjuna uvāca
prakṛtiṁ puruṣaṁ caiva
kṣetraṁ kṣetra-jñam eva ca
etad veditum icchāmi
jñānaṁ jñeyaṁ ca keśava
[1]śrī-bhagavān uvāca
idaṁ śarīraṁ kaunteya
kṣetram ity abhidhīyate
etad yo vetti taṁ prāhuḥ
kṣetra-jña iti tad-vidaḥ
arjunaḥ uvāca—Arjuna disse; prakṛtim—natureza; puruṣam—o desfrutador; ca—também; eva—certamente; kṣetram—corpo; kṣetrajñam—conhecedor do corpo; eva—certamente; ca—também; etat—tudo isto; veditum—compreender; icchāmi—desejo; jñānam—conhecimento; jñeyam—o objeto do conhecimento; ca—também; keśava—ó Kṛṣṇa; śrī bhagavān uvāca—a Personalidade de Deus disse; idam—este; śarīram—corpo; kaunteya—ó filho de Kuntī; kṣetram—o campo; iti—assim; abhidhīyate—é chamado; etat—este; yaḥ—qualquer um; vetti—conhece; tam—ele; prāhuḥ—é chamado; kṣetrajñaḥ—conhecedor do corpo; iti—assim; tat-vidaḥ—aquele que conhece.
Arjuna disse: Ó meu querido Kṛṣṇa, desejo conhecer a respeito de prakṛti [a natureza], Puruṣa [o desfrutador], e o campo e o conhecedor do campo, bem como do conhecimento e do fim do conhecimento. O Senhor Abençoado disse então: Este corpo, ó filho de Kuntī, chama-se o campo, e aquele que conhece este corpo é chamado o conhecedor do campo.
Arjuna mostrava-se curioso a respeito de prakṛti, ou natureza, puruṣa, o desfrutador, kṣetra, o campo, kṣetrajña, seu conhecedor, e do conhecimento e do objeto do conhecimento. Ao indagar sobre tudo isso, Kṛṣṇa disse que este corpo se chama o campo e que aquele que conhece este corpo se chama o conhecedor do campo. Este corpo é o campo de atividade da alma condicionada. A alma condicionada está aprisionada na existência material, e tenta assenhorear-se da natureza material. Assim, conforme sua capacidade de dominar a natureza material, ela recebe um campo de atividade. Esse campo de atividade é o corpo. E o que é o corpo? O corpo é feito de sentidos. A alma condicionada quer desfrutar da gratificação dos sentidos e, segundo sua capacidade de desfrutar dessa gratificação, oferece-se-lhe um corpo, ou campo de atividade. Por isso o corpo é chamado kṣetra, ou o campo de atividade da alma condicionada. Ora, a pessoa que não se identifica com o corpo é chamada kṣetrajña, o conhecedor do campo. Não é muito difícil compreender a diferença entre o campo e seu conhecedor, entre o corpo e o conhecedor do corpo. Qualquer pessoa pode notar que da infância à velhice ela passa por inúmeras mudanças de corpo e, ainda assim, continua a ser uma só pessoa. Há, portanto, uma diferença entre o conhecedor do campo de atividades e o próprio campo de atividades. Uma alma condicionada viva pode, dessa forma, compreender que é diferente do corpo. Descreve-se no início — dehe ‘smin — que a entidade viva está dentro do corpo e que o corpo vai mudando da infância para a meninice, da meninice para a juventude e da juventude para a velhice, e a pessoa que possui o corpo sabe que o corpo está mudando. O proprietário é distintamente o kṣetrajña. Às vezes compreendemos que estou feliz, estou louco, sou uma mulher, sou um cão, sou um gato: estes são os conhecedores. O conhecedor é diferente do campo. Embora utilizemos muitos artigos — nossas roupas, etc. — sabemos que somos diferentes das coisas usadas. De modo semelhante, também compreendemos, mediante uma pequena reflexão, que somos diferentes do corpo.
Nos seis primeiros capítulos do Bhagavad-gītā, descrevem-se o conhecedor do corpo, a entidade viva, e a posição pela qual ela pode compreender o Senhor Supremo. Nos seis capítulos centrais do Gītā, descrevem-se a Suprema Personalidade de Deus e a relação entre a alma individual e a Superalma quanto ao serviço devocional. A posição superior da Suprema Personalidade de Deus e a posição subordinada da alma individual ficam definitivamente definidas nesses capítulos. As entidades vivas são subordinadas em todas as circunstâncias, mas em seu esquecimento padecem. Quando iluminadas pelas atividades piedosas, aproximam-se do Senhor Supremo em diferentes condições — como os aflitos, os necessitados de dinheiro, os curiosos e os que buscam conhecimento. Isso também já foi descrito. Agora, a partir do Décimo Terceiro Capítulo, explica-se como a entidade viva entra em contato com a natureza material, como é libertada pelo Senhor Supremo por meio dos diferentes métodos das atividades fruitivas, do cultivo do conhecimento e da execução do serviço devocional. Embora a entidade viva seja completamente diferente do corpo material, de algum modo torna-se relacionada a ele. Isso também é explicado.
Bg 13.13
ज्ञेयं यत्तत्प्रवक्ष्यामि यज्ज्ञात्वामृतमश्नुते ।
अनादिमत्परं ब्रह्म न सत्तन्नासदुच्यते ॥१३॥
jñeyaṁ yat tat pravakṣyāmi
yaj jñātvāmṛtam aśnute
anādi mat-paraṁ brahma
na sat tan nāsad ucyate
jñeyam—conhecível; yat—aquilo; tat—que; pravakṣyāmi—explicarei agora; yat—que; jñātvā—conhecendo; amṛtam—néctar; aśnute—saboreia; anādi—sem princípio; mat-param—subordinado a Mim; brahma—espírito; na—nem; sat—causa; tat—aquilo; na—nem; asat—efeito; ucyate—chama-se.
Agora explicarei o conhecível, ao conhecer o qual saborearás o eterno. Isto não tem princípio e é subordinado a Mim. Chama-se Brahman, o espírito, e está além da causa e do efeito deste mundo material.
O Senhor explicou o campo de atividades e o conhecedor do campo. Também explicou o processo de conhecer o conhecedor do campo de atividades. Agora, está explicando o conhecível, tanto a alma quanto a Superalma respectivamente. Pelo conhecimento do conhecedor, tanto da alma quanto da Superalma, pode-se saborear o néctar da vida. Como se explicou no Segundo Capítulo, a entidade viva é eterna. Isto também é confirmado aqui. Não há data específica em que a jīva tenha nascido. Tampouco pode alguém rastrear a história da manifestação da jīvātmā a partir do Senhor Supremo. Por isso, é sem princípio. A literatura Védica confirma isto: na jāyate mṛjayate vā vipaścit. O conhecedor do corpo nunca nasce nem morre, e é pleno de conhecimento. O Senhor Supremo é também declarado na literatura Védica como pradhāna-kṣetrajña-patir guṇeśaḥ. O Senhor Supremo, como Superalma, é o principal conhecedor do corpo, e é o senhor dos três modos da natureza material. No smṛti afirma-se: dāsa-bhūto harer eva nānyasvaiva kadācana. As entidades vivas estão eternamente a serviço do Senhor Supremo. Isto também é confirmado pelo Senhor Caitanya em Seu ensinamento; portanto, a descrição do Brahman mencionada neste verso refere-se à alma individual, e quando a palavra Brahman é aplicada à entidade viva, deve-se compreender que ela é vijñānaṁ brahma, em oposição ao ananta-brahma. O ananta-brahma é o Supremo Brahman, a Personalidade de Deus.
Bg 13.14
सर्वतः पाणिपादं तत्सर्वतोऽक्षिशिरोमुखम् ।
सर्वतः श्रुतिमल्लोके सर्वमावृत्य तिष्ठति ॥१४॥
sarvataḥ pāṇi-pādaṁ tat
sarvato ‘kṣi-śiro-mukham
sarvataḥ śrutimal loke
sarvam āvṛtya tiṣṭhati
sarvataḥ—em toda parte; pāṇi—mãos; pādam—pernas; tat—isso; sarvataḥ—em toda parte; akṣi—olhos; śiraḥ—cabeça; mukham—rosto; sarvataḥ—em toda parte; śrutimat—audição; loke—no mundo; sarvam—em toda parte; āvṛtya—cobrindo; tiṣṭhati—existe.
Em toda parte estão Suas mãos e pernas, Seus olhos e rostos, e Ele tudo ouve. Dessa maneira, a Superalma existe.
Assim como o sol existe difundindo seus raios ilimitados, assim também existe a Superalma, ou Suprema Personalidade de Deus. Ele existe em Sua forma onipenetrante, e Nele existem todas as entidades vivas individuais, começando pelo primeiro grande mestre, Brahmā, até as pequenas formigas. Há ilimitadas cabeças, pernas, mãos e olhos, e ilimitadas entidades vivas. Todas existem na Superalma e sobre Ela. Por isso, a Superalma é onipenetrante. A alma individual, no entanto, não pode dizer que tem suas mãos, pernas e olhos em toda parte. Isso não é possível. Se ela pensar que, embora sob ignorância não esteja consciente de que suas mãos e pernas estão difundidas por toda parte, mas que, ao alcançar o devido conhecimento, chegará a essa etapa, seu pensamento é contraditório. Isto significa que a alma individual, tendo-se tornado condicionada pela natureza material, não é suprema. O Supremo é diferente da alma individual. O Senhor Supremo pode estender Sua mão sem limite; a alma individual não pode. No Bhagavad-gītā, o Senhor diz que se alguém Lhe oferecer uma flor, ou uma fruta, ou um pouco de água, Ele aceita. Se o Senhor está a uma grande distância, como pode aceitar coisas? Esta é a onipotência do Senhor: embora esteja situado em Sua própria morada, muito, muito longe da Terra, pode estender Sua mão para aceitar o que quer que alguém Lhe ofereça. Esta é Sua potência. Na Brahmā-saṁhitā, afirma-se: goloka eva nivasati: embora esteja sempre dedicado a passatempos em Seu planeta transcendental, é onipenetrante. A alma individual não pode pretender ser onipenetrante. Por isso, este verso descreve a Alma Suprema, a Personalidade de Deus, e não a alma individual.
Bg 13.15
सर्वेन्द्रियगुणाभासं सर्वेन्द्रियविवर्जितम् ।
असक्तं सर्वभृच्चैव निर्गुणं गुणभोक्तृ च ॥१५॥
sarvendriya-guṇābhāsaṁ
sarvendriya-vivarjitam
asaktaṁ sarva-bhṛc caiva
nirguṇaṁ guṇa-bhoktṛ ca
sarve—todos; indriya—sentidos; guṇa—qualidades; ābhāsam—fonte original; sarva—todos; indriya—sentidos; vivarjitam—sendo desprovido; asaktam—sem apego; sarva-bhṛt—mantenedor de todos; ca—também; eva—certamente; nirguṇam—sem qualidades materiais; guṇa-bhoktṛ—simultaneamente senhor dos guṇas; ca—também.
A Superalma é a fonte original de todos os sentidos, mas não tem sentidos. Ele é desapegado, embora seja o mantenedor de todos os seres vivos. Transcende os modos da natureza e, ao mesmo tempo, é o senhor de todos os modos da natureza material.
Embora seja a fonte de todos os sentidos das entidades vivas, o Senhor Supremo não tem sentidos materiais como elas têm. Na verdade, as almas individuais têm sentidos espirituais, mas, na vida condenada, estes ficam cobertos pelos elementos materiais e, por isso, as atividades dos sentidos são exibidas por meio da matéria. Os sentidos do Senhor Supremo não estão assim cobertos. Seus sentidos são transcendentais e, portanto, são chamados nirguṇa. Guṇa significa os modos materiais, mas Seus sentidos não têm cobertura material. Deve-se compreender que Seus sentidos não são exatamente como os nossos. Embora seja a fonte de todas as nossas atividades sensoriais, Ele tem Seus sentidos transcendentais, que não estão contaminados. Isso é muito bem explicado no Śvetāśvatara Upaniṣad, no verso: sarvataḥ pāṇi-pādam. A Suprema Personalidade de Deus não tem mãos materialmente contaminadas, mas Ele tem Suas mãos e aceita qualquer sacrifício que Lhe seja oferecido. Esta é a distinção entre a alma condicionada e a Superalma. Ele não tem olhos materiais, mas tem olhos — caso contrário, como poderia ver? Ele vê tudo, passado, presente e futuro. Vive dentro do coração do ser vivo, e sabe o que fizemos no passado, o que estamos fazendo agora e o que nos aguarda no futuro. Isto também é confirmado no Bhagavad-gītā: Ele sabe tudo, mas ninguém O conhece. Diz-se que o Senhor Supremo não tem pernas como nós, mas pode viajar por todo o espaço, porque possui pernas espirituais. Em outras palavras, o Senhor não é impessoal; Ele tem Seus olhos, pernas, mãos e tudo o mais, e, como somos partes integrantes do Senhor Supremo, também possuímos essas coisas. Mas Suas mãos, pernas, olhos e sentidos não estão contaminados pela natureza material.
O Bhagavad-gītā também confirma que, quando o Senhor aparece, aparece como Ele é, por Sua potência interna. Não está contaminado pela energia material, porque é o Senhor da energia material. Na literatura Védica, descobrimos que toda a Sua corporificação é espiritual. Possui Sua forma eterna, chamada sac-cid-ānanda-vigraha. É pleno de toda opulência. É o proprietário de toda a riqueza e o dono de toda a energia. É o mais inteligente e é pleno de conhecimento. Estes são alguns dos sintomas da Suprema Personalidade de Deus. É o mantenedor de todas as entidades vivas e a testemunha de todas as atividades. No que podemos compreender da literatura Védica, o Senhor Supremo é sempre transcendental. Embora não vejamos Sua cabeça, rosto, mãos ou pernas, Ele os possui, e quando somos elevados à situação transcendental, então podemos ver a forma do Senhor. Devido aos sentidos materialmente contaminados, não podemos ver Sua forma. Por isso, os impersonalistas, que ainda estão materialmente afetados, não podem compreender a Personalidade de Deus.
Bg 13.16
बहिरन्तश्च भूतानामचरं चरमेव च ।
सूक्ष्मत्वात्तदविज्ञेयं दूरस्थं चान्तिके च तत् ॥१६॥
bahir antaś ca bhūtānām
acaraṁ caram eva ca
sūkṣmatvāt tad avijñeyaṁ
dūra-sthaṁ cāntike ca tat
bahiḥ—fora; antaḥ—dentro; ca—também; bhūtānām—de todas as entidades vivas; acaram—não móvel; caram—móvel; eva—também; ca—e; sūkṣmatvāt—devido a ser sutil; tat—isso; avijñeyam—incognoscível; dūrasthaṁ—muito longe; ca antike—também perto; ca—e; tat—isso.
A Verdade Suprema existe tanto interna quanto externamente, no que se move e no que não se move. Ele está além do poder dos sentidos materiais para vê-Lo ou conhecê-Lo. Embora muito, muito distante, Ele está também perto de todos.
Na literatura Védica, compreendemos que Nārāyaṇa, a Pessoa Suprema, reside tanto fora quanto dentro de cada entidade viva. Ele está presente tanto no mundo espiritual quanto no material. Embora esteja muito, muito longe, ainda assim está perto de nós. Estas são as afirmações da literatura Védica. Āsīno dūraṁ vrajati śayāno yāti sarvataḥ. E, por estar sempre dedicado à bem-aventurança transcendental, não podemos compreender como Ele desfruta de Sua plena opulência. Não podemos vê-Lo nem compreendê-Lo com estes sentidos materiais. Por isso, na linguagem Védica, diz-se que, para compreendê-Lo, nossa mente e sentidos materiais não podem agir. Mas aquele que purificou sua mente e sentidos pela prática da consciência de Kṛṣṇa em serviço devocional pode vê-Lo constantemente. Confirma-se na Brahmā-saṁhitā que o devoto que desenvolveu amor pelo Deus Supremo pode vê-Lo sempre, sem cessar. E confirma-se no Bhagavad-gītā (11.54) que Ele só pode ser visto e compreendido pelo serviço devocional. Bhaktyā tvananyayā śakyaḥ.
Bg 13.17
अविभक्तं च भूतेषु विभक्तमिव च स्थितम् ।
भूतभर्तृ च तज्ज्ञेयं ग्रसिष्णु प्रभविष्णु च ॥१७॥
avibhaktaṁ ca bhūteṣu
vibhaktam iva ca sthitam
bhūta-bhartṛ ca taj jñeyaṁ
grasiṣṇu prabhaviṣṇu ca
avibhaktam—sem divisão; ca—também; bhūteṣu—em cada ser vivo; vibhaktam—dividido; iva—como se; ca—também; sthitam—situado; bhūta-bhartṛ—mantenedor de todas as entidades vivas; ca—também; tat—isso; jñeyam—a ser compreendido; grasiṣṇu—devora; prabhaviṣṇu—desenvolve; ca—também.
Embora a Superalma pareça estar dividida, Ele nunca é dividido. Está situado como um só. Embora seja o mantenedor de cada entidade viva, deve-se compreender que devora e desenvolve a todos.
O Senhor está situado no coração de todos como a Superalma. Significa isto que Ele se dividiu? Não. Na verdade, é um. Dá-se o exemplo do sol: o sol, no meridiano, está situado em seu lugar. Mas se alguém andar oito mil quilômetros em todas as direções e perguntar: “Onde está o sol?”, todos dirão que ele está brilhando sobre suas cabeças. Na literatura Védica, dá-se este exemplo para mostrar que, embora seja indiviso, está situado como se estivesse dividido. Também se diz na literatura Védica que um único Viṣṇu está presente em toda parte por Sua onipotência, assim como o sol aparece em muitos lugares para muitas pessoas. E o Senhor Supremo, embora seja o mantenedor de cada entidade viva, devora tudo no momento da aniquilação. Isso foi confirmado no Décimo Primeiro Capítulo, quando o Senhor disse que viera para devorar todos os guerreiros reunidos em Kurukṣetra. Ele também menciona que, na forma do tempo, devora também. Ele é o aniquilador, o matador de todos. Quando há a criação, Ele desenvolve todos a partir de seu estado original, e, no momento da aniquilação, devora-os. Os hinos Védicos confirmam o fato de que Ele é a origem de todas as entidades vivas e o repouso de todas elas. Após a criação, tudo repousa em Sua onipotência, e, após a aniquilação, tudo retorna a repousar Nele. Estas são as confirmações dos hinos Védicos. Yato vā imāni bhūtāni jāyante yena jātāni jīvanti yat prayanty abhisaṁviśanti tad brahma tad vijijñāsasva. (Taittirīya Upaniṣad, 3.1)
Bg 13.18
ज्योतिषामपि तज्ज्योतिस्तमसः परमुच्यते ।
ज्ञानं ज्ञेयं ज्ञानगम्यं हृदि सर्वस्य विष्ठितम् ॥१८॥
jyotiṣām api taj jyotis
tamasaḥ param ucyate
jñānaṁ jñeyaṁ jñāna-gamyaṁ
hṛdi sarvasya viṣṭhitam
jyotiṣām—em todos os objetos luminosos; api—também; tat—isso; jyotiḥ—fonte de luz; tamasaḥ—da escuridão; param—além; ucyate—diz-se; jñānam—conhecimento; jñeyam—a ser conhecido; jñāna-gamyam—a ser abordado pelo conhecimento; hṛdi—no coração; sarvasya—de todos; viṣṭhitam—situado.
Ele é a fonte de luz em todos os objetos luminosos. Está além da escuridão da matéria e é imanifesto. Ele é o conhecimento, é o objeto do conhecimento, e é a meta do conhecimento. Está situado no coração de todos.
A Superalma, a Suprema Personalidade de Deus, é a fonte de luz em todos os objetos luminosos, como o sol, a lua, as estrelas, etc. Na literatura Védica, encontramos que, no reino espiritual, não há necessidade de sol nem de lua, porque ali está a refulgência do Senhor Supremo. No mundo material, esse brahmajyoti, a refulgência espiritual do Senhor, está coberto pelo mahat-tattva, os elementos materiais; por isso, neste mundo material, exigimos a assistência do sol, da lua, da eletricidade, etc., para a luz. Mas, no mundo espiritual, não há necessidade de tais coisas. Afirma-se claramente na literatura Védica que, devido à Sua refulgência luminosa, tudo está iluminado. Está claro, por conseguinte, que Sua situação não é no mundo material. Ele está situado no mundo espiritual, que está muito, muito distante, no céu espiritual. Isso também se confirma na literatura Védica. Āditya-varṇam tamasaḥ parastāt. Ele é como o sol, eternamente luminoso, mas está muito, muito além da escuridão deste mundo material. Seu conhecimento é transcendental. A literatura Védica confirma que Brahman é conhecimento transcendental concentrado. Àquele que está ansioso por ser transferido para esse mundo espiritual, o conhecimento é dado pelo Senhor Supremo, que está situado no coração de todos.
Um mantra Védico diz: taṁ ha devam ātma-buddhi-prakāśaṁ mumukṣur vai śaraṇam aham prapadye. Deve-se render-se à Suprema Personalidade de Deus, se de fato se quiser a liberação. Quanto à meta do conhecimento último, isso também é confirmado na literatura Védica: tam eva viditvātimṛtyum eti. “Somente conhecendo-Te, pode-se transpor o limite do nascimento e da morte.” Ele está situado no coração de todos como o controlador supremo. O Supremo tem pernas e mãos distribuídas em toda parte, e isto não se pode dizer da alma individual. Por isso, deve-se admitir que há dois conhecedores do campo de atividade — a alma individual e a Superalma. As mãos e pernas da pessoa são distribuídas localmente, mas as mãos e pernas de Kṛṣṇa são distribuídas em toda parte. Isso se confirma no Śvetāśvatara Upaniṣad: sarvasya prabhum īśānaṁ sarvasya śaraṇaṁ bṛhat. Essa Suprema Personalidade de Deus, a Superalma, é o prabhu, ou senhor de todas as entidades vivas; por isso, é o centro último de todas as entidades vivas. Logo, não há como negar o fato de que a Superalma Suprema e a alma individual são sempre diferentes.
Bg 13.19
इति क्षेत्रं तथा ज्ञानं ज्ञेयं चोक्तं समासतः ।
मद्भक्त एतद्विज्ञाय मद्भावायोपपद्यते ॥१९॥
iti kṣetraṁ tathā jñānaṁ
jñeyaṁ coktaṁ samāsataḥ
mad-bhakta etad vijñāya
mad-bhāvāyopapadyate
iti—assim; kṣetram—campo de atividades (o corpo); tathā—também; jñānam—conhecimento; jñeyam—conhecível; ca—também; uktam—descrito; samāsataḥ—em resumo; mat-bhaktaḥ—Meu devoto; etat—tudo isto; vijñāya—depois de compreender; mat-bhāvāya—Minha natureza; upapadyate—alcança.
Assim, descrevi resumidamente o campo de atividades [o corpo], o conhecimento e o conhecível. Somente Meus devotos podem compreender isto plenamente e, dessa forma, alcançar Minha natureza.
O Senhor descreveu, em resumo, o corpo, o conhecimento e o conhecível. Este conhecimento envolve três coisas: o conhecedor, o conhecível e o processo de conhecer. Combinados, estes se chamam vijñānam, ou a ciência do conhecimento. O conhecimento perfeito pode ser compreendido diretamente pelos devotos imaculados do Senhor. Os outros são incapazes de compreender. Os monistas dizem que, no estágio último, estes três itens tornam-se um só, mas os devotos não aceitam isso. Conhecimento e desenvolvimento do conhecimento significam compreender-se em consciência de Kṛṣṇa. Estamos sendo conduzidos pela consciência material, mas, tão logo transferimos toda a consciência para as atividades de Kṛṣṇa e percebemos que Kṛṣṇa é tudo, alcançamos o conhecimento verdadeiro. Em outras palavras, o conhecimento nada mais é do que o estágio preliminar de compreender perfeitamente o serviço devocional.
Bg 13.20
प्रकृतिं पुरुषं चैव विद्ध्यनादी उभावपि ।
विकारांश्च गुणांश्चैव विद्धि प्रकृतिसम्भवान् ॥२०॥
prakṛtiṁ puruṣaṁ caiva
viddhy anādī ubhāv api
vikārāṁś ca guṇāṁś caiva
viddhi prakṛti-sambhavān
prakṛtim—natureza material; puruṣam—entidades vivas; ca—também; eva—certamente; viddhi—deve-se saber; anādī—sem princípio; ubhau—ambos; api—também; vikārān—transformação; ca—também; guṇān—três modos da natureza; ca—também; eva—certamente; viddhi—saiba; prakṛti—natureza material; sambhavān—produzido de.
Deve-se compreender que a natureza material e as entidades vivas não têm princípio. Suas transformações e os modos da matéria são produtos da natureza material.
Por meio deste conhecimento, podem-se conhecer o corpo, o campo de atividades, e os conhecedores do corpo (tanto a alma individual quanto a Superalma). O corpo é o campo de atividade e é composto da natureza material. É a alma individual que está corporificada. Aquele que desfruta das atividades do corpo é o puruṣa, ou a entidade viva. Ela é um conhecedor, e o outro é a Superalma. É claro, deve-se compreender que tanto a Superalma quanto a entidade individual são manifestações diferentes da Suprema Personalidade de Deus. A entidade viva está na categoria de Sua energia, e a Superalma está na categoria de Sua expansão pessoal.
Tanto a natureza material quanto a entidade viva são eternas. Ou seja, existiam antes da criação. A manifestação material provém da energia do Senhor Supremo, e assim também as entidades vivas, mas estas pertencem à energia superior. Ambas existiam antes que este cosmos fosse manifestado. A natureza material estava absorvida na Suprema Personalidade de Deus, Mahā-Viṣṇu, e, quando exigida, foi manifestada por intermédio do mahat-tattva. De modo semelhante, as entidades vivas também estão Nele, e, por estarem condicionadas, mostram-se avessas a servir o Senhor Supremo. Por isso, não lhes é permitido entrar no céu espiritual. Após o recolhimento da natureza material, dá-se de novo a essas entidades vivas a oportunidade de agir no mundo material e de preparar-se para entrar no mundo espiritual. Esse é o mistério desta criação material. Na verdade, a entidade viva é, originalmente, a parte espiritual integrante do Senhor Supremo, mas, devido à sua natureza rebelde, está condicionada dentro da natureza material. Não importa muito como essas entidades vivas, ou entidades superiores do Senhor Supremo, vieram a entrar em contato com a natureza material. A Suprema Personalidade de Deus sabe, contudo, como e por que isso de fato ocorreu. Nas escrituras, o Senhor diz que aqueles atraídos por esta natureza material padecem uma árdua luta pela existência. Mas devemos saber com certeza, a partir das descrições destes poucos versos, que todas as transformações e influências da natureza material pelos três modos também são produções da natureza material. Todas as transformações e a variedade no que se refere às entidades vivas devem-se ao corpo. Quanto ao espírito, todas as entidades vivas são iguais.
Bg 13.21
कार्यकारणकर्तृत्वे हेतुः प्रकृतिरुच्यते ।
पुरुषः सुखदुःखानां भोक्तृत्वे हेतुरुच्यते ॥२१॥
kārya-kāraṇa-kartṛtve
hetuḥ prakṛtir ucyate
puruṣaḥ sukha-duḥkhānāṁ
bhoktṛtve hetur ucyate
kārya—efeito; kāraṇa—causa; kartṛtve—em matéria de criação; hetuḥ—instrumento; prakṛtiḥ—natureza material; ucyate—diz-se ser; puruṣaḥ—as entidades vivas; sukha—felicidade; duḥkhānām—das aflições; bhoktṛtve—no desfrute; hetuḥ—instrumento; ucyate—diz-se ser.
Diz-se que a natureza é a causa de todas as atividades e efeitos materiais, ao passo que a entidade viva é a causa dos vários sofrimentos e desfrutes neste mundo.
As diferentes manifestações de corpo e de sentidos entre as entidades vivas devem-se à natureza material. Há 8.400.000 espécies de vida diferentes, e essas variedades são criação da natureza material. Surgem dos diferentes prazeres sensoriais da entidade viva, que assim deseja viver neste corpo ou naquele. Quando colocada em corpos diferentes, ela desfruta de diferentes espécies de felicidade e aflição. Sua felicidade e aflição materiais devem-se ao seu corpo, e não a si mesma como ela é. Em seu estado original, não há dúvida quanto ao desfrute; portanto, esse é seu estado real. Devido ao desejo de assenhorear-se da natureza material, ela está no mundo material. No mundo espiritual não há tal coisa. O mundo espiritual é puro, mas, no mundo material, todos lutam arduamente para adquirir vítimas que apresentem diferentes prazeres ao corpo. Talvez seja mais claro afirmar que este corpo é o efeito dos sentidos. Os sentidos são instrumentos para gratificar o desejo. Ora, a soma total — corpo e sentidos instrumentais — é oferecida pela natureza material e, como ficará claro no próximo verso, a entidade viva é abençoada ou amaldiçoada com circunstâncias de acordo com seu desejo e atividade passados. Conforme os desejos e atividades de cada um, a natureza material coloca-o em diversas habitações. O ser, em si, é a causa de obter tais habitações e o desfrute ou sofrimento que delas decorrem. Uma vez colocado em alguma espécie particular de corpo, fica sob o controle da natureza, porque o corpo, sendo matéria, age conforme as leis da natureza. Nesse momento, a entidade viva não tem poder para mudar essa lei. Suponhamos que uma entidade seja colocada no corpo de um cão. Tão logo se ache no corpo de um cão, deverá agir como um cão. Não pode agir de outra maneira. E se a entidade viva for colocada no corpo de um porco, será forçada a comer fezes e a agir como um porco. De modo semelhante, se a entidade viva for colocada no corpo de um semideus, deverá agir conforme seu corpo. Esta é a lei da natureza. Mas em todas as circunstâncias, a Superalma está com a alma individual. Isso é explicado nos Vedas da seguinte forma: dvā suparṇā sayujā sakhāyā. O Senhor Supremo é tão bondoso com a entidade viva, que sempre acompanha a alma individual e, em todas as circunstâncias, está presente como a Superalma, ou Paramātmā.
Bg 13.22
पुरुषः प्रकृतिस्थो हि भुङ्क्ते प्रकृतिजान्गुणान् ।
कारणं गुणसङ्गोऽस्य सदसद्योनिजन्मसु ॥२२॥
puruṣaḥ prakṛti-stho hi
bhuṅkte prakṛti-jān guṇān
kāraṇaṁ guṇa-saṅgo ‘sya
sad-asad-yoni-janmasu
puruṣaḥ—a entidade viva; prakṛti-sthaḥ—estando situada na energia material; hi—certamente; bhuṅkte—desfruta; prakṛti-jān—produzido pela natureza material; guṇān—modos da natureza; kāraṇam—causa; guṇa-saṅgaḥ—associação com os modos da natureza; asya—da entidade viva; sat-asat—boas e más; yoni—espécies de vida; janmasu—nascimento.
A entidade viva, na natureza material, segue assim os modos de vida, desfrutando dos três modos da natureza. Isto se deve à sua associação com essa natureza material. Por isso, encontra o bem e o mal entre as várias espécies.
Este verso é muito importante para a compreensão de como as entidades vivas transmigram de um corpo a outro. Explica-se no Segundo Capítulo que a entidade viva está transmigrando de um corpo a outro, assim como se troca de roupa. Esta troca de roupa deve-se ao seu apego à existência material. Enquanto estiver cativada por essa manifestação falsa, terá de continuar a transmigrar de um corpo a outro. Devido a seu desejo de assenhorear-se da natureza material, é colocada em circunstâncias indesejáveis. Sob a influência do desejo material, a entidade nasce ora como um semideus, ora como um homem, ora como um animal, como uma ave, como um verme, como um aquático, como um santo, como um inseto. Isto continua a ocorrer. E em todos os casos, a entidade viva julga-se senhora de suas circunstâncias, embora esteja sob a influência da natureza material.
Como ela é colocada em corpos tão diferentes, explica-se aqui. Isto se deve à associação com os diferentes modos da natureza. É preciso, portanto, elevar-se acima dos três modos materiais e situar-se na posição transcendental. Isso se chama consciência de Kṛṣṇa. A menos que se esteja situado em consciência de Kṛṣṇa, sua consciência material o obrigará a transferir-se de um corpo a outro, porque tem desejos materiais desde tempos imemoriais. Mas é preciso mudar essa concepção. Essa mudança só pode ser efetuada ouvindo de fontes autorizadas. O melhor exemplo está aqui: Arjuna está ouvindo a ciência de Deus de Kṛṣṇa. A entidade viva, se se submeter a esse processo de ouvir, perderá seu desejo há muito acalentado de dominar a natureza material e, gradualmente e em proporção, à medida que reduz seu antigo desejo de dominar, passa a desfrutar de felicidade espiritual. Em um mantra Védico, afirma-se que, à medida que se torna erudita em associação com a Suprema Personalidade de Deus, ela proporcionalmente saboreia sua eterna vida bem-aventurada.
Bg 13.23
उपद्रष्टानुमन्ता च भर्ता भोक्ता महेश्वरः ।
परमात्मेति चाप्युक्तो देहेऽस्मिन्पुरुषः परः ॥२३॥
upadraṣṭānumantā ca
bhartā bhoktā maheśvaraḥ
paramātmeti cāpy ukto
dehe ‘smin puruṣaḥ paraḥ
upadraṣṭā—supervisor; anumantā—permissor; ca—também; bhartā—senhor; bhoktā—desfrutador supremo; maheśvaraḥ—o Senhor Supremo; paramātmā—Superalma; iti—também; ca—e; api uktaḥ—diz-se; dehe—neste corpo; asmin—este; puruṣaḥ—desfrutador; paraḥ—transcendental.
Contudo, neste corpo há outro, um desfrutador transcendental, que é o Senhor, o proprietário supremo, que existe como o supervisor e permissor, e que é conhecido como a Superalma.
Afirma-se aqui que a Superalma, que está sempre com a alma individual, é a representação do Senhor Supremo. Não é uma entidade viva comum. Como os filósofos monistas tomam o conhecedor do corpo como um só, pensam que não há diferença entre a Superalma e a alma individual. Para esclarecer isso, o Senhor diz que Ele é a representação do Paramātmā em cada corpo. Ele é diferente da alma individual; é paraḥ, transcendental. A alma individual desfruta das atividades de um campo particular, mas a Superalma está presente, não como desfrutador finito nem como alguém que toma parte nas atividades corporais, mas como a testemunha, supervisor, permissor e desfrutador supremo. Seu nome é Paramātmā, não ātmā, e Ele é transcendental. Está perfeitamente claro que ātmā e Paramātmā são diferentes. A Superalma, o Paramātmā, tem pernas e mãos em toda parte, mas a alma individual não. E, por ser o Senhor Supremo, está presente internamente para sancionar o desejo da alma individual de desfrutar materialmente. Sem a sanção da Alma Suprema, a alma individual nada pode fazer. O indivíduo é bhakta, ou o sustentado, e Ele é bhukta, ou o mantenedor. Há inumeráveis entidades vivas, e Ele permanece nelas como amigo.
O fato é que as entidades vivas individuais são eternamente partes integrantes do Senhor Supremo, e ambos estão muito intimamente relacionados como amigos. Mas a entidade viva tem a tendência a rejeitar a sanção do Senhor Supremo e a agir independentemente, na tentativa de dominar a natureza suprema, e, por possuir essa tendência, é chamada a energia marginal do Senhor Supremo. A entidade viva pode situar-se ou na energia material ou na energia espiritual. Enquanto estiver condicionada pela energia material, o Senhor Supremo, como seu amigo, a Superalma, permanece com ela apenas para fazê-la retornar à energia espiritual. O Senhor está sempre ansioso por levá-la de volta à energia espiritual, mas, devido à sua minúscula independência, a entidade individual rejeita continuamente a associação da luz espiritual. Esse mau uso da independência é a causa de sua peleja material na natureza condicionada. O Senhor, por isso, está sempre dando instrução tanto de dentro quanto de fora. De fora, dá instruções como afirmadas no Bhagavad-gītā, e de dentro tenta convencê-la de que suas atividades no campo material não são propícias à verdadeira felicidade. “Basta abandoná-las e voltar a tua fé para Mim. Então serás feliz”, diz Ele. Assim, a pessoa inteligente que deposita sua fé no Paramātmā, ou na Suprema Personalidade de Deus, começa a avançar para uma bem-aventurada vida eterna de conhecimento.
Bg 13.24
य एवं वेत्ति पुरुषं प्रकृतिं च गुणैः सह ।
सर्वथा वर्तमानोऽपि न स भूयोऽभिजायते ॥२४॥
ya evaṁ vetti puruṣaṁ
prakṛtiṁ ca guṇaiḥ saha
sarvathā vartamāno ‘pi
na sa bhūyo ‘bhijāyate
yaḥ—qualquer um; evam—assim; vetti—compreende; puruṣam—as entidades vivas; prakṛtim—natureza material; ca—e; guṇaiḥ—modos da natureza material; saha—com; sarvathā—de todas as maneiras; vartamānaḥ—situado; api—apesar de; na—nunca; saḥ—ele; bhūyaḥ—novamente; abhijāyate—nasce.
Aquele que compreende esta filosofia a respeito da natureza material, da entidade viva e da interação dos modos da natureza certamente alcança a liberação. Não nascerá aqui novamente, independentemente de sua posição atual.
A clara compreensão da natureza material, da Superalma, da alma individual e de sua inter-relação torna a pessoa elegível a tornar-se liberada e voltar à atmosfera espiritual sem ser forçada a retornar a esta natureza material. Este é o resultado do conhecimento. O propósito do conhecimento é compreender distintamente que a entidade viva, por acaso, caiu nesta existência material. Por seu próprio empenho, em associação com autoridades, com pessoas santas e com um mestre espiritual, ela tem de compreender sua posição e, então, voltar à consciência espiritual, ou consciência de Kṛṣṇa, pela compreensão do Bhagavad-gītā tal como é explicado pela Personalidade de Deus. Nesse caso, é certo que jamais voltará a esta existência material; será transferida para o mundo espiritual, para uma bem-aventurada vida eterna de conhecimento.
Bg 13.25
ध्यानेनात्मनि पश्यन्ति केचिदात्मानमात्मना ।
अन्ये साङ्ख्येन योगेन कर्मयोगेन चापरे ॥२५॥
dhyānenātmani paśyanti
kecid ātmānam ātmanā
anye sāṅkhyena yogena
karma-yogena cāpare
dhyānena—pela meditação; ātmani—eu; paśyanti—vê; kecit—um; ātmānam—Superalma; ātmanā—pela mente; anye—outros; sāṅkhyena—pela discussão filosófica; yogena—pelo sistema de yoga; karma-yogena—por atividades sem desejo fruitivo; ca—também; apare—outros.
Essa Superalma é percebida por alguns mediante a meditação, por outros mediante o cultivo do conhecimento, e por outros mediante o trabalho sem desejo fruitivo.
O Senhor informa Arjuna que a alma condicionada pode dividir-se em duas classes no que se refere à busca humana da autorrealização. Aqueles que são ateus, agnósticos e céticos estão além da capacidade de compreensão espiritual. Mas há outros que são fiéis em sua compreensão da vida espiritual, e estes são chamados trabalhadores que renunciaram aos resultados fruitivos. Aqueles que sempre tentam estabelecer a doutrina do monismo também são contados entre os ateus e agnósticos. Em outras palavras, somente os devotos da Suprema Personalidade de Deus são realmente capazes de compreensão espiritual, porque compreendem que, além desta natureza material, há o mundo espiritual e a Suprema Personalidade de Deus, que é expandido como o Paramātmā, a Superalma em todos, a Divindade onipenetrante. É claro, há aqueles que tentam compreender a Suprema Verdade Absoluta pelo cultivo do conhecimento, e estes podem ser contados na segunda classe. Os filósofos ateus analisam este mundo material em vinte e quatro elementos, e colocam a alma individual como o vigésimo quinto item. Quando são capazes de compreender que a natureza da alma individual é transcendental aos elementos materiais, são também capazes de compreender que, acima da alma individual, há a Suprema Personalidade de Deus. Ele é o vigésimo sexto elemento. Assim, gradualmente, também chegam ao critério do serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa. Aqueles que trabalham sem resultados fruitivos também são perfeitos em sua atitude. Dá-se-lhes a oportunidade de avançar para a plataforma do serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa. Aqui se afirma que há algumas pessoas que são puras em consciência e que tentam descobrir a Superalma pela meditação, e, quando descobrem a Superalma dentro de si mesmas, situam-se transcendentalmente. De modo semelhante, há outros que também tentam compreender a Alma Suprema pelo cultivo do conhecimento, e há outros que cultivam o sistema do haṭha-yoga e que tentam satisfazer a Suprema Personalidade de Deus por meio de atividades infantis.
Bg 13.26
अन्ये त्वेवमजानन्तः श्रुत्वान्येभ्य उपासते ।
तेऽपि चातितरन्त्येव मृत्युं श्रुतिपरायणाः ॥२६॥
anye tv evam ajānantaḥ
śrutvānyebhya upāsate
te ‘pi cātitaranty eva
mṛtyuṁ śruti-parāyaṇāḥ
anye—outros; tu—mas; evam—isto; ajānantaḥ—sem conhecimento espiritual; śrutvā—ouvindo; anyebhyaḥ—de outros; upāsate—começam a adorar; te—eles; api—também; ca—e; atitaranti—transcendem; eva—certamente; mṛtyum—a senda da morte; śruti-parāyaṇāḥ—inclinados ao processo de ouvir.
Há ainda aqueles que, embora não sejam versados em conhecimento espiritual, começam a adorar a Pessoa Suprema ao ouvir falar Dele de outros. Devido à sua tendência a ouvir de autoridades, eles também transcendem a senda do nascimento e da morte.
Este verso é particularmente aplicável à sociedade moderna, porque, na sociedade moderna, praticamente não há educação em assuntos espirituais. Algumas das pessoas podem parecer ateístas ou agnósticas ou filosóficas, mas, na verdade, não há conhecimento de filosofia. Quanto ao homem comum, se for uma boa alma, há uma chance de avanço pelo ouvir. Esse processo de ouvir é muito importante. O Senhor Caitanya, que pregou a consciência de Kṛṣṇa no mundo moderno, deu grande ênfase ao ouvir, porque, se o homem comum simplesmente ouvir de fontes autorizadas, poderá progredir, especialmente, segundo o Senhor Caitanya, se ouvir a vibração transcendental Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Afirma-se, por isso, que todos os homens devem aproveitar o ouvir das almas realizadas e, gradualmente, tornar-se capazes de compreender tudo. A adoração ao Senhor Supremo então, sem dúvida, ocorrerá. O Senhor Caitanya disse que, nesta era, ninguém precisa mudar sua posição, mas deve abandonar o esforço para compreender a Verdade Absoluta por raciocínio especulativo. Deve-se aprender a tornar-se servo daqueles que estão em conhecimento do Senhor Supremo. Se alguém for afortunado o bastante para abrigar-se em um devoto puro, ouvi-lo a respeito da autorrealização e seguir seus passos, será gradualmente elevado à posição de devoto puro. Neste verso, particularmente, o processo de ouvir é fortemente recomendado, e isso é muito apropriado. Embora o homem comum, muitas vezes, não seja tão capaz quanto os supostos filósofos, o ouvir fielmente de uma pessoa autorizada o ajudará a transcender esta existência material e a voltar ao Supremo, voltar ao lar.
Bg 13.27
यावत्सञ्जायते किञ्चित्सत्त्वं स्थावरजङ्गमम् ।
क्षेत्रक्षेत्रज्ञसंयोगात्तद्विद्धि भरतर्षभ ॥२७॥
yāvat sañjāyate kiñcit
sattvaṁ sthāvara-jaṅgamam
kṣetra-kṣetrajña-saṁyogāt
tad viddhi bharatarṣabha
yāvat—o que quer que seja; saṁjāyate—acontece; kiñcit—qualquer coisa; sattvam—existência; sthāvara—não móvel; jaṅgamam—móvel; kṣetra—o corpo; kṣetrajña—conhecedor do corpo; saṁyogāt—união entre; tat viddhi—deves saber; bharatarṣabha—ó chefe dos Bhāratas.
Ó chefe dos Bhāratas, tudo o que vires existir, tanto o que se move quanto o que não se move, é apenas a combinação do campo de atividades e do conhecedor do campo.
Tanto a natureza material quanto a entidade viva, que existiam antes da criação do cosmos, são explicadas neste verso. Tudo o que é criado nada mais é do que uma combinação da entidade viva e da natureza material. Há muitas manifestações, como árvores, montanhas e colinas, que não se movem, e há muitas existências que se movem, e todas elas nada mais são do que combinações da natureza material e da natureza superior, a entidade viva. Sem o toque da natureza superior, a entidade viva, nada pode crescer. Por isso, a relação entre a matéria e a natureza ocorre eternamente, e essa combinação é efetuada pelo Senhor Supremo; portanto, Ele é o controlador tanto da natureza superior quanto da inferior. A natureza material é criada por Ele, e a natureza superior é colocada nesta natureza material, e assim ocorrem todas estas atividades e manifestações.
Bg 13.28
समं सर्वेषु भूतेषु तिष्ठन्तं परमेश्वरम् ।
विनश्यत्स्वविनश्यन्तं यः पश्यति स पश्यति ॥२८॥
samaṁ sarveṣu bhūteṣu
tiṣṭhantaṁ parameśvaram
vinaśyatsv avinaśyantaṁ
yaḥ paśyati sa paśyati
samam—igualmente; sarveṣu—em todas; bhūteṣu—entidades vivas; tiṣṭhantam—residindo; parameśvaram—a Superalma; vinaśyatsu—no destrutível; avinaśyantam—não destruído; yaḥ—qualquer um; paśyati—vê; saḥ—ele; paśyati—realmente vê.
Aquele que vê a Superalma acompanhando a alma individual em todos os corpos, e que compreende que nem a alma nem a Superalma jamais é destruída, realmente vê.
Quem quer que possa ver três coisas — o corpo, o proprietário do corpo, ou alma individual, e o amigo da alma individual, combinados pela boa associação — está realmente em conhecimento. Aqueles que não estão associados com o amigo da alma são ignorantes; eles simplesmente veem o corpo, e, quando o corpo é destruído, pensam que tudo terminou, mas, na verdade, não é assim. Após a destruição do corpo, tanto a alma quanto a Superalma existem, e prosseguem eternamente em muitas e várias formas móveis e não móveis. A palavra sânscrita parameśvaram às vezes é traduzida como a alma individual, porque a alma é o senhor do corpo, e, após a destruição do corpo, transfere-se para outra forma. Dessa maneira, ela é senhor. Mas há outros que interpretam este parameśvaram como sendo a Superalma. Em qualquer dos casos, tanto a Superalma quanto a alma individual continuam. Não são destruídas. Aquele que pode ver dessa maneira pode realmente ver o que está acontecendo.
Bg 13.29
समं पश्यन्हि सर्वत्र समवस्थितमीश्वरम् ।
न हिनस्त्यात्मनात्मानं ततो याति परां गतिम् ॥२९॥
samaṁ paśyan hi sarvatra
samavasthitam īśvaram
na hinasty ātmanātmānaṁ
tato yāti parāṁ gatim
samam—igualmente; paśyan—vendo; hi—certamente; sarvatra—em toda parte; samavasthitam—igualmente situada; īśvaram—Superalma; na—não; hinasti—degrada; ātmanā—pela mente; ātmānam—a alma; tataḥ yāti—então alcança; parām—o transcendental; gatim—destino.
Aquele que vê a Superalma em cada ser vivo e igual em toda parte não se degrada por sua mente. Dessa forma, aproxima-se do destino transcendental.
A entidade viva, ao aceitar sua existência material como apenas tanto sofrimento, pode situar-se em sua existência espiritual. Se a pessoa compreender que o Supremo está situado em Sua manifestação Paramātmā em toda parte, isto é, se puder ver a presença da Suprema Personalidade de Deus em cada ser vivo, não se degradará e, por isso, gradualmente avançará no mundo espiritual. A mente geralmente está viciada em processos egocêntricos; mas quando ela se volta para a Superalma, a pessoa torna-se avançada na compreensão espiritual.
Bg 13.3
क्षेत्रज्ञं चापि मां विद्धि सर्वक्षेत्रेषु भारत
क्षेत्रक्षेत्रज्ञयोर्ज्ञानं यत्तज्ज्ञानं मतं मम ॥३॥
kṣetra-jñaṁ cāpi māṁ viddhi
sarva-kṣetreṣu bhārata
kṣetra-kṣetrajñayor jñānaṁ
yat taj jñānaṁ mataṁ mama
kṣetrajñam—o conhecedor; ca—também; api—certamente; mām—a Mim; viddhi—conhece; sarva—todos; kṣetreṣu—nos campos corporais; bhārata—ó descendente de Bharata; kṣetra—campo de atividades (o corpo); kṣetrajñayoḥ—o conhecedor do campo; jñānam—conhecimento; yat—aquilo que é ensinado; tat—aquilo; jñānam—conhecimento; matam—opinião; mama—Minha.
Ó descendente de Bharata, deves compreender que Eu também sou o conhecedor em todos os corpos, e compreender este corpo e seu proprietário é o que se chama conhecimento. Esta é a Minha opinião.
Ao discutirmos o tema deste corpo e do proprietário do corpo, a alma e a Superalma, encontraremos três temas distintos de estudo: o Senhor, a entidade viva e a matéria. Em cada campo de atividades, em cada corpo, há duas almas: a alma individual e a Superalma. Como a Superalma é a expansão plenária da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, Kṛṣṇa diz: “Eu também sou o conhecedor, mas não sou o proprietário individual do corpo. Sou o superconhecedor. Estou presente em cada corpo como o Paramātmā, ou Superalma.”
Aquele que estuda minuciosamente o tema do campo de atividade e do conhecedor do campo, à luz deste Bhagavad-gītā, pode alcançar o conhecimento.
O Senhor diz: “Eu sou o conhecedor do campo de atividades em cada corpo individual.” O indivíduo pode ser o conhecedor de seu próprio corpo, mas não tem conhecimento de outros corpos. A Suprema Personalidade de Deus, que está presente como a Superalma em todos os corpos, sabe tudo a respeito de todos os corpos. Ele conhece todos os diferentes corpos de todas as várias espécies de vida. Um cidadão pode saber tudo sobre seu pedaço de terra, mas o rei conhece não somente seu palácio, mas todas as propriedades possuídas pelos cidadãos individuais. De modo semelhante, pode-se ser proprietário do corpo individualmente, mas o Senhor Supremo é o proprietário de todos os corpos. O rei é o proprietário original do reino, e o cidadão é o proprietário secundário. Da mesma forma, o Senhor Supremo é o proprietário supremo de todos os corpos.
O corpo consiste em sentidos. O Senhor Supremo é Hṛṣīkeśa, o que significa controlador dos sentidos. Ele é o controlador original dos sentidos, assim como o rei é o controlador original de todas as atividades do estado, e os cidadãos são os controladores secundários. O Senhor também diz: “Eu também sou o conhecedor.” Isso significa que Ele é o superconhecedor; a alma individual conhece apenas seu corpo particular. Na literatura Védica, afirma-se o seguinte:
kṣetrāṇi hi śarīrāṇi bījaṁ cāpi śubhāśubhe
tāni vetti sa yogātmā tataḥ kṣetrajña ucyate.
Este corpo é chamado kṣetra, e dentro dele habita o proprietário do corpo e o Senhor Supremo, que conhece tanto o corpo quanto o proprietário do corpo. Por isso Ele é chamado o conhecedor de todos os campos. A distinção entre o campo de atividades, o proprietário das atividades e o supremo proprietário das atividades descreve-se da seguinte maneira. O conhecimento perfeito da constituição do corpo, da constituição da alma individual e da constituição da Superalma é conhecido na literatura Védica como jñānam. Esta é a opinião de Kṛṣṇa. Compreender que tanto a alma quanto a Superalma são uma só, e ainda assim distintas, é conhecimento. Aquele que não compreende o campo de atividade e o conhecedor da atividade não está em conhecimento perfeito. É preciso compreender a posição de prakṛti, a natureza, e de puruṣa, o desfrutador da natureza, e de īśvara, o conhecedor que domina ou controla a natureza e a alma individual. Não se devem confundir os três em suas diferentes capacidades. Não se deve confundir o pintor, a pintura e o cavalete. Este mundo material, que é o campo de atividades, é a natureza, e o desfrutador da natureza é a entidade viva, e acima de ambos está o controlador supremo, a Personalidade de Deus. Afirma-se na linguagem Védica: “bhoktā bhogyaṁ preritāraṁ ca matvā sarvaṁ proktaṁ tri-vidhaṁ brahmam etat.” Há três concepções de Brahman: prakṛti é Brahman como o campo de atividades, e a jīva (alma individual) também é Brahman e tenta controlar a natureza material, e o controlador de ambos também é Brahman, mas Ele é o controlador factual.
Neste capítulo também se explicará que, dos dois conhecedores, um é falível e o outro é infalível. Um é superior e o outro é subordinado. Aquele que entende que os dois conhecedores do campo são um só e o mesmo contradiz a Suprema Personalidade de Deus, que afirma aqui muito claramente: “Eu também sou o conhecedor do campo de atividade.” Aquele que confunde uma corda com uma serpente não está em conhecimento. Há diferentes tipos de corpos, e há diferentes proprietários dos corpos. Como cada alma individual tem sua capacidade individual de assenhorear-se da natureza material, há diferentes corpos. Mas o Supremo também está presente neles como o controlador. A palavra ca é significativa, pois indica o número total de corpos. Esta é a opinião de Śrīla Baladeva Vidyābhūṣaṇa: Kṛṣṇa é a Superalma presente em todos e cada um dos corpos, à parte da alma individual. E Kṛṣṇa diz aqui explicitamente que a Superalma é o controlador tanto do campo de atividades quanto do desfrutador finito.
Bg 13.30
प्रकृत्यैव च कर्माणि क्रियमाणानि सर्वशः ।
यः पश्यति तथात्मानमकर्तारं स पश्यति ॥३०॥
prakṛtyaiva ca karmāṇi
kriyamāṇāni sarvaśaḥ
yaḥ paśyati tathātmānam
akartāraṁ sa paśyati
prakṛtyā—natureza material; eva—certamente; ca—também; karmāṇi—atividades; kriyamāṇāni—dedicado a executar; sarvaśaḥ—em todos os aspectos; yaḥ—qualquer um que; paśyati—vê; tathā—também; ātmānam—a si mesmo; akartāram—não executor; saḥ—ele; paśyati—vê perfeitamente.
Aquele que pode ver que todas as atividades são executadas pelo corpo, que é criado da natureza material, e vê que o eu nada faz, realmente vê.
Este corpo é feito pela natureza material sob a direção da Superalma, e quaisquer atividades que ocorrem em relação ao corpo da pessoa não são feitas por ela. Tudo o que se supõe que se deva fazer, seja pela felicidade, seja pela aflição, é-se forçado a fazer devido à constituição corpórea. O eu, contudo, está fora de todas estas atividades corpóreas. Este corpo é dado conforme os desejos passados da pessoa. Para satisfazer os desejos, dá-se à pessoa o corpo, com o qual ela age conforme. Praticamente falando, o corpo é uma máquina, projetada pelo Senhor Supremo, para satisfazer os desejos. Devido aos desejos, a pessoa é colocada em circunstâncias difíceis para sofrer ou para desfrutar. Esta visão transcendental da entidade viva, quando desenvolvida, faz com que a pessoa se separe das atividades corpóreas. Aquele que tem tal visão é um vidente real.
Bg 13.31
यदा भूतपृथग्भावमेकस्थमनुपश्यति ।
तत एव च विस्तारं ब्रह्म सम्पद्यते तदा ॥३१॥
yadā bhūta-pṛthag-bhāvam
eka-stham anupaśyati
tata eva ca vistāraṁ
brahma sampadyate tadā
yadā—quando; bhūta—entidades vivas; pṛthak-bhāvam—entidades separadas; eka-stham—situadas em uma; anupaśyati—tenta ver pela autoridade; tataḥ eva—depois disso; ca—também; vistāram—expandido; brahma—o Absoluto; sampadyate—alcança; tadā—nesse momento.
Quando um homem sensato deixa de ver diferentes identidades, que se devem aos diferentes corpos materiais, alcança a concepção do Brahman. Assim, vê que os seres estão expandidos em toda parte.
Quando alguém pode ver que os vários corpos das entidades vivas surgem devido aos diferentes desejos da alma individual e não pertencem realmente à própria alma, ele realmente vê. Na concepção material da vida, encontramos alguém como semideus, alguém como ser humano, cão, gato, etc. Essa é a visão material, não a visão real. Essa diferenciação material deve-se à concepção material da vida. Após a destruição do corpo material, esta alma espiritual é uma. A alma espiritual, devido ao contato com a natureza material, recebe diferentes tipos de corpos. Quando a pessoa pode ver isso, alcança a visão espiritual; assim, livre de diferenciações como homem, animal, grande, baixo, etc., torna-se embelezada em sua consciência e capaz de desenvolver a consciência de Kṛṣṇa em sua identidade espiritual. Como, então, ela vê as coisas, será explicado no próximo verso.
Bg 13.32
अनादित्वान्निर्गुणत्वात्परमात्मायमव्ययः ।
शरीरस्थोऽपि कौन्तेय न करोति न लिप्यते ॥३२॥
anāditvān nirguṇatvāt
paramātmāyam avyayaḥ
śarīra-stho ‘pi kaunteya
na karoti na lipyate
anāditvāt—devido à eternidade; nirguṇatvāt—devido à transcendental; param—além da natureza material; ātmā—espírito; ayam—este; avyayaḥ—inesgotável; śarīra-sthaḥ api—embora habitando no corpo; kaunteya—ó filho de Kuntī; na karoti—nunca faz nada; na lipyate—nem se enreda.
Aqueles com a visão da eternidade podem ver que a alma é transcendental, eterna, e está além dos modos da natureza. Apesar do contato com o corpo material, ó Arjuna, a alma nada faz nem se enreda.
A entidade viva parece nascer devido ao nascimento do corpo material, mas, na verdade, a entidade viva é eterna; não nasce, e, apesar de estar situada num corpo material, é transcendental e eterna. Por isso, não pode ser destruída. Por natureza, é plena de bem-aventurança. Não se ocupa em quaisquer atividades materiais; por isso, as atividades executadas devido a seu contato com corpos materiais não a enredam.
Bg 13.33
यथा सर्वगतं सौक्ष्म्यादाकाशं नोपलिप्यते ।
सर्वत्रावस्थितो देहे तथात्मा नोपलिप्यते ॥३३॥
yathā sarva-gataṁ saukṣmyād
ākāśaṁ nopalipyate
sarvatrāvasthito dehe
tathātmā nopalipyate
yathā—como; sarva-gatam—onipenetrante; saukṣmyāt—devido a ser sutil; ākāśam—o céu; na—nunca; upalipyate—mistura-se; sarvatra—em toda parte; avasthitaḥ—situado; dehe—no corpo; tathā—tal; ātmā—o eu; na—nunca; upalipyate—mistura-se.
O céu, devido a sua natureza sutil, não se mistura com nada, embora seja onipenetrante. De modo semelhante, a alma, situada na visão do Brahman, não se mistura com o corpo, embora situada nesse corpo.
O ar penetra na água, na lama, nas fezes e em qualquer outra coisa que ali esteja; ainda assim, não se mistura com nada. De modo semelhante, a entidade viva, embora situada em variedades de corpos, mantém-se à parte deles devido à sua natureza sutil. Por isso, é impossível ver com olhos materiais como a entidade viva está em contato com este corpo e como sai dele após a destruição do corpo. Ninguém na ciência pode determinar isto.
Bg 13.34
यथा प्रकाशयत्येकः कृत्स्नं लोकमिमं रविः ।
क्षेत्रं क्षेत्री तथा कृत्स्नं प्रकाशयति भारत ॥३४॥
yathā prakāśayaty ekaḥ
kṛtsnaṁ lokam imaṁ raviḥ
kṣetraṁ kṣetrī tathā kṛtsnaṁ
prakāśayati bhārata
yathā—como; prakāśayati—ilumina; ekaḥ—um; kṛtsnam—todo; lokam—universo; imam—este; raviḥ—o sol, kṣetram–este corpo; kṣetrī—a alma; tathā—de modo semelhante; kṛtsnam—todo; prakāśayati—ilumina; bhārata—ó filho de Bharata.
Ó filho de Bharata, assim como o sol sozinho ilumina todo este universo, assim também a entidade viva, uma só dentro do corpo, ilumina o corpo inteiro pela consciência.
Há várias teorias a respeito da consciência. Aqui no Bhagavad-gītā, dá-se o exemplo do sol e da luz solar. Assim como o sol está situado em um lugar, mas ilumina todo o universo, do mesmo modo uma pequena partícula de alma espiritual, embora situada no coração deste corpo, ilumina o corpo inteiro pela consciência. Assim, a consciência é a prova da presença da alma, como a luz solar, ou a luz, é a prova da presença do sol.
Quando a alma está presente no corpo, há consciência por todo o corpo, e tão logo a alma tenha partido do corpo, não há mais consciência. Isto pode ser facilmente compreendido por qualquer homem inteligente. Por isso, a consciência não é uma produção das combinações da matéria. É o sintoma da entidade viva. A consciência da entidade viva, embora qualitativamente uma com a consciência suprema, não é suprema, porque a consciência de um corpo particular não compartilha a de outro corpo. Mas a Superalma, que está situada em todos os corpos como o amigo da alma individual, está consciente de todos os corpos. Esta é a diferença entre a consciência suprema e a consciência individual.
Bg 13.35
क्षेत्रक्षेत्रज्ञयोरेवमन्तरं ज्ञानचक्षुषा ।
भूतप्रकृतिमोक्षं च ये विदुर्यान्ति ते परम् ॥३५॥
kṣetra-kṣetrajñayor evam
antaraṁ jñāna-cakṣuṣā
bhūta-prakṛti-mokṣaṁ ca
ye vidur yānti te param
kṣetra—corpo; kṣetrajñayoḥ—do proprietário do corpo; evam—essa; antaram—diferença; jñāna-cakṣuṣā—pela visão do conhecimento; bhūta—entidade viva; prakṛti—natureza material; mokṣam—liberação; ca—também; ye—aquele que; viduḥ—conhece; yānti—aproxima-se; te—eles; param—Supremo.
Aquele que com conhecimento vê esta diferença entre o corpo e o proprietário do corpo, e pode compreender o processo de liberação deste cativeiro, também alcança a meta suprema.
O significado deste Décimo Terceiro Capítulo é que se deve conhecer a distinção entre o corpo, o proprietário do corpo e a Superalma. A pessoa fiel deve, em primeiro lugar, ter alguma boa associação para ouvir sobre Deus e, dessa forma, gradualmente iluminar-se. Se a pessoa aceitar um mestre espiritual, poderá aprender a distinguir entre matéria e espírito, e isto se torna o degrau para a compreensão espiritual posterior. Um mestre espiritual ensina a seus alunos a libertarem-se da concepção material da vida por meio de várias instruções. Por exemplo, no Bhagavad-gītā, encontramos Kṛṣṇa instruindo Arjuna a libertá-lo de considerações materialistas.
Pode-se compreender que este corpo é matéria; pode ser analisado com seus vinte e quatro elementos. Esta é a manifestação grosseira. E a manifestação sutil é a mente e os efeitos psicológicos. E os sintomas da vida são a interação destes traços. Mas, acima e além disto, há a alma, e há também a Superalma. A alma e a Superalma são duas. Este mundo material funciona pela conjunção da alma e dos vinte e quatro elementos materiais. Aquele que pode ver a constituição de toda a manifestação material como esta combinação da alma e dos elementos materiais e também pode ver a situação da Alma Suprema torna-se elegível à transferência para o mundo espiritual. Estas coisas destinam-se à contemplação e à compreensão, e deve-se ter uma compreensão completa deste capítulo com a ajuda do mestre espiritual.
Assim terminam os Significados Bhaktivedanta do Décimo Terceiro Capítulo do Śrīmad-Bhagavad-gītā no que se refere à Natureza, ao Desfrutador e à Consciência.
Bg 13.4
तत्क्षेत्रं यच्च यादृक्च यद्विकारि यतश्च यत् ।
स च यो यत्प्रभावश्च तत्समासेन मे शृणु ॥४॥
tat kṣetraṁ yac ca yādṛk ca
yad-vikāri yataś ca yat
sa ca yo yat-prabhāvaś ca
tat samāsena me śṛṇu
tat—esse; kṣetram—campo de atividades; yat—como; ca—também; yādṛk—tal como é; ca—também; yat—o que é; vikāri—mudanças; yataḥ—de onde; ca—também; yat—um; saḥ—ele; ca—também; yaḥ—um; yat—que; prabhāvaḥ ca—influência também; tat—isso; samāsena—em detalhe; me—de Mim; śṛṇu—compreende.
Agora ouve, por favor, Minha breve descrição deste campo de atividade e como ele se constitui, quais são suas mudanças, de onde é produzido, quem é esse conhecedor do campo de atividades e quais são suas influências.
O Senhor descreve o campo de atividades e o conhecedor do campo de atividades em suas posições constitucionais. É preciso saber como este corpo se constitui, dos materiais de que este corpo é feito, sob cujo controle este corpo trabalha, como ocorrem as mudanças, de onde provêm as mudanças, quais são as causas, quais são as razões, qual é a meta última do indivíduo e qual é a forma real da alma individual. Deve-se também conhecer a distinção entre a alma viva individual e a Superalma, as diferentes influências, suas potências, etc. Basta compreender este Bhagavad-gītā diretamente da descrição dada pela Suprema Personalidade de Deus, e tudo isso ficará esclarecido. Mas é preciso ter o cuidado de não considerar a Suprema Personalidade de Deus em cada corpo e alma individual como sendo a jīva. Isso seria algo como igualar o potente e o impotente.
Bg 13.5
ऋषिभिर्बहुधा गीतं छन्दोभिर्विविधैः पृथक् ।
ब्रह्मसूत्रपदैश्चैव हेतुमद्भिर्विनिश्चितैः ॥५॥
ṛṣibhir bahudhā gītaṁ
chandobhir vividhaiḥ pṛthak
brahma-sūtra-padaiś caiva
hetumadbhir viniścitaiḥ
ṛṣibhiḥ—pelos sábios eruditos; bahudhā—de muitas maneiras; gītām—descrito; chandobhiḥ—hinos Védicos; vividhaiḥ—em vários; pṛthak—de modos diversos; brahma-sūtra—o Vedānta; padaiḥ—aforismo; ca—também; eva—certamente; hetumadbhiḥ—com causa e efeito; viniścitaiḥ—verifica.
Esse conhecimento do campo de atividades e do conhecedor das atividades é descrito por vários sábios em diversos escritos Védicos — especialmente no Vedānta-sūtra — e é apresentado com todo o raciocínio quanto à causa e ao efeito.
A Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é a mais elevada autoridade em explicar este conhecimento. Ainda assim, como é natural, eruditos versados e autoridades reconhecidas sempre apresentam evidências de autoridades anteriores. Kṛṣṇa explica este pontilhão controverso a respeito da dualidade e da não-dualidade da alma e da Superalma referindo-Se às Escrituras, ao Vedānta, que são aceitas como autoridade. Primeiro, Ele diz que isto está de acordo com diversos sábios. Quanto aos sábios, além Dele próprio, Vyāsadeva, o autor do Vedānta-sūtra, é um grande sábio, e no Vedānta-sūtra a dualidade é perfeitamente explicada. E o pai de Vyāsadeva, Parāśara, também era um grande sábio, e em seus livros sobre religiosidade ele escreve: “aham tvaṁ ca athānye…” “Nós — você, eu e várias outras entidades vivas — somos todos transcendentais, embora estejamos em corpos materiais. Agora caímos nos modos da natureza material conforme nosso diferente karma. Por isso, alguns estão em níveis mais elevados, e outros se encontram na natureza inferior. As naturezas superior e inferior existem devido à ignorância e estão se manifestando num número infinito de entidades vivas. Mas a Superalma, que é infalível, não se contamina pelas três qualidades da natureza e é transcendental.” De modo semelhante, nos Vedas originais, faz-se uma distinção entre a alma, a Superalma e o corpo, especialmente no Kaṭha Upaniṣad.
Há uma manifestação da energia do Senhor Supremo conhecida como annamaya, pela qual se depende simplesmente do alimento para a existência. Esta é uma compreensão materialista do Supremo. Em seguida, há prāṇamaya; isso significa que, após perceber a Suprema Verdade Absoluta no alimento, pode-se perceber a Verdade Absoluta nos sintomas vivos, ou nas formas de vida. Em jñānamaya, o sintoma vivo desenvolve-se até o ponto de pensar, sentir e desejar. Depois há a compreensão do Brahman e a compreensão chamada vijñānamaya, pela qual a mente e os sintomas de vida da entidade viva distinguem-se da própria entidade viva. A etapa seguinte e suprema é ānandamaya, a compreensão da natureza plenamente bem-aventurada. Há, portanto, cinco estágios da compreensão do Brahman, que se chama brahma puccham. Destes, os três primeiros — annamaya, prāṇamaya e jñānamaya — envolvem os campos de atividades das entidades vivas. Transcendental a todos esses campos de atividades é o Senhor Supremo, que é chamado ānandamaya. No Vedānta-sūtra também, o Supremo é chamado ānandamayo ‘bhyāsāt. A Suprema Personalidade de Deus é, por natureza, plena de júbilo, e, para desfrutar de Sua bem-aventurança transcendental, expande-Se em vijñānamaya, prāṇamaya, jñānamaya e annamaya. Neste campo de atividades, a entidade viva é considerada o desfrutador, e diferente dela é o ānandamaya. Isso significa que, se a entidade viva decide desfrutar acoplando-se ao ānandamaya, então torna-se perfeita. Este é o quadro real do Senhor Supremo, como conhecedor supremo do campo, da entidade viva, como conhecedor subordinado, e da natureza do campo de atividades.
Bg 13.6-7
महाभूतान्यहंकारो बुद्धिरव्यक्तमेव च ।
इन्द्रियाणि दशैकं च पञ्च चेन्द्रियगोचराः ॥६॥
इच्छा द्वेषः सुखं दुःखं संघातश्चेतना धृतिः ।
एतत्क्षेत्रं समासेन सविकारमुदाहृतम् ॥७॥
mahā-bhūtāny ahaṅkāro
buddhir avyaktam eva ca
indriyāṇi daśaikaṁ ca
pañca cendriya-gocarāḥ
icchā dveṣaḥ sukhaṁ duḥkhaṁ
saṅghātaś cetanā dhṛtiḥ
etat kṣetraṁ samāsena
sa-vikāram udāhṛtam
mahā-bhūtāni—grandes elementos; ahaṅkāraḥ—ego falso; buddhiḥ—inteligência; avyaktam—o imanifesto; eva—certamente; ca—também; indriyāṇi—sentidos; daśa ekam—onze; ca—também; pañca—cinco; ca—também; indriya-gocarāḥ—objetos dos sentidos; icchā—desejo; dveṣaḥ—ódio; sukham—felicidade; duḥkham—aflição; saṅghataḥ—o agregado; cetanā—sintomas vivos; dhṛtiḥ—convicção; etat—tudo isto; kṣetram—campo de atividades; samāsena—em resumo; sa-vikāram—interação; udāhṛtam—exemplificado.
Os cinco grandes elementos, o ego falso, a inteligência, o imanifesto, os dez sentidos, a mente, os cinco objetos dos sentidos, o desejo, o ódio, a felicidade, a aflição, o agregado, os sintomas vivos e as convicções — tudo isto, em resumo, considera-se o campo de atividades e suas interações.
A partir de todas as afirmações autorizadas dos grandes sábios, dos hinos Védicos e dos aforismos do Vedānta-sūtra, os componentes deste mundo são a terra, a água, o fogo, o ar e o éter. Estes são os cinco grandes elementos (mahābhūta). Em seguida, há o ego falso, a inteligência e o estado imanifesto dos três modos da natureza. Depois, há cinco sentidos para adquirir conhecimento: os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua e o tato. Em seguida, cinco sentidos de trabalho: a voz, as pernas, as mãos, o ânus e os genitais. Acima dos sentidos, há a mente, que está dentro e que pode ser chamada o sentido interior. Por isso, incluindo a mente, há ao todo onze sentidos. Há, então, os cinco objetos dos sentidos: o olfato, o paladar, o calor, o tato e o som. Ora, o agregado destes vinte e quatro elementos chama-se o campo de atividade. Se a pessoa fizer um estudo analítico destes vinte e quatro temas, poderá compreender muito bem o campo de atividade. Em seguida, há o desejo, o ódio, o prazer e a dor, que são interações, representações dos cinco grandes elementos no corpo grosseiro. Os sintomas vivos, representados pela consciência e pela convicção, são a manifestação do corpo sutil — a mente, o ego e a inteligência. Estes elementos sutis estão incluídos no campo de atividades.
Os cinco grandes elementos são uma representação grosseira do ego falso sutil. Eles são uma representação na concepção material. A consciência é representada pela inteligência, cujo estado imanifesto são os três modos da natureza material. Os três modos imanifestos da natureza material chamam-se pradhāna.
Quem desejar conhecer detalhadamente os vinte e quatro elementos juntamente com suas interações deverá estudar a filosofia mais minuciosamente. No Bhagavad-gītā, dá-se apenas um resumo.
O corpo é a representação de todos esses fatores, e há mudanças no corpo, que são em número de seis: o corpo nasce, cresce, permanece, produz subprodutos, depois começa a definhar e, na última fase, desaparece. Por conseguinte, o campo é uma coisa material não permanente. Contudo, o kṣetrajña, o conhecedor do campo, seu proprietário, é diferente.
Bg 13.8-12
अमानित्वमदम्भित्वमहिंसा क्षान्तिरार्जवम् ।
आचार्योपासनं शौचं स्थैर्यमात्मविनिग्रहः ॥८॥
इन्द्रियार्थेषु वैराग्यमनहंकार एव च ।
जन्ममृत्युजराव्याधिदुःखदोषानुदर्शनम् ॥९॥
असक्तिरनभिष्वङ्गः पुत्रदारगृहादिषु ।
नित्यं च समचित्तत्वमिष्टानिष्टोपपत्तिषु ॥१०॥
मयि चानन्ययोगेन भक्तिरव्यभिचारिणी ।
विविक्तदेशसेवित्वमरतिर्जनसंसदि ॥११॥
अध्यात्मज्ञाननित्यत्वं तत्त्वज्ञानार्थदर्शनम् ।
एतज्ज्ञानमिति प्रोक्तमज्ञानं यदतोऽन्यथा ॥१२॥
amānitvam adambhitvam
ahiṁsā kṣāntir ārjavam
ācāryopāsanaṁ śaucaṁ
sthairyam ātma-vinigrahaḥ
indriyārtheṣu vairāgyam
anahaṅkāra eva ca
janma-mṛtyu-jarā-vyādhi-
duḥkha-doṣānudarśanam
asaktir anabhiṣvaṅgaḥ
putra-dāra-gṛhādiṣu
nityaṁ ca sama-cittatvam
iṣṭāniṣṭopapattiṣu
mayi cānanya-yogena
bhaktir avyabhicāriṇī
vivikta-deśa-sevitvam
aratir jana-saṁsadi
adhyātma-jñāna-nityatvaṁ
tattva-jñānārtha-darśanam
etaj jñānam iti proktam
ajñānaṁ yad ato ‘nyathā
amānitvam—humildade; adambhitvam—ausência de orgulho; ahiṁsā—não-violência; kṣāntiḥ—tolerância; ārjavam—simplicidade; ācārya-upāsanam—aproximar-se de um mestre espiritual genuíno; śaucam—limpeza; sthairyam—firmeza; ātma-vinigrahaḥ—controle; iṇdriya-artheṣu—em matéria dos sentidos; vairāgyam—renúncia; anahaṅkāraḥ—sem egoísmo falso; eva—certamente; ca—também; janma—nascimento; mṛtyu—morte; jarā—velhice; vyādhi—doença; duḥkha—aflição; doṣa—defeito; anudarśanam—observando; asaktiḥ—sem apego; anabhiṣvaṅgaḥ—sem associação; putra—filho; dāra—esposa; gṛha-ādiṣu—lar, etc.; nityam; ca—também; sama-cittatvam—equilíbrio; iṣṭa—desejável; aniṣṭaḥ—indesejável; upapattiṣu—tendo obtido; mayi—a Mim; ca—também; ananya-yogena—pelo serviço devocional; bhaktiḥ—devoção; avyabhicāriṇī—constante, imaculada; vivikta—solitário; deśa—lugar; sevitvam—aspirando; aratiḥ—sem apego; jana—pessoas em geral; saṁsadi—massa; adhyātma—pertinente ao eu; jñāna—conhecimento; nityatvam—eternidade; tattva-jñāna—conhecimento da verdade; artha—o objeto; darśanam—filosofia; etat—tudo isto; jñānam—conhecimento; iti—assim; proktam—declarado; ajñānam—ignorância; yat—aquilo que; ataḥ—disto; anyathā—outros.
Humildade, ausência de orgulho, não-violência, tolerância, simplicidade, aproximar-se de um mestre espiritual genuíno, limpeza, firmeza e autocontrole; renúncia aos objetos da gratificação dos sentidos, ausência de ego falso, percepção do mal do nascimento, da morte, da velhice e da doença; desapego de filhos, esposa, lar e o resto, equanimidade em meio a acontecimentos agradáveis e desagradáveis; devoção constante e imaculada a Mim, ir a lugares solitários, desapego da massa geral das pessoas; aceitar a importância da autorrealização, e a busca filosófica da Verdade Absoluta — tudo isto declaro, portanto, ser conhecimento, e o que se opõe a isto é ignorância.
Este processo de conhecimento é, às vezes, mal interpretado por homens menos inteligentes como sendo a interação do campo de atividade. Mas, na verdade, este é o verdadeiro processo de conhecimento. Se a pessoa aceitar este processo, então existe a possibilidade de aproximar-se da Verdade Absoluta. Esta não é a interação dos dez elementos, como se descreveu antes. Este é, de fato, o meio de sair dela. De todas as descrições do processo de conhecimento, o ponto mais importante é descrito na primeira linha do décimo verso: o processo de conhecimento culmina no serviço devocional imaculado ao Senhor. Assim, se alguém não se aproxima, ou não consegue aproximar-se, do serviço transcendental ao Senhor, então os outros dezenove itens não têm valor especial. Porém, se alguém adota o serviço devocional em plena consciência de Kṛṣṇa, os outros dezenove itens desenvolvem-se nele automaticamente. O princípio de aceitar um mestre espiritual, mencionado no sétimo verso, é essencial. Mesmo para aquele que adota o serviço devocional, é da maior importância. A vida transcendental começa quando se aceita um mestre espiritual genuíno. A Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, afirma claramente aqui que este processo de conhecimento é a verdadeira senda. Tudo o que se especula além disso é disparate.
Quanto ao conhecimento aqui delineado, os itens podem ser analisados da seguinte forma: humildade significa que não se deve estar ansioso por ter a satisfação de ser honrado pelos outros. A concepção material da vida torna-nos muito ávidos por receber honra dos outros, mas, do ponto de vista de um homem em conhecimento perfeito — que sabe que não é este corpo —, qualquer coisa, honra ou desonra, pertinente a este corpo é inútil. Não se deve almejar este engano material. As pessoas estão muito ansiosas por ficar famosas pela sua religião e, em consequência, às vezes se encontra que, sem compreender os princípios da religião, alguém entra em algum grupo, que de fato não está seguindo princípios religiosos, e depois quer anunciar-se como mentor religioso. Quanto ao avanço real na ciência espiritual, a pessoa deve dispor de um teste para ver até que ponto está progredindo. Pode julgar-se por estes itens.
A não-violência geralmente é entendida como não matar nem destruir o corpo, mas, na verdade, não-violência significa não pôr os outros em aflição. Em geral, as pessoas estão presas pela ignorância na concepção material da vida, e sofrem perpetuamente as dores materiais. Logo, a menos que se eleve as pessoas ao conhecimento espiritual, está-se praticando violência. A pessoa deve fazer o seu melhor para distribuir o verdadeiro conhecimento ao povo, para que se ilumine e abandone este enredamento material. Isso é não-violência.
Tolerância significa que a pessoa deve estar treinada para suportar insultos e desonra dos outros. Se alguém está dedicado ao avanço do conhecimento espiritual, haverá tantos insultos e tanta desonra por parte dos outros. Isto é esperado, porque a natureza material assim se constitui. Mesmo um menino como Prahlāda, que, com apenas cinco anos de idade, dedicava-se ao cultivo do conhecimento espiritual, foi posto em perigo quando seu pai tornou-se hostil à sua devoção. O pai tentou matá-lo de muitas maneiras, mas Prahlāda o tolerou. Assim, para fazer avanço no conhecimento espiritual, pode haver muitos impedimentos, mas devemos ser tolerantes e prosseguir em nosso progresso com determinação.
Simplicidade significa que, sem diplomacia, a pessoa deve ser tão franca, que possa revelar a verdade real até mesmo a um inimigo. Quanto à aceitação do mestre espiritual, isso é essencial, porque, sem a instrução de um mestre espiritual genuíno, ninguém pode progredir na ciência espiritual. Deve-se aproximar do mestre espiritual com toda humildade e oferecer-lhe todos os serviços, para que ele se sinta satisfeito em conferir suas bênçãos ao discípulo. Como um mestre espiritual genuíno é representante de Kṛṣṇa, se ele conferir quaisquer bênçãos a seu discípulo, isso fará com que o discípulo avance imediatamente, sem que o discípulo tenha de seguir os princípios reguladores. Ou então, os princípios reguladores serão mais fáceis para aquele que serviu o mestre espiritual sem reservas.
A limpeza é essencial para se fazer avanço na vida espiritual. Há dois tipos de limpeza: externa e interna. A limpeza externa significa tomar banho, mas, para a limpeza interna, é preciso pensar sempre em Kṛṣṇa e cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Este processo limpa da mente o pó acumulado do karma passado.
Firmeza significa que a pessoa deve ser muito determinada a fazer progresso na vida espiritual. Sem tal determinação, ninguém pode fazer progresso tangível. E autocontrole significa que não se deve aceitar nada que seja prejudicial à senda do progresso espiritual. Deve-se acostumar-se a isto e rejeitar tudo o que vai contra a senda do progresso espiritual. Isso é renúncia verdadeira. Os sentidos são tão fortes, que estão sempre ávidos por gratificação dos sentidos. Não se deve atender a essas exigências, que não são necessárias. Os sentidos só devem ser gratificados para manter o corpo em forma, de modo que a pessoa possa cumprir seu dever de avançar na vida espiritual. O sentido mais importante e mais incontrolável é a língua. Se alguém conseguir controlar a língua, há toda a possibilidade de controlar os outros sentidos. A função da língua é saborear e vibrar. Por isso, mediante regulação sistemática, a língua deve estar sempre ocupada em saborear os restos dos alimentos oferecidos a Kṛṣṇa e em cantar Hare Kṛṣṇa. Quanto aos olhos, não devem ser autorizados a ver nada além da bela forma de Kṛṣṇa. Isso controlará os olhos. De modo semelhante, os ouvidos devem ocupar-se em ouvir sobre Kṛṣṇa e o nariz em cheirar as flores oferecidas a Kṛṣṇa. Este é o processo do serviço devocional, e fica entendido aqui que o Bhagavad-gītā simplesmente expõe a ciência do serviço devocional. O serviço devocional é o objetivo principal e único. Comentadores pouco inteligentes do Gītā tentam desviar a mente do leitor para outros assuntos, mas não há outro assunto no Bhagavad-gītā a não ser o serviço devocional.
Ego falso significa aceitar este corpo como o eu. Quando se compreende que não se é o corpo e sim alma espiritual, isso é o ego verdadeiro. O ego está aí. O ego falso é condenado, mas não o ego verdadeiro. Na literatura Védica, diz-se: ahaṁ brahmāsmi. Eu sou Brahman, sou espírito. Este “Eu sou”, o senso de eu, também existe no estágio liberado da autorrealização. Este senso de “Eu sou” é ego, mas, quando o senso de “Eu sou” é aplicado a este corpo falso, é ego falso. Quando o senso de eu é aplicado à realidade, isso é ego verdadeiro. Há alguns filósofos que dizem que devemos abandonar nosso ego, mas não podemos abandonar nosso ego, porque ego significa identidade. Devemos, naturalmente, abandonar a identificação falsa com o corpo.
Deve-se procurar compreender a aflição de aceitar nascimento, morte, velhice e doença. Há descrições em várias literaturas Védicas a respeito do nascimento. No Śrīmad-Bhāgavatam, descrevem-se muito graficamente o mundo do não nascido, a permanência da criança no ventre da mãe, seu sofrimento, etc. Deve-se compreender perfeitamente que o nascimento é aflitivo. Como nos esquecemos de quanta aflição padecemos dentro do ventre da mãe, não fazemos qualquer solução para a repetição do nascimento e da morte. De modo semelhante, no momento da morte, há toda espécie de sofrimentos, e estes também são mencionados nas escrituras autorizadas. Estes devem ser discutidos. E quanto à doença e à velhice, todos têm experiência prática. Ninguém quer ficar doente, e ninguém quer envelhecer, mas não há como evitá-los. A menos que tenhamos uma visão pessimista desta vida material, considerando as aflições do nascimento, da morte, da velhice e da doença, não há ímpeto para que façamos avanço na vida espiritual.
Quanto ao desapego dos filhos, esposa e lar, isso não significa que se deva não ter sentimento por estes. Eles são objetos naturais de afeição, mas, quando não são favoráveis ao progresso espiritual, então não se deve estar apegado a eles. O melhor processo para tornar o lar agradável é a consciência de Kṛṣṇa. Se alguém está em plena consciência de Kṛṣṇa, pode tornar seu lar muito feliz, porque este processo da consciência de Kṛṣṇa é muito fácil. Basta cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, aceitar os restos dos alimentos oferecidos a Kṛṣṇa, ter alguma discussão sobre livros como o Bhagavad-gītā e o Śrīmad-Bhāgavatam, e ocupar-se na adoração à Deidade. Estas quatro coisas farão com que se seja feliz. Deve-se treinar os membros da família dessa maneira. Os membros da família podem sentar-se manhã e noite e cantar juntos Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Se alguém puder moldar sua vida familiar dessa maneira para desenvolver a consciência de Kṛṣṇa, seguindo estes quatro princípios, então não há necessidade de mudar da vida familiar para a vida renunciada. Mas se ela não for propícia, não favorável ao progresso espiritual, então a vida familiar deve ser abandonada. É preciso sacrificar tudo para perceber ou servir a Kṛṣṇa, exatamente como Arjuna fez. Arjuna não desejava matar os membros de sua família, mas, quando compreendeu que estes membros da família eram impedimentos à sua compreensão de Kṛṣṇa, aceitou a instrução de Kṛṣṇa, lutou e os matou. Em todos os casos, deve-se estar desapegado da felicidade e da aflição da vida familiar, porque, neste mundo, ninguém pode ser plenamente feliz nem plenamente miserável. A felicidade e a aflição são fatores concomitantes da vida material. Deve-se aprender a tolerar, como aconselha o Bhagavad-gītā. Nunca se pode restringir a chegada e a partida da felicidade e da aflição, de modo que se deve estar desapegado do modo de vida materialista e ficar automaticamente equilibrado em ambos os casos. Geralmente, quando obtemos algo desejável, ficamos muito felizes, e quando obtemos algo indesejável, ficamos aflitos. Mas se estivermos realmente na posição espiritual, estas coisas não nos agitarão. Para alcançar essa etapa, temos de praticar serviço devocional ininterrupto; serviço devocional a Kṛṣṇa sem desvio significa ocupar-se nos nove processos do serviço devocional — cantar, ouvir, adorar, oferecer respeito, etc. — como descrito no último verso do Nono Capítulo. Esse processo deve ser seguido. Naturalmente, quando a pessoa se adapta ao modo de vida espiritual, não desejará misturar-se com homens materialistas. Isso iria contra o seu temperamento. Pode-se testar a si mesmo vendo até que ponto se está inclinado a viver em um lugar solitário sem associação indesejada.
Naturalmente, um devoto não tem gosto por esportes desnecessários ou por idas a cinema ou pelo desfrute de alguma função social, porque compreende que estes são simplesmente perda de tempo. Há muitos pesquisadores e filósofos que estudam a vida sexual ou algum outro tema, mas, segundo o Bhagavad-gītā, esse trabalho de pesquisa e a especulação filosófica não têm valor. Isso é mais ou menos disparatado. De acordo com o Bhagavad-gītā, deve-se fazer pesquisa por discrição filosófica sobre a natureza da alma. Deve-se pesquisar para compreender com o que o eu está envolvido. Isso é o que se recomenda aqui.
Quanto à autorrealização, afirma-se claramente aqui que o bhakti-yoga é especialmente prático. Tão logo se trate de devoção, deve-se considerar a relação entre a Superalma e a alma individual. A alma individual e a Superalma não podem ser uma só, ao menos não na concepção do bhakti, na concepção devocional da vida. Este serviço da alma individual à Alma Suprema é eterno, nityam, como se afirma claramente. Logo, o bhakti, ou serviço devocional, é eterno. Deve-se estabelecer-se nessa convicção filosófica; caso contrário, é apenas perda de tempo, ignorância.
No Śrīmad-Bhāgavatam, isso se explica: vadanti tat tattva-vidas tattvaṁ yaj jñānam advayam. “Aqueles que de fato conhecem a Verdade Absoluta sabem que o Eu é percebido em três fases distintas como Brahman, Paramātmā e Bhagavān.” (Bhāg. 1.2.11) Bhagavān é a última palavra na compreensão da Verdade Absoluta; por isso, deve-se chegar a essa plataforma de compreensão da Suprema Personalidade de Deus e, assim, ocupar-se no serviço devocional ao Senhor. Esta é a perfeição do conhecimento.
Começando pela prática da humildade até o ponto da compreensão da Verdade Suprema, a Personalidade Absoluta de Deus, este processo é como uma escada que vai do andar térreo até o último andar. Ora, nessa escada há tantas pessoas que chegaram ao primeiro andar, ao segundo ou ao terceiro, etc., mas, a menos que se chegue ao último andar, que é a compreensão de Kṛṣṇa, está-se em um nível inferior de conhecimento. Se alguém quiser competir com Deus e, ao mesmo tempo, fazer avanço no conhecimento espiritual, ficará frustrado. Afirma-se claramente que sem humildade a compreensão é prejudicial. Achar-se Deus é o cúmulo do convencimento. Embora a entidade viva esteja sempre sendo escoiceada pelas leis estritas da natureza material, ainda assim ela pensa: “Eu sou Deus”, devido à ignorância. Deve-se ser humilde e saber que se é subordinado ao Senhor Supremo. Devido à rebeldia contra o Senhor Supremo, a pessoa torna-se subordinada à natureza material. É preciso conhecer e estar convicto desta verdade.