Capítulo 1
Bg 1.1
धृतराष्ट्र उवाच ।
धर्मक्षेत्रे कुरुक्षेत्रे समवेता युयुत्सवः ।
मामकाः पाण्डवाश्चैव किमकुर्वत सञ्जय ॥१॥
dhṛtarāṣṭra uvāca
dharma-kṣetre kuru-kṣetre
samavetā yuyutsavaḥ
māmakāḥ pāṇḍavāś caiva
kim akurvata sañjaya
dhṛtarāṣṭraḥ—o rei Dhṛtarāṣṭra; uvāca—disse; dharma-kṣetre—no lugar de peregrinação; kuru-kṣetre—no lugar chamado Kurukṣetra; samavetāḥ—reunidos; yuyatsavaḥ—desejosos de lutar; māmakāḥ—meu partido (filhos); pāṇḍavāḥ—os filhos de Pāṇḍu; ca—e; eva—certamente; kim—o que; akurvata—fizeram eles; sañjaya—ó Sañjaya.
Dhṛtarāṣṭra disse: Ó Sañjaya, depois de se reunirem no lugar de peregrinação de Kurukṣetra, desejosos de lutar, o que fizeram meus filhos e os filhos de Pāṇḍu?
O Bhagavad-gītā é a amplamente lida ciência teísta resumida no Gītā-māhātmya (Glorificação do Gītā). Ali se diz que se deve ler o Bhagavad-gītā com muito escrutínio, com a ajuda de uma pessoa que seja devota de Śrī Kṛṣṇa, e tentar compreendê-lo sem interpretações motivadas pessoalmente. O exemplo de compreensão clara está presente no próprio Bhagavad-gītā, na maneira como Arjuna, que ouviu o Gītā diretamente do Senhor, compreendeu o ensinamento. Se alguém tiver a fortuna suficiente para compreender o Bhagavad-gītā nessa linha de sucessão discipular, sem interpretação motivada, então ultrapassa todos os estudos da sabedoria Védica e todas as escrituras do mundo. O leitor encontrará no Bhagavad-gītā tudo o que se contém em outras escrituras, mas também encontrará coisas que não se acham em nenhum outro lugar. Esse é o critério específico do Gītā. Trata-se da ciência teísta perfeita porque a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Śrī Kṛṣṇa, a fala diretamente.
Os tópicos discutidos por Dhṛtarāṣṭra e Sañjaya, conforme descritos no Mahābhārata, formam o princípio básico desta grande filosofia. Sabe-se que esta filosofia evoluiu no Campo de Batalha de Kurukṣetra, que é um sagrado lugar de peregrinação desde o tempo imemorial da era Védica. Foi falada pelo Senhor quando Ele esteve presente pessoalmente neste planeta para a orientação da humanidade.
A palavra dharma-kṣetra (lugar onde se realizam rituais religiosos) é significativa porque, no Campo de Batalha de Kurukṣetra, a Suprema Personalidade de Deus estava presente do lado de Arjuna. Dhṛtarāṣṭra, o pai dos Kurus, tinha muitas dúvidas sobre a possibilidade da vitória final de seus filhos. Em sua dúvida, indagou de seu secretário Sañjaya: «O que fizeram meus filhos e os filhos de Pāṇḍu?». Estava confiante de que tanto seus filhos quanto os filhos de seu irmão mais novo, Pāṇḍu, haviam-se reunido naquele Campo de Kurukṣetra para um decidido engajamento na guerra. Ainda assim, sua indagação é significativa. Não desejava nenhuma conciliação entre os primos e irmãos, e queria estar seguro do destino de seus filhos no campo de batalha. Como a batalha fora arranjada para se travar em Kurukṣetra, mencionado em outros lugares dos Vedas como um local de adoração — inclusive para os habitantes do céu —, Dhṛtarāṣṭra ficou muito temeroso da influência do lugar sagrado sobre o desfecho da batalha. Ele sabia muito bem que isso influenciaria favoravelmente Arjuna e os filhos de Pāṇḍu, porque por natureza eram todos virtuosos. Sañjaya era discípulo de Vyāsa e, por conseguinte, pela misericórdia de Vyāsa, podia visualizar o Campo de Batalha de Kurukṣetra mesmo estando no aposento de Dhṛtarāṣṭra. E foi assim que Dhṛtarāṣṭra lhe perguntou sobre a situação no campo de batalha.
Tanto os Pāṇḍavas como os filhos de Dhṛtarāṣṭra pertenciam à mesma família, mas aqui se revela a mente de Dhṛtarāṣṭra. Ele deliberadamente reivindicou apenas seus filhos como Kurus e separou os filhos de Pāṇḍu da herança familiar. Pode-se assim compreender a posição específica de Dhṛtarāṣṭra em sua relação com os sobrinhos, os filhos de Pāṇḍu. Tal como no arrozal se arrancam as plantas desnecessárias, espera-se desde o princípio destes tópicos que, no campo religioso de Kurukṣetra, onde o pai da religião, Śrī Kṛṣṇa, estava presente, as plantas indesejadas — como o filho de Dhṛtarāṣṭra, Duryodhana, e outros — fossem extirpadas, e as pessoas plenamente religiosas, encabeçadas por Yudhiṣṭhira, fossem estabelecidas pelo Senhor. Esse é o significado das palavras dharma-kṣetre e kuru-kṣetre, à parte de sua importância histórica e Védica.
Bg 1.10
अपर्याप्तं तदस्माकं बलं भीष्माभिरक्षितम् ।
पर्याप्तं त्विदमेतेषां बलं भीमाभिरक्षितम् ॥१०॥
aparyāptaṁ tad asmākaṁ
balaṁ bhīṣmābhirakṣitam
paryāptaṁ tv idam eteṣāṁ
balaṁ bhīmābhirakṣitam
aparyāptam—incomensurável; tat—essa; asmākam—nossa; balam—força; bhīṣma—pelo avô Bhīṣma; abhirakṣitam—perfeitamente protegida; paryāptam—limitada; tu—mas; idam—toda esta; eteṣām—dos Pāṇḍavas; balam—força; bhīma—por Bhīma; abhirakṣitam—cuidadosamente protegida.
Nossa força é incomensurável, e estamos perfeitamente protegidos pelo avô Bhīṣma, ao passo que a força dos Pāṇḍavas, cuidadosamente protegida por Bhīma, é limitada.
Aqui Duryodhana faz uma estimativa da força comparativa. Pensa que a força de suas forças armadas é incomensurável, sendo especialmente protegida pelo mais experiente general, o avô Bhīṣma. Por outro lado, as forças dos Pāṇḍavas são limitadas, protegidas por um general menos experiente, Bhīma, que é como um figo na presença de Bhīṣma. Duryodhana sempre foi invejoso de Bhīma, pois sabia muito bem que, se algum dia viesse a morrer, só poderia ser morto por Bhīma. Mas, ao mesmo tempo, estava confiante em sua vitória por causa da presença de Bhīṣma, general muito superior. Sua conclusão de que sairia vitorioso da batalha era bem-assegurada.
Bg 1.11
अयनेषु च सर्वेषु यथाभागमवस्थिताः ।
भीष्ममेवाभिरक्षन्तु भवन्तः सर्व एव हि ॥११॥
ayaneṣu ca sarveṣu
yathā-bhāgam avasthitāḥ
bhīṣmam evābhirakṣantu
bhavantaḥ sarva eva hi
ayaneṣu—nos pontos estratégicos; ca—também; sarveṣu—em toda parte; yathābhāgam—conforme dispostos diferentemente; avasthitāḥ—situados; bhīṣmam—ao avô Bhīṣma; eva—certamente; abhirakṣantu—dê-se apoio; bhavantaḥ—todos vós; sarve—respectivamente; eva—certamente; hi—e exatamente.
Agora todos vós deveis prestar pleno apoio ao avô Bhīṣma, postados em vossos respectivos pontos estratégicos na falange do exército.
Duryodhana, depois de louvar a destreza de Bhīṣma, considerou também que outros poderiam julgar-se menos importantes, e por isso, em sua habitual maneira diplomática, tentou ajustar a situação com as palavras acima. Enfatizou que Bhīṣmadeva era, sem dúvida, o maior herói, mas tratava-se de um homem idoso, de modo que todos deveriam pensar especialmente em sua proteção por todos os lados. Ele poderia engajar-se no combate, e o inimigo poderia tirar vantagem de sua plena ocupação em um único flanco. Por conseguinte, era importante que os outros heróis não abandonassem suas posições estratégicas e permitissem ao inimigo romper a falange. Duryodhana sentia claramente que a vitória dos Kurus dependia da presença de Bhīṣmadeva. Estava confiante no pleno apoio de Bhīṣmadeva e Droṇācārya na batalha porque sabia muito bem que eles sequer haviam pronunciado uma palavra quando a esposa de Arjuna, Draupadī, em sua condição de desamparo, lhes havia apelado por justiça enquanto era forçada a desnudar-se na presença de todos os grandes generais na assembleia. Embora soubesse que os dois generais nutriam certa afeição pelos Pāṇḍavas, esperava que toda essa afeição fosse agora completamente abandonada por eles, como era costume durante as sessões de jogo de azar.
Bg 1.12
तस्य सञ्जनयन्हर्षं कुरुवृद्धः पितामहः ।
सिंहनादं विनद्योच्चैः शङ्खं दध्मौ प्रतापवान् ॥१२॥
tasya sañjanayan harṣaṁ
kuru-vṛddhaḥ pitāmahaḥ
siṁha-nādaṁ vinadyoccaiḥ
śaṅkhaṁ dadhmau pratāpavān
tasya—sua; sañjanayan—aumentando; harṣam—alegria; kuru-vṛddhaḥ—o ancestral da dinastia Kuru (Bhīṣma); pitāmahaḥ—o avô; siṁha-nādam—som rugidor, semelhante ao do leão; vinadya—vibrando; uccaiḥ—muito alto; śaṅkham—búzio; dadhmau—soprou; pratāpavān—o valente.
Então Bhīṣma, o grande e valente ancestral da dinastia Kuru, o avô dos lutadores, soprou seu búzio bem alto, com som semelhante ao do leão, dando alegria a Duryodhana.
O ancestral da dinastia Kuru pôde compreender o sentido íntimo do coração de seu neto Duryodhana, e por sua compaixão natural por ele, tentou alegrá-lo soprando seu búzio bem alto, condizente com sua posição de leão. Indiretamente, pelo simbolismo do búzio, informou ao deprimido neto Duryodhana que não havia possibilidade de vitória na batalha, porque o Senhor Supremo Kṛṣṇa estava do outro lado. Mas, ainda assim, era seu dever conduzir o combate, e nenhum esforço seria poupado nesse sentido.
Bg 1.13
ततः शङ्खाश्च भेर्यश्च पणवानकगोमुखाः ।
सहसैवाभ्यहन्यन्त स शब्दस्तुमुलोऽभवत् ॥१३॥
tataḥ śaṅkhāś ca bheryaś ca
paṇavānaka-gomukhāḥ
sahasaivābhyahanyanta
sa śabdas tumulo ‘bhavat
tataḥ—depois disso; śaṅkhāḥ—búzios; ca—também; bheryaḥ—clarins; ca—e; paṇava-ānaka—trombetas e tambores; go-mukhāḥ—cornetas; sahasā—de repente; eva—certamente; abhyahanyanta—sendo simultaneamente tocados; saḥ—esse; śabdaḥ—som combinado; tumulaḥ—tumultuoso; abhavat—tornou-se.
Em seguida, os búzios, os clarins, as trombetas, os tambores e as cornetas soaram todos de súbito, e o som combinado foi tumultuoso.
Bg 1.14
ततः श्वेतैर्हयैर्युक्ते महति स्यन्दने स्थितौ ।
माधवः पाण्डवश्चैव दिव्यौ शङ्खौ प्रदध्मतुः ॥१४॥
tataḥ śvetair hayair yukte
mahati syandane sthitau
mādhavaḥ pāṇḍavaś caiva
divyau śaṅkhau pradadhmatuḥ
tataḥ—depois disso; śvetaiḥ—por brancos; hayaiḥ—cavalos; yukte—sendo atrelados a; mahati—na grande; syandane—quadriga; sthitau—assim situados; mādhavaḥ—Kṛṣṇa (o esposo da deusa da fortuna); pāṇḍavaḥ—Arjuna (o filho de Pāṇḍu); ca—também; eva—certamente; divyau—transcendentais; śaṅkhau—búzios; pradadhmatuḥ—soaram.
Do outro lado, tanto o Senhor Kṛṣṇa quanto Arjuna, postados numa grande quadriga puxada por cavalos brancos, fizeram soar seus búzios transcendentais.
Em contraste com o búzio soprado por Bhīṣmadeva, os búzios nas mãos de Kṛṣṇa e de Arjuna são descritos como transcendentais. O soar dos búzios transcendentais indicava que não havia esperança de vitória para o outro lado, pois Kṛṣṇa estava do lado dos Pāṇḍavas. Jayas tu pāṇḍu-putrāṇāṁ yeṣāṁ pakṣe janārdanaḥ. A vitória está sempre com pessoas como os filhos de Pāṇḍu, porque o Senhor Kṛṣṇa está associado a eles. E sempre que e onde quer que o Senhor esteja presente, ali também está a deusa da fortuna, pois a deusa da fortuna jamais vive sozinha, sem seu esposo. Por isso, vitória e fortuna aguardavam Arjuna, como indicava o som transcendental produzido pelo búzio de Viṣṇu, ou o Senhor Kṛṣṇa. Além disso, a quadriga em que os dois amigos se encontravam fora doada por Agni (o deus do fogo) a Arjuna, e isso indicava que essa quadriga era capaz de conquistar todos os flancos, por onde quer que fosse conduzida pelos três mundos.
Bg 1.15
पाञ्चजन्यं हृषीकेशो देवदत्तं धनञ्जयः ।
पौण्ड्रं दध्मौ महाशङ्खं भीमकर्मा वृकोदरः ॥१५॥
pāñcajanyaṁ hṛṣīkeśo
devadattaṁ dhanañjayaḥ
pauṇḍraṁ dadhmau mahā-śaṅkhaṁ
bhīma-karmā vṛkodaraḥ
pāñcajanyam—o búzio chamado Pāñcajanya; hṛṣīkeśaḥ—Hṛṣīkeśa (Kṛṣṇa, o Senhor que dirige os sentidos dos devotos); devadattam—o búzio chamado Devadatta; dhanañjayaḥ—Dhanañjaya (Arjuna, o conquistador de riquezas); pauṇḍram—o búzio chamado Pauṇḍram; dadhmau—soprou; mahā-śaṅkham—o terrífico búzio; bhīma-karmā—aquele que executa tarefas hercúleas; vṛkodaraḥ—o comedor voraz (Bhīma).
Então, o Senhor Kṛṣṇa soprou Seu búzio, chamado Pāñcajanya; Arjuna soprou o seu, o Devadatta; e Bhīma, o comedor voraz e executor de tarefas hercúleas, soprou seu terrífico búzio chamado Pauṇḍram.
Neste verso, o Senhor Kṛṣṇa é referido como Hṛṣīkeśa porque é o senhor de todos os sentidos. As entidades vivas são partes integrantes Dele e, por isso, os sentidos das entidades vivas também são partes integrantes de Seus sentidos. Os impersonalistas não conseguem explicar os sentidos das entidades vivas e, por conseguinte, vivem ansiosos por descrever todas as entidades vivas como destituídas de sentidos, ou impessoais. O Senhor, situado nos corações de todas as entidades vivas, dirige seus sentidos. Mas Ele dirige conforme a entrega da entidade viva, e no caso de um devoto puro, Ele controla diretamente os sentidos. Aqui, no Campo de Batalha de Kurukṣetra, o Senhor controla diretamente os sentidos transcendentais de Arjuna, daí Seu nome particular de Hṛṣīkeśa. O Senhor tem nomes diferentes conforme Suas diferentes atividades. Por exemplo, Seu nome é Madhusūdana porque matou o demônio chamado Madhu; Seu nome é Govinda porque dá prazer às vacas e aos sentidos; Seu nome é Vāsudeva porque apareceu como filho de Vasudeva; Seu nome é Devakī-nandana porque aceitou Devakī como Sua mãe; Seu nome é Yaśodā-nandana porque outorgou Seus passatempos infantis a Yaśodā em Vṛndāvana; Seu nome é Pārtha-sārathi porque atuou como quadrigário de Seu amigo Arjuna. De modo semelhante, Seu nome é Hṛṣīkeśa porque deu orientação a Arjuna no Campo de Batalha de Kurukṣetra.
Arjuna é referido neste verso como Dhanañjaya porque ajudou seu irmão mais velho a obter riquezas quando o rei delas necessitava para realizar gastos com diversos sacrifícios. De modo semelhante, Bhīma é conhecido como Vṛkodara, pois podia comer tão vorazmente quanto podia executar tarefas hercúleas, como matar o demônio Hiḍimba. Assim, os tipos particulares de búzio soprados pelas diferentes personalidades do lado dos Pāṇḍavas, começando com o do Senhor, eram todos muito encorajadores para os soldados em combate. Do outro lado, não havia tais créditos, nem a presença do Senhor Kṛṣṇa, o diretor supremo, nem a da deusa da fortuna. Estavam, portanto, predestinados a perder a batalha — e essa foi a mensagem anunciada pelos sons dos búzios.
Bg 1.16-18
अनन्तविजयं राजा कुन्तीपुत्रो युधिष्ठिरः ।
नकुलः सहदेवश्च सुघोषमणिपुष्पकौ ॥१६॥
काश्यश्च परमेष्वासः शिखण्डी च महारथः ।
धृष्टद्युम्नो विराटश्च सात्यकिश्चापराजितः ॥१७॥
द्रुपदो द्रौपदेयाश्च सर्वशः पृथिवीपते ।
सौभद्रश्च महाबाहुः शङ्खान्दध्मुः पृथक्पृथक् ॥१८॥
anantavijayaṁ rājā
kuntī-putro yudhiṣṭhiraḥ
nakulaḥ sahadevaś ca
sughoṣa-maṇipuṣpakau
kāśyaś ca parameṣv-āsaḥ
śikhaṇḍī ca mahā-rathaḥ
dhṛṣṭadyumno virāṭaś ca
sātyakiś cāparājitaḥ
drupado draupadeyāś ca
sarvaśaḥ pṛthivī-pate
saubhadraś ca mahā-bāhuḥ
śaṅkhān dadhmuḥ pṛthak pṛthak
ananta-vijayam—o búzio chamado Ananta-vijaya; rājā—o rei; kuntī-putraḥ—o filho de Kuntī; yudhiṣṭhiraḥ—Yudhiṣṭhira; nakulaḥ—Nakula; sahadevaḥ—Sahadeva; ca—e; sughoṣa-maṇipuṣpakau—os búzios chamados Sughoṣa e Maṇipuṣpaka; kāśyaḥ—o rei de Kāśī (Vārāṇasī); ca—e; parama-iṣu-āsaḥ—o grande arqueiro; śikhaṇḍī—Śikhaṇḍī; ca—também; mahā-rathaḥ—aquele que pode lutar sozinho contra milhares; dhṛṣṭadyumnaḥ—Dhṛṣṭadyumna (filho do rei Drupada); virāṭaḥ—Virāṭa (o príncipe que abrigou os Pāṇḍavas enquanto estavam disfarçados); ca—também; sātyakiḥ—Sātyaki (o mesmo que Yuyudhāna, o quadrigário do Senhor Kṛṣṇa); ca—e; aparājitaḥ—que jamais fora vencido; drupadaḥ—Drupada, o rei de Pāñcāla; draupadeyāḥ—os filhos de Draupadī; ca—também; sarvaśaḥ—todos; pṛthivī-pate—ó rei; saubhadraḥ—Abhimanyu, o filho de Subhadrā; ca—também; mahā-bāhuḥ—de braços poderosos; śaṅkhān—búzios; dadhmuḥ—sopraram; pṛthak pṛthak—cada um separadamente.
O rei Yudhiṣṭhira, o filho de Kuntī, soprou seu búzio, o Anantavijaya, e Nakula e Sahadeva sopraram o Sughoṣa e o Maṇipuṣpaka. Aquele grande arqueiro, o rei de Kāśī, o grande lutador Śikhaṇḍī, Dhṛṣṭadyumna, Virāṭa e o invencível Sātyaki, Drupada, os filhos de Draupadī, e os demais, ó rei, como o filho de Subhadrā, de braços poderosos, todos sopraram seus respectivos búzios.
Sañjaya informou ao rei Dhṛtarāṣṭra, com muito tato, que sua imprudente política de enganar os filhos de Pāṇḍu e de empenhar-se em entronizar seus próprios filhos no trono do reino não era nada louvável. Os sinais já indicavam claramente que toda a dinastia Kuru seria morta naquela grande batalha. Desde o ancestral, Bhīṣma, até os netos como Abhimanyu e outros — incluindo reis de muitos estados do mundo —, todos estavam ali presentes, e todos estavam fadados à perdição. A catástrofe inteira devia-se ao rei Dhṛtarāṣṭra, pois ele estimulou a política seguida por seus filhos.
Bg 1.19
स घोषो धार्तराष्ट्राणां हृदयानि व्यदारयत् ।
नभश्च पृथिवीं चैव तुमुलोऽभ्यनुनादयन् ॥१९॥
sa ghoṣo dhārtarāṣṭrāṇāṁ
hṛdayāni vyadārayat
nabhaś ca pṛthivīṁ caiva
tumulo ‘bhyanunādayan
saḥ—essa; ghoṣaḥ—vibração; dhārtarāṣṭrāṇām—dos filhos de Dhṛtarāṣṭra; hṛdayāni—corações; vyadārayat—despedaçou; nabhaḥ—o céu; ca—também; pṛthivīm—a superfície da terra; ca—também; eva—certamente; tumulaḥ—estrondoso; abhyanunādayan—ao ressoar.
O soar desses diferentes búzios tornou-se estrondoso e, vibrando tanto no céu como na terra, despedaçou os corações dos filhos de Dhṛtarāṣṭra.
Quando Bhīṣma e os outros do lado de Duryodhana sopraram seus respectivos búzios, não houve dilaceração de corações por parte dos Pāṇḍavas. Tais ocorrências não são mencionadas, mas neste verso em particular se menciona que os corações dos filhos de Dhṛtarāṣṭra foram despedaçados pelos sons vibrados pelo partido dos Pāṇḍavas. Isso se deve aos Pāṇḍavas e à sua confiança no Senhor Kṛṣṇa. Quem se abriga no Senhor Supremo nada tem a temer, mesmo em meio à maior calamidade.
Bg 1.2
सञ्जय उवाच ।
दृष्ट्वा तु पाण्डवानीकं व्यूढं दुर्योधनस्तदा ।
आचार्यमुपसंगम्य राजा वचनमब्रवीत् ॥२॥
sañjaya uvāca
dṛṣṭvā tu pāṇḍavānīkaṁ
vyūḍhaṁ duryodhanas tadā
ācāryam upasaṅgamya
rājā vacanam abravīt
sañjayaḥ—Sañjaya; uvāca—disse; dṛṣṭvā—depois de ver; tu—mas; pāṇḍava-anīkam—os soldados dos Pāṇḍavas; vyūḍham—dispostos em falange militar; duryodhanaḥ—o rei Duryodhana; tadā—naquele momento; ācāryam—o mestre; upasaṅgamya—aproximando-se; rājā—o rei; vacanam—palavras; abravīt—falou.
Sañjaya disse: Ó rei, após observar o exército reunido pelos filhos de Pāṇḍu, o rei Duryodhana dirigiu-se a seu mestre e proferiu as seguintes palavras:
Dhṛtarāṣṭra era cego de nascença. Infelizmente, também estava privado de visão espiritual. Ele sabia muito bem que seus filhos eram igualmente cegos em matéria de religião, e tinha certeza de que jamais poderiam chegar a um entendimento com os Pāṇḍavas, todos piedosos desde o nascimento. Ainda assim, tinha dúvidas sobre a influência do lugar de peregrinação, e Sañjaya pôde compreender o motivo de suas indagações sobre a situação no campo de batalha. Quis, portanto, animar o abatido rei e, dessa forma, advertiu-o de que seus filhos não fariam nenhum tipo de concessão sob a influência do lugar sagrado. Sañjaya, assim sendo, informou ao rei que seu filho, Duryodhana, depois de ver a força militar dos Pāṇḍavas, foi de imediato ao comandante-em-chefe, Droṇācārya, para informá-lo da real situação. Embora Duryodhana seja mencionado como rei, ainda assim teve que ir até o comandante por causa da gravidade da situação. Era, por isso, bastante apto para ser um político. Mas a aparência diplomática de Duryodhana não pôde disfarçar o medo que sentiu ao ver a disposição militar dos Pāṇḍavas.
Bg 1.20
अथ व्यवस्थितान्दृष्ट्वा धार्तराष्ट्रान् कपिध्वजः ।
प्रवृत्ते शस्त्रसम्पाते धनुरुद्यम्य पाण्डवः ।
हृषीकेशं तदा वाक्यमिदमाह महीपते ॥२०॥
atha vyavasthitān dṛṣṭvā
dhārtarāṣṭrān kapi-dhvajaḥ
pravṛtte śastra-sampāte
dhanur udyamya pāṇḍavaḥ
hṛṣīkeśaṁ tadā vākyam
idam āha mahī-pate
atha—em seguida; vyavasthitān—situados; dṛṣṭvā—olhando para; dhārtarāṣṭrān—os filhos de Dhṛtarāṣṭra; kapi-dhvajaḥ—aquele cuja bandeira está marcada com Hanumān; pravṛtte—enquanto estava prestes a engajar-se; śastra-sampāte—as flechas disparadas; dhanuḥ—arco; udyamya—depois de empunhar; pāṇḍavaḥ—o filho de Pāṇḍu (Arjuna); hṛṣīkeśam—ao Senhor Kṛṣṇa; tadā—naquele momento; vākyam—palavras; idam—estas; āha—disse; mahī-pate—ó rei.
Ó rei, naquele momento Arjuna, o filho de Pāṇḍu, sentado em sua quadriga, com a bandeira marcada com Hanumān, empunhou seu arco e preparou-se para disparar suas flechas, olhando para os filhos de Dhṛtarāṣṭra. Ó rei, Arjuna então disse a Hṛṣīkeśa [Kṛṣṇa] estas palavras:
A batalha estava prestes a começar. Compreende-se da declaração acima que os filhos de Dhṛtarāṣṭra estavam mais ou menos desalentados pela inesperada disposição da força militar dos Pāṇḍavas, que eram guiados pelas instruções diretas do Senhor Kṛṣṇa no campo de batalha. O emblema de Hanumān na bandeira de Arjuna é outro sinal de vitória, pois Hanumān cooperou com o Senhor Rāma na batalha entre Rāma e Rāvaṇa, e o Senhor Rāma saiu vitorioso. Ora, tanto Rāma como Hanumān estavam presentes na quadriga de Arjuna para ajudá-lo. O Senhor Kṛṣṇa é o próprio Rāma, e onde quer que esteja o Senhor Rāma, ali estão presentes Seu eterno servidor Hanumān e Sua eterna consorte Sītā, a deusa da fortuna. Por isso, Arjuna não tinha motivo para temer inimigo algum. E acima de tudo, o Senhor dos sentidos, o Senhor Kṛṣṇa, estava pessoalmente presente para dar-lhe orientação. Assim, todo bom conselho estava à disposição de Arjuna na questão de executar a batalha. Em condições tão auspiciosas, dispostas pelo Senhor para Seu eterno devoto, residiam os sinais de vitória assegurada.
Bg 1.21-22
अर्जुन उवाच ।
सेनयोरुभयोर्मध्ये रथं स्थापय मेऽच्युत ॥२१॥
यावदेतान्निरीक्षेऽहं योद्धुकामानवस्थितान् ।
कैर्मया सह योद्धव्यमस्मिन् रणसमुद्यमे ॥२२॥
[1]arjuna uvāca
[1]senayor ubhayor madhye
[1]rathaṁ sthāpaya me ‘cyuta
[1]yāvad etān nirīkṣe ‘haṁ
[1]yoddhu-kāmān avasthitān
[1]kair mayā saha yoddhavyam
[1]asmin raṇa-samudyame
arjunaḥ—Arjuna; uvāca—disse; senayoḥ—dos exércitos; ubhayoḥ—de ambos os partidos; madhye—no meio deles; ratham—a quadriga; sthāpaya—por favor, mantém; me—minha; acyuta—ó infalível; yāvat—enquanto; etān—todos estes; nirīkṣe—possa olhar; aham—eu; yoddhu-kāmān—desejosos de lutar; avasthitān—postados no campo de batalha; kaiḥ—com quem; mayā—por mim; saha—com; yoddhavyam—lutar; asmin—nesta; raṇa—contenda; samudyame—na tentativa.
Arjuna disse: Ó infalível, por favor, conduze minha quadriga entre os dois exércitos para que eu possa ver quem se acha aqui presente, quem deseja lutar e com quem devo contender nesta grande tentativa de combate.
Embora o Senhor Kṛṣṇa seja a Suprema Personalidade de Deus, por Sua misericórdia imotivada Ele se ocupava no serviço de Seu amigo. Ele jamais falha em Sua afeição por Seus devotos, e por isso é aqui chamado de infalível. Como quadrigário, tinha de cumprir as ordens de Arjuna e, visto que não hesitou em fazê-lo, é chamado de infalível. Embora houvesse aceitado a posição de quadrigário de Seu devoto, Sua posição suprema não foi posta em xeque. Em todas as circunstâncias, Ele é a Suprema Personalidade de Deus, Hṛṣīkeśa, o Senhor de todos os sentidos. A relação entre o Senhor e Seu servidor é muito doce e transcendental. O servidor está sempre pronto a prestar serviço ao Senhor e, de modo semelhante, o Senhor está sempre buscando uma oportunidade para prestar algum serviço ao devoto. Ele tem maior prazer quando Seu devoto puro assume a vantajosa posição de dar-Lhe ordens do que quando é Ele próprio quem dá ordens. Como mestre, todos estão sob Suas ordens, e ninguém está acima Dele para dar-Lhe ordens. Mas, quando descobre que um devoto puro Lhe dá ordens, obtém prazer transcendental, embora seja o infalível mestre de todas as circunstâncias.
Como devoto puro do Senhor, Arjuna não tinha desejo de lutar com seus primos e irmãos, mas foi forçado a vir ao campo de batalha pela obstinação de Duryodhana, que jamais concordava com qualquer negociação pacífica. Por conseguinte, estava muito ansioso por ver quem eram as principais pessoas presentes no campo de batalha. Embora não houvesse possibilidade de uma tentativa de pacificação no campo de batalha, queria vê-las novamente e ver até que ponto estavam decididas a exigir uma guerra indesejada.
Bg 1.23
योत्स्यमानानवेक्षेऽहं य एतेऽत्र समागताः ।
धार्तराष्ट्रस्य दुर्बुद्धेर्युद्धे प्रियचिकीर्षवः ॥२३॥
yotsyamānān avekṣe ‘haṁ
ya ete ‘tra samāgatāḥ
dhārtarāṣṭrasya durbuddher
yuddhe priya-cikīrṣavaḥ
yotsyamānān—aqueles que lutarão; avekṣe—deixa-me ver; aham—eu; ye—que; ete—aqueles; atra—aqui; samāgatāḥ—reunidos; dhārtarāṣṭrasya—do filho de Dhṛtarāṣṭra; durbuddheḥ—de mente perversa; yuddhe—no combate; priya—bem; cikīrṣavaḥ—desejando.
Deixa-me ver aqueles que vieram aqui combater, desejando agradar ao perverso filho de Dhṛtarāṣṭra.
Era um segredo aberto que Duryodhana queria usurpar o reino dos Pāṇḍavas mediante planos perversos, em colaboração com seu pai, Dhṛtarāṣṭra. Por isso, todas as pessoas que se haviam unido ao lado de Duryodhana deviam ser aves do mesmo bando. Arjuna queria vê-las no campo de batalha antes que o combate começasse, apenas para saber quem eram, mas não tinha intenção de propor-lhes negociações de paz. Era também fato que queria vê-las para fazer uma estimativa da força que teria de enfrentar, embora estivesse bastante confiante na vitória, pois Kṛṣṇa achava-se sentado a seu lado.
Bg 1.24
सञ्जय उवाच ।
एवमुक्तो हृषीकेशो गुडाकेशेन भारत ।
सेनयोरुभयोर्मध्ये स्थापयित्वा रथोत्तमम् ॥२४॥
sañjaya uvāca
evam ukto hṛṣīkeśo
guḍākeśena bhārata
senayor ubhayor madhye
sthāpayitvā rathottamam
sañjayaḥ—Sañjaya; uvāca—disse; evam—assim; uktaḥ—interpelado; hṛṣīkeśaḥ—o Senhor Kṛṣṇa; guḍākeśena—por Arjuna; bhārata—ó descendente de Bharata; senayoḥ—dos exércitos; ubhayoḥ—de ambos; madhye—no meio de; sthāpayitvā—ao colocar; rathottamam—a melhor quadriga.
Sañjaya disse: Ó descendente de Bharata, sendo assim interpelado por Arjuna, o Senhor Kṛṣṇa conduziu a esplêndida quadriga ao meio dos exércitos de ambos os partidos.
Neste verso, Arjuna é chamado de Guḍākeśa. Guḍāka significa sono, e quem conquista o sono chama-se guḍākeśa. Sono significa também ignorância. Assim, Arjuna conquistou tanto o sono quanto a ignorância em virtude de sua amizade com Kṛṣṇa. Como grande devoto de Kṛṣṇa, ele não podia esquecer-se de Kṛṣṇa nem por um instante, pois essa é a natureza do devoto. Quer desperto, quer adormecido, o devoto do Senhor jamais consegue libertar-se de pensar no nome, na forma, na qualidade e nos passatempos de Kṛṣṇa. Dessa forma, o devoto de Kṛṣṇa pode conquistar tanto o sono como a ignorância simplesmente pensando em Kṛṣṇa constantemente. Isto se chama consciência de Kṛṣṇa, ou samādhi. Como Hṛṣīkeśa, ou diretor dos sentidos e da mente de toda entidade viva, Kṛṣṇa pôde compreender o propósito de Arjuna ao colocar a quadriga no meio dos exércitos. Foi o que fez, e falou da seguinte forma.
Bg 1.25
भीष्मद्रोणप्रमुखतः सर्वेषां च महीक्षिताम् ।
उवाच पार्थ पश्यैतान्समवेतान्कुरूनिति ॥२५॥
bhīṣma-droṇa-pramukhataḥ
sarveṣāṁ ca mahī-kṣitām
uvāca pārtha paśyaitān
samavetān kurūn iti
bhīṣma—o avô Bhīṣma; droṇa—o mestre Droṇa; pramukhataḥ—em frente a; sarveṣām—todos; ca—também; mahīkṣitām—chefes do mundo; uvāca—disse; pārtha—ó Pārtha (filho de Pṛthā); paśya—contempla; etān—todos eles; samavetān—reunidos; kurūn—todos os membros da dinastia Kuru; iti—assim.
Na presença de Bhīṣma, Droṇa e de todos os outros chefes do mundo, Hṛṣīkeśa, o Senhor, disse: Contempla apenas, Pārtha, todos os Kurus aqui reunidos.
Como a Superalma de todas as entidades vivas, o Senhor Kṛṣṇa pôde compreender o que se passava na mente de Arjuna. O uso da palavra Hṛṣīkeśa nesta passagem indica que Ele sabia tudo. E a palavra Pārtha, ou filho de Kuntī ou de Pṛthā, é igualmente significativa em referência a Arjuna. Como amigo, queria informar a Arjuna que, por ser ele filho de Pṛthā, irmã de Seu próprio pai, Vasudeva, havia concordado em ser quadrigário de Arjuna. Ora, o que quis dizer Kṛṣṇa quando disse a Arjuna para «contemplar os Kurus»? Acaso Arjuna queria parar ali e não combater? Kṛṣṇa jamais esperaria tais coisas do filho de Sua tia Pṛthā. A mente de Arjuna foi assim antecipada pelo Senhor numa brincadeira amigável.
Bg 1.26
तत्रापश्यत्स्थितान्पार्थः पितॄनथ पितामहान् ।
आचार्यान्मातुलान्भ्रातॄन्पुत्रान्पौत्रान्सखींस्तथा ।
श्वशुरान्सुहृदश्चैव सेनयोरुभयोरपि ॥२६॥
tatrāpaśyat sthitān pārthaḥ
pitṝn atha pitāmahān
ācāryān mātulān bhrātṝn
putrān pautrān sakhīṁs tathā
śvaśurān suhṛdaś caiva
senayor ubhayor api
tatra—ali; apaśyat—pôde ver; sthitān—postados; pārthaḥ—Arjuna; pitṝn—pais; atha—também; pitāmahān—avôs; ācāryān—mestres; mātulān—tios maternos; bhrātṝn—irmãos; putrān—filhos; pautrān—netos; sakhīn—amigos; tathā—também, śvaśurān–sogros; suhṛdaḥ—benquerentes; ca—também; eva—certamente; senayoḥ—dos exércitos; ubhayoḥ—de ambos os partidos; api—incluindo.
Ali, no meio dos exércitos de ambos os partidos, Arjuna pôde ver seus pais, avôs, mestres, tios maternos, irmãos, filhos, netos, amigos e também seu sogro e benquerentes — todos ali presentes.
No campo de batalha, Arjuna pôde ver toda espécie de parentes. Pôde ver pessoas como Bhūriśravā, contemporâneos de seu pai, os avôs Bhīṣma e Somadatta, mestres como Droṇācārya e Kṛpācārya, tios maternos como Śalya e Śakuni, irmãos como Duryodhana, filhos como Lakṣmaṇa, amigos como Aśvatthāmā, benquerentes como Kṛtavarmā, etc. Pôde ver também os exércitos, que continham muitos de seus amigos.
Bg 1.27
तान्समीक्ष्य स कौन्तेयः सर्वान्बन्धूनवस्थितान् ।
कृपया परयाविष्टो विषीदन्निदमब्रवीत् ॥२७॥
tān samīkṣya sa kaunteyaḥ
sarvān bandhūn avasthitān
kṛpayā parayāviṣṭo
viṣīdann idam abravīt
tān—todos eles; samīkṣya—depois de ver; saḥ—ele; kaunteyaḥ—o filho de Kuntī; sarvān—toda espécie de; bandhūn—parentes; avasthitān—postados; kṛpayā—pela compaixão; parayā—de alto grau; āviṣṭaḥ—dominado pela; viṣīdan—enquanto se lamentava; idam—assim; abravīt—falou.
Ao ver todos esses graus diversos de amigos e parentes, o filho de Kuntī, Arjuna, ficou dominado pela compaixão e falou assim:
Bg 1.28
अर्जुन उवाच ।
दृष्ट्वेमं स्वजनं कृष्ण युयुत्सुं समुपस्थितम् ।
सीदन्ति मम गात्राणि मुखं च परिशुष्यति ॥२८॥
arjuna uvāca
dṛṣṭvemaṁ sva-janaṁ kṛṣṇa
yuyutsuṁ samupasthitam
sīdanti mama gātrāṇi
mukhaṁ ca pariśuṣyati
arjunaḥ—Arjuna; uvāca—disse; dṛṣṭvā—depois de ver; imam—todos estes; svajanam—parentes; kṛṣṇa—ó Kṛṣṇa; yuyutsum—todos com espírito de luta; samupasthitam—todos presentes; sīdanti—trêmulos; mama—meus; gātrāṇi—membros do corpo; mukham—boca; ca—também; pariśuṣyati—secando.
Arjuna disse: Meu querido Kṛṣṇa, ao ver meus amigos e parentes diante de mim em tal espírito de luta, sinto os membros de meu corpo trêmulos e minha boca secando.
Todo homem que tenha devoção genuína ao Senhor possui todas as boas qualidades que se encontram nas pessoas piedosas ou nos semideuses, ao passo que o não devoto, por mais avançado que seja em qualificações materiais por educação e cultura, carece de qualidades piedosas. Sendo assim, Arjuna, logo após ver seus parentes, amigos e familiares no campo de batalha, foi imediatamente dominado pela compaixão por aqueles que assim haviam decidido lutar entre si. No tocante a seus soldados, era solidário desde o princípio, mas sentiu compaixão até pelos soldados do partido oposto, prevendo a morte iminente deles. E, pensando dessa forma, os membros de seu corpo começaram a tremer e sua boca ficou seca. Estava mais ou menos atônito ao ver-lhes o espírito de luta. Praticamente toda a comunidade, todos parentes consanguíneos de Arjuna, tinha vindo lutar com ele. Isso dominou um devoto bondoso como Arjuna. Embora não esteja mencionado aqui, ainda assim pode-se imaginar facilmente que não somente os membros corporais de Arjuna estavam trêmulos e sua boca secando, mas que ele também chorava por compaixão. Tais sintomas em Arjuna não se deviam à fraqueza, mas à sua ternura de coração, característica de um devoto puro do Senhor. Por isso se diz:
yasyāsti bhaktir bhagavaty akiñcanā
sarvair guṇais tatra samāsate surāḥ
harāv abhaktasya kuto mahad-guṇā
mano-rathenāsati dhāvato bahiḥ
«Quem possui devoção inabalável pela Personalidade de Deus possui todas as boas qualidades dos semideuses. Mas quem não é devoto do Senhor possui apenas qualificações materiais, de pouco valor. Isso ocorre porque vive pairando no plano mental e fatalmente é atraído pela deslumbrante energia material.» (Bhāg. 5.18.12)
Bg 1.29
वेपथुश्च शरीरे मे रोमहर्षश्च जायते ।
गाण्डीवं स्रंसते हस्तात्त्वक्चैव परिदह्यते ॥२९॥
vepathuś ca śarīre me
roma-harṣaś ca jāyate
gāṇḍīvaṁ sraṁsate hastāt
tvak caiva paridahyate
vepathuḥ—tremor do corpo; ca—também; śarīre—no corpo; me—meu; roma-harṣaḥ—arrepiamento dos cabelos; ca—também; jāyate—está ocorrendo; gāṇḍīvam—o arco de Arjuna; sraṁsate—está escorregando; hastāt—das mãos; tvak—pele; ca—também; eva—certamente; paridahyate—ardendo.
Meu corpo inteiro está tremendo, e meus cabelos estão arrepiados. Meu arco Gāṇḍīva está escorregando-me da mão, e minha pele arde.
Há dois tipos de tremor do corpo e dois tipos de arrepiamento dos cabelos. Tais fenômenos ocorrem ou em grande êxtase espiritual, ou por grande temor sob condições materiais. Não há temor na compreensão transcendental. Os sintomas de Arjuna nesta situação devem-se ao temor material — a saber, perda de vida. Isso é evidente também pelos demais sintomas: ele tornou-se tão impaciente que seu famoso arco Gāṇḍīva escorregava-lhe das mãos, e, como o coração lhe ardia por dentro, sentia uma sensação de ardor na pele. Tudo isso se deve a uma concepção material da vida.
Bg 1.3
पश्यैतां पाण्डुपुत्राणामाचार्य महतीं चमूम् ।
व्यूढां द्रुपदपुत्रेण तव शिष्येण धीमता ॥३॥
paśyaitāṁ pāṇḍu-putrāṇām
ācārya mahatīṁ camūm
vyūḍhāṁ drupada-putreṇa
tava śiṣyeṇa dhīmatā
paśya—contempla; etām—este; pāṇḍu-putrāṇām—dos filhos de Pāṇḍu; ācārya—ó mestre; mahatīm—grande; camūm—força militar; vyuḍham—disposta; drupada-putreṇa—pelo filho de Drupada; tava—teu; śiṣyeṇa—discípulo; dhīmatā—muito inteligente.
Ó meu mestre, contempla o grande exército dos filhos de Pāṇḍu, tão habilmente disposto por teu inteligente discípulo, o filho de Drupada.
Duryodhana, grande diplomata, queria apontar as deficiências de Droṇācārya, o grande brāhmaṇa comandante-em-chefe. Droṇācārya tivera certa contenda política com o rei Drupada, pai de Draupadī, esposa de Arjuna. Como resultado dessa disputa, Drupada realizou um grande sacrifício, pelo qual recebeu a bênção de ter um filho que seria capaz de matar Droṇācārya. Droṇācārya sabia disso perfeitamente bem e, contudo, como brāhmaṇa generoso, não hesitou em transmitir todos os seus segredos militares quando o filho de Drupada, Dhṛṣṭadyumna, lhe foi confiado para a educação militar. Ora, no Campo de Batalha de Kurukṣetra, Dhṛṣṭadyumna tomou o partido dos Pāṇḍavas, e foi ele quem dispôs sua falange militar, depois de ter aprendido a arte com Droṇācārya. Duryodhana apontou esse erro de Droṇācārya para que pudesse estar alerta e sem concessões na luta. Com isso, queria também indicar que ele não devia ser igualmente indulgente em batalha contra os Pāṇḍavas, que também eram alunos afetuosos de Droṇācārya. Arjuna, em especial, era seu aluno mais afetuoso e brilhante. Duryodhana advertiu, ainda, que tal indulgência no combate levaria à derrota.
Bg 1.30
न च शक्नोम्यवस्थातुं भ्रमतीव च मे मनः ।
निमित्तानि च पश्यामि विपरीतानि केशव ॥३०॥
na ca śaknomy avasthātuṁ
bhramatīva ca me manaḥ
nimittāni ca paśyāmi
viparītāni keśava
na—nem; ca—também; śaknomi—consigo; avasthātum—permanecer; bhramati—esquecendo; iva—como; ca—e; me—minha; manaḥ—mente; nimittāni—causas; ca—também; paśyāmi—prevejo; viparītāni—justo o oposto; keśava—ó matador do demônio Keśī (Kṛṣṇa).
Já não sou capaz de permanecer aqui por mais tempo. Estou esquecendo-me de mim mesmo, e minha mente vacila. Prevejo apenas o mal, ó matador do demônio Keśī.
Devido à sua impaciência, Arjuna não conseguia manter-se no campo de batalha, e estava esquecendo-se de si mesmo por causa da fraqueza de sua mente. O excessivo apego a coisas materiais coloca o homem numa desconcertante condição de existência. Bhayaṁ dvitīyābhiniveśataḥ: tal temor e perda de equilíbrio mental ocorrem em pessoas que se acham excessivamente afetadas pelas condições materiais. Arjuna vislumbrava apenas infelicidade no campo de batalha — não seria feliz nem mesmo obtendo a vitória sobre o inimigo. A palavra nimitta é significativa. Quando o homem vê apenas frustração em suas expectativas, pensa: «Por que estou aqui?». Todos se interessam por si mesmos e por seu próprio bem-estar. Ninguém se interessa pelo Eu Supremo. Espera-se que Arjuna mostre desinteresse por interesse próprio rendendo-se à vontade de Kṛṣṇa, que é o verdadeiro interesse próprio de todos. A alma condicionada esquece-se disso e, por conseguinte, sofre dores materiais. Arjuna pensava que sua vitória na batalha seria apenas causa de lamentação para ele.
Bg 1.31
न च श्रेयोऽनुपश्यामि हत्वा स्वजनमाहवे ।
न काङ्क्षे विजयं कृष्ण न च राज्यं सुखानि च ॥३१॥
na ca śreyo ‘nupaśyāmi
hatvā sva-janam āhave
na kāṅkṣe vijayaṁ kṛṣṇa
na ca rājyaṁ sukhāni ca
na—nem; ca—também; śreyaḥ—bem; anupaśyāmi—prevejo; hatvā—ao matar; svajanam—próprios parentes; āhave—no combate; na—nem; kānkṣe—desejo; vijayam—vitória; kṛṣṇa—ó Kṛṣṇa; na—nem; ca—também; rājyam—reino; sukhāni—felicidade dele decorrente; ca—também.
Não vejo como possa advir bem algum de matar meus próprios parentes nesta batalha, e tampouco posso, meu querido Kṛṣṇa, desejar qualquer subsequente vitória, reino ou felicidade.
Sem saber que o próprio interesse está em Viṣṇu (ou Kṛṣṇa), as almas condicionadas se sentem atraídas por relações corporais, esperando ser felizes em tais situações. Sob ilusão, esquecem-se de que Kṛṣṇa também é a causa da felicidade material. Arjuna parece ter esquecido até os códigos morais para um kṣatriya. Diz-se que duas espécies de homens, a saber, o kṣatriya que morre diretamente em frente do campo de batalha sob as ordens pessoais de Kṛṣṇa, e a pessoa na ordem renunciada de vida que é absolutamente devotada à cultura espiritual, são elegíveis para entrar no globo solar, que é tão poderoso e deslumbrante. Arjuna está relutante mesmo em matar seus inimigos, quanto mais seus parentes. Pensava que matando seus parentes não haveria felicidade em sua vida e, por isso, não estava disposto a lutar, assim como uma pessoa que não sente fome não se inclina a cozinhar. Decidira agora ir para a floresta e viver uma vida isolada em frustração. Mas, como kṣatriya, ele requeria um reino para sua subsistência, pois os kṣatriyas não podem ocupar-se em nenhuma outra atividade. Mas Arjuna não tinha reino. Sua única oportunidade de obter um reino consistia em lutar contra seus primos e irmãos e reaver o reino herdado de seu pai, coisa que não lhe agradava fazer. Por conseguinte, julgava-se apto a ir para a floresta viver uma vida isolada de frustração.
Bg 1.32-35
किं नो राज्येन गोविन्द किं भोगैर्जीवितेन वा ।
येषामर्थे काङ्क्षितं नो राज्यं भोगाः सुखानि च ॥३२॥
त इमेऽवस्थिता युद्धे प्राणांस्त्यक्त्वा धनानि च ।
आचार्याः पितरः पुत्रास्तथैव च पितामहाः ॥३३॥
मातुलाः श्वशुराः पौत्राः श्यालाः सम्बन्धिनस्तथा ।
एतान्न हन्तुमिच्छामि घ्नतोऽपि मधुसूदन ॥३४॥
अपि त्रैलोक्यराज्यस्य हेतोः किं नु महीकृते ।
निहत्य धार्तराष्ट्रान्नः का प्रीतिः स्याज्जनार्दन ॥३५॥
kiṁ no rājyena govinda
kiṁ bhogair jīvitena vā
yeṣām arthe kāṅkṣitaṁ no
rājyaṁ bhogāḥ sukhāni ca
ta ime ‘vasthitā yuddhe
prāṇāṁs tyaktvā dhanāni ca
ācāryāḥ pitaraḥ putrās
tathaiva ca pitāmahāḥ
mātulāḥ śvaśurāḥ pautrāḥ
śyālāḥ sambandhinas tathā
etān na hantum icchāmi
ghnato ‘pi madhusūdana
api trailokya-rājyasya
hetoḥ kiṁ nu mahī-kṛte
nihatya dhārtarāṣṭrān naḥ
kā prītiḥ syāj janārdana
kim—de que serve; naḥ—para nós; rājyena—é o reino; govinda—ó Kṛṣṇa; kim—que; bhogaiḥ—desfrute; jīvitena—pelo viver; vā—ou; yeṣām—por quem; arthe—em prol de; kāṅkṣitam—desejado; naḥ—nosso; rājyam—reino; bhogāḥ—desfrute material; sukhāni—toda felicidade; ca—também; te—todos eles; ime—estes; avasthitāḥ—postados; yuddhe—neste campo de batalha; prāṇān—vidas; tyaktvā—entregando; dhanāni—riquezas; ca—também; ācāryāḥ—mestres; pitaraḥ—pais; putrāḥ—filhos; tathā—bem como; eva—certamente; ca—também; pitāmahāḥ—avôs; mātulāḥ—tios maternos; śvaśurāḥ—sogros; pautrāḥ—netos; śyālāḥ—cunhados; sambandhinaḥ—parentes; tathā—bem como; etān—todos estes; na—nunca; hantum—matar; icchāmi—desejo; ghnataḥ—sendo mortos; api—mesmo; madhusūdana—ó matador do demônio Madhu (Kṛṣṇa); api—mesmo que; trailokya—dos três mundos; rājyasya—dos reinos; hetoḥ—em troca; kim—o que dizer de; nu—apenas; mahī-kṛte—em troca da terra; nihatya—matando; dhārtarāṣṭrān—os filhos de Dhṛtarāṣṭra; naḥ—nosso; kā—que; prītiḥ—prazer; syāt—haveria; janārdana—ó mantenedor de todas as entidades vivas.
Ó Govinda, de que nos servem reinos, felicidade ou mesmo a própria vida, quando todos aqueles para quem podemos desejá-los acham-se agora postados neste campo de batalha? Ó Madhusūdana, quando mestres, pais, filhos, avôs, tios maternos, sogros, netos, cunhados e todos os parentes estão prontos a entregar suas vidas e propriedades, postados diante de mim, por que haveria eu de desejar matá-los, ainda que eu próprio sobrevivesse? Ó mantenedor de todas as criaturas, não estou disposto a lutar com eles nem mesmo em troca dos três mundos, quanto menos desta terra.
Arjuna dirigiu-se ao Senhor Kṛṣṇa como Govinda porque Kṛṣṇa é o objeto de todos os prazeres para as vacas e os sentidos. Ao usar essa palavra significativa, Arjuna indica o que satisfará seus sentidos. Embora Govinda não se destine a satisfazer nossos sentidos, se tentarmos satisfazer os sentidos de Govinda, então automaticamente nossos próprios sentidos serão satisfeitos. Materialmente, todos querem satisfazer seus sentidos, e querem que Deus seja o fornecedor para tal satisfação. O Senhor satisfará os sentidos das entidades vivas conforme estas merecerem, mas não na medida em que cobicem. Mas, quando se segue o caminho oposto — a saber, quando se tenta satisfazer os sentidos de Govinda sem desejar a satisfação dos próprios sentidos —, então, pela graça de Govinda, todos os desejos da entidade viva são satisfeitos. A profunda afeição de Arjuna por sua comunidade e familiares é aqui exibida em parte devido à sua compaixão natural por eles. Ele, por isso, não está disposto a lutar. Todos querem mostrar sua opulência a amigos e parentes, mas Arjuna teme que todos os seus parentes e amigos sejam mortos no campo de batalha, e que ele seja incapaz de partilhar sua opulência após a vitória. Esse é um cálculo típico da vida material. A vida transcendental, contudo, é diferente. Visto que o devoto deseja satisfazer os desejos do Senhor, ele pode, querendo o Senhor, aceitar toda espécie de opulência para o serviço do Senhor, e se o Senhor não quiser, não deve aceitar nem um centavo. Arjuna não queria matar seus parentes, e se houvesse necessidade de matá-los, desejava que Kṛṣṇa o fizesse pessoalmente. Neste ponto, ele ainda não sabia que Kṛṣṇa já os havia matado antes mesmo que viessem ao campo de batalha, e que ele apenas se tornaria um instrumento para Kṛṣṇa. Esse fato é revelado nos capítulos seguintes. Como devoto natural do Senhor, Arjuna não desejava retaliar contra seus malfeitores primos e irmãos, mas era plano do Senhor que todos eles fossem mortos. O devoto do Senhor não retalia contra o malfeitor, mas o Senhor não tolera nenhuma travessura feita ao devoto pelos malfeitores. O Senhor pode desculpar uma pessoa por Sua própria conta, mas não desculpa ninguém que tenha causado dano a Seus devotos. Por conseguinte, o Senhor estava decidido a matar os malfeitores, embora Arjuna quisesse desculpá-los.
Bg 1.36
पापमेवाश्रयेदस्मान्हत्वैतानाततायिनः ।
तस्मान्नार्हा वयं हन्तुं धार्तराष्ट्रान्स्वबान्धवान् ।
स्वजनं हि कथं हत्वा सुखिनः स्याम माधव ॥३६॥
pāpam evāśrayed asmān
hatvaitān ātatāyinaḥ
tasmān nārhā vayaṁ hantuṁ
dhārtarāṣṭrān sa-bāndhavān
sva-janaṁ hi kathaṁ hatvā
sukhinaḥ syāma mādhava
pāpam—vícios; eva—certamente; āśrayet—devem recair sobre; asmān—nós; hatvā—ao matar; etān—todos estes; ātatāyinaḥ—agressores; tasmāt—portanto; na—nunca; arhāḥ—mereceríamos; vayam—nós; hantum—matar; dhārtarāṣṭrān—os filhos de Dhṛtarāṣṭra; svabāndhavān—junto com amigos; svajanam—parentes; hi—certamente; katham—como; hatvā—ao matar; sukhinaḥ—felizes; syāma—tornar-nos-íamos; mādhava—ó Kṛṣṇa, esposo da deusa da fortuna.
O pecado nos dominará se matarmos tais agressores. Por isso, não nos cabe matar os filhos de Dhṛtarāṣṭra e nossos amigos. O que ganharíamos, ó Kṛṣṇa, esposo da deusa da fortuna, e como poderíamos ser felizes matando nossos próprios parentes?
Segundo as injunções Védicas, há seis tipos de agressores: 1) aquele que ministra veneno, 2) aquele que põe fogo na casa, 3) aquele que ataca com armas mortais, 4) aquele que saqueia riquezas, 5) aquele que ocupa a terra alheia e 6) aquele que rapta a esposa. Tais agressores devem ser mortos imediatamente, e nenhum pecado se incorre ao matar tais agressores. Esse extermínio de agressores é bastante adequado a qualquer homem comum, mas Arjuna não era uma pessoa comum. Era santo de caráter e, portanto, queria tratá-los com santidade. Esse tipo de santidade, contudo, não é para um kṣatriya. Embora se exija que um homem responsável pela administração de um Estado seja santo, ele não deve ser covarde. Por exemplo, o Senhor Rāma era tão santo que as pessoas ansiavam por viver em Seu reino (Rāma-rājya), mas o Senhor Rāma jamais demonstrou covardia. Rāvaṇa foi um agressor contra Rāma, pois raptou a esposa de Rāma, Sītā, mas o Senhor Rāma deu-lhe lições suficientes, sem paralelo na história do mundo. No caso de Arjuna, contudo, deve-se considerar o tipo especial de agressores, a saber, seu próprio avô, seu próprio mestre, amigos, filhos, netos, etc. Por causa deles, Arjuna pensou que não devia tomar as severas medidas necessárias contra agressores comuns. Além disso, aconselha-se às pessoas santas que perdoem. Tais injunções para pessoas santas são mais importantes do que qualquer emergência política. Arjuna considerou que, em vez de matar seus próprios parentes por motivos políticos, seria melhor perdoá-los por razões de religião e comportamento santo. Não considerava, por isso, esse extermínio rentável apenas em prol de uma temporária felicidade corporal. Afinal, reinos e prazeres deles derivados não são permanentes; então, por que arriscaria sua vida e salvação eterna matando seus próprios parentes? O fato de Arjuna dirigir-se a Kṛṣṇa como «Mādhava», ou esposo da deusa da fortuna, é também significativo a esse respeito. Queria assinalar a Kṛṣṇa que, como esposo da deusa da fortuna, Ele não deveria induzir Arjuna a empreender uma questão que afinal traria infortúnio. Kṛṣṇa, contudo, jamais traz infortúnio a ninguém, quanto mais a Seus devotos.
Bg 1.37-38
यद्यप्येते न पश्यन्ति लोभोपहतचेतसः ।
कुलक्षयकृतं दोषं मित्रद्रोहे च पातकम् ॥३७॥
कथं न ज्ञेयमस्माभिः पापादस्मान्निवर्तितुम् ।
कुलक्षयकृतं दोषं प्रपश्यद्भिर्जनार्दन ॥३८॥
yady apy ete na paśyanti
lobhopahata-cetasaḥ
kula-kṣaya-kṛtaṁ doṣaṁ
mitra-drohe ca pātakam
kathaṁ na jñeyam asmābhiḥ
pāpād asmān nivartitum
kula-kṣaya-kṛtaṁ doṣaṁ
prapaśyadbhir janārdana
yadi—se; api—certamente; ete—eles; na—não; paśyanti—veem; lobha—ganância; upahata—dominados; cetasaḥ—os corações; kula-kṣaya—no extermínio da família; kṛtam—feita; doṣam—falta; mitra-drohe—em disputar com amigos; ca—também; pātakam—reações pecaminosas; katham—por que; na—não; jñeyam—saber isso; asmābhiḥ—por nós; pāpāt—de pecados; asmāt—nós mesmos; nivartitum—cessar; kula-kṣaya—a destruição de uma dinastia; kṛtam—por assim fazer; doṣam—crime; prapaśyadbhiḥ—por aqueles que podem ver; janārdana—ó Kṛṣṇa.
Ó Janārdana, embora estes homens, dominados pela ganância, não vejam falta alguma em matar a própria família ou em disputar com amigos, por que haveríamos nós, com conhecimento do pecado, de envolver-nos nestes atos?
Não se espera que um kṣatriya recuse batalhar ou jogar quando assim convidado por algum partido rival. Sob essa obrigação, Arjuna não podia recusar-se a lutar, pois fora desafiado pelo partido de Duryodhana. A esse respeito, Arjuna considerou que o outro partido podia estar cego para os efeitos de tal desafio. Arjuna, todavia, podia ver as consequências nefastas e não podia aceitar o desafio. A obrigação somente é, de fato, vinculante quando o efeito é bom; mas, quando o efeito é o contrário, ninguém pode estar obrigado. Considerando todos esses prós e contras, Arjuna decidiu não lutar.
Bg 1.39
कुलक्षये प्रणश्यन्ति कुलधर्माः सनातनाः ।
धर्मे नष्टे कुलं कृत्स्नमधर्मोऽभिभवत्युत ॥३९॥
kula-kṣaye praṇaśyanti
kula-dharmāḥ sanātanāḥ
dharme naṣṭe kulaṁ kṛtsnam
adharmo ‘bhibhavaty uta
kula-kṣaye—em destruir a família; praṇaśyanti—são vencidas; kula-dharmāḥ—as tradições familiares; sanātanāḥ—eternas; dharme—em religião; naṣṭe—sendo destruída; kulam—família; kṛtsnam—integralmente; adharmaḥ—irreligião; abhibhavati—transforma-se em; uta—dito está.
Com a destruição da dinastia, a eterna tradição familiar é vencida e, dessa forma, o resto da família envolve-se em prática irreligiosa.
No sistema da instituição varṇāśrama, há muitos princípios de tradições religiosas que ajudam os membros da família a crescer adequadamente e a alcançar valores espirituais. Os membros mais velhos são responsáveis por tais processos purificadores na família, do nascimento à morte. Mas com a morte dos membros mais velhos, tais tradições familiares de purificação podem cessar, e os membros mais jovens restantes podem desenvolver hábitos irreligiosos e, com isso, perder sua oportunidade de salvação espiritual. Por essa razão, em hipótese alguma se devem matar os membros mais velhos da família.
Bg 1.4
अत्र शूरा महेष्वासा भीमार्जुनसमा युधि ।
युयुधानो विराटश्च द्रुपदश्च महारथः ॥४॥
atra śūrā maheṣv-āsā
bhīmārjuna-samā yudhi
yuyudhāno virāṭaś ca
drupadaś ca mahā-rathaḥ
atra—aqui; śūrāḥ—heróis; maheṣvāsāḥ—arqueiros poderosos; bhīma-arjuna—Bhīma e Arjuna; samāḥ—iguais; yudhi—na luta; yuyudhānaḥ—Yuyudhāna; virāṭaḥ—Virāṭa; ca—também; drupadaḥ—Drupada; ca—também; mahārathaḥ—grande lutador.
Aqui neste exército há muitos arqueiros heroicos iguais em combate a Bhīma e Arjuna; há também grandes lutadores como Yuyudhāna, Virāṭa e Drupada.
Embora Dhṛṣṭadyumna não fosse um obstáculo muito importante diante do grande poder de Droṇācārya na arte militar, havia muitos outros que eram causa de temor. Duryodhana os menciona como grandes empecilhos na senda da vitória, porque cada um deles era tão formidável quanto Bhīma e Arjuna. Conhecia a força de Bhīma e Arjuna e, por isso, comparou os outros a eles.
Bg 1.40
अधर्माभिभवात्कृष्ण प्रदुष्यन्ति कुलस्त्रियः ।
स्त्रीषु दुष्टासु वार्ष्णेय जायते वर्णसङ्करः ॥४०॥
adharmābhibhavāt kṛṣṇa
praduṣyanti kula-striyaḥ
strīṣu duṣṭāsu vārṣṇeya
jāyate varṇa-saṅkaraḥ
adharma—irreligião; abhibhavāt—tendo predominado; kṛṣṇa—ó Kṛṣṇa; praduṣyanti—contaminam-se; kula-striyaḥ—senhoras da família; strīṣu—das mulheres; duṣṭāsu—assim contaminadas; vārṣṇeya—ó descendente de Vṛṣṇi; jāyate—assim sucede; varṇa-saṅkaraḥ—prole indesejada.
Quando a irreligião predomina na família, ó Kṛṣṇa, as mulheres da família contaminam-se, e da degradação das mulheres, ó descendente de Vṛṣṇi, surge a prole indesejada.
Boa população na sociedade humana é o princípio básico para a paz, prosperidade e progresso espiritual da vida. Os princípios da religião varṇāśrama foram concebidos de tal modo que a boa população prevalecesse na sociedade para o progresso espiritual geral do Estado e da comunidade. Tal população depende da castidade e fidelidade das mulheres. Assim como as crianças são muito propensas a ser desencaminhadas, as mulheres são igualmente muito propensas à degradação. Por isso, tanto crianças como mulheres requerem proteção dos membros mais velhos da família. Ocupando-se em diversas práticas religiosas, as mulheres não serão induzidas ao adultério. Segundo Cāṇakya Paṇḍita, as mulheres geralmente não são muito inteligentes e, por isso, não são confiáveis. Assim sendo, as diferentes tradições familiares de atividades religiosas devem sempre mantê-las ocupadas, e assim sua castidade e devoção darão à luz uma boa população, elegível para participar do sistema varṇāśrama. Na falência de tal varṇāśrama-dharma, as mulheres naturalmente ficam livres para agir e misturar-se com homens, e assim o adultério se pratica ao risco de uma população indesejada. Homens irresponsáveis também provocam o adultério na sociedade, e assim crianças indesejadas inundam a raça humana ao risco de guerra e pestilência.
Bg 1.41
सङ्करो नरकायैव कुलघ्नानां कुलस्य च ।
पतन्ति पितरो ह्येषां लुप्तपिण्डोदकक्रियाः ॥४१॥
saṅkaro narakāyaiva
kula-ghnānāṁ kulasya ca
patanti pitaro hy eṣāṁ
lupta-piṇḍodaka-kriyāḥ
saṅkaraḥ—tais filhos indesejados; narakāya—para a vida infernal; eva—certamente; kula-ghnānām—daqueles que são exterminadores da família; kulasya—da família; ca—também; patanti—caem; pitaraḥ—antepassados; hi—certamente; eṣām—deles; lupta—suspensas; piṇḍa—oferendas; udaka—água; kriyāḥ—realização.
Quando há aumento da população indesejada, cria-se uma situação infernal tanto para a família quanto para os que destroem a tradição familiar. Em tais famílias corruptas, não há oferenda de oblações de comida e água aos ancestrais.
Conforme as regras e regulações das atividades fruitivas, há a necessidade de se oferecer periodicamente comida e água aos antepassados da família. Essa oferenda se faz pela adoração a Viṣṇu, pois comer os restos do alimento oferecido a Viṣṇu pode livrar a pessoa de toda espécie de ações pecaminosas. Por vezes, os antepassados podem estar sofrendo diversos tipos de reações pecaminosas, e por vezes alguns deles sequer podem adquirir um corpo material grosseiro e são forçados a permanecer em corpos sutis como fantasmas. Assim, quando os restos do alimento prasādam são oferecidos aos antepassados pelos descendentes, os antepassados libertam-se da vida fantasmagórica ou de outros tipos de vida miserável. Tal auxílio prestado aos antepassados é uma tradição familiar, e aqueles que não vivem na vida devocional são obrigados a executar tais rituais. Quem se ocupa na vida devocional não é obrigado a executar tais ações. Simplesmente realizando o serviço devocional, pode-se libertar centenas e milhares de antepassados de toda espécie de miséria. No Bhāgavatam afirma-se:
devarṣi-bhūtāpta-nṛnāṁ pitṝṇāṁ
na kiṅkaro nāyamṛṇī ca rājan
sarvātmanā yaḥ śaraṇaṁ śaraṇyaṁ
gato mukundaṁ parihṛtya kartam
«Quem quer que se tenha abrigado nos pés de lótus de Mukunda, o doador da liberação, abandonando todas as obrigações, e tenha empreendido a senda com toda a seriedade, não deve deveres nem obrigações aos semideuses, sábios, entidades vivas em geral, membros da família, humanidade ou antepassados.» (Bhāg. 11.5.41) Tais obrigações cumprem-se automaticamente pela realização do serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus.
Bg 1.42
दोषैरेतैः कुलघ्नानां वर्णसङ्करकारकैः ।
उत्साद्यन्ते जातिधर्माः कुलधर्माश्च शाश्वताः ॥४२॥
doṣair etaiḥ kula-ghnānāṁ
varṇa-saṅkara-kārakaiḥ
utsādyante jāti-dharmāḥ
kula-dharmāś ca śāśvatāḥ
doṣaiḥ—por tais defeitos; etaiḥ—todos estes; kula-ghnānām—do destruidor de uma família; varṇa-saṅkara—filhos indesejados; kārakaiḥ—pelos executores; utsādyante—causa devastação; jāti-dharmāḥ—projeto comunitário; kula-dharmāḥ—tradição familiar; ca—também; śāśvatāḥ—eterna.
Devido às más obras dos destruidores da tradição familiar, toda espécie de projetos comunitários e atividades de bem-estar familiar são devastadas.
As quatro ordens da sociedade humana, combinadas com as atividades de bem-estar familiar tal como estabelecidas pela instituição do sanātana-dharma ou varṇāśrama-dharma, foram concebidas para capacitar o ser humano a alcançar a salvação última. Por conseguinte, o rompimento da tradição do sanātana-dharma por líderes irresponsáveis da sociedade traz o caos a essa sociedade, e em consequência as pessoas se esquecem do objetivo da vida — Viṣṇu. Tais líderes são chamados de cegos, e as pessoas que seguem tais líderes certamente serão conduzidas ao caos.
Bg 1.43
उत्सन्नकुलधर्माणां मनुष्याणां जनार्दन ।
नरके नियतं वासो भवतीत्यनुशुश्रुम ॥४३॥
utsanna-kula-dharmāṇāṁ
manuṣyāṇāṁ janārdana
narake niyataṁ vāso
bhavatīty anuśuśruma
utsanna—arruinadas; kula-dharmāṇām—daqueles que têm as tradições familiares; manuṣyāṇām—de tais homens; janārdana—ó Kṛṣṇa; narake—no inferno; niyatam—sempre; vāsaḥ—residência; bhavati—sucede; iti—assim; anuśuśruma—ouvi pela sucessão discipular.
Ó Kṛṣṇa, mantenedor das pessoas, ouvi pela sucessão discipular que aqueles que destroem as tradições familiares habitam para sempre no inferno.
Arjuna baseia seu argumento não em sua própria experiência pessoal, mas no que ouviu das autoridades. Esse é o caminho para receber o verdadeiro conhecimento. Não se pode atingir o verdadeiro ponto do conhecimento factual sem ser auxiliado pela pessoa correta que já se acha estabelecida nesse conhecimento. Há um sistema na instituição varṇāśrama pelo qual a pessoa tem de submeter-se ao processo de ablução antes da morte por suas atividades pecaminosas. Quem está sempre ocupado em atividades pecaminosas deve utilizar-se do processo de ablução chamado prāyaścitta. Sem fazê-lo, a pessoa será certamente transferida a planetas infernais para sofrer vidas miseráveis como resultado das atividades pecaminosas.
Bg 1.44
अहो बत महत्पापं कर्तुं व्यवसिता वयम् ।
यद्राज्यसुखलोभेन हन्तुं स्वजनमुद्यताः ॥४४॥
aho bata mahat pāpaṁ
kartuṁ vyavasitā vayam
yad rājya-sukha-lobhena
hantuṁ sva-janam udyatāḥ
ahaḥ—ai; bata—quão estranho é; mahat—grandes; pāpam—pecados; kartum—realizar; vyavasitāḥ—decididos; vayam—nós; yat—de modo que; rājya—reino; sukha-lobhena—levados pela cobiça da felicidade real; hantum—matar; svajanam—parentes; udyatāḥ—procurando.
Ai! Quão estranho é estarmos preparando-nos para cometer atos altamente pecaminosos, levados pelo desejo de desfrutar da felicidade real.
Levado por motivos egoístas, o homem pode inclinar-se a atos pecaminosos como matar o próprio irmão, pai ou mãe. Há muitos casos assim na história do mundo. Mas Arjuna, por ser um santo devoto do Senhor, é sempre consciente dos princípios morais e, por isso, toma o cuidado de evitar tais atividades.
Bg 1.45
यदि मामप्रतीकारमशस्त्रं शस्त्रपाणयः ।
धार्तराष्ट्रा रणे हन्युस्तन्मे क्षेमतरं भवेत् ॥४५॥
yadi mām apratīkāram
aśastraṁ śastra-pāṇayaḥ
dhārtarāṣṭrā raṇe hanyus
tan me kṣemataraṁ bhavet
yadi—mesmo que; mām—a mim; apratīkāram—sem oferecer resistência; aśastram—sem estar plenamente armado; śastra-pāṇayaḥ—aqueles com armas em punho; dhārtarāṣṭrāḥ—os filhos de Dhṛtarāṣṭra; raṇe—no campo de batalha; hanyuḥ—possam matar; tat—isso; me—para mim; kṣemataram—melhor; bhavet—seria.
Eu consideraria melhor que os filhos de Dhṛtarāṣṭra me matassem desarmado e sem oferecer resistência do que combater contra eles.
É costume — segundo os princípios de combate dos kṣatriyas — que um inimigo desarmado e sem disposição para a luta não seja atacado. Arjuna, contudo, em tal posição enigmática, decidiu que não lutaria, ainda que fosse atacado pelo inimigo. Não considerou o quanto o outro partido estava disposto a lutar. Todos esses sintomas se devem à ternura de coração resultante de ele ser um grande devoto do Senhor.
Bg 1.46
सञ्जय उवाच ।
एवमुक्त्वार्जुनः सङ्ख्ये रथोपस्थ उपाविशत् ।
विसृज्य सशरं चापं शोकसंविग्नमानसः ॥४६॥
sañjaya uvāca
evam uktvārjunaḥ saṅkhye
rathopastha upāviśat
visṛjya sa-śaraṁ cāpaṁ
śoka-saṁvigna-mānasaḥ
sañjayaḥ—Sañjaya; uvāca—disse; evam—assim; uktvā—dizendo; arjunaḥ—Arjuna; saṅkhye—no campo de batalha; ratha—quadriga; upasthaḥ—situado em; upāviśat—sentou-se novamente; visṛjya—pondo de lado; sa-śaram—junto com as flechas; cāpam—o arco; śoka—lamentação; saṁvigna—angustiada; mānasaḥ—dentro da mente.
Sañjaya disse: Tendo Arjuna falado dessa forma no campo de batalha, pôs de lado seu arco e flechas e sentou-se na quadriga, com a mente dominada pela tristeza.
Enquanto observava a situação de seu inimigo, Arjuna ficou de pé na quadriga, mas estava tão aflito pela lamentação que voltou a sentar-se, pondo de lado seu arco e flechas. Tal pessoa bondosa e de coração terno, no serviço devocional do Senhor, é apta a receber o conhecimento do eu.
Assim terminam os Significados Bhaktivedanta do Primeiro Capítulo do Śrīmad-Bhagavad-gītā, em que se observam os Exércitos no Campo de Batalha de Kurukṣetra.
Bg 1.5
धृष्टकेतुश्चेकितानः काशिराजश्च वीर्यवान् ।
पुरुजित्कुन्तिभोजश्च शैब्यश्च नरपुंगवः ॥५॥
dhṛṣṭaketuś cekitānaḥ
kāśirājaś ca vīryavān
purujit kuntibhojaś ca
śaibyaś ca nara-puṅgavaḥ
dhṛṣṭaketuḥ—Dhṛṣṭaketu; cekitānaḥ—Cekitāna; kāśirājaḥ—Kaśirāja; ca—também; vīryavān—muito poderoso; purujit—Purujit; kuntibhojaḥ—Kuntibhoja; ca—e; śaibyaḥ—Śaibya; ca—e; nara-puṅgavaḥ—heróis na sociedade humana.
Há também grandes, heroicos e poderosos lutadores como Dhṛṣṭaketu, Cekitāna, Kāśirāja, Purujit, Kuntibhoja e Śaibya.
Bg 1.6
युधामन्युश्च विक्रान्त उत्तमौजाश्च वीर्यवान् ।
सौभद्रो द्रौपदेयाश्च सर्व एव महारथाः ॥६॥
yudhāmanyuś ca vikrānta
uttamaujāś ca vīryavān
saubhadro draupadeyāś ca
sarva eva mahā-rathāḥ
yudhāmanyuḥ—Yudhāmanyu; ca—e; vikrāntaḥ—poderoso; uttamaujāḥ—Uttamaujā; ca—e; vīryavān—muito poderoso; saubhadraḥ—o filho de Subhadrā; draupadeyāḥ—os filhos de Draupadī; ca—e; sarve—todos; eva—certamente; mahā-rathāḥ—grandes guerreiros em quadrigas.
Estão presentes o poderoso Yudhāmanyu, o muito potente Uttamaujā, o filho de Subhadrā e os filhos de Draupadī. Todos esses guerreiros são grandes combatentes em quadrigas.
Bg 1.7
अस्माकं तु विशिष्टा ये तान्निबोध द्विजोत्तम ।
नायका मम सैन्यस्य संज्ञार्थं तान्ब्रवीमि ते ॥७॥
asmākaṁ tu viśiṣṭā ye
tān nibodha dvijottama
nāyakā mama sainyasya
saṁjñārthaṁ tān bravīmi te
asmākam—nosso; tu—mas; viśiṣṭāḥ—especialmente poderosos; ye—aqueles; tān—a eles; nibodha—toma nota, fica informado; dvijottama—o melhor dos brāhmaṇas; nāyakāḥ—capitães; mama—meus; sainyasya—dos soldados; saṁjñā-artham—para informação; tān—a eles; bravīmi—estou falando; te—a ti.
Ó melhor dos brāhmaṇas, para tua informação, deixa-me falar-te sobre os capitães especialmente qualificados para liderar minha força militar.
Bg 1.8
भवान्भीष्मश्च कर्णश्च कृपश्च समितिञ्जयः ।
अश्वत्थामा विकर्णश्च सौमदत्तिस्तथैव च ॥८॥
bhavān bhīṣmaś ca karṇaś ca
kṛpaś ca samitiṁ-jayaḥ
aśvatthāmā vikarṇaś ca
saumadattis tathaiva ca
bhavān—tu mesmo; bhīṣmaḥ—o avô Bhīṣma; ca—também; karṇaḥ—Karṇa; ca—e; kṛpaḥ—Kṛpa; ca—e; samitiñjayaḥ—sempre vitorioso em batalha; aśvatthāmā—Aśvatthāmā; vikarṇaḥ—Vikarṇa; ca—bem como; saumadattiḥ—o filho de Somadatta; tathā—e como; eva—certamente; ca—e.
Há personalidades como tu mesmo, Bhīṣma, Karṇa, Kṛpa, Aśvatthāmā, Vikarṇa e o filho de Somadatta chamado Bhuriśravā, que são sempre vitoriosos em batalha.
Duryodhana mencionou os heróis excepcionais na batalha, todos sempre vitoriosos. Vikarṇa é irmão de Duryodhana, Aśvatthāmā é filho de Droṇācārya, e Saumadatti, ou Bhūriśravā, é filho do rei dos Bāhlīkas. Karṇa é meio-irmão de Arjuna, pois nasceu de Kuntī antes de seu casamento com o rei Pāṇḍu. Kṛpācārya casou-se com a irmã gêmea de Droṇācārya.
Bg 1.9
अन्ये च बहवः शूरा मदर्थे त्यक्तजीविताः ।
नानाशस्त्रप्रहरणाः सर्वे युद्धविशारदाः ॥९॥
anye ca bahavaḥ śūrā
mad-arthe tyakta-jīvitāḥ
nānā-śastra-praharaṇāḥ
sarve yuddha-viśāradāḥ
anye—muitos outros; ca—também; bahavaḥ—em grande número; śūrāḥ—heróis; mad-arthe—em meu favor; tyakta-jīvitāḥ—prontos a arriscar a vida; nānā—muitas; śastra—armas; praharaṇāḥ—munidos de; sarve—todos eles; yuddha—batalha; viśāradāḥ—experimentados na ciência militar.
Há muitos outros heróis dispostos a entregar a vida em meu favor. Todos eles estão muito bem munidos de variadas espécies de armas, e todos têm experiência na ciência militar.
Quanto aos demais — como Jayadratha, Kṛtavarmā, Śalya, etc. —, todos estão decididos a entregar a vida em favor de Duryodhana. Em outras palavras, já se conclui que todos eles morreriam na Batalha de Kurukṣetra por se unirem ao partido do pecaminoso Duryodhana. Duryodhana, por certo, estava confiante em sua vitória, em razão da força conjunta de seus amigos, mencionada acima.