Capítulo 5

Bg 5.1

अर्जुन उवाच ।
संन्यासं कर्मणां कृष्ण पुनर्योगं च शंससि ।
यच्छ्रेय एतयोरेकं तन्मे ब्रूहि सुनिश्चितम् ॥१॥

arjuna uvāca

sannyāsaṁ karmaṇāṁ kṛṣṇa

punar yogaṁ ca śaṁsasi

yac chreya etayor ekaṁ

tan me brūhi su-niścitam

arjunaḥ uvāca—Arjuna disse; sannyāsam—renúncia; karmaṇām—de todas as atividades; kṛṣṇa—ó Kṛṣṇa; punaḥ—novamente; yogam—serviço devocional; ca—também; śaṁsasi—estás louvando; yat—o qual; śreyaḥ—é benéfico; etayoḥ—destes dois; ekam—um; tat—aquele; me—a mim; brūhi—por favor, dize; suniścitam—definitivamente.

Arjuna disse: Ó Kṛṣṇa, primeiro me pedes que renuncie ao trabalho, e depois recomendas novamente o trabalho com devoção. Agora, terias a bondade de me dizer definitivamente qual destes dois é mais benéfico?

Neste Quinto Capítulo do Bhagavad-gītā, o Senhor diz que o trabalho em serviço devocional é melhor do que a árida especulação mental. O serviço devocional é mais fácil que esta última porque, sendo de natureza transcendental, livra a pessoa das reações. No Segundo Capítulo, explicou-se o conhecimento preliminar sobre a alma e seu enredamento no corpo material. Também ali se explicou como sair desse cativeiro material por meio do buddhi-yoga, ou serviço devocional. No Terceiro Capítulo, explicou-se que a pessoa situada na plataforma do conhecimento já não tem deveres a cumprir. E, no Quarto Capítulo, o Senhor disse a Arjuna que todas as espécies de trabalho sacrificial culminam em conhecimento. Contudo, ao final do Quarto Capítulo, o Senhor aconselhou Arjuna a despertar e lutar, situado em conhecimento perfeito. Assim sendo, ao acentuar simultaneamente a importância tanto do trabalho em devoção quanto da inação em conhecimento, Kṛṣṇa deixou Arjuna perplexo e abalou sua determinação. Arjuna compreende que a renúncia em conhecimento implica a cessação de todas as espécies de trabalho realizadas como atividades sensoriais. Mas se a pessoa executa trabalho em serviço devocional, então como se interrompe o trabalho? Em outras palavras, ele pensa que sannyāsam, ou renúncia em conhecimento, deveria estar inteiramente livre de todas as espécies de atividade, pois trabalho e renúncia lhe parecem incompatíveis. Aparentemente, ele não compreendeu que o trabalho em pleno conhecimento não produz reações e, portanto, equivale à inação. Por isso, ele indaga se deve cessar o trabalho por completo ou trabalhar com pleno conhecimento.

Bg 5.10

ब्रह्मण्याधाय कर्माणि सङ्गं त्यक्त्वा करोति यः ।
लिप्यते न स पापेन पद्मपत्रमिवाम्भसा ॥१०॥

brahmaṇy ādhāya karmāṇi

saṅgaṁ tyaktvā karoti yaḥ

lipyate na sa pāpena

padma-patram ivāmbhasā

brahmaṇi—à Suprema Personalidade de Deus; ādhāya—entregando; karmāṇi—todos os trabalhos; saṅgam—apego; tyaktvā—abandonando; karoti—executa; yaḥ—quem; lipyate—é afetado; na—nunca; saḥ—ele; pāpena—pelo pecado; padma-patram—folha de lótus; iva—como; ambhasā—na água.

Aquele que executa seu dever sem apego, entregando os resultados ao Deus Supremo, não é afetado pela ação pecaminosa, assim como a folha de lótus permanece intocada pela água.

Aqui brahmaṇi significa em consciência de Kṛṣṇa. O mundo material é uma soma total da manifestação dos três modos da natureza material, tecnicamente chamada pradhāna. Os hinos Védicos sarvam etad brahma, tasmād etad brahma nāma-rūpam annaṁ ca jāyate, e, no Bhagavad-gītā, mama yonir mahad brahma, indicam que tudo no mundo material é manifestação do Brahman; e, embora os efeitos se manifestem de modo distinto, não são diferentes da causa. No Īśopaniṣad afirma-se que tudo está relacionado com o Brahman Supremo, ou Kṛṣṇa, e que portanto tudo pertence somente a Ele. Aquele que sabe perfeitamente bem que tudo pertence a Kṛṣṇa, que Ele é o proprietário de tudo e que, por isso, tudo se ocupa no serviço ao Senhor, naturalmente nada tem a ver com os resultados de suas atividades, sejam virtuosos ou pecaminosos. Mesmo o corpo material da pessoa, sendo um dom do Senhor para a execução de determinado tipo de ação, pode ser empregado em consciência de Kṛṣṇa. Está além da contaminação por reações pecaminosas, exatamente como a folha de lótus, embora permaneça na água, não se molha. O Senhor também diz no Gītā: mayi sarvāṇi karmāṇi sannyasya: “Renuncia a todos os trabalhos a Mim [Kṛṣṇa].” A conclusão é que a pessoa sem consciência de Kṛṣṇa age conforme a concepção do corpo e dos sentidos materiais, mas a pessoa em consciência de Kṛṣṇa age conforme o conhecimento de que o corpo é propriedade de Kṛṣṇa e deve, portanto, ser empregado no serviço de Kṛṣṇa.

Bg 5.11

कायेन मनसा बुद्ध्या केवलैरिन्द्रियैरपि ।
योगिनः कर्म कुर्वन्ति सङ्गं त्यक्त्वात्मशुद्धये ॥११॥

kāyena manasā buddhyā

kevalair indriyair api

yoginaḥ karma kurvanti

saṅgaṁ tyaktvātma-śuddhaye

kāyena—com o corpo; manasā—com a mente; buddhyā—com a inteligência; kevalaiḥ—purificados; indriyaiḥ—com os sentidos; api—mesmo com; yoginaḥ—as pessoas conscientes de Kṛṣṇa; karma—ações; kurvanti—elas agem; saṅgam—apego; tyaktvā—abandonando; ātma—do eu; śuddhaye—com o propósito de purificação.

Os yogīs, abandonando o apego, agem com o corpo, a mente, a inteligência e mesmo com os sentidos, somente com o propósito de purificação.

Ao agir-se em consciência de Kṛṣṇa para a satisfação dos sentidos de Kṛṣṇa, qualquer ação, seja do corpo, da mente, da inteligência ou mesmo dos sentidos, purifica-se da contaminação material. Não há reações materiais resultantes das atividades de uma pessoa consciente de Kṛṣṇa. Por conseguinte, as atividades purificadas, geralmente chamadas sadācāra, podem ser facilmente executadas ao se agir em consciência de Kṛṣṇa. Śrī Rūpa Gosvāmī, em seu Bhakti-rasāmṛta-sindhu, descreve isto da seguinte maneira:

īhā yasya harer dāsye karmaṇā manasā girā

nikhilāsv apy avasthāsu jīvanmuktaḥ sa ucyate

Uma pessoa que age em consciência de Kṛṣṇa (ou, em outras palavras, em serviço a Kṛṣṇa) com seu corpo, sua mente, sua inteligência e suas palavras é uma pessoa liberada mesmo dentro do mundo material, embora possa estar ocupada em muitas atividades supostamente materiais. Não tem ego falso, nem acredita ser este corpo material, nem que possua o corpo. Sabe que não é este corpo e que este corpo não lhe pertence. Ele próprio pertence a Kṛṣṇa, e o corpo também pertence a Kṛṣṇa. Quando emprega tudo o que se produz do corpo, da mente, da inteligência, das palavras, da vida, da riqueza, etc. — tudo o que possa ter em sua posse — no serviço de Kṛṣṇa, imediatamente se acopla com Kṛṣṇa. Está em unidade com Kṛṣṇa e está desprovido do ego falso que leva a pessoa a crer que é o corpo, etc. Esta é a etapa perfeita da consciência de Kṛṣṇa.

Bg 5.12

युक्तः कर्मफलं त्यक्त्वा शान्तिमाप्नोति नैष्ठिकीम् ।
अयुक्तः कामकारेण फले सक्तो निबध्यते ॥१२॥

yuktaḥ karma-phalaṁ tyaktvā

śāntim āpnoti naiṣṭhikīm

ayuktaḥ kāma-kāreṇa

phale sakto nibadhyate

yuktaḥ—aquele que está ocupado em serviço devocional; karma-phalam—os resultados de todas as atividades; tyaktvā—abandonando; śāntim—paz perfeita; āpnoti—alcança; naiṣṭhikīm—inabalável; ayuktaḥ—aquele que não está em consciência de Kṛṣṇa; kāma-kāreṇa—por desfrutar do resultado do trabalho; phale—no resultado; saktaḥ—apegado; nibadhyate—enreda-se.

A alma firmemente devotada alcança paz imaculada porque oferece a Mim o resultado de todas as atividades; ao passo que a pessoa que não está em união com o Divino, que cobiça os frutos de seu labor, enreda-se.

A diferença entre a pessoa em consciência de Kṛṣṇa e a pessoa em consciência corporal é que a primeira está apegada a Kṛṣṇa, ao passo que a segunda está apegada aos resultados de suas atividades. A pessoa que está apegada a Kṛṣṇa e trabalha somente para Ele é certamente uma pessoa liberada, e não está ansiosa por recompensas fruitivas. No Bhāgavatam, explica-se que a causa da ansiedade pelo resultado de uma atividade está em a pessoa funcionar na concepção da dualidade, ou seja, sem conhecimento da Verdade Absoluta. Kṛṣṇa é a Suprema Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus. Em consciência de Kṛṣṇa, não há dualidade. Tudo o que existe é produto da energia de Kṛṣṇa, e Kṛṣṇa é todo bondade. Por isso, as atividades em consciência de Kṛṣṇa estão no plano absoluto; são transcendentais e não têm efeito material. A pessoa, portanto, fica plena de paz em consciência de Kṛṣṇa. Aquele que está, contudo, enredado no cálculo de lucro para a gratificação dos sentidos não pode ter essa paz. Este é o segredo da consciência de Kṛṣṇa: a percepção de que não há existência além de Kṛṣṇa é a plataforma da paz e do destemor.

Bg 5.13

सर्वकर्माणि मनसा संन्यस्यास्ते सुखं वशी ।
नवद्वारे पुरे देही नैव कुर्वन्न कारयन् ॥१३॥

sarva-karmāṇi manasā

sannyasyāste sukhaṁ vaśī

nava-dvāre pure dehī

naiva kurvan na kārayan

sarva—todas; karmāṇi—atividades; manasā—pela mente; sannyasya—abandonando; āste—permanece; sukham—em felicidade; vaśī—aquele que é controlado; nava-dvāre—no lugar onde há nove portas; pure—na cidade; dehī—a alma corporificada; na—nunca; eva—certamente; kurvan—fazendo coisa alguma; na—não; kārayan—causando que se faça.

Quando o ser vivo corporificado controla sua natureza e mentalmente renuncia a todas as ações, reside felizmente na cidade das nove portas [o corpo material], não trabalhando nem causando que o trabalho seja feito.

A alma corporificada vive na cidade das nove portas. As atividades do corpo, ou da figurativa cidade do corpo, são conduzidas automaticamente pelos modos particulares da natureza. A alma, embora se sujeite às condições do corpo, pode estar acima dessas condições, se assim o desejar. Apenas devido ao esquecimento de sua natureza superior, ela se identifica com o corpo material, e por isso sofre. Pela consciência de Kṛṣṇa, pode reaviver sua posição real e assim sair de sua corporificação. Por conseguinte, quando alguém adota a consciência de Kṛṣṇa, fica imediatamente afastado por completo das atividades corporais. Em tal vida controlada, na qual suas deliberações são transformadas, vive felizmente dentro da cidade das nove portas. As nove portas são descritas da seguinte maneira:

nava-dvāre pure dehī haṁso lelāyate bahiḥ

vaśī sarvasya lokasya sthāvarasya carasya ca.

“A Suprema Personalidade de Deus, que vive dentro do corpo de uma entidade viva, é o controlador de todas as entidades vivas em todo o universo. O corpo consta de nove portas: dois olhos, duas narinas, dois ouvidos, uma boca, o ânus e o órgão genital. A entidade viva em sua etapa condicionada identifica-se com o corpo, mas, quando se identifica com o Senhor dentro de si mesma, torna-se tão livre quanto o Senhor, mesmo enquanto está no corpo.” (Śvet. 3.18)

Por conseguinte, uma pessoa consciente de Kṛṣṇa está livre tanto das atividades externas como das internas do corpo material.

Bg 5.14

न कर्तृत्वं न कर्माणि लोकस्य सृजति प्रभुः ।
न कर्मफलसंयोगं स्वभावस्तु प्रवर्तते ॥१४॥

na kartṛtvaṁ na karmāṇi

lokasya sṛjati prabhuḥ

na karma-phala-saṁyogaṁ

svabhāvas tu pravartate

na—nunca; kartṛtvam—propriedade; na—nem; karmāṇi—atividades; lokasya—das pessoas; sṛjati—cria; prabhuḥ—o senhor da cidade do corpo; na—nem; karma-phala—resultados das atividades; saṁyogam—conexão; svabhāvaḥ—modos da natureza material; tu—porém; pravartate—age.

O espírito corporificado, senhor da cidade de seu corpo, não cria atividades, nem induz as pessoas a agir, nem cria os frutos da ação. Tudo isso é encenado pelos modos da natureza material.

A entidade viva, como se explicará no Sétimo Capítulo, é una em natureza com o Senhor Supremo, distinta da matéria, que é outra natureza — chamada inferior — do Senhor. De algum modo, a natureza superior, a entidade viva, está em contato com a natureza material desde tempos imemoriais. O corpo temporário ou morada material que ela obtém é a causa de variedades de atividades e de suas reações resultantes. Vivendo em tal atmosfera condicional, ela sofre os resultados das atividades do corpo ao identificar-se (na ignorância) com o corpo. É a ignorância adquirida desde tempos imemoriais que é a causa do sofrimento e da aflição corporais. Tão logo a entidade viva se afasta das atividades do corpo, fica também livre das reações. Enquanto estiver na cidade do corpo, parece ser o senhor dela, mas na verdade não é nem seu proprietário nem o controlador de suas ações e reações. Está simplesmente no meio do oceano material, lutando pela existência. As ondas do oceano a sacodem, e ela não tem controle sobre elas. Sua melhor solução é sair da água por meio da transcendental consciência de Kṛṣṇa. Apenas isso a salvará de toda a turbulência.

Bg 5.15

नादत्ते कस्यचित्पापं न चैव सुकृतं विभुः ।
अज्ञानेनावृतं ज्ञानं तेन मुह्यन्ति जन्तवः ॥१५॥

nādatte kasyacit pāpaṁ

na caiva sukṛtaṁ vibhuḥ

ajñānenāvṛtaṁ jñānaṁ

tena muhyanti jantavaḥ

na—nunca; ādatte—aceita; kasyacit—de ninguém; pāpam—pecado; na—nem; ca—também; eva—certamente; sukṛtam—atividades piedosas; vibhuḥ—o Senhor Supremo; ajñānena—pela ignorância; āvṛtam—coberto; jñānam—conhecimento; tena—por isso; muhyanti—confundidas; jantavaḥ—as entidades vivas.

Tampouco o Espírito Supremo assume as atividades pecaminosas ou piedosas de quem quer que seja. Os seres corporificados, contudo, ficam confundidos por causa da ignorância que cobre seu conhecimento real.

A palavra sânscrita vibhuḥ designa o Senhor Supremo, que é pleno de conhecimento, riqueza, força, fama, beleza e renúncia ilimitados. Ele está sempre satisfeito em Si mesmo, imperturbado pelas atividades pecaminosas ou piedosas. Ele não cria uma situação particular para nenhuma entidade viva, mas a entidade viva, confundida pela ignorância, deseja ser colocada em certas condições de vida, e com isso começa sua cadeia de ação e reação. Uma entidade viva, por sua natureza superior, é plena de conhecimento. Ainda assim, é propensa a ser influenciada pela ignorância devido a seu poder limitado. O Senhor é onipotente, mas a entidade viva não. O Senhor é vibhu, ou onisciente, mas a entidade viva é aṇu, ou atômica. Por ser uma alma viva, tem a capacidade de desejar por seu livre-arbítrio. Tal desejo só se cumpre pelo Senhor onipotente. E assim, quando a entidade viva fica confundida em seus desejos, o Senhor lhe permite cumprir esses desejos, mas o Senhor jamais é responsável pelas ações e reações da situação particular que se possa desejar. Estando, portanto, em condição de confusão, a alma corporificada identifica-se com o corpo material circunstancial e fica sujeita à miséria e felicidade temporárias da vida. O Senhor é o companheiro constante da entidade viva como Paramātmā, ou a Superalma, e por isso pode compreender os desejos da alma individual, assim como se pode sentir a fragrância de uma flor estando junto a ela. O desejo é uma forma sutil de condicionamento da entidade viva. O Senhor satisfaz seu desejo conforme ela merece: o homem propõe e Deus dispõe. O indivíduo não é, portanto, onipotente para cumprir seus desejos. O Senhor, contudo, pode cumprir todos os desejos, e o Senhor, sendo neutro para com todos, não interfere nos desejos das diminutas entidades vivas independentes. Entretanto, quando alguém deseja Kṛṣṇa, o Senhor cuida dele especialmente e o estimula a desejar de tal maneira que possa alcançá-Lo e ser eternamente feliz. O hino Védico declara, portanto:

eṣa u hy eva sādhu karma kārayati taṁ yamebhyo lokebhya unninīṣate

eṣa u evāsādhu karma kārayati yamadho ninīṣate.

ajño jantur anīso ‘yam ātmanaḥ sukha-duḥkhayoḥ

īśvara-prerito gacchet svargaṁ vāśvabhram eva ca.

“O Senhor ocupa a entidade viva em atividades piedosas para que ela possa elevar-se. O Senhor ocupa-a em atividades ímpias para que ela possa ir ao inferno. A entidade viva é completamente dependente em sua aflição e felicidade. Pela vontade do Supremo, pode ir ao céu ou ao inferno, assim como uma nuvem é impelida pelo ar.”

Por conseguinte, a alma corporificada, por seu desejo imemorial de evitar a consciência de Kṛṣṇa, causa sua própria confusão. Em consequência, embora seja constitucionalmente eterna, bem-aventurada e cônscia, devido à pequenez de sua existência ela esquece sua posição constitucional de serviço ao Senhor e fica assim aprisionada pela ignorância. E, sob o feitiço da ignorância, a entidade viva afirma que o Senhor é responsável por sua existência condicional. Os Vedānta-sūtras também o confirmam:

vaiṣamya-nairghṛṇye na sāpekṣatvāt tathā hi darśayati.

“O Senhor não odeia nem favorece ninguém, embora pareça fazê-lo.”

Bg 5.16

ज्ञानेन तु तदज्ञानं येषां नाशितमात्मनः ।
तेषामादित्यवज्ज्ञानं प्रकाशयति तत्परम् ॥१६॥

jñānena tu tad ajñānaṁ

yeṣāṁ nāśitam ātmanaḥ

teṣām āditya-vaj jñānaṁ

prakāśayati tat param

jñānena—pelo conhecimento; tu—mas; tat—aquela; ajñānam—ignorância; yeṣām—daqueles; nāśitam—é destruída; ātmanaḥ—da entidade viva; teṣām—deles; ādityavat—como o sol nascente; jñānam—conhecimento; prakāśayati—revela; tat param—em consciência de Kṛṣṇa.

Quando, contudo, a pessoa é iluminada com o conhecimento pelo qual se destrói a ignorância, então seu conhecimento revela tudo, assim como o sol ilumina tudo durante o dia.

Aqueles que esqueceram Kṛṣṇa devem certamente estar confundidos, mas os que estão em consciência de Kṛṣṇa não estão confundidos de modo algum. Afirma-se no Bhagavad-gītā: “sarvaṁ jñāna-plavena”, “jñānāgniḥ sarva-karmāṇi” e “na hi jñānena sadṛśam”. O conhecimento é sempre altamente estimado. E qual é esse conhecimento? O conhecimento perfeito é alcançado quando a pessoa se rende a Kṛṣṇa, como se diz no Sétimo Capítulo, verso 19: bahūnāṁ janmanām ante jñānavān māṁ prapadyate. Após passar por muitos e muitos nascimentos, quando alguém perfeito em conhecimento se rende a Kṛṣṇa, ou quando alcança a consciência de Kṛṣṇa, então tudo lhe é revelado, assim como o sol revela tudo durante o dia. A entidade viva é confundida de tantas maneiras. Por exemplo, quando se considera Deus, sem cerimônia, cai de fato no último laço da ignorância. Se a entidade viva é Deus, como pode então ficar confundida pela ignorância? Será que Deus se confunde pela ignorância? Em caso afirmativo, então a ignorância, ou Satã, é maior do que Deus. O conhecimento real pode obter-se de uma pessoa que esteja em perfeita consciência de Kṛṣṇa. Por isso, é preciso buscar tal mestre espiritual genuíno e, sob sua orientação, aprender o que é a consciência de Kṛṣṇa. O mestre espiritual pode afastar toda a ignorância, assim como o sol afasta a escuridão. Mesmo que uma pessoa esteja em pleno conhecimento de que não é este corpo, mas que é transcendental ao corpo, pode ainda assim não ser capaz de discriminar entre a alma e a Superalma. Contudo, pode saber tudo perfeitamente bem se tiver o cuidado de abrigar-se no perfeito e genuíno mestre espiritual consciente de Kṛṣṇa. Pode-se conhecer Deus e a relação que se tem com Deus somente quando se encontra de fato um representante de Deus. Um representante de Deus jamais alega ser Deus, embora receba todo o respeito ordinariamente prestado a Deus, pois possui conhecimento de Deus. É preciso aprender a distinção entre Deus e a entidade viva. O Senhor Śrī Kṛṣṇa, portanto, afirmou no Segundo Capítulo (2.12) que todo ser vivo é individual e que o Senhor também é individual. Todos eles eram indivíduos no passado, são indivíduos no presente e continuarão a ser indivíduos no futuro, mesmo após a liberação. À noite, vemos tudo como um só na escuridão, mas durante o dia, quando o sol está alto, vemos tudo em sua identidade real. Identidade com individualidade na vida espiritual é o conhecimento real.

Bg 5.17

तद्बुद्धयस्तदात्मानस्तन्निष्ठास्तत्परायणाः ।
गच्छन्त्यपुनरावृत्तिं ज्ञाननिर्धूतकल्मषाः ॥१७॥

tad-buddhayas tad-ātmānas

tan-niṣṭhās tat-parāyaṇāḥ

gacchanty apunar-āvṛttiṁ

jñāna-nirdhūta-kalmaṣāḥ

tad-buddhayaḥ—aquele cuja inteligência está sempre no Supremo; tad-ātmānaḥ—aquele cuja mente está sempre no Supremo; tat-niṣṭhāḥ—cuja mente está destinada apenas ao Supremo; tat-parāyaṇāḥ—quem se abrigou completamente Nele; gacchanti—vai; apunaḥ-āvṛttim—liberação; jñāna—conhecimento; nirdhūta—limpa; kalmaṣāḥ—dúvidas.

Quando a inteligência, a mente, a fé e o refúgio de uma pessoa estão todos fixos no Supremo, ela então fica plenamente livre das dúvidas por meio do conhecimento completo, e assim segue diretamente pelo caminho da liberação.

A Suprema Verdade Transcendental é o Senhor Kṛṣṇa. Todo o Bhagavad-gītā gira em torno da declaração de Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus. Esta é a versão de toda a literatura Védica. Paratattva significa a Realidade Suprema, que é compreendida pelos conhecedores do Supremo como Brahman, Paramātmā e Bhagavān. O Bhagavān, ou a Suprema Personalidade de Deus, é a última palavra no Absoluto. Não há nada mais do que isso. O Senhor diz: mattaḥ parataraṁ nānyat kiñcit asti dhanañjaya. O Brahman impessoal também é sustentado por Kṛṣṇa: brahmaṇo pratiṣṭhāham. Por conseguinte, em todos os aspectos Kṛṣṇa é a Realidade Suprema. Aquele cuja mente, inteligência, fé e refúgio estão sempre em Kṛṣṇa, ou, em outras palavras, quem está plenamente em consciência de Kṛṣṇa, é indubitavelmente lavado de todas as dúvidas e está em conhecimento perfeito em tudo o que se refere à transcendência. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa pode compreender a fundo que há dualidade (identidade e individualidade simultâneas) em Kṛṣṇa, e, equipada com tal conhecimento transcendental, pode fazer progresso constante no caminho da liberação.

Bg 5.18

विद्याविनयसम्पन्ने ब्राह्मणे गवि हस्तिनि ।
शुनि चैव श्वपाके च पण्डिताः समदर्शिनः ॥१८॥

vidyā-vinaya-sampanne

brāhmaṇe gavi hastini

śuni caiva śva-pāke ca

paṇḍitāḥ sama-darśinaḥ

vidyā—educação; vinaya—gentileza; sampanne—plenamente dotado; brāhmaṇe—no brāhmaṇa; gavi—na vaca; hastini—no elefante; śuni—no cão; ca—e; eva—certamente; śvapāke—no comedor de cães (o pária); ca—respectivamente; paṇḍitāḥ—aqueles que são assim sábios; sama-darśinaḥ—veem com visão equânime.

O sábio humilde, em virtude do verdadeiro conhecimento, vê com visão equânime um brāhmaṇa erudito e gentil, uma vaca, um elefante, um cão e um comedor de cães [pária].

Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não faz nenhuma distinção entre espécies ou castas. O brāhmaṇa e o pária podem ser diferentes do ponto de vista social, ou um cão, uma vaca ou um elefante podem ser diferentes do ponto de vista da espécie, mas estas diferenças de corpo não têm sentido do ponto de vista de um transcendentalista erudito. Isto se deve à relação que mantêm com o Supremo, pois o Senhor Supremo, por Sua porção plenária como Paramātmā, está presente no coração de todos. Tal compreensão do Supremo é o conhecimento real. No que diz respeito aos corpos em diferentes castas ou diferentes espécies de vida, o Senhor é igualmente bondoso para com todos, pois trata cada ser vivo como amigo e, contudo, mantém-Se como Paramātmā independentemente das circunstâncias das entidades vivas. O Senhor, como Paramātmā, está presente tanto no pária como no brāhmaṇa, embora o corpo do brāhmaṇa e o do pária não sejam o mesmo. Os corpos são produções materiais dos diferentes modos da natureza material, mas a alma e a Superalma dentro do corpo são da mesma qualidade espiritual. A semelhança na qualidade da alma e da Superalma, contudo, não as torna iguais em quantidade, pois a alma individual está presente apenas naquele corpo particular, ao passo que o Paramātmā está presente em todo e qualquer corpo. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa tem pleno conhecimento disso e, por isso, é verdadeiramente erudita e tem visão equânime. As características semelhantes da alma e da Superalma são que ambas são conscientes, eternas e bem-aventuradas. Mas a diferença é que a alma individual é consciente dentro da limitada jurisdição do corpo, ao passo que a Superalma é consciente de todos os corpos. A Superalma está presente em todos os corpos sem distinção.

Bg 5.19

इहैव तैर्जितः सर्गो येषां साम्ये स्थितं मनः ।
निर्दोषं हि समं ब्रह्म तस्माद् ब्रह्मणि ते स्थिताः ॥१९॥

ihaiva tair jitaḥ sargo

yeṣāṁ sāmye sthitaṁ manaḥ

nirdoṣaṁ hi samaṁ brahma

tasmād brahmaṇi te sthitāḥ

iha—nesta vida; eva—certamente; taiḥ—por eles; jitaḥ—conquistado; sargaḥ—nascimento e morte; yeṣām—daqueles; sāmye—em equanimidade; sthitam—assim situada; manaḥ—mente; nirdoṣam—imaculado; hi—certamente; samam—em equanimidade; brahma—o Supremo; tasmāt—portanto; brahmaṇi—no Supremo; te—eles; sthitāḥ—estão situados.

Aqueles cujas mentes estão estabelecidas em mesmidade e equanimidade já conquistaram as condições de nascimento e morte. São imaculados como o Brahman, e assim já estão situados no Brahman.

A equanimidade da mente, como se mencionou acima, é o sinal da autorrealização. Aqueles que de fato alcançaram tal etapa devem ser considerados como tendo conquistado as condições materiais, especificamente o nascimento e a morte. Enquanto a pessoa se identificar com este corpo, será considerada uma alma condicionada, mas, tão logo se eleve à etapa da equanimidade pela percepção do eu, fica liberada da vida condicional. Em outras palavras, ela já não está sujeita a nascer no mundo material, mas pode entrar no céu espiritual após sua morte. O Senhor é imaculado, pois está sem atração nem ódio. De modo semelhante, quando uma entidade viva está sem atração nem ódio, também se torna imaculada e elegível para entrar no céu espiritual. Tais pessoas devem ser consideradas já liberadas, e seus sintomas são descritos a seguir.

Bg 5.2

श्रीभगवानुवाच ।
संन्यासः कर्मयोगश्च निःश्रेयसकरावुभौ ।
तयोस्तु कर्मसंन्यासात्कर्मयोगो विशिष्यते ॥२॥

śrī-bhagavān uvāca

sannyāsaḥ karma-yogaś ca

niḥśreyasa-karāv ubhau

tayos tu karma-sannyāsāt

karma-yogo viśiṣyate

śrī bhagavān uvāca—a Personalidade de Deus disse; sannyāsaḥ—renúncia ao trabalho; karma-yogaḥ—trabalho em devoção; ca—também; niḥśreyasa-karau—ambos conduzindo ao caminho da liberação; ubhau—ambos; tayoḥ—dos dois; tu—porém; karma-sannyāsāt—em comparação à renúncia ao trabalho fruitivo; karma-yogaḥ—trabalho em devoção; viśiṣyate—é melhor.

O Senhor Abençoado disse: A renúncia ao trabalho e o trabalho em devoção são ambos bons para a liberação. Mas, dos dois, o trabalho em serviço devocional é melhor do que a renúncia aos trabalhos.

As atividades fruitivas (em busca da gratificação dos sentidos) são causa de cativeiro material. Enquanto a pessoa estiver ocupada em atividades destinadas a melhorar o padrão do conforto corporal, certamente transmigrará por diferentes tipos de corpos, perpetuando assim o cativeiro material. O Śrīmad-Bhāgavatam confirma isto da seguinte maneira:

nūnaṁ pramattaḥ kurute vikarma yad indriya-prītaya āpṛṇoti

na sādhu manye yata ātmano ‘yam asann api kleśada āsa dehaḥ

parābhavas tāvad abodha-jāto yāvanna jijñāsata ātma-tattvam

yāvat kriyās tāvad idaṁ mano vai karmātmakaṁ yena śarīra-bandhaḥ

evaṁ manaḥ karma-vaśaṁ prayuṅkte avidyayātmany upadhīyamāne

prītir na yāvan mayi vāsudeve na mucyate deha-yogena tāvat

“As pessoas estão loucas pela gratificação dos sentidos e não sabem que este corpo atual, que está repleto de misérias, é resultado de suas atividades fruitivas no passado. Embora este corpo seja temporário, está sempre lhes causando problemas de muitas maneiras. Portanto, agir em prol da gratificação dos sentidos não é bom. Considera-se um fracassado na vida quem não faz nenhuma indagação sobre a natureza do trabalho com vistas aos resultados fruitivos, pois enquanto se estiver absorto na consciência da gratificação dos sentidos, terá de transmigrar de um corpo a outro. Embora a mente possa estar absorta em atividades fruitivas e influenciada pela ignorância, é preciso desenvolver amor pelo serviço devocional a Vāsudeva. Só então se terá a oportunidade de sair do cativeiro da existência material.” (Bhāg. 5.5.4-6)

Por conseguinte, jñāna (ou o conhecimento de que não se é este corpo material, mas alma espiritual) não basta para a liberação. É preciso agir na condição de alma espiritual; do contrário, não há escapatória do cativeiro material. A ação em consciência de Kṛṣṇa, contudo, não é ação na plataforma fruitiva. As atividades realizadas em pleno conhecimento fortalecem o avanço da pessoa no conhecimento real. Sem consciência de Kṛṣṇa, a mera renúncia às atividades fruitivas não purifica de fato o coração de uma alma condicionada. Enquanto o coração não estiver purificado, a pessoa terá de trabalhar na plataforma fruitiva. Mas a ação em consciência de Kṛṣṇa ajuda automaticamente a pessoa a escapar do resultado da ação fruitiva, de modo que ela não precise descer à plataforma material. Por isso, a ação em consciência de Kṛṣṇa é sempre superior à renúncia, que sempre comporta o risco de queda. A renúncia sem consciência de Kṛṣṇa é incompleta, como o confirma Śrīla Rūpa Gosvāmī em seu Bhakti-rasāmṛta-sindhu.

prāpañcikatayā buddhyā hari-sambandhi-vastunaḥ

mumukṣubhiḥ parityāgo vairāgyaṁ phalgu kathyate.

“A renúncia, por parte de pessoas ávidas por alcançar a liberação, de coisas relacionadas com a Suprema Personalidade de Deus, embora sejam materiais, chama-se renúncia incompleta.” A renúncia é completa quando se sabe que tudo o que existe pertence ao Senhor e que ninguém deve reivindicar a propriedade de coisa alguma. Deve-se compreender que, de fato, nada pertence a ninguém. Onde está, então, a questão da renúncia? Aquele que sabe que tudo é propriedade de Kṛṣṇa está sempre situado em renúncia. Visto que tudo pertence a Kṛṣṇa, tudo deve ser empregado no serviço de Kṛṣṇa. Esta forma perfeita de ação em consciência de Kṛṣṇa é muito superior a qualquer renúncia artificial por parte de um sannyāsī da escola māyāvādī.

Bg 5.20

न प्रहृष्येत्प्रियं प्राप्य नोद्विजेत्प्राप्य चाप्रियम् ।
स्थिरबुद्धिरसम्मूढो ब्रह्मविद् ब्रह्मणि स्थितः ॥२०॥

na prahṛṣyet priyaṁ prāpya

nodvijet prāpya cāpriyam

sthira-buddhir asammūḍho

brahma-vid brahmaṇi sthitaḥ

na—nunca; prahṛṣyet—regozijar-se; priyam—agradável; prāpya—alcançando; na—não; udvijet—agitado; prāpya—obtendo; ca—também; apriyam—desagradável; sthira-buddhiḥ—dotado de inteligência própria; asammūḍhaḥ—não confundido; brahmavit—quem conhece o Supremo perfeitamente; brahmaṇi—na Transcendência; sthitaḥ—situado.

Uma pessoa que não se regozija ao alcançar algo agradável nem se lamenta ao obter algo desagradável, que é dotada de inteligência própria, não se confunde, e conhece a ciência de Deus, deve ser entendida como já situada na Transcendência.

Os sintomas da pessoa autorrealizada são apresentados aqui. O primeiro sintoma é que ela não se ilude pela falsa identificação do corpo com seu verdadeiro eu. Sabe perfeitamente bem que não é este corpo, mas a porção fragmentária da Suprema Personalidade de Deus. Por isso, não se alegra ao alcançar algo, nem se lamenta ao perder algo que esteja relacionado com seu corpo. Esta firmeza de mente chama-se sthira-buddhi, ou inteligência própria. Por isso, jamais se confunde tomando o corpo grosseiro pela alma, nem aceita o corpo como permanente desconsiderando a existência da alma. Este conhecimento eleva-a à condição de conhecer a ciência completa da Verdade Absoluta, a saber, Brahman, Paramātmā e Bhagavān. Conhece, assim, perfeitamente bem sua posição constitucional, sem tentar falsamente tornar-se uma com o Supremo em todos os aspectos. Isto se chama compreensão do Brahman, ou autorrealização. Tal consciência firme chama-se consciência de Kṛṣṇa.

Bg 5.21

बाह्यस्पर्शेष्वसक्तात्मा विन्दत्यात्मनि यत्सुखम् ।
स ब्रह्मयोगयुक्तात्मा सुखमक्षयमश्नुते ॥२१॥

bāhya-sparśeṣv asaktātmā

vindaty ātmani yat sukham

sa brahma-yoga-yuktātmā

sukham akṣayam aśnute

bāhya-sparśeṣu—no prazer externo dos sentidos; asakta-ātmā—quem não está apegado; vindati—desfruta; ātmani—no eu; yat—aquilo que; sukham—felicidade; saḥ—essa; brahma-yoga—concentrado no Brahman; yukta-ātmā—conectado com o eu; sukham—felicidade; akṣayam—ilimitada; aśnute—desfruta.

Tal pessoa liberada não se sente atraída pelo prazer material dos sentidos nem por objetos externos, mas está sempre em transe, desfrutando do prazer interior. Dessa maneira, a pessoa autorrealizada desfruta felicidade ilimitada, pois se concentra no Supremo.

Śrī Yāmunācārya, um grande devoto em consciência de Kṛṣṇa, disse:

yadāvadhi mama cetaḥ kṛṣṇa-padāravinde

nava-nava-rasa-dhāmanudyata rantum āsīt

tadāvadhi bata nārī-saṅgame smaryamāne

bhavati mukha-vikāraḥ suṣṭu niṣṭhīvanaṁ ca

“Desde que me ocupo no transcendental serviço amoroso a Kṛṣṇa, percebendo Nele um prazer sempre novo, sempre que penso no prazer sexual cuspo ao pensamento, e meus lábios se contraem de aversão.” Uma pessoa em brahma-yoga, ou consciência de Kṛṣṇa, está tão absorta no serviço amoroso ao Senhor que perde por completo o gosto pelo prazer material dos sentidos. O prazer mais elevado em termos de matéria é o prazer sexual. O mundo inteiro move-se sob seu feitiço, e um materialista nem sequer consegue trabalhar sem essa motivação. Mas uma pessoa ocupada em consciência de Kṛṣṇa pode trabalhar com maior vigor sem o prazer sexual, que evita. Esse é o teste na percepção espiritual. Percepção espiritual e prazer sexual não combinam. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não se sente atraída por nenhuma espécie de prazer sensorial, por ser uma alma liberada.

Bg 5.22

ये हि संस्पर्शजा भोगा दुःखयोनय एव ते ।
आद्यन्तवन्तः कौन्तेय न तेषु रमते बुधः ॥२२॥

ye hi saṁsparśa-jā bhogā

duḥkha-yonaya eva te

ādy-antavantaḥ kaunteya

na teṣu ramate budhaḥ

ye—aqueles; hi—certamente; saṁsparśajāḥ—pelo contato com os sentidos materiais; bhogāḥ—desfrute; duḥkha—aflição; yonayaḥ—fontes de; eva—certamente; te—eles são; ādi—no princípio; antavantaḥ—sujeitos a; kaunteya—ó filho de Kuntī; na—nunca; teṣu—neles; ramate—deleita-se; budhaḥ—o inteligente.

Uma pessoa inteligente não toma parte nas fontes de miséria, que se devem ao contato com os sentidos materiais. Ó filho de Kuntī, tais prazeres têm um começo e um fim, e por isso o sábio não se deleita neles.

Os prazeres materiais dos sentidos devem-se ao contato dos sentidos materiais, todos os quais são temporários, pois o próprio corpo é temporário. Uma alma liberada não se interessa por nada que seja temporário. Conhecendo bem as alegrias dos prazeres transcendentais, como poderia uma alma liberada concordar em desfrutar do prazer falso? No Padma Purāṇa afirma-se:

ramante yogino ‘nante satyānanda-cid-ātmani

iti rāma-padenāsau paraṁ brahmābhidhīyate

“Os místicos derivam prazeres transcendentais ilimitados da Verdade Absoluta, e por isso a Suprema Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus, é também conhecida como Rāma.”

No Śrīmad-Bhāgavatam também se afirma:

nāyaṁ deho deha-bhājāṁ nṛ-loke

kaṣṭān kāmān arhate viḍ-bhajāṁ ye

tapo divyaṁ putrakā yena sattvaṁ

śuddhyed yasmād brahma-saukhyaṁ tv anantam.

“Meus queridos filhos, não há razão para labutar arduamente em busca do prazer dos sentidos enquanto se está nesta forma humana de vida; tais prazeres estão disponíveis aos comedores de excremento [porcos]. Em vez disso, deveis submeter-vos a penitências nesta vida pelas quais vossa existência será purificada e, em consequência, podereis desfrutar de bem-aventurança transcendental ilimitada.” (Bhāg. 5.5.1)

Por conseguinte, aqueles que são verdadeiros yogīs ou transcendentalistas eruditos não se sentem atraídos pelos prazeres dos sentidos, que são as causas da existência material contínua. Quanto mais alguém se entrega aos prazeres materiais, mais fica preso pelas misérias materiais.

Bg 5.23

शक्नोतीहैव यः सोढुं प्राक्शरीरविमोक्षणात् ।
कामक्रोधोद्भवं वेगं स युक्तः स सुखी नरः ॥२३॥

śaknotīhaiva yaḥ soḍhuṁ

prāk śarīra-vimokṣaṇāt

kāma-krodhodbhavaṁ vegaṁ

sa yuktaḥ sa sukhī naraḥ

śaknoti—capaz de fazer; iha eva—no corpo atual; yaḥ—aquele que; soḍhum—tolerar; prāk—antes; śarīra—corpo; vimokṣaṇāt—de abandonar; kāma—desejo; krodha—ira; udbhavam—gerado de; vegam—impulso; saḥ—ele; yuktaḥ—em transe; saḥ—ele; sukhī—feliz; naraḥ—ser humano.

Antes de abandonar este corpo atual, se a pessoa for capaz de tolerar os impulsos dos sentidos materiais e refrear a força do desejo e da ira, será um yogī e será feliz neste mundo.

Se alguém quiser fazer progresso constante no caminho da autorrealização, deve tentar controlar as forças dos sentidos materiais. Há as forças da fala, as forças da ira, as forças da mente, as forças do estômago, as forças dos órgãos genitais e as forças da língua. Aquele que é capaz de controlar as forças de todos estes diferentes sentidos, e a mente, é chamado gosvāmī, ou svāmī. Tais gosvāmīs vivem vidas estritamente controladas e renunciam por completo às forças dos sentidos. Os desejos materiais, quando insatisfeitos, geram ira, e assim a mente, os olhos e o peito ficam agitados. Por isso, deve-se praticar para controlá-los antes de abandonar este corpo material. Quem pode fazer isso é entendido como autorrealizado e está, dessa forma, feliz no estado de autorrealização. É dever do transcendentalista esforçar-se arduamente por controlar o desejo e a ira.

Bg 5.24

योऽन्तःसुखोऽन्तरारामस्तथान्तर्ज्योतिरेव यः ।
स योगी ब्रह्मनिर्वाणं ब्रह्मभूतोऽधिगच्छति ॥२४॥

yo ‘ntaḥ-sukho ‘ntar-ārāmas

tathāntar-jyotir eva yaḥ

sa yogī brahma-nirvāṇaṁ

brahma-bhūto ‘dhigacchati

yaḥ—aquele que; antaḥ-sukhaḥ—feliz por dentro; antaḥ-ārāmaḥ—ativo por dentro; tathā—assim como; antaḥ-jyotiḥ—visando dentro; eva—certamente; yaḥ—quem quer que; saḥ—ele; yogī—místico; brahma-nirvāṇam—liberado no Supremo; brahma-bhūtaḥ—autorrealizado; adhigacchati—alcança.

Aquele cuja felicidade está dentro, que é ativo dentro, que se regozija dentro e está iluminado por dentro, é, de fato, o místico perfeito. Está liberado no Supremo, e finalmente alcança o Supremo.

A menos que se possa saborear a felicidade interior, como pode alguém retirar-se das ocupações externas destinadas a obter felicidade superficial? Uma pessoa liberada desfruta da felicidade por experiência factual. Pode, portanto, sentar-se silenciosamente em qualquer lugar e desfrutar das atividades da vida por dentro. Tal pessoa liberada já não deseja a felicidade material externa. Este estado chama-se brahma-bhūta, ao alcançar o qual se tem garantido o retorno a Deus, o retorno ao lar.

Bg 5.25

लभन्ते ब्रह्मनिर्वाणमृषयः क्षीणकल्मषाः ।
छिन्नद्वैधा यतात्मानः सर्वभूतहिते रताः ॥२५॥

labhante brahma-nirvāṇam

ṛṣayaḥ kṣīṇa-kalmaṣāḥ

chinna-dvaidhā yatātmānaḥ

sarva-bhūta-hite ratāḥ

labhante—alcançam; brahma-nirvāṇam—liberação no Supremo; ṛṣayaḥ—aqueles que são ativos por dentro; kṣīṇa-kalmaṣāḥ—que estão livres de todos os pecados; chinna—rasgada; dvaidhāḥ—dualidade; yata-ātmānaḥ—ocupados em autorrealização; sarva-bhūta—em todas as entidades vivas; hite—em trabalho de bem-estar; ratāḥ—ocupados.

Aquele que está além da dualidade e da dúvida, cuja mente está ocupada por dentro, que está sempre atarefado trabalhando pelo bem-estar de todos os seres senscientes, e que está livre de todos os pecados, alcança a liberação no Supremo.

Apenas uma pessoa que esteja plenamente em consciência de Kṛṣṇa pode dizer-se ocupada no trabalho de bem-estar para todas as entidades vivas. Quando uma pessoa está realmente no conhecimento de que Kṛṣṇa é a fonte de tudo, então, ao agir nesse espírito, age por todos. Os sofrimentos da humanidade devem-se ao esquecimento de Kṛṣṇa como o desfrutador supremo, o proprietário supremo e o amigo supremo. Por isso, agir para reavivar essa consciência em toda a sociedade humana é o mais elevado trabalho de bem-estar. Não se pode estar ocupado em trabalho de bem-estar de primeira classe sem estar liberado no Supremo. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa não tem dúvida sobre a supremacia de Kṛṣṇa. Não tem dúvida porque está completamente livre de todos os pecados. Este é o estado do amor divino.

Uma pessoa ocupada apenas em prover o bem-estar físico da sociedade humana não pode, de fato, ajudar ninguém. O alívio temporário do corpo externo e da mente não é satisfatório. A causa real das dificuldades de alguém na árdua luta pela vida pode ser encontrada em seu esquecimento de sua relação com o Senhor Supremo. Quando um homem está plenamente cônscio de sua relação com Kṛṣṇa, é de fato uma alma liberada, embora possa estar no tabernáculo material.

Bg 5.26

कामक्रोधवियुक्तानां यतीनां यतचेतसाम् ।
अभितो ब्रह्मनिर्वाणं वर्तते विदितात्मनाम् ॥२६॥

kāma-krodha-vimuktānāṁ

yatīnāṁ yata-cetasām

abhito brahma-nirvāṇaṁ

vartate viditātmanām

kāma—desejos; krodha—ira; vimuktānām—daqueles que estão assim liberados; yatīnām—das pessoas santas; yata-cetasām—de pessoas que têm pleno controle sobre a mente; abhitaḥ—assegurada num futuro próximo; brahma-nirvāṇam—liberação no Supremo; vartate—está aí; vidita-ātmanām—dos que são autorrealizados.

Aqueles que estão livres da ira e de todos os desejos materiais, que são autorrealizados, autodisciplinados e constantemente se esforçam pela perfeição, têm assegurada a liberação no Supremo num futuro muito próximo.

Das pessoas santas que estão constantemente engajadas no esforço pela salvação, aquela que está em consciência de Kṛṣṇa é a melhor de todas. O Bhāgavatam confirma este fato da seguinte maneira:

yat-pāda-paṅkaja-palāśa-vilāsa-bhaktyā

karmāśayaṁ grathitam udgrathayanti santaḥ

tadvan na rikta-matayo yatayo ‘pi ruddha-

srotogaṇās tam araṇaṁ bhaja vāsudevam.

“Tenta apenas adorar, em serviço devocional, Vāsudeva, a Suprema Personalidade de Deus. Mesmo grandes sábios não conseguem controlar as forças dos sentidos com a eficácia daqueles que estão ocupados em bem-aventurança transcendental servindo aos pés de lótus do Senhor, arrancando o desejo profundamente arraigado pelas atividades fruitivas.” (Bhāg. 4.22.39)

Na alma condicionada, o desejo de desfrutar dos resultados fruitivos do trabalho está tão profundamente arraigado que é muito difícil até para os grandes sábios controlar tais desejos, apesar de grandes esforços. Um devoto do Senhor, constantemente ocupado em serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa, perfeito em autorrealização, alcança muito rapidamente a liberação no Supremo. Devido a seu conhecimento completo em autorrealização, permanece sempre em transe. Para citar um exemplo análogo disto:

darśana-dhyāna-saṁsparśair matsya-kūrma-vihaṅgamāḥ

svānya patyāni puṣṇanti tathāham api padmaja.

“Pela visão, pela meditação e pelo toque apenas, o peixe, a tartaruga e os pássaros mantêm sua prole. De modo semelhante, também faço Eu, ó Padmaja!”

O peixe cria sua prole simplesmente olhando para ela. A tartaruga cria sua prole simplesmente pela meditação. Os ovos da tartaruga são postos em terra, e a tartaruga medita sobre os ovos enquanto está na água. De modo semelhante, um devoto em consciência de Kṛṣṇa, embora longe da morada do Senhor, pode elevar-se a essa morada simplesmente pensando Nele constantemente — pela ocupação em consciência de Kṛṣṇa. Ele não sente as dores das misérias materiais; este estado de vida chama-se brahma-nirvāṇa, ou a ausência das misérias materiais por estar constantemente imerso no Supremo.

Bg 5.27-28

स्पर्शान्कृत्वा बहिर्बाह्यांश्चक्षुश्चैवान्तरे भ्रुवोः ।
प्राणापानौ समौ कृत्वा नासाभ्यन्तरचारिणौ ॥२७॥
यतेन्द्रियमनोबुद्धिर्मुनिर्मोक्षपरायणः ।
विगतेच्छाभयक्रोधो यः सदा मुक्त एव सः ॥२८॥

sparśān kṛtvā bahir bāhyāṁś

cakṣuś caivāntare bhruvoḥ

prāṇāpānau samau kṛtvā

nāsābhyantara-cāriṇau

yatendriya-mano-buddhir

munir mokṣa-parāyaṇaḥ

vigatecchā-bhaya-krodho

yaḥ sadā mukta eva saḥ

sparśān—objetos sensoriais externos, como o som, etc.; kṛtvā—fazendo isso; bahiḥ—externo; bāhyān—desnecessários; cakṣuḥ—olhos; ca—também; eva—certamente; antare—dentro; bhruvoḥ—das sobrancelhas; prāṇa-apānau—ar que se move para cima e para baixo; samau—em suspensão; kṛtvā—fazendo isso; nāsā-abhyantara—dentro das narinas; cāriṇau—soprando; yata—controlados; indriya—sentidos; manaḥ—mente; buddhiḥ—inteligência; muniḥ—o transcendentalista; mokṣa—liberação; parāyaṇaḥ—destinado a; vigata—descartados; icchā—desejos; bhaya—medo; krodhaḥ—ira; yaḥ—aquele que; sadā—sempre; muktaḥ—liberado; eva—certamente; saḥ—ele é.

Excluindo todos os objetos sensoriais externos, mantendo os olhos e a visão concentrados entre as duas sobrancelhas, suspendendo as respirações de entrada e saída dentro das narinas — controlando assim a mente, os sentidos e a inteligência, o transcendentalista fica livre do desejo, do medo e da ira. Quem está sempre nesse estado certamente está liberado.

Estando ocupado em consciência de Kṛṣṇa, a pessoa pode imediatamente compreender sua identidade espiritual, e então pode compreender o Senhor Supremo por meio do serviço devocional. Quando está bem situada em serviço devocional, alcança a posição transcendental, qualificada para sentir a presença do Senhor na esfera de sua atividade. Esta posição particular chama-se liberação no Supremo.

Após explicar os princípios acima da liberação no Supremo, o Senhor instrui Arjuna sobre como se pode chegar a essa posição pela prática do misticismo, ou yoga, conhecida como aṣṭāṅga-yoga, que é divisível num procedimento óctuplo chamado yama, niyama, āsana, prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi. No Sexto Capítulo, o tema do yoga é detalhado explicitamente, e ao final do Quinto é apenas explicado preliminarmente. Tem-se de afastar os objetos sensoriais como som, tato, forma, sabor e cheiro pelo processo de pratyāhāra (respiração) no yoga, e então manter a visão dos olhos entre as duas sobrancelhas e concentrar-se na ponta do nariz com as pálpebras semicerradas. Não há benefício em fechar os olhos por completo, pois então há toda probabilidade de adormecer. Tampouco há benefício em abrir os olhos por completo, pois então há o risco de ser atraído pelos objetos sensoriais. O movimento da respiração é restringido dentro das narinas neutralizando-se o ar que se move para cima e para baixo dentro do corpo. Pela prática de tal yoga, a pessoa é capaz de obter controle sobre os sentidos, abster-se dos objetos sensoriais externos e, assim, preparar-se para a liberação no Supremo.

Este processo de yoga ajuda alguém a libertar-se de toda espécie de medo e ira e, assim, sentir a presença da Superalma na situação transcendental. Em outras palavras, a consciência de Kṛṣṇa é o processo mais fácil de executar os princípios do yoga. Isto será explicado a fundo no próximo capítulo. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa, contudo, estando sempre ocupada em serviço devocional, não corre o risco de perder seus sentidos para alguma outra ocupação. Esta é uma maneira melhor de controlar os sentidos do que pela aṣṭāṅga-yoga.

Bg 5.29

भोक्तारं यज्ञतपसां सर्वलोकमहेश्वरम् ।
सुहृदं सर्वभूतानां ज्ञात्वा मां शान्तिमृच्छति ॥२९॥

bhoktāraṁ yajña-tapasāṁ

sarva-loka-maheśvaram

suhṛdaṁ sarva-bhūtānāṁ

jñātvā māṁ śāntim ṛcchati

bhoktāram—beneficiário; yajña—sacrifícios; tapasām—de penitências e austeridades; sarva-loka—todos os planetas e os semideuses dos mesmos; maheśvaram—o Senhor Supremo; suhṛdam—benfeitor; sarva—todas; bhūtānām—das entidades vivas; jñātvā—sabendo assim; mām—a Mim (o Senhor Kṛṣṇa); śāntim—alívio das dores materiais; ṛcchati—alcança.

Os sábios, conhecendo-Me como o propósito último de todos os sacrifícios e austeridades, o Senhor Supremo de todos os planetas e semideuses, e o benfeitor e benquerente de todas as entidades vivas, alcançam paz das dores das misérias materiais.

As almas condicionadas, sob as garras da energia ilusória, estão todas ansiosas por alcançar paz no mundo material. Mas elas não conhecem a fórmula da paz, que se explica nesta parte do Bhagavad-gītā. A maior fórmula da paz é simplesmente esta: o Senhor Kṛṣṇa é o beneficiário em todas as atividades humanas. Os homens devem oferecer tudo ao serviço transcendental ao Senhor, pois Ele é o proprietário de todos os planetas e dos semideuses neles. Ninguém é maior do que Ele. É maior do que o maior dos semideuses, o Senhor Śiva e o Senhor Brahmā. Nos Vedas, o Senhor Supremo é descrito como tam īśvarāṇāṁ paramaṁ maheśvaram. Sob o feitiço da ilusão, as entidades vivas tentam ser senhoras de tudo o que vislumbram, mas, de fato, são dominadas pela energia material do Senhor. O Senhor é o mestre da natureza material, e as almas condicionadas estão sob as estritas regras da natureza material. A menos que se compreendam esses fatos cruciais, não é possível alcançar paz no mundo, nem individual nem coletivamente. Este é o sentido da consciência de Kṛṣṇa: o Senhor Kṛṣṇa é o predominador supremo, e todas as entidades vivas, incluindo os grandes semideuses, são Seus subordinados. Pode-se alcançar paz perfeita somente em consciência de Kṛṣṇa completa.

Este Quinto Capítulo é uma explicação prática da consciência de Kṛṣṇa, geralmente conhecida como karma-yoga. A questão da especulação mental sobre como o karma-yoga pode dar a liberação é aqui respondida. Trabalhar em consciência de Kṛṣṇa é trabalhar com pleno conhecimento do Senhor como o predominador. Tal trabalho não é diferente do conhecimento transcendental. A consciência de Kṛṣṇa direta é o bhakti-yoga, e o jñāna-yoga é um caminho que leva ao bhakti-yoga. Consciência de Kṛṣṇa significa trabalhar em pleno conhecimento da relação que se tem com o Absoluto Supremo, e a perfeição desta consciência é o pleno conhecimento de Kṛṣṇa, ou da Suprema Personalidade de Deus. Uma alma pura é o servo eterno de Deus, como Sua parte integrante fragmentária. Ela entra em contato com a māyā (ilusão) devido ao desejo de assenhorear-se da māyā, e essa é a causa de seus muitos sofrimentos. Enquanto está em contato com a matéria, tem de executar trabalho em termos de necessidades materiais. A consciência de Kṛṣṇa, contudo, traz a pessoa à vida espiritual mesmo enquanto se está dentro da jurisdição da matéria, pois é um despertar da existência espiritual pela prática no mundo material. Quanto mais avançada está a pessoa, mais livre fica das garras da matéria. O Senhor não é parcial para com ninguém. Tudo depende do desempenho prático que se tem dos deveres num esforço por controlar os sentidos e conquistar a influência do desejo e da ira. E, ao se alcançar a consciência de Kṛṣṇa controlando as paixões mencionadas, a pessoa permanece de fato na etapa transcendental, ou brahman-nirvāṇa. O misticismo do yoga óctuplo é praticado automaticamente em consciência de Kṛṣṇa, pois o propósito último é atendido. Há um processo gradual de elevação na prática de yama, niyama, āsana, pratyāhāra, dhyāna, dhāraṇā, prāṇāyāma e samādhi. Mas estes apenas prefaciam a perfeição pelo serviço devocional, que é o único que pode conceder paz ao ser humano. Esta é a mais elevada perfeição da vida.

Assim terminam os Significados Bhaktivedanta do Quinto Capítulo do Śrīmad-Bhagavad-gītā sobre o tema do Karma-yoga, ou a Ação em Consciência de Kṛṣṇa.

Bg 5.3

ज्ञेयः स नित्यसंन्यासी यो न द्वेष्टि न काङ्क्षति ।
निर्द्वन्द्वो हि महाबाहो सुखं बन्धात्प्रमुच्यते ॥३॥

jñeyaḥ sa nitya-sannyāsī

yo na dveṣṭi na kāṅkṣati

nirdvandvo hi mahā-bāho

sukhaṁ bandhāt pramucyate

jñeyaḥ—deve ser conhecido; saḥ—ele; nitya—sempre; sannyāsī—renunciante; yaḥ—quem; na—nunca; dveṣṭi—detesta; na—nem; kāṅkṣati—deseja; nirdvandvaḥ—livre de todas as dualidades; hi—certamente; mahā-bāho—ó pessoa de braços poderosos; sukham—felizmente; bandhāt—do cativeiro; pramucyate—completamente liberado.

Aquele que não odeia nem deseja os frutos de suas atividades é conhecido como sempre renunciado. Tal pessoa, liberada de todas as dualidades, supera facilmente o cativeiro material e está completamente liberada, ó Arjuna de braços poderosos.

Quem está plenamente em consciência de Kṛṣṇa é sempre um renunciante, pois não sente nem ódio nem desejo pelos resultados de suas ações. Tal renunciante, dedicado ao transcendental serviço amoroso ao Senhor, é plenamente qualificado em conhecimento, pois conhece sua posição constitucional em sua relação com Kṛṣṇa. Ele sabe muito bem que Kṛṣṇa é o todo e que ele é parte integrante de Kṛṣṇa. Tal conhecimento é perfeito porque é qualitativa e quantitativamente correto. A concepção de unidade com Kṛṣṇa é incorreta, pois a parte não pode ser igual ao todo. O conhecimento de que se é um em qualidade, mas diferente em quantidade, é o conhecimento transcendental correto, que conduz a pessoa a tornar-se plena em si mesma, sem nada a aspirar nem a lamentar. Não há dualidade em sua mente, pois tudo o que faz, faz por Kṛṣṇa. Estando assim livre da plataforma das dualidades, ele está liberado — mesmo neste mundo material.

Bg 5.4

साङ्ख्ययोगौ पृथग्बालाः प्रवदन्ति न पण्डिताः ।
एकमप्यास्थितः सम्यगुभयोर्विन्दते फलम् ॥४॥

sāṅkhya-yogau pṛthag bālāḥ

pravadanti na paṇḍitāḥ

ekam apy āsthitaḥ samyag

ubhayor vindate phalam

sāṅkhya—estudo analítico do mundo material; yogau—trabalho em serviço devocional; pṛthak—diferentes; bālāḥ—menos inteligentes; pravadanti—dizem; na—nunca; paṇḍitāḥ—os eruditos; ekam—em um; api—embora; āsthitaḥ—estando situado; samyak—completo; ubhayoḥ—de ambos; vindate—desfruta; phalam—resultado.

Apenas os ignorantes falam do karma-yoga e do serviço devocional como sendo diferentes do estudo analítico do mundo material [sāṅkhya]. Os que são realmente eruditos dizem que aquele que se aplica bem a um destes caminhos alcança os resultados de ambos.

O objetivo do estudo analítico do mundo material é encontrar a alma da existência. A alma do mundo material é Viṣṇu, ou a Superalma. O serviço devocional ao Senhor implica servir à Superalma. Um processo consiste em encontrar a raiz da árvore, e em seguida regar a raiz. O verdadeiro estudante da filosofia sāṅkhya encontra a raiz do mundo material, Viṣṇu, e então, em conhecimento perfeito, ocupa-se no serviço ao Senhor. Em essência, portanto, não há diferença entre os dois, pois o objetivo de ambos é Viṣṇu. Aqueles que não conhecem o fim último dizem que os propósitos do sāṅkhya e do karma-yoga não são os mesmos, mas quem é erudito conhece o objetivo unificador destes diferentes processos.

Bg 5.5

यत्साङ्ख्यैः प्राप्यते स्थानं तद्योगैरपि गम्यते ।
एकं साङ्ख्यं च योगं च यः पश्यति स पश्यति ॥५॥

yat sāṅkhyaiḥ prāpyate sthānaṁ

tad yogair api gamyate

ekaṁ sāṅkhyaṁ ca yogaṁ ca

yaḥ paśyati sa paśyati

yat—o que; sāṅkhyaiḥ—por meio da filosofia sāṅkhya; prāpyate—é alcançado; sthānam—lugar; tat—aquele; yogaiḥ—por meio do serviço devocional; api—também; gamyate—pode-se atingir; ekam—um; sāṅkhyam—estudo analítico; ca—e; yogam—ação em devoção; ca—e; yaḥ—aquele que; paśyati—vê; saḥ—ele; paśyati—realmente vê.

Aquele que sabe que a posição alcançada por meio da renúncia também pode ser atingida por trabalhos em serviço devocional, e que portanto vê que o caminho dos trabalhos e o caminho da renúncia são um só, vê as coisas como são.

O verdadeiro propósito da pesquisa filosófica é encontrar o objetivo último da vida. Visto que o objetivo último da vida é a autorrealização, não há diferença entre as conclusões alcançadas pelos dois processos. Pela pesquisa filosófica sāṅkhya, chega-se à conclusão de que a entidade viva não é parte integrante do mundo material, mas do todo espiritual supremo. Por conseguinte, a alma espiritual nada tem a ver com o mundo material; suas ações devem manter alguma relação com o Supremo. Quando age em consciência de Kṛṣṇa, ela está realmente em sua posição constitucional. No primeiro processo, o do sāṅkhya, é preciso desapegar-se da matéria, e no processo do yoga devocional é preciso apegar-se ao trabalho de Kṛṣṇa. De fato, ambos os processos são o mesmo, embora superficialmente um pareça envolver desapego e o outro pareça envolver apego. Contudo, o desapego da matéria e o apego a Kṛṣṇa são uma e a mesma coisa. Quem pode ver isso vê as coisas como são.

Bg 5.6

संन्यासस्तु महाबाहो दुःखमाप्तुमयोगतः ।
योगयुक्तो मुनिर्ब्रह्म नचिरेणाधिगच्छति ॥६॥

sannyāsas tu mahā-bāho

duḥkham āptum ayogataḥ

yoga-yukto munir brahma

na cireṇādhigacchati

sannyāsaḥ—a ordem de vida renunciada; tu—porém; mahā-bāho—ó pessoa de braços poderosos; duḥkham—aflição; āptum—ser afligido por; ayogataḥ—sem serviço devocional; yoga-yuktaḥ—quem está ocupado em serviço devocional; muniḥ—pensador; brahma—Supremo; na—sem; cireṇa—demora; adhigacchati—alcança.

A menos que se esteja ocupado no serviço devocional ao Senhor, a mera renúncia às atividades não pode tornar a pessoa feliz. Os sábios, purificados pelos trabalhos em devoção, alcançam o Supremo sem demora.

Há duas classes de sannyāsīs, ou pessoas na ordem de vida renunciada. Os sannyāsīs māyāvādīs ocupam-se no estudo da filosofia sāṅkhya, ao passo que os sannyāsīs vaiṣṇavas ocupam-se no estudo da filosofia do Bhāgavatam, que oferece o comentário adequado aos Vedānta-sūtras. Os sannyāsīs māyāvādīs também estudam os Vedānta-sūtras, mas utilizam seu próprio comentário, chamado Śārīraka-bhāṣya, escrito por Śaṅkarācārya. Os estudantes da escola Bhāgavata ocupam-se no serviço devocional ao Senhor, segundo as regulações pāñcarātrikīs, e por isso os sannyāsīs vaiṣṇavas têm múltiplas ocupações no serviço transcendental ao Senhor. Os sannyāsīs vaiṣṇavas nada têm a ver com atividades materiais, e contudo executam diversas atividades em seu serviço devocional ao Senhor. Mas os sannyāsīs māyāvādīs, ocupados nos estudos do sāṅkhya e do Vedānta e na especulação, não conseguem saborear o serviço transcendental ao Senhor. Como seus estudos se tornam muito tediosos, às vezes se cansam da especulação sobre o Brahman, e então se abrigam no Bhāgavatam sem o devido entendimento. Em consequência, seu estudo do Śrīmad-Bhāgavatam torna-se penoso. As áridas especulações e as interpretações impessoais por meios artificiais são todas inúteis para os sannyāsīs māyāvādīs. Os sannyāsīs vaiṣṇavas, que se ocupam em serviço devocional, são felizes no desempenho de seus deveres transcendentais, e têm a garantia de entrar finalmente no reino de Deus. Os sannyāsīs māyāvādīs por vezes caem do caminho da autorrealização e voltam a entrar em atividades materiais de natureza filantrópica e altruísta, que não passam de ocupações materiais. Conclui-se, portanto, que os que se ocupam em consciência de Kṛṣṇa estão mais bem situados do que os sannyāsīs ocupados em mera especulação sobre o Brahman, embora estes também cheguem à consciência de Kṛṣṇa, depois de muitos nascimentos.

Bg 5.7

योगयुक्तो विशुद्धात्मा विजितात्मा जितेन्द्रियः ।
सर्वभूतात्मभूतात्मा कुर्वन्नपि न लिप्यते ॥७॥

yoga-yukto viśuddhātmā

vijitātmā jitendriyaḥ

sarva-bhūtātma-bhūtātmā

kurvann api na lipyate

yoga-yuktaḥ—ocupado em serviço devocional; viśuddha-ātmā—uma alma purificada; vijita-ātmā—autocontrolado; jita-indriyaḥ—tendo conquistado os sentidos; sarvabhuta-ātmabhūta-ātmā—compassivo para com todas as entidades vivas; kurvan api—embora ocupado em trabalho; na—nunca; lipyate—enreda-se.

Aquele que trabalha em devoção, que é uma alma pura e que controla a mente e os sentidos, é querido por todos, e todos são queridos por ele. Embora sempre trabalhe, tal homem nunca se enreda.

Aquele que está no caminho da liberação por meio da consciência de Kṛṣṇa é muito querido por todo ser vivo, e todo ser vivo lhe é querido. Isto se deve à sua consciência de Kṛṣṇa. Tal pessoa não pode pensar em nenhum ser vivo como separado de Kṛṣṇa, assim como as folhas e os ramos de uma árvore não estão separados da árvore. Ela sabe muito bem que, ao se regar a raiz da árvore, a água será distribuída a todas as folhas e ramos, ou que, ao se fornecer alimento ao estômago, a energia se distribui automaticamente por todo o corpo. Como aquele que trabalha em consciência de Kṛṣṇa é servo de todos, é muito querido por todos. E, como todos ficam satisfeitos com seu trabalho, ele é puro em consciência. Por ser puro em consciência, sua mente está completamente controlada. E, como sua mente está controlada, seus sentidos também estão controlados. Como sua mente está sempre fixa em Kṛṣṇa, não há possibilidade de ele se desviar de Kṛṣṇa. Tampouco há possibilidade de ele ocupar seus sentidos em assuntos que não sejam o serviço ao Senhor. Ele não gosta de ouvir nada exceto tópicos referentes a Kṛṣṇa; não gosta de comer nada que não tenha sido oferecido a Kṛṣṇa; e não deseja ir a lugar algum onde Kṛṣṇa não esteja envolvido. Por isso, seus sentidos estão controlados. Um homem de sentidos controlados não pode ser ofensivo a ninguém. Pode-se perguntar: “Por que então Arjuna foi ofensivo (em batalha) para com outros? Não estaria ele em consciência de Kṛṣṇa?” Arjuna foi ofensivo apenas superficialmente, pois (como já se explicou no Segundo Capítulo) todas as pessoas reunidas no campo de batalha continuariam a viver individualmente, já que a alma não pode ser morta. Assim, espiritualmente, ninguém foi morto no Campo de Batalha de Kurukṣetra. Apenas suas vestes foram trocadas por ordem de Kṛṣṇa, que estava pessoalmente presente. Por conseguinte, Arjuna, ao lutar no Campo de Batalha de Kurukṣetra, não estava realmente lutando; estava simplesmente cumprindo as ordens de Kṛṣṇa em plena consciência de Kṛṣṇa. Tal pessoa nunca se enreda nas reações do trabalho.

Bg 5.8-9

नैव किञ्चित्करोमीति युक्तो मन्येत तत्त्ववित् ।
पश्यञ्शृण्वन्स्पृशञ्जिघ्रन्नश्नन्गच्छन्स्वपञ्श्वसन् ॥८॥
प्रलपन्विसृजन्गृह्णन्नुन्मिषन्निमिषन्नपि ।
इन्द्रियाणीन्द्रियार्थेषु वर्तन्त इति धारयन् ॥९॥

naiva kiñcit karomīti

yukto manyeta tattva-vit

paśyañ śṛṇvan spṛśañ jighrann

aśnan gacchan svapan śvasan

pralapan visṛjan gṛhṇann

unmiṣan nimiṣann api

indriyāṇīndriyārtheṣu

vartanta iti dhārayan

na—nunca; eva—certamente; kiñcit—coisa alguma; karomi—faço; iti—assim; yuktaḥ—ocupado na consciência divina; manyeta—pensa; tattvavit—aquele que conhece a verdade; paśyan—vendo; śṛṇvan—ouvindo; spṛśan—tocando; jighran—cheirando; aśnan—comendo; gacchan—indo; svapan—sonhando; śvasan—respirando; pralapan—falando; visṛjan—abandonando; gṛhṇan—aceitando; unmiṣan—abrindo; nimiṣan—fechando; api—apesar de; indriyāṇi—os sentidos; indriya-artheṣu—na gratificação dos sentidos; vartante—que se ocupem assim; iti—assim; dhārayan—considerando.

Uma pessoa em consciência divina, embora ocupada em ver, ouvir, tocar, cheirar, comer, locomover-se, dormir e respirar, sempre sabe interiormente que de fato nada faz. Pois enquanto fala, evacua, recebe, abre ou fecha os olhos, sempre sabe que apenas os sentidos materiais é que estão ocupados com seus objetos e que ela está afastada deles.

Uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa é pura em sua existência e, em consequência, nada tem a ver com qualquer trabalho que dependa de cinco causas imediatas e remotas: o agente, o trabalho, a situação, o esforço e a fortuna. Isso ocorre porque ela está ocupada no transcendental serviço amoroso a Kṛṣṇa. Embora pareça estar agindo com seu corpo e seus sentidos, sempre está consciente de sua posição real, que é a ocupação espiritual. Na consciência material, os sentidos ocupam-se na gratificação dos sentidos, mas na consciência de Kṛṣṇa os sentidos ocupam-se na satisfação dos sentidos de Kṛṣṇa. Por isso, a pessoa consciente de Kṛṣṇa está sempre livre, ainda que pareça ocupada em coisas dos sentidos. Atividades como ver, ouvir, falar, evacuar, etc., são ações dos sentidos destinadas ao trabalho. A pessoa consciente de Kṛṣṇa nunca é afetada pelas ações dos sentidos. Ela não pode realizar nenhum ato senão em serviço ao Senhor, pois sabe que é o servo eterno do Senhor.