Capítulo 9

Bg 9.1

श्रीभगवानुवाच ।
इदं तु ते गुह्यतमं प्रवक्ष्याम्यनसूयवे ।
ज्ञानं विज्ञानसहितं यज्ज्ञात्वा मोक्ष्यसेऽशुभात् ॥१॥

śrī-bhagavān uvāca

idaṁ tu te guhyatamaṁ

pravakṣyāmy anasūyave

jñānaṁ vijñāna-sahitaṁ

yaj jñātvā mokṣyase ‘śubhāt

śrī bhagavan uvāca—a Suprema Personalidade de Deus disse; idam—este; tu—mas; te—a você; guhyatamam—o mais confidencial; pravakṣyāmi—estou falando; anasūyave—ao não invejoso; jñānam—conhecimento; vijñāna—conhecimento percebido; sahitam—com; yat—o qual; jñātvā—conhecendo; mokṣyase—serás liberado; aśubhāt—desta miserável existência material.

O Senhor Supremo disse: Meu querido Arjuna, porque você nunca tem inveja de Mim, transmitir-lhe-ei esta sapiência mais secreta, ao conhecer a qual você se libertará das misérias da existência material.

À medida que o devoto ouve cada vez mais sobre o Senhor Supremo, ele se torna iluminado. Esse processo de ouvir é recomendado no Śrīmad-Bhāgavatam: “As mensagens da Suprema Personalidade de Deus estão repletas de potências, e essas potências podem ser percebidas se temas referentes ao Supremo forem discutidos entre devotos. Isso não pode ser alcançado pela associação com especuladores mentais ou eruditos acadêmicos, pois trata-se de conhecimento percebido.”

Os devotos ocupam-se constantemente no serviço do Senhor Supremo. O Senhor compreende a mentalidade e a sinceridade da entidade viva específica que se ocupa em consciência de Kṛṣṇa, e dá-lhe a inteligência necessária para compreender a ciência de Kṛṣṇa em companhia dos devotos. A discussão sobre Kṛṣṇa é muito potente, e se uma pessoa afortunada tiver tal associação e tentar assimilar o conhecimento, certamente progredirá rumo à compreensão espiritual. O Senhor Kṛṣṇa, a fim de animar Arjuna a elevar-se cada vez mais em Seu potente serviço, descreve neste Nono Capítulo assuntos mais confidenciais do que quaisquer outros que já tenha revelado.

O início mesmo do Bhagavad-gītā, o Primeiro Capítulo, é mais ou menos uma introdução ao restante do livro; e no Segundo e no Terceiro Capítulos, o conhecimento espiritual descrito é chamado confidencial. Os temas tratados no Sétimo e no Oitavo Capítulos relacionam-se especificamente ao serviço devocional, e, por trazerem iluminação em consciência de Kṛṣṇa, são chamados mais confidenciais. Mas os assuntos descritos no Nono Capítulo tratam da devoção pura e imaculada. Por isso, este é chamado o mais confidencial. Aquele que se situa no mais confidencial conhecimento de Kṛṣṇa é naturalmente transcendental; portanto, não tem dores materiais, embora se encontre no mundo material. No Bhakti-rasāmṛta-sindhu afirma-se que, embora alguém com sincero desejo de prestar serviço amoroso ao Senhor Supremo se ache no estado condicional da existência material, deve ser considerado liberado. De modo semelhante, encontraremos no Bhagavad-gītā, Décimo Capítulo, que qualquer pessoa que se ocupe dessa maneira é uma pessoa liberada.

Ora, este primeiro verso tem significado específico. Conhecimento (idaṁ jñānam) refere-se ao serviço devocional puro, que consiste em nove atividades distintas: ouvir, cantar, recordar, servir, adorar, orar, obedecer, manter amizade e entregar tudo. Pela prática desses nove elementos do serviço devocional, eleva-se a pessoa à consciência espiritual, à consciência de Kṛṣṇa. Quando o coração se purifica da contaminação material, pode-se compreender esta ciência de Kṛṣṇa. Compreender simplesmente que a entidade viva não é matéria não basta. Isso pode ser o início da compreensão espiritual, mas a pessoa deve reconhecer a diferença entre as atividades do corpo e as atividades espirituais pelas quais entende que não é o corpo.

No Sétimo Capítulo, já discutimos a opulenta potência da Suprema Personalidade de Deus, Suas diferentes energias, as naturezas inferior e superior, e toda esta manifestação material. Ora, nos Capítulos Nono e Décimo, as glórias do Senhor serão delineadas.

A palavra sânscrita anasūyave neste verso também é muito significativa. Em geral, os comentadores, mesmo os mais eruditos, têm inveja de Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus. Mesmo os mais eruditos estudiosos escrevem sobre o Bhagavad-gītā de modo muito impreciso. Por terem inveja de Kṛṣṇa, seus comentários são inúteis. Os comentários feitos por devotos do Senhor são genuínos. Ninguém pode explicar o Bhagavad-gītā, nem oferecer conhecimento perfeito sobre Kṛṣṇa, se for invejoso. Quem critica o caráter de Kṛṣṇa sem conhecê-Lo é um tolo. Por conseguinte, devem-se evitar com muito cuidado tais comentários. Para quem compreender que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, a Personalidade pura e transcendental, estes capítulos serão muito proveitosos.

Bg 9.10

मयाध्यक्षेण प्रकृतिः सूयते सचराचरम् ।
हेतुनानेन कौन्तेय जगद्विपरिवर्तते ॥१०॥

mayādhyakṣeṇa prakṛtiḥ

sūyate sa-carācaram

hetunānena kaunteya

jagad viparivartate

mayā—por Mim; adhyakṣeṇa—pela superintendência; prakṛtiḥ—natureza material; sūyate—manifesta; sa—com; carācaram—móvel e imóvel; hetunā—por esta razão; anena—esta; kaunteya—ó filho de Kuntī; jagat—a manifestação cósmica; viparivartate—está funcionando.

Esta natureza material está funcionando sob Minha direção, ó filho de Kuntī, e está produzindo todos os seres móveis e imóveis. Por seu domínio, esta manifestação é criada e aniquilada repetidas vezes.

Aqui se afirma claramente que o Senhor Supremo, embora afastado de todas as atividades do mundo material, permanece o supremo diretor. O Senhor Supremo é a vontade suprema e o substrato desta manifestação material, mas a administração é conduzida pela natureza material. Kṛṣṇa também afirma no Bhagavad-gītā que de todas as entidades vivas em diferentes formas e espécies, “Eu sou o Pai”. O pai dá sementes ao ventre da mãe para o filho, e, de modo semelhante, o Senhor Supremo, por Seu mero olhar, injeta todas as entidades vivas no ventre da natureza material, e elas saem em suas diferentes formas e espécies, segundo seus últimos desejos e atividades. Todas essas entidades vivas, embora nascidas sob o olhar do Senhor Supremo, ainda assim assumem seus diferentes corpos segundo seus atos e desejos passados. Assim, o Senhor não está diretamente apegado a esta criação material. Ele apenas lança o olhar sobre a natureza material; a natureza material assim se ativa, e tudo é criado imediatamente. Por lançar o olhar sobre a natureza material, há, sem dúvida, atividade da parte do Senhor Supremo, mas Ele nada tem a ver diretamente com a manifestação do mundo material. Este exemplo é dado no smṛti: quando há uma flor perfumada diante de alguém, o aroma é tocado pelo poder olfativo da pessoa, mas o olfato e a flor estão separados um do outro. Há conexão semelhante entre o mundo material e a Suprema Personalidade de Deus; na verdade, Ele nada tem a ver com este mundo material, mas cria por Seu olhar e ordena. Em resumo, a natureza material, sem a superintendência da Suprema Personalidade de Deus, nada pode fazer. Contudo, a Suprema Personalidade está desapegada de todas as atividades materiais.

Bg 9.11

अवजानन्ति मां मूढा मानुषीं तनुमाश्रितम् ।
परं भावमजानन्तो मम भूतमहेश्वरम् ॥११॥

avajānanti māṁ mūḍhā

mānuṣīṁ tanum āśritam

paraṁ bhāvam ajānanto

mama bhūta-maheśvaram

avajānanti—zombam; mām—de Mim; mūḍhāḥ—homens tolos; mānuṣīm—em forma humana; tanum—corpo; āśritam—assumindo; param—transcendental; bhāvam—natureza; ajānantaḥ—não conhecendo; mama—Meu; bhūta—tudo o que existe; maheśvaram—supremo proprietário.

Os tolos zombam de Mim quando desço sob a forma humana. Eles não conhecem Minha natureza transcendental nem Meu domínio supremo sobre tudo o que existe.

Pelas outras explicações dos versos anteriores deste capítulo, está claro que a Suprema Personalidade de Deus, embora apareça como um ser humano, não é um homem comum. A Personalidade de Deus, que conduz a criação, manutenção e aniquilação da completa manifestação cósmica, não pode ser um ser humano. Ainda assim, há muitos homens tolos que consideram Kṛṣṇa apenas um homem poderoso e nada mais. De fato, Ele é a Suprema Personalidade original, como se confirma na Brahma-saṁhitā (iśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ); Ele é o Senhor Supremo.

Há muitos īśvaras, controladores, e um aparece maior que o outro. No comum gerenciamento dos assuntos do mundo material, encontramos algum funcionário ou diretor, e acima dele há um secretário, e acima dele um ministro, e acima dele um presidente. Cada um deles é um controlador, mas um é controlado pelo outro. Na Brahma-saṁhitā diz-se que Kṛṣṇa é o supremo controlador; há, indubitavelmente, muitos controladores tanto no mundo material como no espiritual, mas Kṛṣṇa é o supremo controlador (īśvaraḥ paramaḥ kṛṣṇaḥ), e Seu corpo é sac-cid-ānanda, não material.

Os corpos materiais não podem realizar os atos maravilhosos descritos nos versos anteriores. Seu corpo é eterno, bem-aventurado e pleno de conhecimento. Embora Ele não seja um homem comum, os tolos zombam Dele e consideram-No um homem. Seu corpo é aqui chamado mānuṣīm porque Ele age tal como um homem, um amigo de Arjuna, um político envolvido na Batalha de Kurukṣetra. De muitas maneiras, Ele age tal como um homem comum, mas, na verdade, Seu corpo é sac-cid-ānanda-vigraha — eterna bem-aventurança e conhecimento absoluto. Isto se confirma também na linguagem Védica (sac-cid-ānanda-rūpāya kṛṣṇāya): “Ofereço minhas reverências à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, que é a forma eterna e bem-aventurada do conhecimento.” Há outras descrições na linguagem Védica também. Tam ekaṁ govindam: “Tu és Govinda, o prazer dos sentidos e das vacas.” Sac-cid-ānanda-vigraham: “E Tua forma é transcendental, plena de conhecimento, bem-aventurança e eternidade.”

Apesar das qualidades transcendentais do corpo do Senhor Kṛṣṇa, sua plena bem-aventurança e conhecimento, há muitos supostos eruditos e comentadores do Bhagavad-gītā que zombam de Kṛṣṇa como um homem comum. O erudito pode ter nascido um homem extraordinário devido a seu bom trabalho anterior, mas esta concepção de Śrī Kṛṣṇa se deve a um pobre fundo de conhecimento. Por isso, ele é chamado mūḍha, pois apenas pessoas tolas consideram Kṛṣṇa um ser humano comum, porque não conhecem as atividades confidenciais do Senhor Supremo nem Suas diferentes energias. Não sabem que o corpo de Kṛṣṇa é símbolo de completo conhecimento e bem-aventurança, que Ele é o proprietário de tudo o que existe e que pode conceder liberação a qualquer um. Por não saberem que Kṛṣṇa tem tantas qualificações transcendentais, zombam Dele.

Tampouco sabem que o aparecimento da Suprema Personalidade de Deus neste mundo material é uma manifestação de Sua energia interna. Ele é o senhor da energia material. Como se explicou em várias passagens (mama māyā duratyayā), Ele afirma que a energia material, embora muito poderosa, está sob Seu controle, e quem se render a Ele pode escapar do controle desta energia material. Se uma alma rendida a Kṛṣṇa pode escapar da influência da energia material, então como pode o Senhor Supremo, que conduz a criação, manutenção e aniquilação de toda a natureza cósmica, ter um corpo material como o nosso? Por isso, esta concepção de Kṛṣṇa é completa tolice. As pessoas tolas, contudo, não podem conceber que a Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, aparecendo tal como um homem comum, possa ser o controlador de todos os átomos e da gigantesca manifestação da forma universal. O maior e o mais minúsculo estão além de sua concepção, de modo que não podem imaginar que uma forma como a de um ser humano possa simultaneamente controlar o infinito e o minúsculo. Na verdade, embora controle o infinito e o finito, Ele está à parte de toda esta manifestação. Afirma-se claramente, a respeito de Seu yogam aiśvaram, Sua inconcebível energia transcendental, que Ele pode controlar o infinito e o finito simultaneamente e que pode manter-Se à parte deles. Embora os tolos não possam imaginar como Kṛṣṇa, que aparece tal como um ser humano, possa controlar o infinito e o finito, aqueles que são devotos puros aceitam isto, pois sabem que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Por isso, rendem-se completamente a Ele e ocupam-se em consciência de Kṛṣṇa, em serviço devocional ao Senhor.

Há muitas controvérsias entre os impersonalistas e os personalistas acerca do aparecimento do Senhor como ser humano. Mas, se consultarmos o Bhagavad-gītā e o Śrīmad-Bhāgavatam, os textos autorizados para se compreender a ciência de Kṛṣṇa, então poderemos compreender que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Ele não é um homem comum, embora apareça nesta terra como um ser humano comum. No Śrīmad-Bhāgavatam, Primeiro Canto, Primeiro Capítulo, quando os sábios perguntam sobre as atividades de Kṛṣṇa, afirma-se que Seu aparecimento como homem desconcerta os tolos. Nenhum ser humano poderia realizar os atos maravilhosos que Kṛṣṇa realizou enquanto esteve presente nesta terra. Quando Kṛṣṇa apareceu diante de Seu pai e Sua mãe, Vasudeva e Devakī, Ele apareceu com quatro mãos, mas, após as orações dos pais, transformou-Se numa criança comum. Seu aparecimento como ser humano comum é um dos traços de Seu corpo transcendental. No Décimo Primeiro Capítulo do Gītā também se afirma, tenaiva rūpeṇa etc. Arjuna orou para ver novamente aquela forma de quatro mãos, e quando Kṛṣṇa foi assim solicitado por Arjuna, novamente assumiu Sua forma original. Todos esses diferentes traços do Senhor Supremo certamente não são os de um ser humano comum.

Alguns daqueles que zombam de Kṛṣṇa, infectados pela filosofia māyāvādī, citam o seguinte verso do Śrīmad-Bhāgavatam para provar que Kṛṣṇa é apenas um homem comum: ahaṁ sarveṣu bhūteṣu bhūtātmāvasthitaḥ sadā: “O Supremo está presente em cada entidade viva.” (Bhāg. 3.29.21) Faríamos melhor em tomar nota deste verso particular dos vaiṣṇava ācāryas, como Jīva Gosvāmī, em vez de seguirmos a interpretação de pessoas não autorizadas que zombam de Kṛṣṇa. Jīva Gosvāmī, comentando este verso, diz que Kṛṣṇa, em Sua expansão plenária como Paramātmā, está situado nas entidades móveis e imóveis como a Superalma; portanto, qualquer devoto neófito que apenas dê atenção à arca-mūrti, a forma do Senhor Supremo no templo, e não respeite as outras entidades vivas, está adorando inutilmente a forma do Senhor no templo. Há três classes de devotos do Senhor, e o neófito está no estágio mais baixo. O devoto neófito dá mais atenção à Deidade no templo do que aos outros devotos; assim sendo, Jīva Gosvāmī adverte que esse tipo de mentalidade deve ser corrigido. O devoto deve ver que Kṛṣṇa está presente no coração de todos como Paramātmā; portanto, todo corpo é a personificação ou o templo do Senhor Supremo, e, como tal, assim como se oferece respeito ao templo do Senhor, deve-se igualmente respeitar adequadamente todo e qualquer corpo no qual o Paramātmā habita. Todos, portanto, devem receber o respeito devido e não devem ser negligenciados.

Há também muitos impersonalistas que zombam da adoração no templo. Dizem que, visto que Deus está em toda parte, por que se restringir à adoração no templo? Mas, se Deus está em toda parte, não está Ele no templo ou na Deidade? Embora o personalista e o impersonalista lutem entre si perpetuamente, um devoto perfeito em consciência de Kṛṣṇa sabe que, embora Kṛṣṇa seja a Suprema Personalidade, Ele é onipenetrante, como se confirma na Brahma-saṁhitā. Embora Sua morada pessoal seja Goloka Vṛndāvana e Ele esteja sempre lá, ainda assim, por Suas diferentes manifestações de energia e por Sua expansão plenária, Ele está presente em toda parte, em todas as partes da criação material e espiritual.

Bg 9.12

मोघाशा मोघकर्माणो मोघज्ञाना विचेतसः ।
राक्षसीमासुरीं चैव प्रकृतिं मोहिनीं श्रिताः ॥१२॥

moghāśā mogha-karmāṇo

mogha-jñānā vicetasaḥ

rākṣasīm āsurīṁ caiva

prakṛtiṁ mohinīṁ śritāḥ

moghāśāḥ—esperanças frustradas; mogha-karmāṇaḥ—frustrados em atividades fruitivas; mogha-jñānāḥ—frustrados em conhecimento; vicetasaḥ—desconcertados; rākṣasīm—demoníaca; āsurīm—ateísta; ca—e; eva—certamente; prakṛtim—natureza; mohinīm—desconcertante; śritāḥ—refugiando-se em.

Aqueles que assim se acham desconcertados são atraídos por concepções demoníacas e ateístas. Em tal condição iludida, suas esperanças de liberação, suas atividades fruitivas e seu cultivo de conhecimento ficam todos derrotados.

Há muitos devotos que se supõem em consciência de Kṛṣṇa e em serviço devocional, mas que, no íntimo, não aceitam a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, como a Verdade Absoluta. Para eles, o fruto do serviço devocional — voltar ao Supremo — nunca será saboreado. De modo semelhante, aqueles que se ocupam em atividades fruitivas e piedosas, e que em última análise esperam libertar-se deste enredamento material, jamais terão êxito tampouco, pois zombam da Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Em outras palavras, devem-se compreender como demoníacas ou ateístas as pessoas que zombam de Kṛṣṇa. Como se descreve no Sétimo Capítulo do Bhagavad-gītā, tais malfeitores demoníacos jamais se rendem a Kṛṣṇa. Por isso, suas especulações mentais para chegar à Verdade Absoluta levam-nos à falsa conclusão de que a entidade viva comum e Kṛṣṇa são idênticos. Com tal falsa convicção, eles pensam que o corpo de qualquer ser humano se acha agora apenas coberto pela natureza material, e que, tão logo a pessoa se liberte deste corpo material, não há diferença entre Deus e ela mesma. Esta tentativa de tornar-se um com Kṛṣṇa será frustrada por causa da ilusão. Tal cultivo ateísta e demoníaco de conhecimento espiritual é sempre fútil. Esta é a indicação deste verso. Para tais pessoas, o cultivo do conhecimento na literatura Védica, como o Vedānta-sūtra e os Upaniṣads, é sempre frustrado.

É, portanto, uma grande ofensa considerar Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, um homem comum. Aqueles que assim agem certamente estão iludidos, pois não podem compreender a forma eterna de Kṛṣṇa. No Bṛhad-vaiṣṇava mantra afirma-se claramente que aquele que considera o corpo de Kṛṣṇa material deve ser expulso de todos os rituais e atividades do śruti. E, se acaso vir-lhe o rosto, deve banhar-se imediatamente no Ganges para livrar-se da infecção. As pessoas zombam de Kṛṣṇa porque têm inveja da Suprema Personalidade de Deus. Seu destino é certamente nascer vida após vida nas espécies de vida ateísta e demoníaca. Perpetuamente, seu verdadeiro conhecimento permanecerá sob ilusão e, gradualmente, regredirão à mais escura região da criação.

Bg 9.13

महात्मानस्तु मां पार्थ दैवीं प्रकृतिमाश्रिताः ।
भजन्त्यनन्यमनसो ज्ञात्वा भूतादिमव्ययम् ॥१३॥

mahātmānas tu māṁ pārtha

daivīṁ prakṛtim āśritāḥ

bhajanty ananya-manaso

jñātvā bhūtādim avyayam

mahātmānaḥ—as grandes almas; tu—mas; mām—a Mim; pārtha—ó filho de Pṛthā; daivīm—divina; prakṛtim—natureza; āśritāḥ—refugiando-se em; bhajanti—prestam serviço; ananya-manasaḥ—sem desvio da mente; jñātvā—conhecendo; bhūta—criação; ādim—origem; avyayam—inesgotável.

Ó filho de Pṛthā, aqueles que não estão iludidos, as grandes almas, encontram-se sob a proteção da natureza divina. Eles ocupam-se plenamente em serviço devocional, pois Me conhecem como a Suprema Personalidade de Deus, original e inesgotável.

Neste verso, dá-se claramente a descrição do mahātmā. O primeiro sinal do mahātmā é que ele já se encontra situado na natureza divina. Não está sob o controle da natureza material. E como isso se efetua? Isso se explica no Sétimo Capítulo: aquele que se rende à Suprema Personalidade de Deus, Śrī Kṛṣṇa, imediatamente fica livre do controle da natureza material. Esta é a qualificação. Pode-se ficar livre do controle da natureza material tão logo se entregue a alma à Suprema Personalidade de Deus. Esta é a fórmula preliminar. Sendo potência marginal, tão logo a entidade viva se liberta do controle da natureza material, é colocada sob a orientação da natureza espiritual. A orientação da natureza espiritual chama-se daivīṁ prakṛtim, natureza divina. Assim, quando alguém é promovido dessa maneira — rendendo-se à Suprema Personalidade de Deus —, alcança o estágio de grande alma, mahātmā.

O mahātmā não desvia sua atenção para nada que esteja fora de Kṛṣṇa, pois sabe perfeitamente que Kṛṣṇa é a Pessoa Suprema original, a causa de todas as causas. Não há dúvida quanto a isso. Tal mahātmā, ou grande alma, desenvolve-se pela associação com outros mahātmās, devotos puros. Os devotos puros não se sentem atraídos sequer pelos outros traços de Kṛṣṇa, como o de Mahā-Viṣṇu de quatro braços. Eles se sentem atraídos apenas pela forma de Kṛṣṇa de duas mãos. Visto que não se sentem atraídos por outros traços de Kṛṣṇa (sem mencionar os semideuses), não se preocupam com qualquer forma de semideus ou de ser humano. Apenas meditam em Kṛṣṇa, em consciência de Kṛṣṇa. Estão sempre ocupados no inabalável serviço ao Senhor, em consciência de Kṛṣṇa.

Bg 9.14

सततं कीर्तयन्तो मां यतन्तश्च दृढव्रताः ।
नमस्यन्तश्च मां भक्त्या नित्ययुक्ता उपासते ॥१४॥

satataṁ kīrtayanto māṁ

yatantaś ca dṛḍha-vratāḥ

namasyantaś ca māṁ bhaktyā

nitya-yuktā upāsate

satatam—sempre; kīrtayantaḥ—cantando; mām—a Mim; yatantaḥ ca—esforçando-se também plenamente; dṛḍha-vratāḥ—com determinação; namasyantaḥ ca—oferecendo reverências; mām—a Mim; bhaktyā—em devoção; nitya-yuktāḥ—perpetuamente ocupados; upāsate—adoram.

Sempre cantando Minhas glórias, esforçando-se com grande determinação, prostrando-se diante de Mim, essas grandes almas Me adoram perpetuamente com devoção.

Não se pode fabricar um mahātmā carimbando um homem comum. Seus sintomas são aqui descritos: o mahātmā ocupa-se sempre em cantar as glórias do Senhor Supremo Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus. Ele não tem outra ocupação. Está sempre ocupado na glorificação do Senhor. Em outras palavras, ele não é impersonalista. Quando se trata de glorificação, deve-se glorificar o Senhor Supremo, louvando Seu santo nome, Sua forma eterna, Suas qualidades transcendentais e Seus passatempos incomuns. Deve-se glorificar todas essas coisas; portanto, o mahātmā é apegado à Suprema Personalidade de Deus.

Aquele que está apegado ao aspecto impessoal do Senhor Supremo, o brahmajyoti, não é descrito como mahātmā no Bhagavad-gītā. Ele é descrito de modo diverso no próximo verso. O mahātmā ocupa-se sempre em diferentes atividades de serviço devocional, como se descreve no Śrīmad-Bhāgavatam: ouvindo e cantando sobre Viṣṇu, e não sobre um semideus ou ser humano. Isto é devoção: śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ, smaraṇam, e a recordação Dele. Tal mahātmā tem firme determinação de alcançar, no fim último, a associação do Senhor Supremo em qualquer um dos cinco rasas transcendentais. Para alcançar tal êxito, ele ocupa todas as atividades — mentais, corporais e vocais, tudo — no serviço ao Senhor Supremo, Śrī Kṛṣṇa. Isto se chama plena consciência de Kṛṣṇa.

No serviço devocional, há certas atividades que se chamam determinadas, tais como jejuar em certos dias, como o décimo primeiro dia da lua, Ekādaśī, e no dia do aparecimento do Senhor, etc. Todas essas regras e regulações são oferecidas pelos grandes ācāryas para os que de fato estão interessados em obter admissão na associação da Suprema Personalidade de Deus no mundo transcendental. Os mahātmās, grandes almas, observam estritamente todas essas regras e regulações, e por isso é certo que alcancem o resultado desejado.

Como se descreve no segundo verso deste capítulo, este serviço devocional não é apenas fácil, mas pode ser realizado em ânimo feliz. Não é preciso passar por penitência e austeridade severas. A pessoa pode viver esta vida em serviço devocional, guiada por um mestre espiritual experiente, e em qualquer posição — seja como chefe de família, sannyāsī ou brahmacārī. Em qualquer posição e em qualquer parte do mundo, pode-se realizar este serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus e assim tornar-se realmente um mahātmā, uma grande alma.

Bg 9.15

ज्ञानयज्ञेन चाप्यन्ये यजन्तो मामुपासते ।
एकत्वेन पृथक्त्वेन बहुधा विश्वतोमुखम् ॥१५॥

jñāna-yajñena cāpy anye

yajanto mām upāsate

ekatvena pṛthaktvena

bahudhā viśvato-mukham

jñāna-yajñena—pelo cultivo de conhecimento; ca—também; api—certamente; anye—outros; yajantaḥ—adorando; mām—a Mim; upāsate—adoram; ekatvena—em unidade; pṛthaktvena—em dualidade; bahudhā—diversidade; viśvataḥ-mukham—na forma universal.

Outros, que se ocupam no cultivo do conhecimento, adoram o Senhor Supremo como o uno sem segundo, como o diverso em muitos e na forma universal.

Este verso é o resumo dos versos anteriores. O Senhor diz a Arjuna que aqueles que estão puramente em consciência de Kṛṣṇa e nada mais conhecem além de Kṛṣṇa são chamados mahātmā; contudo, há outras pessoas que não estão exatamente na posição de mahātmā, mas que também adoram Kṛṣṇa, de diferentes maneiras. Algumas delas já foram descritas como os aflitos, os financeiramente destituídos, os curiosos e os que se ocupam no cultivo do conhecimento. Mas há outros ainda mais inferiores, e estes se dividem em três: 1) Aquele que adora a si mesmo como sendo um com o Senhor Supremo; 2) aquele que inventa alguma forma do Senhor Supremo e a adora; e 3) aquele que aceita a forma universal, o viśvarūpa da Suprema Personalidade de Deus, e a adora. Dos três acima, os mais predominantes são os mais inferiores: aqueles que adoram a si mesmos como o Senhor Supremo, considerando-se monistas. Tais pessoas pensam ser elas próprias o Senhor Supremo, e nessa mentalidade adoram a si mesmas. Esta também é uma espécie de adoração a Deus, pois podem compreender que não são o corpo material, mas, na verdade, alma espiritual; ao menos, este senso é proeminente. Em geral, os impersonalistas adoram o Senhor Supremo dessa forma. A segunda classe inclui os adoradores dos semideuses, aqueles que, por imaginação, consideram qualquer forma como sendo a forma do Senhor Supremo. E a terceira classe inclui aqueles que não podem conceber nada além da manifestação deste universo material. Eles consideram o universo o supremo organismo ou entidade e o adoram. O universo também é uma forma do Senhor.

Bg 9.16

अहं क्रतुरहं यज्ञः स्वधाहमहमौषधम् ।
मन्त्रोऽहमहमेवाज्यमहमग्निरहं हुतम् ॥१६॥

ahaṁ kratur ahaṁ yajñaḥ

svadhāham aham auṣadham

mantro ‘ham aham evājyam

aham agnir ahaṁ hutam

aham—Eu; kratuḥ—ritual; aham—Eu; yajñaḥ—sacrifício; svadhā—oblação; aham—Eu; aham—Eu; auṣadham—erva curativa; mantraḥ—canto transcendental; aham—Eu; aham—Eu; eva—certamente; ajyam—manteiga derretida; aham—Eu; agniḥ—fogo; aham—Eu; hutam—oferenda.

Mas Eu sou o ritual, Eu sou o sacrifício, a oferenda aos antepassados, a erva curativa, o canto transcendental. Eu sou a manteiga, o fogo e a oferenda.

O sacrifício conhecido como jyotiṣṭoma também é Kṛṣṇa, e Ele é também o mahā-yajña. As oblações oferecidas ao Pitṛloka, ou o sacrifício realizado para satisfazer o Pitṛloka, considerado uma espécie de droga sob a forma de manteiga clarificada, também é Kṛṣṇa. Os mantras cantados nesse contexto também são Kṛṣṇa. E muitos outros artigos feitos com produtos lácteos para oferecimento nos sacrifícios também são Kṛṣṇa. O fogo também é Kṛṣṇa, pois o fogo é um dos cinco elementos materiais e, por conseguinte, declara-se ser a energia separada de Kṛṣṇa. Em outras palavras, os sacrifícios Védicos recomendados na divisão karma-kāṇḍa dos Vedas são, em sua totalidade, também Kṛṣṇa. Ou, em outras palavras, deve-se entender que aqueles que se ocupam em prestar serviço devocional a Kṛṣṇa realizaram todos os sacrifícios recomendados nos Vedas.

Bg 9.17

पिताहमस्य जगतो माता धाता पितामहः ।
वेद्यं पवित्रमोंकार ऋक्साम यजुरेव च ॥१७॥

pitāham asya jagato

mātā dhātā pitāmahaḥ

vedyaṁ pavitram oṁkāra

ṛk sāma yajur eva ca

pitā—pai; aham—Eu; asya—deste; jagataḥ—do universo; mātā—mãe; dhātā—sustentador; pitāmahaḥ—avô; vedyam—o que se há de conhecer; pavitram—aquilo que purifica; omkāraḥ—a sílaba om; ṛk—o Ṛg-veda; sāma—o Sāma-veda; yajuḥ—o Yajur-veda; eva—certamente; ca—e.

Eu sou o pai deste universo, a mãe, o sustento e o avô. Sou o objeto do conhecimento, o purificador e a sílaba om. Sou também o Ṛk, o Sāma e o Yajur [Vedas].

As inteiras manifestações cósmicas, móveis e imóveis, manifestam-se por diferentes atividades da energia de Kṛṣṇa. Na existência material, criamos diferentes relacionamentos com diferentes entidades vivas, que nada mais são que a energia marginal de Kṛṣṇa; mas, sob a criação de prakṛti, algumas delas aparecem como nosso pai, mãe, avô, criador, etc., quando, na verdade, são partes integrantes de Kṛṣṇa. Como tais, essas entidades vivas que aparecem como nosso pai, mãe, etc., nada mais são que Kṛṣṇa. Neste verso, a palavra dhātā significa criador. Não apenas nosso pai e nossa mãe são partes integrantes de Kṛṣṇa, mas também o criador, a avó, o avô, etc., são também Kṛṣṇa. Na verdade, qualquer entidade viva, sendo parte integrante de Kṛṣṇa, é Kṛṣṇa. Todos os Vedas, portanto, visam unicamente a Kṛṣṇa. Tudo o que queiramos saber por meio dos Vedas é apenas um passo progressivo para compreender Kṛṣṇa. O assunto que nos ajuda a purificar nossa posição constitucional é especialmente Kṛṣṇa. De modo semelhante, a entidade viva curiosa para compreender todos os princípios Védicos também é parte integrante de Kṛṣṇa e, como tal, também é Kṛṣṇa. Em todos os mantras Védicos, a palavra om, chamada praṇava, é uma vibração sonora transcendental e também é Kṛṣṇa. E porque, em todos os hinos dos quatro Vedas — Sāma, Yajur, Ṛg e Atharva —, o praṇava ou omkāra é muito proeminente, entende-se que ele é Kṛṣṇa.

Bg 9.18

गतिर्भर्ता प्रभुः साक्षी निवासः शरणं सुहृत् ।
प्रभवः प्रलयः स्थानं निधानं बीजमव्ययम् ॥१८॥

gatir bhartā prabhuḥ sākṣī

nivāsaḥ śaraṇaṁ suhṛt

prabhavaḥ pralayaḥ sthānaṁ

nidhānaṁ bījam avyayam

gatiḥ—meta; bhartā—sustentador; prabhuḥ—Senhor; sākṣī—testemunha; nivāsaḥ—morada; śaraṇam—refúgio; suhṛt—amigo mais íntimo; prabhavaḥ—criação; pralayaḥ—dissolução; sthānam—base; nidhānam—lugar de descanso; bījam—semente; avyayam—imperecível.

Eu sou a meta, o sustentador, o senhor, a testemunha, a morada, o refúgio e o mais querido amigo. Sou a criação e a aniquilação, a base de tudo, o lugar de descanso e a semente eterna.

Gati significa o destino para onde queremos ir. Mas a meta última é Kṛṣṇa, embora as pessoas não o saibam. Quem não conhece Kṛṣṇa está desviado, e sua suposta marcha progressiva é parcial ou alucinatória. Há muitos que fazem como destino diferentes semideuses e, pela rigorosa execução dos respectivos métodos, atingem diferentes planetas conhecidos como Candraloka, Sūryaloka, Indraloka, Maharloka, etc. Mas todos esses lokas ou planetas, sendo criações de Kṛṣṇa, são simultaneamente Kṛṣṇa e não Kṛṣṇa. Na verdade, tais planetas, sendo as manifestações da energia de Kṛṣṇa, também são Kṛṣṇa, mas, na verdade, servem apenas como um passo à frente para a compreensão de Kṛṣṇa. Aproximar-se das diferentes energias de Kṛṣṇa é aproximar-se de Kṛṣṇa indiretamente. Deve-se aproximar-se diretamente de Kṛṣṇa, pois isso poupará tempo e energia. Por exemplo, se há a possibilidade de subir ao topo de um edifício pelo elevador, por que ir pela escada, degrau por degrau? Tudo repousa na energia de Kṛṣṇa; portanto, sem o abrigo de Kṛṣṇa, nada pode existir. Kṛṣṇa é o supremo governante porque tudo Lhe pertence e tudo existe em Sua energia. Kṛṣṇa, estando situado no coração de todos, é a suprema testemunha. As residências, os países ou os planetas em que vivemos também são Kṛṣṇa. Kṛṣṇa é a meta última de refúgio, e como tal deve-se tomar refúgio em Kṛṣṇa, seja para proteção, seja para a aniquilação da condição aflitiva. E, sempre que tivermos de tomar proteção, devemos saber que nossa proteção há de ser uma força viva. Assim, Kṛṣṇa é a entidade viva suprema. Visto que Kṛṣṇa é a fonte de nossa geração, ou o pai supremo, ninguém pode ser melhor amigo que Kṛṣṇa, nem ninguém pode ser melhor benquerente. Kṛṣṇa é a fonte original da criação e o derradeiro descanso após a aniquilação. Kṛṣṇa é, portanto, a causa eterna de todas as causas.

Bg 9.19

तपाम्यहमहं वर्षं निगृह्णाम्युत्सृजामि च ।
अमृतं चैव मृत्युश्च सदसच्चाहमर्जुन ॥१९॥

tapāmy aham ahaṁ varṣaṁ

nigṛhṇāmy utsṛjāmi ca

amṛtaṁ caiva mṛtyuś ca

sad asac cāham arjuna

tapāmi—dou calor; aham—Eu; aham—Eu; varṣam—chuva; nigṛhṇāmi—retenho; utsṛjāmi—envio; ca—e; amṛtam—imortalidade; ca—e; eva—certamente; mṛtyuḥ—morte; ca—e; sat—ser; asat—não-ser; ca—e; aham—Eu; arjuna—ó Arjuna.

Ó Arjuna, Eu controlo o calor, a chuva e a seca. Eu sou a imortalidade, e sou também a morte personificada. Tanto o ser quanto o não-ser estão em Mim.

Kṛṣṇa, por Suas diferentes energias, difunde calor e luz por meio da agência da eletricidade e do sol. Durante o verão, é Kṛṣṇa quem impede que a chuva caia do céu, e então, durante a estação chuvosa, dá incessantes torrentes de chuva. A energia que nos sustém prolongando a duração de nossa vida é Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa nos encontra ao final como morte. Analisando todas essas diferentes energias de Kṛṣṇa, pode-se determinar que, para Kṛṣṇa, não há distinção entre matéria e espírito; ou, em outras palavras, Ele é tanto matéria quanto espírito. No estágio avançado da consciência de Kṛṣṇa, portanto, não se fazem tais distinções. Vê-se Kṛṣṇa apenas em tudo.

Visto que Kṛṣṇa é tanto matéria quanto espírito, a gigantesca forma universal, que abrange todas as manifestações materiais, também é Kṛṣṇa, e Seus passatempos em Vṛndāvana, como Śyāmasundara de duas mãos, tocando flauta, são os da Suprema Personalidade de Deus.

Bg 9.2

राजविद्या राजगुह्यं पवित्रमिदमुत्तमम् ।
प्रत्यक्षावगमं धर्म्यं सुसुखं कर्तुमव्ययम् ॥२॥

rāja-vidyā rāja-guhyaṁ

pavitram idam uttamam

pratyakṣāvagamaṁ dharmyaṁ

su-sukhaṁ kartum avyayam

rāja-vidyā—o rei da educação; rāja-guhyam—o rei do conhecimento confidencial; pavitram—o mais puro; idam—este; uttamam—transcendental; pratyakṣa—diretamente experimentado; avagamam—compreendido; dharmyam—o princípio da religião; susukham—muito feliz; kartum—executar; avyayam—eterno.

Este conhecimento é o rei da educação, o mais secreto de todos os segredos. É o conhecimento mais puro, e por dar percepção direta do eu pela compreensão, é a perfeição da religião. É eterno e se realiza com alegria.

Este capítulo do Bhagavad-gītā é chamado o rei da educação porque é a essência de todas as doutrinas e filosofias antes explicadas. Há sete principais filósofos na Índia: Gautama, Kaṇāda, Kapila, Yājñavalkya, Śāṇḍilya, Vaiśvānara e, finalmente, Vyāsadeva, autor do Vedānta-sūtra. Não há, pois, escassez de conhecimento no campo da filosofia ou do conhecimento transcendental. Agora, o Senhor diz que este Nono Capítulo é o rei de todo esse conhecimento, a essência de todo conhecimento que se possa derivar do estudo dos Vedas e das diferentes filosofias. É o mais confidencial porque o conhecimento confidencial ou transcendental envolve compreender a diferença entre a alma e o corpo. E o rei de todo conhecimento confidencial culmina no serviço devocional.

Em geral, as pessoas não são educadas neste conhecimento confidencial; são educadas em conhecimento externo. No que se refere à educação comum, as pessoas se envolvem em muitos departamentos: política, sociologia, física, química, matemática, astronomia, engenharia, etc. Há tantos departamentos do conhecimento por todo o mundo e muitas universidades enormes, mas, infelizmente, não há universidade nem instituição educacional onde se ensine a ciência da alma espiritual. No entanto, a alma é a parte mais importante deste corpo; sem a presença da alma, o corpo não tem valor. Ainda assim, as pessoas dão grande ênfase às necessidades corporais da vida, sem se importar com a vital alma.

O Bhagavad-gītā, especialmente a partir do Segundo Capítulo, ressalta a importância da alma. No princípio mesmo, o Senhor diz que este corpo é perecível e que a alma não é perecível. Esta é uma parte confidencial do conhecimento: simplesmente saber que a alma espiritual é diferente deste corpo e que sua natureza é imutável, indestrutível e eterna. Mas isso não fornece informação positiva sobre a alma. Às vezes, as pessoas têm a impressão de que a alma é diferente do corpo e que, quando o corpo termina, ou quando alguém se liberta do corpo, a alma permanece num vazio e se torna impessoal. Mas, na verdade, esse não é o fato. Como pode a alma, que é tão ativa dentro deste corpo, ser inativa após libertar-se do corpo? Ela é sempre ativa. Se é eterna, então é eternamente ativa, e suas atividades no reino espiritual são a parte mais confidencial do conhecimento espiritual. Por isso, essas atividades da alma espiritual são aqui indicadas como constituindo o rei de todo conhecimento, a parte mais confidencial de todo conhecimento.

Este conhecimento é a forma mais pura de todas as atividades, como se explica na literatura Védica. No Padma Purāṇa, as atividades pecaminosas do homem foram analisadas e mostram-se como resultados de pecado após pecado. Aqueles que se ocupam em atividades fruitivas estão enredados em diferentes estágios e formas de reações pecaminosas. Por exemplo, quando se semeia a semente de determinada árvore, ela não cresce de imediato; leva algum tempo. É primeiro uma plantinha que brota, depois assume a forma de árvore, então floresce, dá frutos e, quando completa, suas flores e frutos são desfrutados pelas pessoas que semearam a semente da árvore. De modo semelhante, o homem comete um ato pecaminoso e, como uma semente, leva tempo para frutificar. Há diferentes estágios. A ação pecaminosa pode já ter cessado no indivíduo, mas os resultados ou frutos dessa ação ainda são desfrutados. Há pecados que ainda estão em forma de semente, e há outros já frutificados, dando-nos frutos que desfrutamos como aflição e dor, conforme se explica no vigésimo verso do Sétimo Capítulo.

A pessoa que pôs fim por completo às reações de todas as atividades pecaminosas, e que se ocupa plenamente em atividades piedosas, libertando-se da dualidade deste mundo material, ocupa-se em serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Em outras palavras, aqueles que de fato se ocupam no serviço devocional ao Senhor Supremo já se libertaram de todas as reações. Para os que se ocupam no serviço devocional à Suprema Personalidade de Deus, todas as reações pecaminosas — frutificadas, em estoque ou em forma de semente — desaparecem gradualmente. Por isso, a potência purificadora do serviço devocional é muito poderosa, e é chamada pavitram uttamam, a mais pura. Uttamam significa transcendental. Tamas significa este mundo material ou escuridão, e uttamam significa aquilo que é transcendental às atividades materiais. As atividades devocionais nunca devem ser consideradas materiais, embora às vezes pareça que os devotos se ocupam como homens comuns. Quem pode ver e está familiarizado com o serviço devocional, contudo, saberá que essas não são atividades materiais. Todas elas são espirituais e devocionais, livres da contaminação dos modos materiais da natureza.

Diz-se que a execução do serviço devocional é tão perfeita que se podem perceber os resultados diretamente. Esse resultado direto é de fato percebido, e temos experiência prática de que qualquer pessoa que cante os santos nomes de Kṛṣṇa (Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare) com o passar do tempo sente certo prazer transcendental e muito rapidamente se purifica de toda contaminação material. Isso de fato se vê. Ademais, se alguém se ocupa não apenas em ouvir, mas também em tentar difundir a mensagem das atividades devocionais, ou se se ocupa em ajudar nas atividades missionárias da consciência de Kṛṣṇa, sente gradualmente progresso espiritual. Esse avanço na vida espiritual não depende de qualquer educação ou qualificação prévia. O método em si é tão puro que, simplesmente ocupando-se nele, a pessoa se torna pura.

No Vedānta-sūtra, isso também se descreve nas seguintes palavras: prakāśaś ca karmaṇy abhyāsāt. “O serviço devocional é tão potente que, simplesmente ocupando-se nas atividades do serviço devocional, a pessoa se torna iluminada sem dúvida alguma.” Nārada, que era filho de uma criada, não tinha educação nem nascera em uma família elevada. Mas quando sua mãe se ocupava em servir grandes devotos, Nārada também se ocupou, e às vezes, na ausência de sua mãe, ele mesmo servia aos grandes devotos. Nārada diz pessoalmente: “Apenas uma vez, com sua permissão, tomei os restos de seu alimento, e, ao fazê-lo, todos os meus pecados foram imediatamente erradicados. Assim ocupado, purifiquei-me de coração, e nesse momento a própria natureza do transcendentalista tornou-se atrativa para mim.” (Bhāg. 1.5.25) Nārada conta a seu discípulo Vyāsadeva que em uma vida anterior se ocupava como menino servo de devotos purificados durante quatro meses de sua estadia, e que se associava intimamente com eles. Às vezes, esses sábios deixavam restos de alimento em seus pratos, e o menino, que lhes lavava os pratos, queria provar os restos. Por isso, perguntou aos grandes devotos se podia comê-los, e eles deram sua permissão. Nārada então comeu aqueles restos e, em consequência, ficou livre de todas as reações pecaminosas. Conforme continuou a comer, foi tornando-se de coração tão puro quanto os sábios, e foi desenvolvendo o mesmo gosto. Os grandes devotos saboreavam o gosto do incessante serviço devocional ao Senhor — ouvir, cantar, etc. — e, ao desenvolver o mesmo gosto, Nārada também quis ouvir e cantar as glórias do Senhor. Assim, associando-se com os sábios, desenvolveu um grande desejo pelo serviço devocional. Por isso, ele cita do Vedānta-sūtra (prakāśaś ca karmaṇy abhyāsāt): se alguém se ocupar simplesmente nos atos do serviço devocional, tudo lhe é revelado automaticamente, e ele pode compreender. Isso se chama prakāśaḥ, diretamente percebido.

Nārada era de fato filho de uma criada. Não teve oportunidade de ir à escola. Apenas auxiliava sua mãe e, felizmente, sua mãe prestou algum serviço aos devotos. A criança Nārada também teve a oportunidade e, simplesmente pela associação, alcançou o mais elevado objetivo de todas as religiões: o serviço devocional. No Śrīmad-Bhāgavatam, afirma-se que pessoas religiosas em geral não sabem que a mais alta perfeição da religião é alcançar o estágio de serviço devocional. Em geral, exige-se conhecimento Védico para a compreensão da senda da autorrealização. Mas aqui, embora não fosse educado no princípio Védico, Nārada adquiriu os mais elevados resultados do estudo Védico. Esse processo é tão potente que, mesmo sem realizar regularmente o processo religioso, pode-se ser elevado à mais alta perfeição. Como isso é possível? Isso também se confirma na literatura Védica: ācāryavān puruṣo veda. Aquele que se associa com grandes ācāryas, ainda que não seja educado nem tenha estudado os Vedas, pode familiarizar-se com todo o conhecimento necessário à compreensão.

O processo do serviço devocional é muito feliz. Por quê? O serviço devocional consiste em śravaṇaṁ kīrtanaṁ viṣṇoḥ; logo, basta ouvir o canto das glórias do Senhor ou assistir a palestras filosóficas sobre conhecimento transcendental ministradas por ācāryas autorizados. Simplesmente sentando-se, pode-se aprender; em seguida, pode-se comer os restos do alimento oferecido a Deus, pratos saborosos. Em qualquer estado, o serviço devocional é alegre. Pode-se executar o serviço devocional mesmo na condição mais miserável de pobreza. O Senhor diz: patraṁ puṣpaṁ phalam: Ele está pronto a aceitar do devoto qualquer tipo de oferenda, não importa qual. Mesmo uma folha, uma flor, um pedacinho de fruta ou um pouco de água — todos disponíveis em toda parte do mundo — podem ser oferecidos por qualquer pessoa, independentemente de sua posição social, e serão aceitos se oferecidos com amor. Há muitos exemplos na história. Simplesmente por provar as folhas de tulasī oferecidas aos pés de lótus do Senhor, grandes sábios como Sanatkumāra tornaram-se grandes devotos. Assim sendo, o processo devocional é muito agradável e pode ser executado em ânimo feliz. Deus aceita somente o amor com que as coisas Lhe são oferecidas.

Aqui se diz que este serviço devocional existe eternamente. Não é como pretendem os filósofos māyāvādīs. Eles às vezes adotam um suposto serviço devocional, e enquanto não estão liberados, prosseguem seu serviço devocional, mas, ao final, quando se liberam, “tornam-se um com Deus”. Tal serviço devocional temporário e oportunista não é aceito como serviço devocional puro. O verdadeiro serviço devocional continua mesmo após a liberação. Quando o devoto vai ao planeta espiritual, no reino de Deus, ali também ele se ocupa em servir ao Senhor Supremo. Não tenta tornar-se um com o Senhor Supremo.

Como se verá, o verdadeiro serviço devocional começa após a liberação. Por isso, no Bhagavad-gītā afirma-se: brahma-bhūta. Após libertar-se, ou ao situar-se na posição Brahman, começa o serviço devocional. Ao executar o serviço devocional, pode-se compreender o Senhor Supremo. Ninguém pode compreender a Suprema Personalidade de Deus pela execução de karma-yoga, jñāna ou aṣṭāṅga-yoga, ou de qualquer outro yoga independentemente. Sem chegar ao estágio do serviço devocional, não se pode compreender o que é a Personalidade de Deus. No Śrīmad-Bhāgavatam também se confirma que, quando alguém se purifica pela execução do processo de serviço devocional, especialmente ouvindo o Śrīmad-Bhāgavatam ou o Bhagavad-gītā de almas realizadas, então pode compreender a ciência de Kṛṣṇa, a ciência de Deus. Evaṁ prasanna-manaso bhagavad-bhakti-yogataḥ. Quando o coração se purifica de toda tolice, então se pode compreender o que é Deus. Assim, o processo do serviço devocional, da consciência de Kṛṣṇa, é o rei de toda educação e o rei de todo conhecimento confidencial. É a mais pura forma de religião e pode ser executado com alegria, sem dificuldade. Por isso, deve-se adotá-lo.

Bg 9.20

त्रैविद्या मां सोमपाः पूतपापा
यज्ञैरिष्ट्वा स्वर्गतिं प्रार्थयन्ते ।
ते पुण्यमासाद्य सुरेन्द्रलोक-
मश्नन्ति दिव्यान्दिवि देवभोगान् ॥२०॥

trai-vidyā māṁ soma-pāḥ pūta-pāpā

yajñair iṣṭvā svar-gatiṁ prārthayante

te puṇyam āsādya surendra-lokam

aśnanti divyān divi deva-bhogān

trai-vidyāḥ—os conhecedores dos três Vedas; mām—a Mim; soma-pāḥ—bebedores de suco soma; pūta—purificados; pāpāḥ—pecados; yajñaiḥ—com sacrifícios; iṣṭvā—após adorar; svargatim—passagem ao céu; prārthayante—oram; te—eles; puṇyam—virtude; āsādya—desfrutando; surendra—de Indra; lokam—mundo; aśnanti—desfrutam; divyān—celestiais; divi—no céu; deva-bhogān—prazeres dos deuses.

Aqueles que estudam os Vedas e bebem o suco soma, buscando os planetas celestiais, adoram-Me indiretamente. Nascem no planeta de Indra, onde desfrutam dos deleites divinos.

A palavra trai-vidyāḥ refere-se aos três Vedas: Sāma, Yajur e Ṛg. Um brāhmaṇa que tenha estudado esses três Vedas é chamado tri-vedī. Quem é muito apegado ao conhecimento derivado desses três Vedas é respeitado na sociedade. Infelizmente, há muitos grandes eruditos dos Vedas que não conhecem o propósito último de seu estudo. Por isso, Kṛṣṇa aqui Se declara a meta última para os tri-vedīs. Os verdadeiros tri-vedīs refugiam-se sob os pés de lótus de Kṛṣṇa e ocupam-se em puro serviço devocional para satisfazer o Senhor. O serviço devocional começa com o canto do mantra Hare Kṛṣṇa e, paralelamente, com a tentativa de compreender Kṛṣṇa em verdade. Infelizmente, aqueles que são apenas estudantes oficiais dos Vedas interessam-se mais por oferecer sacrifícios aos diferentes semideuses, como Indra, Candra, etc. Por tal esforço, os adoradores de diferentes semideuses certamente se purificam da contaminação das qualidades inferiores da natureza e, com isso, são elevados ao sistema planetário superior, ou planetas celestiais conhecidos como Maharloka, Janaloka, Tapoloka, etc. Uma vez situados nesses sistemas planetários superiores, pode-se satisfazer os sentidos centenas de milhares de vezes melhor do que neste planeta.

Bg 9.21

ते तं भुक्त्वा स्वर्गलोकं विशालं
क्षीणे पुण्ये मर्त्यलोकं विशन्ति ।
एवं त्रयीधर्ममनुप्रपन्ना
गतागतं कामकामा लभन्ते ॥२१॥

te taṁ bhuktvā svarga-lokaṁ viśālaṁ

kṣīṇe puṇye martya-lokaṁ viśanti

evaṁ trayī-dharmam anuprapannā

gatāgataṁ kāma-kāmā labhante

te—eles; tam—aquele; bhuktvā—desfrutando; svarga-lokam—céu; viśālam—vasto; kṣīṇe—estando exauridos; puṇye—méritos; martya-lokam—terra mortal; viśanti—caem; evam—assim; trayī—três Vedas; dharmam—doutrinas; anuprapannāḥ—seguindo; gata-agatam—morte e nascimento; kāma-kāmāḥ—desejando gozos sensoriais; labhante—alcançam.

Quando assim desfrutaram do prazer celestial dos sentidos, regressam de novo a este planeta mortal. Assim, mediante os princípios Védicos, alcançam apenas felicidade efêmera.

Aquele que é promovido a esses sistemas planetários superiores desfruta de uma duração de vida mais longa e de melhores facilidades para o gozo dos sentidos; contudo, não se lhe permite ali permanecer para sempre. Volta-se a enviá-lo a este planeta terrestre ao terminarem-se os frutos resultantes das atividades piedosas. Aquele que não atingiu a perfeição do conhecimento, conforme indicado no Vedānta-sūtra (janmādy asya yataḥ), ou, em outras palavras, aquele que não compreende Kṛṣṇa, a causa de todas as causas, fica frustrado em alcançar a meta última da vida e, assim, fica sujeito à rotina de ser promovido aos planetas superiores e depois descer novamente, como se estivesse situado numa roda-gigante que ora sobe, ora desce. O significado é que, em vez de ser elevada ao mundo espiritual, onde já não há possibilidade de descer, a pessoa apenas gira no ciclo de nascimento e morte em sistemas planetários superiores e inferiores. Faríamos melhor em adotar o mundo espiritual para desfrutarmos da vida eterna, plena de bem-aventurança e conhecimento, e nunca regressarmos a esta miserável existência material.

Bg 9.22

अनन्याश्चिन्तयन्तो मां ये जनाः पर्युपासते ।
तेषां नित्याभियुक्तानां योगक्षेमं वहाम्यहम् ॥२२॥

ananyāś cintayanto māṁ

ye janāḥ paryupāsate

teṣāṁ nityābhiyuktānāṁ

yoga-kṣemaṁ vahāmy aham

ananyāḥ—nenhum outro; cintayantaḥ—concentrando-se; mām—em Mim; ye—que; janāḥ—pessoas; paryupāsate—adoram apropriadamente; teṣām—suas; nitya—sempre abhiyuktānām–fixos em devoção; yoga-kṣemam—necessidades; vahāmi—levo; aham—Eu.

Mas àqueles que sempre Me adoram com devoção, meditando em Minha forma transcendental, levo o que lhes falta e preservo o que têm.

Aquele que é incapaz de viver por um momento sem a consciência de Kṛṣṇa não pode deixar de pensar em Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia, ocupando-se em serviço devocional, ouvindo, cantando, recordando, oferecendo orações, adorando, servindo aos pés de lótus do Senhor, prestando outros serviços, cultivando amizade e rendendo-se plenamente ao Senhor. Tais atividades são todas auspiciosas e plenas de potências espirituais; com efeito, tornam o devoto perfeito em autorrealização. Então, seu único desejo é alcançar a associação da Suprema Personalidade de Deus. Isto se chama yoga. Pela misericórdia do Senhor, tal devoto nunca volta a esta condição material de vida. Kṣema refere-se à misericordiosa proteção do Senhor. O Senhor ajuda o devoto a alcançar a consciência de Kṛṣṇa pelo yoga, e, quando ele se torna plenamente consciente de Kṛṣṇa, o Senhor o protege de cair para uma vida condicionada miserável.

Bg 9.23

येऽप्यन्यदेवता भक्ता यजन्ते श्रद्धयान्विताः ।
तेऽपि मामेव कौन्तेय यजन्त्यविधिपूर्वकम् ॥२३॥

ye ‘py anya-devatā-bhaktā

yajante śraddhayānvitāḥ

te ‘pi mām eva kaunteya

yajanty avidhi-pūrvakam

ye—aqueles; api—também; anya—outros; devatā—semideuses; bhaktāḥ—devotos; yajante—adoram; śraddhaya-anvitāḥ—com fé; te—eles; api—também; mām—a Mim; eva—mesmo; kaunteya—ó filho de Kuntī; yajanti—sacrificam; avidhi-pūrvakam—de modo errôneo.

O que quer que um homem sacrifique a outros deuses, ó filho de Kuntī, é, na verdade, destinado apenas a Mim, mas é oferecido sem verdadeira compreensão.

“As pessoas que se ocupam na adoração aos semideuses não são muito inteligentes, embora tal adoração seja feita a Mim indiretamente”, diz Kṛṣṇa. Por exemplo, quando um homem despeja água sobre as folhas e galhos de uma árvore sem despejar água sobre a raiz, ele o faz sem conhecimento suficiente ou sem observar princípios reguladores. De modo semelhante, o processo de prestar serviço a diferentes partes do corpo é fornecer alimento ao estômago. Os semideuses, por assim dizer, são diferentes funcionários e diretores no governo do Senhor Supremo. É preciso seguir as leis feitas pelo governo, não pelos funcionários ou diretores. De modo semelhante, todos devem oferecer sua adoração apenas ao Senhor Supremo. Isso satisfará automaticamente os diferentes funcionários e diretores do Senhor. Os funcionários e diretores estão ocupados como representantes do governo, e oferecer suborno aos funcionários e diretores é ilegal. Isto se afirma aqui como avidhi-pūrvakam. Em outras palavras, Kṛṣṇa não aprova a desnecessária adoração aos semideuses.

Bg 9.24

अहं हि सर्वयज्ञानां भोक्ता च प्रभुरेव च ।
न तु मामभिजानन्ति तत्त्वेनातश्च्यवन्ति ते ॥२४॥

ahaṁ hi sarva-yajñānāṁ

bhoktā ca prabhur eva ca

na tu mām abhijānanti

tattvenātaś cyavanti te

aham—Eu; hi—certamente; sarva—de todos; yajñānām—sacrifícios; bhoktā—desfrutador; ca—e; prabhuḥ—Senhor; eva—também; ca—e; na—não; tu—mas; mām—a Mim; abhijānanti—conhecem; tattvena—em verdade; ataḥ—portanto; cyavanti—caem; te—eles.

Eu sou o único desfrutador e o único objeto do sacrifício. Aqueles que não reconhecem Minha verdadeira natureza transcendental caem.

Aqui se afirma claramente que há muitos tipos de execuções de yajña recomendados nas literaturas Védicas, mas, na verdade, todos eles destinam-se a satisfazer o Senhor Supremo. Yajña significa Viṣṇu. No Segundo Capítulo do Bhagavad-gītā, afirma-se claramente que se deve trabalhar apenas para satisfazer Yajña ou Viṣṇu. A forma perfeita de civilização humana, conhecida como varṇāśrama-dharma, destina-se especificamente a satisfazer Viṣṇu. Por conseguinte, Kṛṣṇa diz neste verso: “Eu sou o desfrutador de todos os sacrifícios, pois sou o senhor supremo.” Contudo, as pessoas menos inteligentes, sem conhecer este fato, adoram os semideuses para benefícios temporários. Por isso, caem na existência material e não alcançam a meta desejada da vida. Se, todavia, alguém tiver algum desejo material a ser realizado, será melhor que ore por isso ao Senhor Supremo (embora isto não seja devoção pura), e assim alcançará o resultado desejado.

Bg 9.25

यान्ति देवव्रता देवान्पितॄन्यान्ति पितृव्रताः ।
भूतानि यान्ति भूतेज्या यान्ति मद्याजिनोऽपि माम् ॥२५॥

yānti deva-vratā devān

pitṝn yānti pitṛ-vratāḥ

bhūtāni yānti bhūtejyā

yānti mad-yājino ‘pi mām

yānti—alcançam; deva-vratāḥ—adoradores dos semideuses; devān—aos semideuses; pitṝn—aos antepassados; yānti—vão; pitṛ-vratāḥ—adoradores dos antepassados; bhūtāni—a fantasmas e espíritos; yānti—vão; bhūtejyāḥ—adoradores de fantasmas e espíritos; yānti—vão; mat—Meus; yājinaḥ—devotos; api—também; mām—a Mim.

Aqueles que adoram os semideuses nascerão entre os semideuses; aqueles que adoram fantasmas e espíritos nascerão entre tais seres; aqueles que adoram os antepassados vão aos antepassados; e aqueles que Me adoram viverão Comigo.

Se alguém tiver desejo de ir à lua, ao sol ou a qualquer outro planeta, pode alcançar o destino desejado seguindo princípios Védicos específicos recomendados para tal propósito. Estes são vivamente descritos na porção das atividades fruitivas dos Vedas, tecnicamente conhecida como darśa-paurṇamāsī, que recomenda uma adoração específica aos semideuses situados em diferentes planetas celestiais. De modo semelhante, pode-se alcançar os planetas pitā realizando-se um yajña específico. De modo semelhante, pode-se ir a muitos planetas fantasmagóricos e tornar-se um yakṣa, rakṣa ou piśāca. A adoração piśāca chama-se “artes negras” ou “magia negra”. Há muitos homens que praticam essa arte negra e pensam que isso é espiritualismo, mas tais atividades são completamente materialistas. De modo semelhante, um devoto puro, que adora apenas a Suprema Personalidade de Deus, alcança os planetas de Vaikuṇṭha e Kṛṣṇaloka, sem dúvida. É muito fácil compreender por meio deste importante verso que, se simplesmente adorando os semideuses pode-se alcançar os planetas celestiais, ou adorando o pitā alcançar os planetas pitā, ou praticando as artes negras alcançar os planetas fantasmagóricos, por que não pode o devoto puro alcançar o planeta de Kṛṣṇa ou Viṣṇu? Infelizmente, muitas pessoas não têm informação sobre esses planetas sublimes onde Kṛṣṇa e Viṣṇu vivem, e por não os conhecerem, caem. Mesmo os impersonalistas caem do brahmajyoti. Portanto, este movimento da consciência de Kṛṣṇa está distribuindo informação sublime a toda a sociedade humana de que, simplesmente cantando o mantra Hare Kṛṣṇa, pode-se tornar perfeito nesta vida e voltar ao lar, voltar ao Supremo.

Bg 9.26

पत्रं पुष्पं फलं तोयं यो मे भक्त्या प्रयच्छति ।
तदहं भक्त्युपहृतमश्नामि प्रयतात्मनः ॥२६॥

patraṁ puṣpaṁ phalaṁ toyaṁ

yo me bhaktyā prayacchati

tad ahaṁ bhakty-upahṛtam

aśnāmi prayatātmanaḥ

patram—uma folha; puṣpam—uma flor; phalam—uma fruta; toyam—água; yaḥ—quem quer que; me—a Mim; bhaktyā—com devoção; prayacchati—oferece; tat—isso; aham—Eu; bhakti-upahṛtam—oferecido em devoção; aśnāmi—aceito; prayata-ātmanaḥ—de quem está em consciência pura.

Se alguém Me oferecer com amor e devoção uma folha, uma flor, uma fruta, água, Eu a aceitarei.

Aqui o Senhor Kṛṣṇa, tendo estabelecido que Ele é o único desfrutador, o Senhor primordial e o verdadeiro objeto de todas as oferendas sacrificiais, revela quais tipos de sacrifícios Ele deseja que Lhe sejam oferecidos. Se alguém deseja ocupar-se em serviço devocional ao Supremo, a fim de purificar-se e alcançar a meta da vida — o transcendental serviço amoroso a Deus —, então deve descobrir o que o Senhor deseja dele. Quem ama Kṛṣṇa Lhe dará tudo o que Ele desejar, e evita oferecer qualquer coisa que seja indesejável ou não pedida. Assim, carne, peixe e ovos não devem ser oferecidos a Kṛṣṇa. Se Ele desejasse tais coisas como oferendas, tê-lo-ia dito. Em vez disso, Ele claramente solicita que se Lhe deem uma folha, fruta, flores e água, e diz desta oferenda: “Eu a aceitarei.” Por isso, devemos compreender que Ele não aceitará carne, peixe e ovos. Vegetais, grãos, frutas, leite e água são os alimentos próprios para os seres humanos e são prescritos pelo próprio Senhor Kṛṣṇa. O que mais comermos não pode ser oferecido a Ele, pois Ele não o aceitará. Assim, não podemos estar agindo no nível da devoção amorosa se oferecermos tais alimentos.

No Terceiro Capítulo, verso treze, Śrī Kṛṣṇa explica que somente os restos de sacrifício são purificados e adequados para consumo por aqueles que buscam o avanço na vida e a libertação das garras do enredamento material. Aqueles que não fazem oferenda de sua comida, diz Ele no mesmo verso, dizem comer apenas pecado. Em outras palavras, cada bocado deles apenas aprofunda seu envolvimento nas complexidades da natureza material. Mas preparar pratos vegetarianos saborosos e simples, oferecê-los diante do quadro ou da Deidade do Senhor Kṛṣṇa e prostrar-se, orando para que Ele aceite tal humilde oferenda, capacita-nos a avançar firmemente na vida, a purificar o corpo e a criar finos tecidos cerebrais que conduzirão ao pensamento claro. Acima de tudo, a oferenda deve ser feita com atitude de amor. Kṛṣṇa não tem necessidade de alimento, pois já possui tudo o que existe; contudo, aceitará a oferenda de quem desejar agradá-Lo dessa maneira. O elemento importante, no preparo, no servir e no oferecer, é agir com amor a Kṛṣṇa.

Os filósofos impersonalistas, que desejam manter que a Verdade Absoluta não tem sentidos, não podem compreender este verso do Bhagavad-gītā. Para eles, é uma metáfora ou prova do caráter mundano de Kṛṣṇa, o orador do Gītā. Mas, na realidade, Kṛṣṇa, o Supremo Deus, possui sentidos, e afirma-se que Seus sentidos são intercambiáveis; em outras palavras, um sentido pode realizar a função de qualquer outro. Isto é o que significa dizer que Kṛṣṇa é absoluto. Sem sentidos, dificilmente poderia ser considerado pleno em todas as opulências. No Sétimo Capítulo, Kṛṣṇa explicou que Ele impregna as entidades vivas na natureza material. Isto se faz ao Ele lançar o olhar sobre a natureza material. E, neste caso, o ouvir, por parte de Kṛṣṇa, das palavras de amor do devoto ao oferecer alimentos é totalmente idêntico a Seu comer e realmente saborear. Este ponto deve ser enfatizado: por causa de Sua posição absoluta, Seu ouvir é totalmente idêntico a Seu comer e saborear. Apenas o devoto, que aceita Kṛṣṇa como Ele Se descreve a Si mesmo, sem interpretação, pode compreender que a Suprema Verdade Absoluta pode comer alimento e desfrutá-lo.

Bg 9.27

यत्करोषि यदश्नासि यज्जुहोषि ददासि यत् ।
यत्तपस्यसि कौन्तेय तत्कुरुष्व मदर्पणम् ॥२७॥

yat karoṣi yad aśnāsi

yaj juhoṣi dadāsi yat

yat tapasyasi kaunteya

tat kuruṣva mad-arpaṇam

yat—o que; karoṣi—fazes; yat—o que quer que; aśnāsi—comes; yat—o que quer que; juhoṣi—ofereces; dadāsi—dás; yat—o que quer que; yat—quaisquer; tapasyasi—austeridades que realizes; kaunteya—ó filho de Kuntī; tat—isso; kuruṣva—faze; mat—a Mim; arpaṇam—oferenda.

Ó filho de Kuntī, tudo o que fizeres, tudo o que comeres, tudo o que ofereceres e deres, bem como todas as austeridades que possas realizar, deves fazê-lo como uma oferenda a Mim.

Assim, é dever de todos moldar a vida de tal modo que não esqueçam Kṛṣṇa em nenhuma circunstância. Todos têm de trabalhar para a manutenção do corpo e da alma juntos, e Kṛṣṇa recomenda aqui que se trabalhe para Ele. Todos têm de comer algo para viver; portanto, devem aceitar os restos dos alimentos oferecidos a Kṛṣṇa. Qualquer homem civilizado tem de realizar algumas cerimônias rituais religiosas; por isso, Kṛṣṇa recomenda: “Faze-o por Mim”, e isto se chama arcanā. Todos têm a tendência de dar algo em caridade; Kṛṣṇa diz: “Dá a Mim”, e isto significa que todo o dinheiro excedente acumulado deve ser utilizado para promover o movimento da consciência de Kṛṣṇa. Hoje em dia, as pessoas estão muito inclinadas ao processo da meditação, que não é prático nesta era; mas, se alguém praticar meditar em Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia, cantando o mantra Hare Kṛṣṇa em suas contas, certamente é o maior yogī, como o confirma o Sexto Capítulo do Bhagavad-gītā.

Bg 9.28

शुभाशुभफलैरेवं मोक्ष्यसे कर्मबन्धनैः ।
संन्यासयोगयुक्तात्मा विमुक्तो मामुपैष्यसि ॥२८॥

śubhāśubha-phalair evaṁ

mokṣyase karma-bandhanaiḥ

sannyāsa-yoga-yuktātmā

vimukto mām upaiṣyasi

śubha—bem; aśubha—mal; phalaiḥ—resultados; evam—assim; mokṣyase—libertarás; karma—ação; bandhanaiḥ—cativeiro; sannyāsa—de renúncia; yoga—o yoga; yukta-ātmā—com a mente firmemente fixada em; vimuktaḥ—liberado; mām—a Mim; upaiṣyasi—alcançarás.

Desta forma, libertar-te-ás de todas as reações de atos bons e maus, e, por este princípio de renúncia, serás liberado e virás a Mim.

Aquele que age em consciência de Kṛṣṇa sob direção superior é chamado yukta. O termo técnico é yukta-vairāgya. Isto é mais explicado por Rūpa Gosvāmī como segue.

Rūpa Gosvāmī diz que, enquanto estivermos neste mundo material, teremos de agir; não podemos cessar de agir. Por isso, se as ações forem realizadas e os frutos dados a Kṛṣṇa, isso se chama yukta-vairāgya. De fato situadas em renúncia, tais atividades limpam o espelho da mente, e, à medida que o agente progride gradualmente na compreensão espiritual, torna-se completamente rendido à Suprema Personalidade de Deus. Assim, ao final, ele se torna liberado, e esta liberação também é especificada. Por esta liberação, ele não se torna um com o brahmajyoti, mas, antes, entra no planeta do Senhor Supremo. É claramente mencionado aqui: mām upaiṣyasi, “ele vem a Mim”, de volta ao lar, de volta ao Supremo. Há cinco diferentes estágios de liberação, e aqui se especifica que o devoto, que sempre viveu sua vida aqui sob a direção do Senhor Supremo, conforme dito, evoluiu até o ponto em que pode, após deixar este corpo, voltar ao Supremo e ocupar-se diretamente na associação do Senhor Supremo.

Quem não tiver outro interesse senão dedicar a vida ao serviço do Senhor é, na verdade, um sannyāsī. Tal pessoa sempre se considera servo eterno, dependente da suprema vontade do Senhor. Como tal, tudo o que faz, faz para o benefício do Senhor. Qualquer ação que realize, ele a realiza como serviço ao Senhor. Não dá atenção séria às atividades fruitivas ou aos deveres prescritos mencionados nos Vedas. Para as pessoas comuns, é obrigatório executar os deveres prescritos mencionados nos Vedas; mas, embora um devoto puro, completamente ocupado no serviço ao Senhor, possa às vezes parecer ir contra os deveres Védicos prescritos, na verdade não é assim.

Por isso, dizem as autoridades vaiṣṇavas que mesmo a pessoa mais inteligente não pode compreender os planos e as atividades de um devoto puro. As palavras exatas são vaiṣṇavera kriyā mudrā vijñe nā bujhayā. Uma pessoa que está sempre ocupada no serviço ao Senhor ou que está sempre pensando e planejando como servir ao Senhor deve ser considerada completamente liberada no presente e no futuro. Sua volta ao lar, de volta ao Supremo, está garantida. Ela está acima de toda crítica materialista, assim como Kṛṣṇa está acima de toda crítica.

Bg 9.29

समोऽहं सर्वभूतेषु न मे द्वेष्योऽस्ति न प्रियः ।
ये भजन्ति तु मां भक्त्या मयि ते तेषु चाप्यहम् ॥२९॥

samo ‘haṁ sarva-bhūteṣu

na me dveṣyo ‘sti na priyaḥ

ye bhajanti tu māṁ bhaktyā

mayi te teṣu cāpy aham

samaḥ—igualmente disposto; aham—Eu; sarva-bhūteṣu—para com todas as entidades vivas; na—ninguém; me—Meu; dveṣyaḥ—odiável; asti—é; na—nem; priyaḥ—querido; ye—aqueles; bhajanti—prestam serviço transcendental; tu—contudo; mām—a Mim; bhaktyā—em devoção; mayi—em Mim; te—tais pessoas; teṣu—nelas; ca—também; api—certamente; aham—Eu.

Não invejo ninguém, nem sou parcial com ninguém. Sou igual para com todos. Mas todo aquele que Me presta serviço com devoção é um amigo, está em Mim, e Eu também sou amigo dele.

Pode-se questionar aqui que, se Kṛṣṇa é igual para com todos, e ninguém é Seu amigo especial, então por que Ele tem um interesse especial pelos devotos que estão sempre ocupados em Seu serviço transcendental? Mas isto não é discriminação; é natural. Qualquer homem neste mundo material pode ser muito caridosamente disposto, mas tem um interesse especial em seus próprios filhos. O Senhor afirma que toda entidade viva — em qualquer forma — é Seu filho e, como tal, Ele provê a todos com generoso suprimento das necessidades da vida. Ele é como uma nuvem que derrama chuva por toda parte, sem se importar se cai sobre rocha, terra ou água. Mas, para com Seus devotos, Ele dá atenção específica. Tais devotos são aqui mencionados: estão sempre em consciência de Kṛṣṇa e, por conseguinte, estão sempre transcendentalmente situados em Kṛṣṇa. A própria expressão “consciência de Kṛṣṇa” sugere que aqueles que estão em tal consciência são transcendentalistas vivos, situados Nele. O Senhor diz aqui distintamente “mayi te”, “em Mim”. Naturalmente, em consequência, o Senhor também está neles. Isto é recíproco. Isto também explica as palavras: asti na priyaḥ/ye bhajanti: “Quem se render a Mim, proporcionalmente, dele cuido.” Esta reciprocidade transcendental existe porque tanto o Senhor quanto o devoto são conscientes. Quando um diamante é engastado num anel de ouro, fica muito bonito. O ouro é glorificado e, ao mesmo tempo, o diamante é glorificado. O Senhor e a entidade viva eternamente brilham, e quando uma entidade viva se inclina ao serviço do Senhor Supremo, ela parece ouro. O Senhor é um diamante, e essa combinação fica muito bonita. As entidades vivas em estado puro chamam-se devotos. O Senhor Supremo torna-se devoto de Seus devotos. Se não houver relação recíproca entre o devoto e o Senhor, não há filosofia personalista. Na filosofia impessoal, não há reciprocidade entre o Supremo e a entidade viva, mas na filosofia personalista, sim.

O exemplo é frequentemente dado de que o Senhor é como uma árvore-dos-desejos, e tudo o que se quer dessa árvore-dos-desejos, o Senhor o supre. Mas aqui a explicação é mais completa. Diz-se aqui que o Senhor é parcial para com os devotos. Esta é a manifestação da especial misericórdia do Senhor para com os devotos. A reciprocação do Senhor não deve ser considerada sob a lei do karma. Pertence à situação transcendental em que o Senhor e Seus devotos atuam. O serviço devocional ao Senhor não é uma atividade deste mundo material; é parte do mundo espiritual, onde predominam a eternidade, a bem-aventurança e o conhecimento.

Bg 9.3

अश्रद्दधानाः पुरुषा धर्मस्यास्य परन्तप ।
अप्राप्य मां निवर्तन्ते मृत्युसंसारवर्त्मनि ॥३॥

aśraddadhānāḥ puruṣā

dharmasyāsya parantapa

aprāpya māṁ nivartante

mṛtyu-saṁsāra-vartmani

aśraddadhānāḥ—aqueles que não têm fé; puruṣāḥ—tais pessoas; dharmasya—deste processo de religião; asya—dele; parantapa—ó subjugador dos inimigos; aprāpya—sem obter; mām—a Mim; nivartante—retornam; mṛtyu—morte; saṁsāra—existência material; vartmani—na senda de.

Aqueles que não têm fé na senda do serviço devocional não podem alcançar-Me, ó conquistador dos inimigos, mas retornam ao nascimento e à morte neste mundo material.

Os infiéis não podem realizar este processo de serviço devocional; este é o significado deste verso. A fé se cria pela associação com os devotos. As pessoas desafortunadas, mesmo após ouvirem todas as evidências da literatura Védica de grandes personalidades, ainda assim não têm fé em Deus. São hesitantes e não conseguem manter-se fixas no serviço devocional ao Senhor. Portanto, a fé é o fator mais importante para o progresso na consciência de Kṛṣṇa. No Caitanya-caritāmṛta, afirma-se que se deve ter completa convicção de que, simplesmente servindo o Senhor Supremo Śrī Kṛṣṇa, pode-se alcançar toda perfeição. Isso se chama fé verdadeira. No Śrīmad-Bhāgavatam (3.4.12) afirma-se que, ao dar-se água à raiz de uma árvore, seus ramos, galhos e folhas ficam satisfeitos, e, ao fornecer-se alimento ao estômago, todos os sentidos do corpo ficam satisfeitos; de modo semelhante, pelo engajamento no serviço transcendental ao Senhor Supremo, todos os semideuses e todas as entidades vivas ficam automaticamente satisfeitos.

Após ler o Bhagavad-gītā, deve-se prontamente chegar à conclusão do Bhagavad-gītā: deve-se abandonar toda outra ocupação e adotar o serviço ao Senhor Supremo, Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus. Se alguém estiver convencido desta filosofia de vida, isto é fé. Ora, o desenvolvimento dessa fé é o processo da consciência de Kṛṣṇa.

Há três divisões de homens conscientes de Kṛṣṇa. Na terceira classe estão os que não têm fé. Se se ocupam no serviço devocional oficialmente, com algum propósito ulterior, não podem alcançar o estágio mais elevado de perfeição. Provavelmente escorregarão depois de algum tempo. Podem ocupar-se, mas, por não terem completa convicção e fé, é-lhes muito difícil continuar em consciência de Kṛṣṇa. Temos experiência prática, no exercício de nossa atividade missionária, de que algumas pessoas vêm e se aplicam à consciência de Kṛṣṇa com algum motivo oculto, e tão logo se acham um pouco bem situadas economicamente, abandonam este processo e voltam aos seus velhos hábitos. É somente pela fé que se pode avançar na consciência de Kṛṣṇa. No que tange ao desenvolvimento da fé, aquele que é versado nas escrituras do serviço devocional e atingiu o estágio de fé firme é chamado pessoa de primeira classe em consciência de Kṛṣṇa. Na segunda classe estão aqueles que não são muito avançados na compreensão das escrituras devocionais, mas que automaticamente têm fé firme de que Kṛṣṇa bhakti, ou serviço a Kṛṣṇa, é o melhor caminho, e por isso, em boa fé, o adotaram. São, pois, superiores aos da terceira classe, que não têm conhecimento perfeito das escrituras nem boa fé, mas, por associação e simplicidade, tentam seguir. A pessoa de terceira classe em consciência de Kṛṣṇa pode cair, mas quando se está na segunda ou primeira classe, não se cai. Aquele que está na primeira classe certamente progredirá e alcançará o resultado ao final. Quanto à pessoa de terceira classe em consciência de Kṛṣṇa, embora tenha fé na convicção de que o serviço devocional a Kṛṣṇa é muito bom, não tem conhecimento sobre Kṛṣṇa por meio das escrituras, como o Śrīmad-Bhāgavatam e o Bhagavad-gītā. Às vezes essas pessoas de terceira classe em consciência de Kṛṣṇa têm certa tendência ao karma-yoga e ao jñāna-yoga, e às vezes se perturbam, mas, tão logo a infecção do karma-yoga ou do jñāna-yoga é vencida, tornam-se pessoas de segunda ou primeira classe em consciência de Kṛṣṇa. A fé em Kṛṣṇa também se divide em três estágios e descreve-se no Śrīmad-Bhāgavatam. Apego de primeira classe, apego de segunda classe e apego de terceira classe também se explicam no Śrīmad-Bhāgavatam, no Décimo Primeiro Canto. Aqueles que não têm fé mesmo após ouvirem sobre Kṛṣṇa e a excelência do serviço devocional, e que acham ser isso mero elogio, encontram a senda muito difícil, ainda que supostamente se ocupem em serviço devocional. Para eles há muito pouca esperança de alcançar a perfeição. Assim sendo, a fé é muito importante na execução do serviço devocional.

Bg 9.30

अपि चेत्सुदुराचारो भजते मामनन्यभाक् ।
साधुरेव स मन्तव्यः सम्यग्व्यवसितो हि सः ॥३०॥

api cet su-durācāro

bhajate mām ananya-bhāk

sādhur eva sa mantavyaḥ

samyag vyavasito hi saḥ

api—apesar de; cet—embora; sudurācāraḥ—quem comete as ações mais abomináveis; bhajate—ocupa-se em serviço devocional; mām—a Mim; ananya-bhāk—sem desvio; sādhuḥ—santo; eva—certamente; saḥ—ele; mantavyaḥ—de ser considerado; samyak—completamente; vyavasitaḥ—situado; hi—certamente; saḥ—ele.

Mesmo que alguém cometa as ações mais abomináveis, se estiver ocupado em serviço devocional, deve ser considerado santo, porque está corretamente situado.

A palavra sudurācāro usada neste verso é muito significativa, e devemos compreendê-la corretamente. Quando uma entidade viva está condicionada, ela tem dois tipos de atividades: uma é condicional, e a outra é constitucional. Quanto a proteger o corpo ou cumprir as regras da sociedade e do Estado, há certamente diferentes atividades, mesmo para os devotos, em conexão com a vida condicional, e tais atividades chamam-se condicionais. Além destas, a entidade viva que está plenamente consciente de sua natureza espiritual e ocupada em consciência de Kṛṣṇa, ou no serviço devocional ao Senhor, tem atividades que se chamam transcendentais. Tais atividades são realizadas em sua posição constitucional, e tecnicamente chamam-se serviço devocional. Ora, no estado condicionado, às vezes o serviço devocional e o serviço condicional em relação ao corpo correm paralelos um ao outro. Mas, então, novamente, às vezes essas atividades se opõem uma à outra. Tanto quanto possível, o devoto é muito cauteloso para não fazer nada que possa romper sua condição saudável. Sabe que a perfeição em suas atividades depende de sua progressiva compreensão da consciência de Kṛṣṇa. Às vezes, contudo, pode-se ver que uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa comete algum ato que se possa tomar como o mais abominável social ou politicamente. Mas tal queda temporária não a desqualifica. No Śrīmad-Bhāgavatam afirma-se que, se uma pessoa cair, mas estiver ocupada de todo o coração no serviço transcendental ao Senhor Supremo, o Senhor, situado dentro de seu coração, embeleza-a e a desculpa daquela abominação. A contaminação material é tão forte que mesmo um yogī plenamente ocupado no serviço ao Senhor às vezes se enreda; mas a consciência de Kṛṣṇa é tão forte que tal queda ocasional é imediatamente corrigida. Por isso, o processo do serviço devocional é sempre um êxito. Ninguém deve zombar de um devoto por alguma queda acidental do caminho ideal, pois, como se explica no próximo verso, tais quedas ocasionais cessarão no devido tempo, tão logo o devoto esteja completamente situado em consciência de Kṛṣṇa.

Por conseguinte, uma pessoa que está situada em consciência de Kṛṣṇa e que se ocupa com determinação no processo de cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare, deve ser considerada na posição transcendental, mesmo que, por acaso ou acidente, se descubra que caiu. As palavras sādhur eva, “ele é santo”, são muito enfáticas. São uma advertência aos não devotos de que, por causa de uma queda acidental, um devoto não deve ser ridicularizado; ainda deve ser considerado santo, mesmo que tenha caído acidentalmente. E a palavra mantavyaḥ é ainda mais enfática. Se alguém não seguir esta regra, e zombar de um devoto por sua queda acidental, está desobedecendo à ordem do Senhor Supremo. A única qualificação de um devoto é estar inabalável e exclusivamente ocupado em serviço devocional.

A marca da mancha que se possa ver na lua não se torna impedimento para o luar. De modo semelhante, a queda acidental de um devoto da senda do caráter santo não o torna abominável. Por outro lado, não se deve mal interpretar que um devoto em transcendental serviço devocional possa agir de toda sorte de maneiras abomináveis; este verso refere-se apenas a um acidente devido ao forte poder das conexões materiais. O serviço devocional é, mais ou menos, uma declaração de guerra contra a energia ilusória. Enquanto não se for forte o bastante para combater a energia ilusória, pode haver quedas acidentais. Mas quando se for forte o bastante, já não estará sujeito a tais quedas, como se explicou anteriormente. Ninguém deve aproveitar-se deste verso para cometer disparates e pensar que ainda é um devoto. Se ele não melhorar em seu caráter pelo serviço devocional, então deve-se entender que não é um devoto elevado.

Bg 9.31

क्षिप्रं भवति धर्मात्मा शश्वच्छान्तिं निगच्छति ।
कौन्तेय प्रतिजानीहि न मे भक्तः प्रणश्यति ॥३१॥

kṣipraṁ bhavati dharmātmā

śaśvac-chāntiṁ nigacchati

kaunteya pratijānīhi

na me bhaktaḥ praṇaśyati

kṣipram—muito em breve; bhavati—torna-se; dharma-ātmā—virtuoso; śaśvat-śāntim—paz duradoura; nigacchati—alcança; kaunteya—ó filho de Kuntī; pratijānīhi—declara com justiça; na—nunca; me—Meu; bhaktaḥ—devoto; praṇaśyati—perece.

Ele rapidamente se torna virtuoso e alcança paz duradoura. Ó filho de Kuntī, declara ousadamente que Meu devoto nunca perece.

Isto não deve ser mal compreendido. No Sétimo Capítulo, o Senhor diz que aquele que se ocupa em atividades maliciosas não pode tornar-se devoto do Senhor. Aquele que não é devoto do Senhor não tem boas qualificações em absoluto. Resta, então, a pergunta: como pode uma pessoa ocupada em atividades abomináveis — seja por acidente ou intenção — ser um devoto puro? Esta pergunta pode ser justamente levantada. Os malfeitores, como se afirma no Sétimo Capítulo, que jamais aceitam o serviço devocional ao Senhor, não têm boas qualificações, como se afirma no Śrīmad-Bhāgavatam. Em geral, um devoto que se ocupa nos nove tipos de atividades devocionais ocupa-se no processo de limpar toda contaminação material do coração. Coloca a Suprema Personalidade de Deus dentro do seu coração, e todas as contaminações pecaminosas são naturalmente lavadas. Pensar continuamente no Senhor Supremo torna-o puro por natureza. Segundo os Vedas, há certa regulação de que, se alguém cair de sua posição elevada, terá de submeter-se a certos processos ritualísticos para purificar-se. Mas aqui não há tal condição, porque o processo purificador já está presente no coração do devoto, devido a sua constante recordação da Suprema Personalidade de Deus. Por isso, o canto de Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare deve ser continuado sem interrupção. Isto protegerá o devoto de todas as quedas acidentais. Assim ele permanecerá perpetuamente livre de todas as contaminações materiais.

Bg 9.32

मां हि पार्थ व्यपाश्रित्य येऽपि स्युः पापयोनयः ।
स्त्रियो वैश्यास्तथा शूद्रास्तेऽपि यान्ति परां गतिम् ॥३२॥

māṁ hi pārtha vyapāśritya

ye ‘pi syuḥ pāpa-yonayaḥ

striyo vaiśyās tathā śūdrās

te ‘pi yānti parāṁ gatim

mām—a Mim; hi—certamente; pārtha—ó filho de Pṛthā; vyapāśrītya—particularmente refugiando-se; ye—quem quer que; api—também; syuḥ—torne-se; pāpa-yonayaḥ—nascido de família inferior; striyaḥ—mulheres; vaiśyāḥ—pessoas mercantis; tathā—também; śūdrāḥ—homens de classe inferior; te api—mesmo eles; yānti—vão; parām—suprema; gatim—destino.

Ó filho de Pṛthā, aqueles que se refugiam em Mim, embora sejam de nascimento inferior — mulheres, vaiśyas [comerciantes], assim como śūdras [trabalhadores] —, podem aproximar-se do destino supremo.

Aqui o Senhor Supremo declara claramente que, no serviço devocional, não há distinção entre as classes inferiores ou superiores de pessoas. Na concepção material da vida, há tais divisões, mas, para uma pessoa ocupada no transcendental serviço devocional ao Senhor, não há. Todos são elegíveis para o destino supremo. No Śrīmad-Bhāgavatam afirma-se que mesmo os mais baixos, que se chamam caṇḍālas (comedores de cães), podem ser elevados pela associação com um devoto puro. Por conseguinte, o serviço devocional e a orientação de um devoto puro são tão poderosos que não há discriminação entre as classes inferiores e superiores de homens; qualquer um pode adotá-lo. O homem mais simples que se refugia em um devoto puro pode ser purificado mediante orientação adequada. De acordo com os diferentes modos da natureza material, os homens são classificados no modo da bondade (brāhmaṇas), no modo da paixão (kṣatriyas, ou administradores), nos modos mistos da paixão e da ignorância (vaiśyas, ou comerciantes) e no modo da ignorância (śūdras, ou trabalhadores). Os inferiores a estes chamam-se caṇḍālas, e nascem em famílias pecaminosas. Em geral, os que nascem em famílias pecaminosas não são aceitos pelas classes superiores. Mas o processo do serviço devocional e o devoto puro do Deus Supremo são tão poderosos que todas as classes inferiores podem alcançar a mais alta perfeição da vida. Isto é possível somente quando alguém se refugia em Kṛṣṇa. É preciso refugiar-se completamente em Kṛṣṇa. Então pode-se tornar muito maior do que grandes jñānīs e yogīs.

Bg 9.33

किं पुनर्ब्राह्मणाः पुण्या भक्ता राजर्षयस्तथा ।
अनित्यमसुखं लोकमिमं प्राप्य भजस्व माम् ॥३३॥

kiṁ punar brāhmaṇāḥ puṇyā

bhaktā rājarṣayas tathā

anityam asukhaṁ lokam

imaṁ prāpya bhajasva mām

kim—quanto; punaḥ—novamente; brāhmaṇāḥ—brāhmaṇas; puṇyāḥ—virtuosos; bhaktāḥ—devotos; rājarṣayaḥ—reis santos; tathā—também; anityam—temporário; asukham—pesaroso; lokam—planetas; imam—este; prāpya—obtendo; bhajasva—estão ocupados em serviço amoroso; mām—a Mim.

Quão maiores, então, são os brāhmaṇas, os virtuosos, os devotos e os reis santos que, neste temporário e miserável mundo, ocupam-se em serviço amoroso a Mim.

Neste mundo material, há classificações de pessoas, mas, afinal, este mundo não é um lugar feliz para ninguém. Aqui se afirma claramente, anityam asukhaṁ lokam: este mundo é temporário e cheio de misérias, não habitável para qualquer cavalheiro são. Este mundo é declarado pela Suprema Personalidade de Deus como temporário e cheio de misérias. Alguns dos filósofos, especialmente os filósofos menores, dizem que este mundo é falso, mas podemos compreender pelo Bhagavad-gītā que o mundo não é falso; é temporário. Há diferença entre temporário e falso. Este mundo é temporário, mas há outro mundo que é eterno. Este mundo é miserável, mas o outro mundo é eterno e bem-aventurado.

Arjuna nasceu numa santa família real. A ele também o Senhor diz: “Adota Meu serviço devocional e volta logo ao Supremo, ao lar.” Ninguém deve permanecer neste mundo temporário, repleto, como está, de misérias. Todos devem apegar-se ao seio da Suprema Personalidade de Deus, para que possam ser eternamente felizes. O serviço devocional ao Senhor Supremo é o único processo pelo qual todos os problemas de todas as classes de homens podem ser resolvidos. Por isso, todos devem adotar a consciência de Kṛṣṇa e tornar suas vidas perfeitas.

Bg 9.34

मन्मना भव मद्भक्तो मद्याजी मां नमस्कुरु ।
मामेवैष्यसि युक्त्वैवमात्मानं मत्परायणः ॥३४॥

man-manā bhava mad-bhakto

mad-yājī māṁ namaskuru

mām evaiṣyasi yuktvaivam

ātmānaṁ mat-parāyaṇaḥ

mat-manāḥ—sempre pensando em Mim; bhava—torna-te; mat—Meu; bhaktaḥ—devoto; mat—Meu; yājī—adorador; mām—a Mim; namaskuru—oferece reverências; mām—a Mim; eva—completamente; eṣyasi—virás; yuktvā evam—estando absorto; ātmānam—tua alma; mat-parāyaṇaḥ—devotada a Mim.

Ocupa tua mente sempre em pensar em Mim, oferece-Me reverências e adora-Me. Estando completamente absorto em Mim, certamente virás a Mim.

Neste verso, indica-se claramente que a consciência de Kṛṣṇa é o único meio de libertar-se das garras deste contaminado mundo material. Às vezes, comentadores inescrupulosos distorcem o sentido daquilo que aqui claramente se afirma: que todo o serviço devocional deve ser oferecido à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Infelizmente, comentadores inescrupulosos desviam a mente do leitor para algo que não é em absoluto factível. Tais comentadores não sabem que não há diferença entre a mente de Kṛṣṇa e Kṛṣṇa. Kṛṣṇa não é um ser humano comum; Ele é a Verdade Absoluta. Seu corpo, Sua mente e Ele Mesmo são um e absoluto. Afirma-se no Kūrma Purāṇa. Conforme cita Bhaktisiddhānta Sarasvatī Gosvāmī em seus comentários Anubhāṣya sobre o Caitanya-caritāmṛta, Quinto Capítulo, Ādi-līlā, versos 41-48: “deha-dehi-vibhedo ‘yaṁ neśvare vidyate kvacit”, que significa que não há diferença, em Kṛṣṇa, o Senhor Supremo, entre Ele Mesmo e Seu corpo. Mas, por não conhecerem esta ciência de Kṛṣṇa, os comentadores escondem Kṛṣṇa e separam Sua personalidade de Sua mente ou de Seu corpo. Embora isto seja pura ignorância da ciência de Kṛṣṇa, alguns homens lucram desencaminhando o povo.

Há alguns que são demoníacos; eles também pensam em Kṛṣṇa, mas com inveja, tal como o rei Kaṁsa, tio de Kṛṣṇa. Ele também pensava sempre em Kṛṣṇa, mas pensava em Kṛṣṇa como seu inimigo. Estava sempre em ansiedade, indagando-se quando Kṛṣṇa viria matá-lo. Esse tipo de pensamento não nos ajudará. Deve-se pensar em Kṛṣṇa em amor devocional. Isso é bhakti. Deve-se cultivar continuamente o conhecimento sobre Kṛṣṇa. Que cultivo favorável é esse? É aprender com um mestre genuíno. Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, e várias vezes explicamos que Seu corpo não é material, mas é eterno conhecimento bem-aventurado. Esse tipo de conversa sobre Kṛṣṇa ajudará a pessoa a tornar-se devota. De outro modo, compreender Kṛṣṇa pela fonte errada provará ser infrutífero.

Deve-se, portanto, ocupar a mente na forma eterna, a forma primordial de Kṛṣṇa; com convicção no coração de que Kṛṣṇa é o Supremo, deve-se ocupar em adoração. Há centenas de milhares de templos na Índia para a adoração a Kṛṣṇa, e ali se pratica o serviço devocional. Quando se faz tal prática, deve-se oferecer reverências a Kṛṣṇa. Deve-se baixar a cabeça diante da Deidade e ocupar a mente, o corpo, as atividades — tudo. Isto fará com que a pessoa fique plenamente absorta em Kṛṣṇa, sem desvio. Isto a ajudará a transferir-se ao Kṛṣṇaloka. Não se deve ser desviado por comentadores inescrupulosos. Deve-se ocupar nos nove diferentes processos do serviço devocional, começando por ouvir e cantar sobre Kṛṣṇa. O serviço devocional puro é a mais alta realização da sociedade humana.

No Sétimo e no Oitavo Capítulos do Bhagavad-gītā, o serviço devocional puro ao Senhor foi explicado, à parte do yoga do conhecimento e do yoga místico ou das atividades fruitivas. Aqueles que não estão puramente santificados podem ser atraídos por diferentes traços do Senhor, como o Brahman impessoal e o Paramātmā localizado, mas o devoto puro adota diretamente o serviço ao Senhor Supremo.

Há um belo poema sobre Kṛṣṇa em que se afirma claramente que qualquer pessoa que se ocupe na adoração aos semideuses é a mais não inteligente e jamais pode alcançar o supremo galardão de Kṛṣṇa. O devoto, no início, pode às vezes cair do critério, mas, ainda assim, deve ser considerado superior a todos os outros filósofos e yogīs. Aquele que sempre se ocupa em consciência de Kṛṣṇa deve ser entendido como a pessoa santa perfeita. Suas atividades não devocionais acidentais diminuirão, e em breve estará situado, sem dúvida alguma, em completa perfeição. O devoto puro não tem realmente possibilidade de cair, pois o Supremo Deus pessoalmente cuida de Seus devotos puros. Por isso, a pessoa inteligente deve adotar diretamente este processo da consciência de Kṛṣṇa e viver feliz neste mundo material. Em última análise, receberá o supremo galardão de Kṛṣṇa.

Assim terminam os Significados Bhaktivedanta do Nono Capítulo do Śrīmad-Bhagavad-gītā sobre o tema do Conhecimento Mais Confidencial.

Bg 9.4

मया ततमिदं सर्वं जगदव्यक्तमूर्तिना ।
मत्स्थानि सर्वभूतानि न चाहं तेष्ववस्थितः ॥४॥

mayā tatam idaṁ sarvaṁ

jagad avyakta-mūrtinā

mat-sthāni sarva-bhūtāni

na cāhaṁ teṣv avasthitaḥ

mayā—por Mim; tatam—permeado; idam—todas estas manifestações; sarvam—toda; jagat—manifestação cósmica; avyakta-mūrtinā—forma imanifesta; mat-sthāni—em Mim; sarva-bhūtāni—todas as entidades vivas; na—não; ca—também; aham—Eu; teṣu—neles; avasthitaḥ—situado.

Por Mim, em Minha forma imanifesta, todo este universo é permeado. Todos os seres estão em Mim, mas Eu não estou neles.

A Suprema Personalidade de Deus não é perceptível pelos grosseiros sentidos materiais. Diz-se que o nome, fama, passatempos, etc., do Senhor Śrī Kṛṣṇa não podem ser compreendidos pelos sentidos materiais. Apenas a quem se ocupa em serviço devocional puro sob orientação adequada Ele é revelado. Na Brahma-saṁhitā afirma-se: premāñjana-cchurita… Pode-se ver a Suprema Personalidade de Deus, Govinda, sempre dentro e fora de si mesmo, se a pessoa tiver desenvolvido a atitude transcendental amorosa para com Ele. Assim, para as pessoas em geral, Ele não é visível. Aqui se diz que, embora seja onipenetrante, presente em toda parte, Ele todavia não é concebível pelos sentidos materiais. Mas, na verdade, embora não possamos vê-Lo, tudo repousa Nele. Como discutimos no Sétimo Capítulo, toda a manifestação cósmica material é apenas uma combinação de Suas duas energias diferentes: a energia espiritual superior e a energia material inferior. Assim como a luz do Sol se espalha por todo o universo, a energia do Senhor se espalha por toda a criação, e tudo repousa nessa energia.

Contudo, não se deve concluir que, por estar espalhado por toda parte, Ele tenha perdido Sua existência pessoal. Para refutar tal argumento, o Senhor diz: “Estou em toda parte, e tudo está em Mim, mas, ainda assim, mantenho-Me à parte”. Por exemplo, um rei chefia um governo que nada mais é que a manifestação da energia do rei; os diferentes departamentos governamentais nada mais são que as energias do rei, e cada departamento repousa no poder do rei. Ainda assim, não se pode esperar que o rei esteja presente pessoalmente em cada departamento. Esse é um exemplo grosseiro. De modo semelhante, todas as manifestações que vemos, e tudo o que existe tanto neste mundo material quanto no mundo espiritual, repousam na energia da Suprema Personalidade de Deus. A criação ocorre pela difusão de Suas diferentes energias, e, como se afirma no Bhagavad-gītā, Ele está presente em toda parte por Sua representação pessoal, a difusão de Suas diferentes energias.

Bg 9.5

न च मत्स्थानि भूतानि पश्य मे योगमैश्वरम् ।
भूतभृन्न च भूतस्थो ममात्मा भूतभावनः ॥५॥

na ca mat-sthāni bhūtāni

paśya me yogam aiśvaram

bhūta-bhṛn na ca bhūta-stho

mamātmā bhūta-bhāvanaḥ

na—nunca; ca—também; mat-sthāni—situadas em Mim; bhūtāni—toda a criação; paśya—vê só; me—Minha; yogam aiśvaram—inconcebível poder místico; bhūta-bhṛt—mantenedor de todas as entidades vivas; na—nunca; ca—também; bhūta-sthaḥ—na manifestação cósmica; mama—Meu; ātmā—Eu; bhūta-bhāvanaḥ—é a fonte de todas as manifestações.

E, contudo, tudo o que é criado não repousa em Mim. Contempla Minha opulência mística! Embora Eu seja o mantenedor de todas as entidades vivas, e embora esteja em toda parte, ainda assim Meu Eu é a própria fonte da criação.

O Senhor diz que tudo repousa Nele. Isto não deve ser mal compreendido. O Senhor não está diretamente envolvido na manutenção e sustento desta manifestação material. Às vezes vemos um quadro de Atlas segurando o globo sobre os ombros; ele parece muito cansado, sustentando este grande planeta terrestre. Tal imagem não deve ser cultivada em conexão com a sustentação que Kṛṣṇa faz deste universo criado. Ele diz que, embora tudo repouse Nele, mantém-Se ainda à parte. Os sistemas planetários flutuam no espaço, e este espaço é a energia do Senhor Supremo. Mas Ele é diferente do espaço. Está situado de modo distinto. Por isso, o Senhor diz: “Embora estejam situados em Minha inconcebível energia, Eu, como Suprema Personalidade de Deus, mantenho-Me à parte deles”. Esta é a inconcebível opulência do Senhor.

No dicionário Védico afirma-se: “O Senhor Supremo está realizando passatempos inconcebivelmente maravilhosos, exibindo Sua energia. Sua pessoa está repleta de diferentes energias potentes, e Sua determinação em si mesma é fato real. Desta forma, deve-se compreender a Personalidade de Deus.” Podemos pensar em fazer algo, mas há tantos impedimentos, e às vezes não é possível fazer como desejaríamos. Mas quando Kṛṣṇa quer fazer algo, simplesmente por Sua vontade, tudo se realiza com tal perfeição que ninguém pode imaginar como está sendo feito. O Senhor explica este fato: embora seja o mantenedor e sustentador de toda manifestação material, Ele não toca nesta manifestação material. Simplesmente por Sua suprema vontade, tudo é criado, tudo é sustentado, tudo é mantido e tudo é aniquilado. Não há diferença entre Sua mente e Ele mesmo (como há diferença entre nós mesmos e nossa mente material atual), porque Ele é espírito absoluto. Simultaneamente, o Senhor está presente em tudo; contudo, o homem comum não pode compreender como Ele também está presente pessoalmente. Ele é diferente desta manifestação material, e, todavia, tudo repousa Nele. Isto se explica aqui como yogam aiśvaram, o poder místico da Suprema Personalidade de Deus.

Bg 9.6

यथाकाशस्थितो नित्यं वायुः सर्वत्रगो महान् ।
तथा सर्वाणि भूतानि मत्स्थानीत्युपधारय ॥६॥

yathākāśa-sthito nityaṁ

vāyuḥ sarvatra-go mahān

tathā sarvāṇi bhūtāni

mat-sthānīty upadhāraya

yathā—tanto quanto; ākāśa-sthitaḥ—situado no espaço; nityam—sempre; vāyuḥ—vento; sarvatra-gaḥ—soprando por toda parte; mahān—grande; tathā—de modo semelhante; sarvāṇi—todos, bhūtāni–seres criados; mat-sthāni—situados em Mim; iti—assim; upadhāraya—procura compreender.

Assim como o poderoso vento, soprando por toda parte, sempre repousa no espaço etéreo, sabe que, da mesma forma, todos os seres repousam em Mim.

Para a pessoa comum, é quase inconcebível como a enorme criação material repousa Nele. Mas o Senhor está dando um exemplo que pode ajudar-nos a compreender. O espaço é a maior manifestação que podemos conceber. A manifestação cósmica repousa no espaço. O espaço permite o movimento até dos átomos, indo até os maiores planetas, o sol e a lua. Embora o céu (ou vento, ou ar) seja grande, ainda assim está situado dentro do espaço. O espaço não está além do céu.

De modo semelhante, todas as maravilhosas manifestações cósmicas existem pela suprema vontade de Deus, e todas elas estão subordinadas a essa suprema vontade. Como geralmente dizemos, nenhuma folha de capim se move sem a vontade da Suprema Personalidade de Deus. Assim, tudo se move sob Sua vontade: por Sua vontade tudo é criado, tudo é mantido e tudo é aniquilado. Ainda assim, Ele Se mantém à parte de tudo, como o espaço sempre se mantém à parte das atividades da atmosfera. Nos Upaniṣads, afirma-se: “É por temor ao Senhor Supremo que o vento sopra.” No Garga Upaniṣad também se afirma: “Pela ordem suprema, sob a superintendência da Suprema Personalidade de Deus, a lua, o sol e os grandes planetas se movem.” Na Brahma-saṁhitā isto também se afirma. Há também uma descrição do movimento do sol, e diz-se que o sol é considerado um dos olhos do Senhor Supremo e que tem imensa potência para difundir calor e luz. Ainda assim, ele se move em sua órbita prescrita pela ordem e pela suprema vontade de Govinda. Assim, da literatura Védica podemos encontrar evidência de que esta manifestação material, que nos parece muito maravilhosa e grande, está sob o controle completo da Suprema Personalidade de Deus. Isto será mais explicado nos versos posteriores deste capítulo.

Bg 9.7

सर्वभूतानि कौन्तेय प्रकृतिं यान्ति मामिकाम् ।
कल्पक्षये पुनस्तानि कल्पादौ विसृजाम्यहम् ॥७॥

sarva-bhūtāni kaunteya

prakṛtiṁ yānti māmikām

kalpa-kṣaye punas tāni

kalpādau visṛjāmy aham

sarva-bhūtāni—todas as entidades criadas; kaunteya—ó filho de Kuntī; prakṛtim—natureza; yānti—entram; māmikām—em Minha; kalpa-kṣaye—no fim do milênio; punaḥ—novamente; tāni—todas elas; kalpa-ādau—no início do milênio; visṛjāmi—crio; aham—Eu.

Ó filho de Kuntī, no fim do milênio, toda manifestação material entra em Minha natureza, e no início de outro milênio, por Minha potência, Eu novamente crio.

A criação, manutenção e aniquilação desta manifestação cósmica material dependem completamente da suprema vontade da Personalidade de Deus. “No fim do milênio” significa na morte de Brahmā. Brahmā vive cem anos, e um de seus dias se calcula em 4.300.000.000 dos nossos anos terrestres. Sua noite tem a mesma duração. Seu mês consiste em trinta dessas noites e dias, e seu ano em doze meses. Após cem desses anos, quando Brahmā morre, ocorre a devastação ou aniquilação; isto significa que a energia manifestada pelo Senhor Supremo é novamente recolhida em Si Mesmo. Então, novamente, quando há necessidade de manifestar o mundo cósmico, isso é feito por Sua vontade: “Embora Eu seja um, tornar-Me-ei muitos.” Este é o aforismo Védico. Ele Se expande nesta energia material, e toda a manifestação cósmica novamente ocorre.

Bg 9.8

प्रकृतिं स्वामवष्टभ्य विसृजामि पुनः पुनः ।
भूतग्राममिमं कृत्स्नमवशं प्रकृतेर्वशात् ॥८॥

prakṛtiṁ svām avaṣṭabhya

visṛjāmi punaḥ punaḥ

bhūta-grāmam imaṁ kṛtsnam

avaśaṁ prakṛter vaśāt

prakṛtim—natureza material; svām—de Meu próprio Eu; avaṣṭabhya—entrando; visṛjāmi—crio; punaḥ punaḥ—novamente, novamente; bhūta-grāmam—todas estas manifestações cósmicas; imam—esta; kṛtsnam—total; avaśam—automaticamente; prakṛteḥ—pela força da natureza; vaśāt—sob obrigação.

Toda a ordem cósmica está sob Mim. Por Minha vontade, ela é manifestada repetidas vezes, e, por Minha vontade, é aniquilada no fim.

Esta matéria é a manifestação da energia inferior da Suprema Personalidade de Deus. Isto já foi explicado várias vezes. Na criação, a energia material é solta como mahat-tattva, na qual o Senhor, como Sua primeira encarnação Puruṣa, Mahā-Viṣṇu, entra. Ele Se deita dentro do Oceano Causal e exala inumeráveis universos, e em cada universo o Senhor entra novamente como Garbhodakaśāyī Viṣṇu. Cada universo é desse modo criado. Ainda mais, Ele Se manifesta como Kṣīrodakaśāyī Viṣṇu, e esse Viṣṇu entra em tudo — até no minúsculo átomo. Este fato se explica aqui. Ele entra em tudo.

Ora, no que se refere às entidades vivas, elas são impregnadas nesta natureza material, e, em consequência de seus atos passados, assumem diferentes posições. Assim começam as atividades deste mundo material. As atividades das diferentes espécies de seres vivos começam desde o exato momento da criação. Não é que tudo evolui. As diferentes espécies de vida são criadas imediatamente junto com o universo. Homens, animais, feras, aves — tudo é criado simultaneamente, porque quaisquer desejos que as entidades vivas tinham na última aniquilação são novamente manifestados. Aqui se afirma claramente que as entidades vivas nada têm a ver com este processo. O estado de seu ser na vida passada, na criação passada, é simplesmente manifestado novamente, e tudo isto é feito simplesmente por Sua vontade. Esta é a inconcebível potência da Suprema Personalidade de Deus. E, depois de criar diferentes espécies de vida, Ele não tem conexão com elas. A criação se dá para acomodar as inclinações das diversas entidades vivas, e por isso o Senhor não Se envolve com ela.

Bg 9.9

न च मां तानि कर्माणि निबध्नन्ति धनञ्जय ।
उदासीनवदासीनमसक्तं तेषु कर्मसु ॥९॥

na ca māṁ tāni karmāṇi

nibadhnanti dhanañjaya

udāsīna-vad āsīnam

asaktaṁ teṣu karmasu

na—nunca; ca—também; mām—a Mim; tāni—todas estas; karmāṇi—atividades; nibadhnanti—prendem; dhanañjaya—ó conquistador de riquezas; udāsīnavat—como neutro; āsīnam—situado; asaktam—sem atração; teṣu—nelas; karmasu—nas atividades.

Ó Dhanañjaya, todo este trabalho não pode prender-Me. Sou sempre desapegado, sentado como se fosse neutro.

Não se deve pensar, neste contexto, que a Suprema Personalidade de Deus não tenha ocupação. Em Seu mundo espiritual, Ele está sempre ocupado. Na Brahma-saṁhitā, afirma-se: “Ele está sempre envolvido em Suas eternas, bem-aventuradas e espirituais atividades, mas nada tem a ver com estas atividades materiais.” As atividades materiais estão sendo conduzidas por Suas diferentes potências. O Senhor é sempre neutro nas atividades materiais do mundo criado. Esta neutralidade se explica aqui. Embora tenha controle sobre cada mínimo detalhe da matéria, Ele Se senta como se fosse neutro. Pode-se dar o exemplo de um juiz de tribunal superior sentado em sua bancada. Por sua ordem, muitas coisas estão acontecendo: alguém está sendo enforcado, alguém está sendo posto na prisão, alguém recebe uma quantia enorme de riqueza — mas, ainda assim, ele é neutro. Nada tem a ver com todo esse ganho e perda. De modo semelhante, o Senhor é sempre neutro, embora tenha Sua mão em cada esfera de atividade. No Vedānta-sūtra, afirma-se que Ele não está situado nas dualidades deste mundo material. Ele é transcendental a estas dualidades. Tampouco está apegado à criação e à aniquilação deste mundo material. As entidades vivas assumem suas diferentes formas nas várias espécies de vida segundo seus atos passados, e o Senhor não interfere nelas.