Capítulo 12
Bg 12.1
अर्जुन उवाच ।
एवं सततयुक्ता ये भक्तास्त्वां पर्युपासते ।
ये चाप्यक्षरमव्यक्तं तेषां के योगवित्तमाः ॥१॥
arjuna uvāca
evaṁ satata-yuktā ye
bhaktās tvāṁ paryupāsate
ye cāpy akṣaram avyaktaṁ
teṣāṁ ke yoga-vittamāḥ
arjunaḥ uvāca—Arjuna disse; evam—assim; satata—sempre; yuktāḥ—ocupados; ye—aqueles; bhaktāḥ—devotos; tvām—a Ti; paryupāsate—adoram apropriadamente; ye—aqueles; ca—também; api—novamente; akṣaram—além dos sentidos; avyaktam—imanifesto; teśām—deles; ke—quem; yoga-vittamāḥ—os mais perfeitos.
Arjuna perguntou: Quais são considerados mais perfeitos: aqueles que estão devidamente ocupados em Teu serviço devocional, ou aqueles que adoram o Brahman impessoal, o imanifesto?
Kṛṣṇa explicou agora a respeito do pessoal, do impessoal e do universal, e descreveu todas as classes de devotos e yogīs. Em geral, os transcendentalistas podem ser divididos em duas classes. Uma é a dos impersonalistas, e a outra é a dos personalistas. O devoto personalista ocupa-se com toda a sua energia no serviço ao Senhor Supremo. O impersonalista ocupa-se não diretamente no serviço a Kṛṣṇa, mas na meditação no Brahman impessoal, o imanifesto.
Verifica-se neste capítulo que, dos diferentes processos para a percepção da Verdade Absoluta, o bhakti-yoga, o serviço devocional, é o mais elevado. Caso a pessoa, de alguma forma, deseje ter a associação da Suprema Personalidade de Deus, deve então adotar o serviço devocional.
Aqueles que adoram diretamente o Senhor Supremo por meio do serviço devocional chamam-se personalistas. Aqueles que se ocupam na meditação no Brahman impessoal chamam-se impersonalistas. Arjuna está aqui perguntando qual posição é melhor. Há diferentes maneiras de perceber a Verdade Absoluta, mas Kṛṣṇa indica neste capítulo que o bhakti-yoga, ou serviço devocional a Ele, é o mais elevado de todos. É o mais direto, e é o meio mais fácil para a associação com a Divindade.
No Segundo Capítulo, o Senhor explica que a entidade viva não é o corpo material, mas é uma centelha espiritual, uma parte da Verdade Absoluta. No Sétimo Capítulo, Ele fala da entidade viva como parte integrante do todo supremo e recomenda que ela transfira sua atenção plenamente para o todo. No Oitavo Capítulo, afirma-se que quem quer que pense em Kṛṣṇa no momento da morte é imediatamente transferido para o céu espiritual, a morada de Kṛṣṇa. E, ao final do Sexto Capítulo, o Senhor diz que, dentre todos os yogīs, aquele que pensa em Kṛṣṇa dentro de si é considerado o mais perfeito. Assim, em todo o Gītā, a devoção pessoal a Kṛṣṇa é recomendada como a forma mais elevada de percepção espiritual. Não obstante, há aqueles que ainda se sentem atraídos pela refulgência impessoal brahmajyoti de Kṛṣṇa, que é o aspecto onipenetrante da Verdade Absoluta e que é imanifesta e está além do alcance dos sentidos. Arjuna gostaria de saber qual desses dois tipos de transcendentalistas é mais perfeito em conhecimento. Em outras palavras, ele está esclarecendo sua própria posição, porque está apegado à forma pessoal de Kṛṣṇa. Ele não está apegado ao Brahman impessoal. Quer saber se sua posição é segura. A manifestação impessoal, seja neste mundo material, seja no mundo espiritual do Senhor Supremo, constitui um problema para a meditação. Na verdade, não se pode conceber perfeitamente o aspecto impessoal da Verdade Absoluta. Por isso, Arjuna quer dizer: “De que serve tal desperdício de tempo?” Arjuna experimentou no Décimo Primeiro Capítulo que estar apegado à forma pessoal de Kṛṣṇa é o melhor, porque ele pôde assim compreender todas as outras formas ao mesmo tempo, sem que houvesse perturbação em seu amor por Kṛṣṇa. Esta importante pergunta feita a Kṛṣṇa por Arjuna esclarecerá a distinção entre as concepções impessoal e pessoal da Verdade Absoluta.
Bg 12.10
अभ्यासेऽप्यसमर्थोऽसि मत्कर्मपरमो भव ।
मदर्थमपि कर्माणि कुर्वन्सिद्धिमवाप्स्यसि ॥१०॥
abhyāse ‘py asamartho ‘si
mat-karma-paramo bhava
mad-artham api karmāṇi
kurvan siddhim avāpsyasi
abhyāse—na prática de; api—mesmo; asamarthaḥ—incapaz; asi—és; mat-karma—Meu trabalho; paramaḥ—supremo; bhava—torna-te; mat-artham—em Meu favor; api—mesmo que; karmāṇi—trabalho; kurvan—executando; siddhim—perfeição; avāpsyasi—alcançarás.
Caso não consigas praticar as regulações do bhakti-yoga, então simplesmente tenta trabalhar para Mim, porque, trabalhando para Mim, alcançarás o estágio perfeito.
Aquele que não é capaz nem mesmo de praticar os princípios regulativos do bhakti-yoga, sob a orientação de um mestre espiritual, ainda pode ser atraído a esse estágio perfectivo trabalhando para o Senhor Supremo. Como executar esse trabalho já se explicou no quinquagésimo quinto verso do Décimo Primeiro Capítulo. Deve-se ser solidário à propagação da consciência de Kṛṣṇa. Há muitos devotos que se ocupam na propagação da consciência de Kṛṣṇa, e eles necessitam de ajuda. Assim sendo, mesmo que alguém não possa praticar diretamente os princípios regulativos do bhakti-yoga, pode tentar ajudar tal trabalho. Todo empreendimento exige terra, capital, organização e trabalho. Assim como nos negócios é necessário um lugar para ficar, algum capital para usar, algum trabalho e alguma organização para expandir, o mesmo se exige no serviço a Kṛṣṇa. A única diferença é que, no materialismo, trabalha-se para a gratificação dos sentidos. O mesmo trabalho, contudo, pode ser executado para a satisfação de Kṛṣṇa, e isso é atividade espiritual. Caso alguém disponha de dinheiro suficiente, pode ajudar a construir um escritório ou um templo para a propagação da consciência de Kṛṣṇa. Ou pode ajudar com publicações. Há vários campos de atividade, e a pessoa deve interessar-se por tais atividades. Caso não consiga sacrificar o resultado de tais atividades, essa mesma pessoa pode ainda sacrificar uma percentagem para propagar a consciência de Kṛṣṇa. Esse serviço voluntário à causa da consciência de Kṛṣṇa ajudará a pessoa a elevar-se a um estado mais elevado de amor a Deus, ponto em que ela se torna perfeita.
Bg 12.11
अथैतदप्यशक्तोऽसि कर्तुं मद्योगमाश्रितः ।
सर्वकर्मफलत्यागं ततः कुरु यतात्मवान् ॥११॥
athaitad apy aśakto ‘si
kartuṁ mad-yogam āśritaḥ
sarva-karma-phala-tyāgaṁ
tataḥ kuru yatātmavān
atha—mesmo que; etat—isto; api—também; aśaktaḥ—incapaz; asi—és; kartum—executar; mat—em Mim; yogam—serviço devocional; āśritaḥ—refúgio; sarva-karma—todas as atividades; phala—resultado; tyāgam—para a renúncia; tataḥ—portanto; kuru—faze; yata-ātmavan—autossituado.
Se, contudo, fores incapaz de trabalhar nesta consciência, então tenta agir abandonando todos os resultados de teu trabalho e procura situar-te em ti mesmo.
Pode ser que alguém não consiga sequer simpatizar com as atividades da consciência de Kṛṣṇa devido a considerações sociais, familiares ou religiosas, ou devido a algum outro impedimento. Caso a pessoa se apegue diretamente às atividades da consciência de Kṛṣṇa, pode haver objeção dos membros da família ou tantas outras dificuldades. Para aquele que tem tal problema, aconselha-se que sacrifique o resultado acumulado de suas atividades a alguma boa causa. Tais procedimentos são descritos nas regras Védicas. Há muitas descrições de sacrifícios e funções especiais do pumundi ou trabalho especial em que o resultado da ação anterior pode ser aplicado. Assim, pode-se gradualmente elevar-se ao estado de conhecimento. Verifica-se também que, quando alguém que nem sequer está interessado nas atividades da consciência de Kṛṣṇa dá caridade a algum hospital ou a alguma outra instituição social, ele abre mão dos resultados arduamente conquistados de suas atividades. Isso também se recomenda aqui, pois, pela prática de abrir mão dos frutos das próprias atividades, a pessoa certamente purificará a mente gradualmente, e, nesse estado purificado da mente, torna-se capaz de compreender a consciência de Kṛṣṇa. É claro que a consciência de Kṛṣṇa não depende de nenhuma outra experiência, pois a própria consciência de Kṛṣṇa pode purificar a mente da pessoa, mas, se há impedimentos à consciência de Kṛṣṇa, pode-se tentar abandonar o resultado da própria ação. Nesse aspecto, o serviço social, o serviço comunitário, o serviço nacional, o sacrifício pelo próprio país, etc., podem ser aceitos para que algum dia a pessoa possa chegar ao estágio do serviço devocional puro ao Senhor Supremo. No Bhagavad-gītā, encontramos esta afirmação: yataḥ pravṛttir bhūtānām: caso alguém decida sacrificar-se pela causa suprema, mesmo que não saiba que a causa suprema é Kṛṣṇa, gradualmente compreenderá que Kṛṣṇa é a causa suprema pelo método sacrificial.
Bg 12.12
श्रेयो हि ज्ञानमभ्यासाज्ज्ञानाद्ध्यानं विशिष्यते ।
ध्यानात्कर्मफलत्यागस्त्यागाच्छान्तिरनन्तरम् ॥१२॥
śreyo hi jñānam abhyāsāj
jñānād dhyānaṁ viśiṣyate
dhyānāt karma-phala-tyāgas
tyāgāc chāntir anantaram
śreyaḥ—melhor; hi—certamente; jñānam—conhecimento; abhyāsāt—pela prática; jnānāt—melhor que o conhecimento; dhyānam—meditação; viśiṣyate—especialmente considerada; dhyānāt—da meditação; karma-phala-tyāgaḥ—renúncia aos resultados da ação fruitiva; tyāgāt—por tal renúncia; śāntiḥ—paz; anantaram—depois disso.
Caso não consigas adotar esta prática, então ocupa-te no cultivo do conhecimento. Melhor do que o conhecimento, contudo, é a meditação, e melhor do que a meditação é a renúncia aos frutos da ação, pois, mediante tal renúncia, pode-se alcançar a paz da mente.
Como mencionado nos versos anteriores, há duas espécies de serviço devocional: o caminho dos princípios regulativos e o caminho do pleno apego em amor à Suprema Personalidade de Deus. Para aqueles que de fato não conseguem seguir os princípios da consciência de Kṛṣṇa, é melhor cultivar o conhecimento, pois, por meio do conhecimento, é possível compreender a própria posição real. Gradualmente, o conhecimento desenvolver-se-á até o ponto da meditação. Pela meditação, pode-se compreender a Suprema Personalidade de Deus mediante um processo gradual. Há processos que fazem a pessoa compreender que ela própria é o Supremo, e essa espécie de meditação é preferida caso a pessoa seja incapaz de ocupar-se no serviço devocional. Caso a pessoa não seja capaz de meditar dessa forma, então há deveres prescritos, conforme imposto pela literatura Védica, para os brāhmaṇas, vaiśyas e śūdras, que encontraremos em um capítulo posterior do Bhagavad-gītā. Mas, em todos os casos, deve-se abandonar o resultado ou os frutos do trabalho; isto significa empregar o resultado do karma em alguma boa causa. Em síntese, para alcançar a Suprema Personalidade de Deus, a meta mais elevada, há dois processos: um processo é por desenvolvimento gradual, e o outro processo é direto. O serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa é o método direto, e o outro método envolve renunciar aos frutos das próprias atividades. Então, pode-se chegar ao estágio do conhecimento, depois ao estágio da meditação, depois ao estágio da compreensão da Superalma, e depois ao estágio da Suprema Personalidade de Deus. Pode-se tomar tanto o processo passo a passo quanto a senda direta. O processo direto não é possível para todos; por conseguinte, o processo indireto também é bom. Deve-se compreender, no entanto, que o processo indireto não é recomendado para Arjuna, porque ele já está no estágio do amoroso serviço devocional ao Senhor Supremo. É para outros que não estão neste estado; para eles, deve-se seguir o processo gradual de renúncia, conhecimento, meditação e percepção da Superalma e do Brahman. Mas, no que se refere ao Bhagavad-gītā, é o método direto que se enfatiza. Aconselha-se a todos a adotar o método direto e render-se à Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa.
Bg 12.13-14
अद्वेष्टा सर्वभूतानां मैत्रः करुण एव च ।
निर्ममो निरहङ्कारः समदुःखसुखः क्षमी ॥१३॥
सन्तुष्टः सततं योगी यतात्मा दृढनिश्चयः ।
मय्यर्पितमनोबुद्धिर्यो मद्भक्तः स मे प्रियः ॥१४॥
adveṣṭā sarva-bhūtānāṁ
maitraḥ karuṇa eva ca
nirmamo nirahaṅkāraḥ
sama-duḥkha-sukhaḥ kṣamī
santuṣṭaḥ satataṁ yogī
yatātmā dṛḍha-niścayaḥ
mayy arpita-mano-buddhir
yo mad-bhaktaḥ sa me priyaḥ
adveṣṭā—não invejoso; sarva-bhūtānām—para com todas as entidades vivas; maitraḥ—amistoso; karuṇaḥ—bondoso; eva—certamente; ca—também; nirmamaḥ—sem senso de propriedade; nirahaṅkāraḥ—sem ego falso; sama—igualmente; duḥkhaḥ—aflição; sukhaḥ—felicidade; kṣamī—perdoador; santuṣṭaḥ—satisfeito; satatam—satisfeito; yogī—ocupado em devoção; yatā-atmā—esforçando-se; dṛdḥaniścayaḥ—com determinação; mayi—em Mim; arpita—ocupada; manaḥ—mente; buddhiḥ—inteligente; yaḥ—aquele que; mat-bhaktaḥ—Meu devoto; saḥ me priyaḥ—ele Me é querido.
Aquele que não é invejoso, mas que é um amigo bondoso para com todas as entidades vivas, que não se considera proprietário, que está livre do ego falso e é equânime tanto na felicidade quanto na aflição, que está sempre satisfeito e ocupado no serviço devocional com determinação, e cuja mente e inteligência estão de acordo com as Minhas — esse Me é muito querido.
Voltando novamente ao ponto do serviço devocional puro, o Senhor descreve as qualificações transcendentais de um devoto puro nestes dois versos. Um devoto puro nunca se perturba em quaisquer circunstâncias. Tampouco tem inveja de alguém. Nem o devoto se torna inimigo de seu inimigo; ele pensa que aquele atua como seu inimigo devido a seus próprios maus atos passados. Por isso, é melhor sofrer do que protestar. No Śrīmad-Bhāgavatam afirma-se: tat te ‘nukampāṁ su-samīkṣyamaṇo. Sempre que um devoto está em aflição ou caiu em dificuldade, pensa que se trata da misericórdia do Senhor sobre ele. Pensa: “Graças a meus maus atos passados, eu deveria sofrer muito, muito mais do que estou sofrendo agora. Assim, é pela misericórdia do Senhor Supremo que não estou recebendo todo o castigo que mereço. Estou recebendo apenas um pouco, pela misericórdia da Suprema Personalidade de Deus.” Por conseguinte, está sempre calmo, tranquilo e paciente, apesar de muitas condições aflitivas. Um devoto também é sempre bondoso para com todos, mesmo para com seu inimigo. Nirmama significa que o devoto não atribui muita importância à paz e ao incômodo pertencentes ao corpo, porque sabe perfeitamente bem que não é o corpo material. Não se identifica com o corpo; portanto, está livre da concepção de ego falso e é equânime tanto na felicidade como na aflição. É tolerante e está satisfeito com tudo o que vem pela graça do Senhor Supremo. Não se esforça muito para conquistar algo com grande dificuldade; por isso, está sempre alegre. É um místico completamente perfeito, porque está fixo nas instruções recebidas do mestre espiritual e, porque seus sentidos estão controlados, é determinado. Não se deixa abalar por argumentos falsos, pois ninguém pode afastá-lo da determinação fixa do serviço devocional. Está plenamente consciente de que Kṛṣṇa é o Senhor eterno, de modo que ninguém pode perturbá-lo. Todas as suas qualificações o capacitam a depender inteiramente do Senhor Supremo. Tal padrão de serviço devocional é, indubitavelmente, muito raro, mas o devoto situa-se nesse estágio seguindo os princípios regulativos do serviço devocional. Ademais, o Senhor diz que tal devoto Lhe é muito querido, pois o Senhor está sempre satisfeito com todas as suas atividades em plena consciência de Kṛṣṇa.
Bg 12.15
यस्मान्नोद्विजते लोको लोकान्नोद्विजते च यः ।
हर्षामर्षभयोद्वेगैर्मुक्तो यः स च मे प्रियः ॥१५॥
yasmān nodvijate loko
lokān nodvijate ca yaḥ
harṣāmarṣa-bhayodvegair
mukto yaḥ sa ca me priyaḥ
yasmāt—de quem; na—nunca; udvijate—agita-se; lokaḥ—pessoas; lokāt—pessoas; na—nunca; advijate—perturbado; ca—também; yaḥ—quem quer que seja; harṣa—felicidade; amarṣa—aflição; bhaya—temor; udvegaiḥ—com ansiedade; muktaḥ—libertado; yaḥ—quem; saḥ—qualquer; ca—também; me—Meu; priyaḥ—muito querido.
Aquele por quem ninguém é posto em dificuldade e que não é perturbado pela ansiedade, que está firme tanto na felicidade quanto na aflição, é-Me muito querido.
Algumas qualificações adicionais de um devoto estão sendo descritas. Ninguém é posto em dificuldade, ansiedade, temor ou insatisfação por tal devoto. Visto que o devoto é bondoso para com todos, não age de modo a colocar os outros em ansiedade. Ao mesmo tempo, se outros tentam colocar o devoto em ansiedade, ele não se perturba. É pela graça do Senhor que ele está tão treinado a ponto de não ser perturbado por nenhuma perturbação externa. Na verdade, porque o devoto está sempre absorto na consciência de Kṛṣṇa e ocupado no serviço devocional, todas essas circunstâncias materiais não conseguem atraí-lo. Geralmente, uma pessoa materialista fica muito feliz quando há algo para a gratificação de seus sentidos e de seu corpo, mas, quando vê que outros têm algo para a gratificação dos sentidos deles e ela não, fica triste e invejosa. Quando espera alguma retaliação de um inimigo, está em estado de medo, e, quando não consegue executar algo com êxito, fica abatida. Mas o devoto é sempre transcendental a todas essas perturbações; portanto, é-Me muito querido a Kṛṣṇa.
Bg 12.16
अनपेक्षः शुचिर्दक्ष उदासीनो गतव्यथः ।
सर्वारम्भपरित्यागी यो मद्भक्तः स मे प्रियः ॥१६॥
anapekṣaḥ śucir dakṣa
udāsīno gata-vyathaḥ
sarvārambha-parityāgī
yo mad-bhaktaḥ sa me priyaḥ
anapekṣaḥ—neutro; śuciḥ—puro; dakṣaḥ—perito; udāsīnaḥ—livre de cuidados; gata-vyathaḥ—libertado de toda aflição; sarva-ārambha—todos os empreendimentos; parityāgī—renunciante; yaḥ—quem quer que seja; mat-bhaktaḥ—Meu devoto; saḥ—ele; me—a Mim; priyaḥ—muito querido.
Um devoto que não depende do curso ordinário das atividades, que é puro, perito, sem cuidados, livre de todas as dores e que não se esforça por algum resultado, é-Me muito querido.
Pode-se oferecer dinheiro a um devoto, mas ele não deve esforçar-se para adquiri-lo. Caso, automaticamente, pela graça do Supremo, o dinheiro chegue até ele, ele não se agita. Naturalmente, um devoto banha-se pelo menos duas vezes por dia e levanta-se cedo pela manhã para o serviço devocional. Assim, é naturalmente limpo tanto interna quanto externamente. Um devoto é sempre perito, porque conhece plenamente o sentido de todas as atividades da vida e está convencido das escrituras autoritativas. O devoto nunca toma o partido de um determinado grupo; por isso, está despreocupado. Nunca se aflige, pois está livre de todas as designações; sabe que seu corpo é uma designação, de modo que, se há algumas dores corporais, está livre delas. O devoto puro não se esforça por nada que seja contrário aos princípios do serviço devocional. Por exemplo, construir um grande edifício exige grande energia, e o devoto não se dedica a tal negócio caso isso não o beneficie no avanço de seu serviço devocional. Pode construir um templo para o Senhor, e, para isso, pode assumir todo tipo de ansiedades, mas não constrói uma casa grande para suas relações pessoais.
Bg 12.17
यो न हृष्यति न द्वेष्टि न शोचति न काङ्क्षति ।
शुभाशुभपरित्यागी भक्तिमान्यः स मे प्रियः ॥१७॥
yo na hṛṣyati na dveṣṭi
na śocati na kāṅkṣati
śubhāśubha-parityāgī
bhaktimān yaḥ sa me priyaḥ
yaḥ—aquele que; na—nunca; hṛṣyati—se compraz; na—nunca; dveṣṭi—se aflige; na—nunca; śocati—lamenta; na—nunca; kāṅkṣati—deseja; śubha—auspicioso; aśubha—inauspicioso; parityāgī—renunciante; bhaktimān—devoto; yaḥ—aquele que; saḥ—ele é; me—Meu; priyaḥ—querido.
Aquele que não se apega ao prazer nem ao pesar, que não lamenta nem deseja, e que renuncia tanto a coisas auspiciosas quanto inauspiciosas, é-Me muito querido.
Um devoto puro não está nem feliz nem aflito por ganho ou perda materiais, nem está muito ansioso por obter um filho ou um discípulo, nem se aflige por não os obter. Caso perca algo que lhe é muito querido, não se lamenta. De modo semelhante, caso não obtenha o que deseja, não se aflige. É transcendental diante de todas as espécies de atividades auspiciosas, inauspiciosas e pecaminosas. Está preparado para aceitar todas as espécies de riscos para a satisfação do Senhor Supremo. Nada é impedimento na execução de seu serviço devocional. Tal devoto é-Me muito querido a Kṛṣṇa.
Bg 12.18-19
समः शत्रौ च मित्रे च तथा मानापमानयोः ।
शीतोष्णसुखदुःखेषु समः सङ्गविवर्जितः ॥१८॥
तुल्यनिन्दास्तुतिर्मौनी सन्तुष्टो येन केनचित् ।
अनिकेतः स्थिरमतिर्भक्तिमान्मे प्रियो नरः ॥१९॥
samaḥ śatrau ca mitre ca
tathā mānāpamānayoḥ
śītoṣṇa-sukha-duḥkheṣu
samaḥ saṅga-vivarjitaḥ
tulya-nindā-stutir maunī
santuṣṭo yena kenacit
aniketaḥ sthira-matir
bhaktimān me priyo naraḥ
samaḥ—igual; śatrau—para com o inimigo; ca—também; mitre—para com os amigos; ca—também; tatha—assim; māna—honra; apamānayoḥ—desonra; śīta—frio; uṣṇa—calor; sukha—felicidade; duḥkheṣu—aflição; samaḥ—equânime; saṅga-vivarjitaḥ—livre de toda associação; tulya—igual; nindā—difamação; stutiḥ—boa fama; maunī—silencioso; santuṣṭaḥ—satisfeito; yena—de algum modo; kena—ou outro; cit—se; aniketaḥ—sem residência; sthira—fixa; matiḥ—determinação; bhaktimān—ocupado em devoção; me—Meu; priyaḥ—querido; naraḥ—um homem.
Aquele que é igual para com amigos e inimigos, que é equânime na honra e na desonra, no calor e no frio, na felicidade e na aflição, na fama e na infâmia, que está sempre livre da contaminação, sempre silencioso e satisfeito com qualquer coisa, que não se importa com nenhuma residência, que está fixo em conhecimento e ocupado no serviço devocional, é-Me muito querido.
Um devoto está sempre livre de toda má associação. Às vezes, a pessoa é elogiada e, às vezes, é difamada; tal é a natureza da sociedade humana. Mas o devoto é sempre transcendental à fama e à infâmia artificiais, à aflição ou à felicidade. É muito paciente. Não fala de nada que não sejam os tópicos sobre Kṛṣṇa; portanto, é chamado de silencioso. Silencioso não significa que não se deva falar; silencioso significa que não se deve falar tolices. Deve-se falar apenas do essencial, e a fala mais essencial para o devoto é falar do Senhor Supremo. Ele é feliz em todas as condições; às vezes pode obter alimentos muito saborosos, às vezes não, mas está satisfeito. Tampouco se importa com qualquer facilidade residencial. Pode às vezes viver debaixo de uma árvore, e pode às vezes viver em um edifício palaciano; não se atrai por nenhum dos dois. É chamado de fixo porque está fixo em sua determinação e conhecimento. Podemos encontrar alguma repetição nas descrições das qualificações de um devoto, mas isto se faz apenas para dar uma ilustração do fato de que um devoto deve adquirir todas estas qualificações. Sem boas qualificações, não se pode ser um devoto puro. Aquele que não é devoto não tem nenhuma boa qualificação. Aquele que quer ser reconhecido como devoto deve desenvolver as boas qualificações. Naturalmente, ele não se esforça extrinsecamente para adquirir essas qualificações, mas o engajamento na consciência de Kṛṣṇa e no serviço devocional automaticamente o ajuda a desenvolvê-las.
Bg 12.2
श्रीभगवानुवाच ।
मय्यावेश्य मनो ये मां नित्ययुक्ता उपासते ।
श्रद्धया परयोपेताः ते मे युक्ततमा मताः ॥२॥
śrī-bhagavān uvāca
mayy āveśya mano ye māṁ
nitya-yuktā upāsate
śraddhayā parayopetās
te me yuktatamā matāḥ
śrī bhagavān uvāca—a Suprema Personalidade de Deus disse; mayi—em Mim; āveśya—fixando; manaḥ—mente; ye—aquele que; mām—em Mim; nitya—sempre; yuktāḥ—ocupado; upāsate—adora; śraddhayā—com fé; parayā—transcendental; upetāḥ—ocupa-se; te—eles; me—Meus; yuktatamāḥ—mais perfeitos; matāḥ—considero.
O Senhor Abençoado disse: Aquele cuja mente está fixa em Minha forma pessoal, sempre ocupado em adorar-Me com grande fé transcendental, é por Mim considerado o mais perfeito.
Em resposta à pergunta de Arjuna, Kṛṣṇa diz claramente que aquele que se concentra em Sua forma pessoal e que O adora com fé e devoção deve ser considerado o mais perfeito em yoga. Para alguém em tal consciência de Kṛṣṇa, não há atividades materiais, pois tudo é feito por Kṛṣṇa. Um devoto puro está constantemente ocupado — às vezes ele canta, às vezes ouve ou lê livros sobre Kṛṣṇa, ou às vezes cozinha prasādam ou vai ao mercado para comprar algo para Kṛṣṇa, ou às vezes lava o templo ou os utensílios — faça o que fizer, ele não deixa passar um único momento sem dedicar suas atividades a Kṛṣṇa. Tal ação está em pleno samādhi.
Bg 12.20
ये तु धर्म्यामृतमिदं यथोक्तं पर्युपासते ।
श्रद्दधाना मत्परमा भक्तास्तेऽतीव मे प्रियाः ॥२०॥
ye tu dharmāmṛtam idaṁ
yathoktaṁ paryupāsate
śraddadhānā mat-paramā
bhaktās te ‘tīva me priyāḥ
ye—aquele que; tu—mas; dharmya—generosidade; amṛtam—compreensão; idam—isto; yathā—como; uktam—dito; paryupāsate—ocupa-se completamente; sraddadhānāḥ—com fé; mat-paramāḥ—tomando o Senhor Supremo como tudo; bhaktāḥ—devotos; te—tais pessoas; atīva—muito, muito; me—a Mim; priyāḥ—queridos.
Aquele que segue esta senda imperecível do serviço devocional e que se ocupa completamente com fé, fazendo de Mim a meta suprema, é-Me muito, muito querido.
Neste capítulo, expõe-se a religião do engajamento eterno, a explicação do processo do serviço transcendental para aproximar-se do Senhor Supremo. Este processo é-Lhe muito querido, e Ele aceita aquele que se ocupa em tal processo. A pergunta sobre quem é melhor — aquele que está ocupado na senda do Brahman impessoal ou aquele que está ocupado no serviço pessoal à Suprema Personalidade de Deus — foi feita por Arjuna, e o Senhor lhe respondeu de modo tão explícito que não há dúvida de que o serviço devocional à Personalidade de Deus é o melhor de todos os processos de percepção espiritual. Em outras palavras, decide-se neste capítulo que, por meio de boa associação, a pessoa desenvolve apego pelo serviço devocional puro e, com isso, aceita um mestre espiritual genuíno e dele começa a ouvir, a cantar e a observar os princípios regulativos do serviço devocional com fé, apego e devoção, ocupando-se assim no serviço transcendental ao Senhor. Esta senda recomenda-se neste capítulo; portanto, não há dúvida de que o serviço devocional é a única senda absoluta para a autorrealização, para o alcance da Suprema Personalidade de Deus. A concepção impessoal da Suprema Verdade Absoluta, conforme descrita neste capítulo, recomenda-se apenas até o momento em que a pessoa se rende para a autorrealização. Em outras palavras, enquanto a pessoa não tiver a oportunidade de associar-se com um devoto puro, a concepção impessoal pode ser benéfica. Na concepção impessoal da Verdade Absoluta, trabalha-se sem resultado fruitivo, medita-se e cultiva-se conhecimento para compreender o espírito e a matéria. Isso é necessário enquanto a pessoa não estiver na associação de um devoto puro. Felizmente, caso alguém desenvolva diretamente o desejo de ocupar-se em consciência de Kṛṣṇa no serviço devocional puro, não precisa passar por melhorias passo a passo na percepção espiritual. O serviço devocional, conforme descrito nos seis capítulos centrais do Bhagavad-gītā, é mais propício. Não é necessário preocupar-se com materiais para manter o corpo e a alma juntos, porque, pela graça do Senhor, tudo se realiza automaticamente.
Assim terminam os Significados Bhaktivedanta ao Décimo Segundo Capítulo do Śrīmad-Bhagavad-gītā no que se refere a Serviço Devocional.
Bg 12.3-4
ये त्वक्षरमनिर्देश्यमव्यक्तं पर्युपासते ।
सर्वत्रगमचिन्त्यञ्च कूटस्थमचलन्ध्रुवम् ॥३॥
सन्नियम्येन्द्रियग्रामं सर्वत्र समबुद्धयः ।
ते प्राप्नुवन्ति मामेव सर्वभूतहिते रताः ॥४॥
ye tv akṣaram anirdeśyam
avyaktaṁ paryupāsate
sarvatra-gam acintyaṁ ca
kūṭa-stham acalaṁ dhruvam
sanniyamyendriya-grāmaṁ
sarvatra sama-buddhayaḥ
te prāpnuvanti mām eva
sarva-bhūta-hite ratāḥ
ye—aqueles; tu—mas; akṣaram—que está além da percepção dos sentidos; anirdeśyam—indefinido; avyaktam—imanifesto; paryupāsate—ocupam-se completamente; sarvatra-gam—onipenetrante; acintyam—inconcebível; ca—também; kūṭastham—no centro; acalam—imóvel; dhruvam—fixo; sanniyamya—controlando; indriya-grāmam—todos os sentidos; sarvatra—em toda parte; sama-buddayaḥ—com a mesma disposição; te—eles; prāpnuvanti—alcançam; mām—a Mim; eva—certamente; sarva-bhūta-hite—no bem-estar de todas as entidades vivas; ratāḥ—ocupados.
Mas aqueles que adoram plenamente o imanifesto, aquilo que está além da percepção dos sentidos, o onipenetrante, inconcebível, fixo e imóvel — a concepção impessoal da Verdade Absoluta —, controlando os vários sentidos e mantendo-se igualmente dispostos para com todos, tais pessoas, ocupadas no bem-estar de todos, finalmente Me alcançam.
Aqueles que não adoram diretamente a Suprema Divindade, Kṛṣṇa, mas que tentam alcançar a mesma meta por um processo indireto, também acabam por alcançar a meta suprema, Śrī Kṛṣṇa, como se afirma: “Após muitos nascimentos, o homem de sabedoria refugia-se em Mim, sabendo que Vāsudeva é tudo.” Quando uma pessoa atinge o pleno conhecimento após muitos nascimentos, ela se rende ao Senhor Kṛṣṇa. Caso alguém se aproxime da Divindade pelo método mencionado neste verso, terá de controlar os sentidos, prestar serviço a todos e ocupar-se no bem-estar de todos os seres. Infere-se que é necessário aproximar-se do Senhor Kṛṣṇa; do contrário, não há percepção perfeita. Frequentemente há muita penitência envolvida antes que alguém se renda completamente a Ele.
A fim de perceber a Superalma dentro da alma individual, é preciso cessar as atividades sensoriais de ver, ouvir, saborear, trabalhar, etc. Então, passa-se a compreender que a Alma Suprema está presente em toda parte. Percebendo isso, a pessoa não inveja nenhuma entidade viva — não vê diferença entre o homem e o animal, porque vê apenas a alma, não o invólucro externo. Mas, para o homem comum, esse método de percepção impessoal é muito difícil.
Bg 12.5
क्लेशोऽधिकतरस्तेषामव्यक्तासक्तचेतसाम् ।
अव्यक्ता हि गतिर्दुःखं देहवद्भिरवाप्यते ॥५॥
kleśo ‘dhikataras teṣām
avyaktāsakta-cetasām
avyaktā hi gatir duḥkhaṁ
dehavadbhir avāpyate
kleśaḥ—dificuldade; adhikataraḥ—mais difícil; teṣām—deles; avyakta—imanifesto; āsakta—estando apegados; cetasām—daqueles cujas mentes; avyaktā—imanifesto; hi—certamente; gatiḥ duḥkham—progresso é difícil; dehavadbhiḥ—dos corporificados; avāpyate—alcançam.
Para aqueles cujas mentes estão apegadas ao aspecto imanifesto e impessoal do Supremo, o avanço é muito difícil. Progredir nessa disciplina é sempre árduo para os que estão corporificados.
O grupo de transcendentalistas que segue a senda do aspecto inconcebível, imanifesto e impessoal do Senhor Supremo é chamado de jñāna-yogīs, e as pessoas que estão em plena consciência de Kṛṣṇa, ocupadas no serviço devocional ao Senhor, são chamadas de bhakti-yogīs. Ora, aqui se exprime definitivamente a diferença entre jñāna-yoga e bhakti-yoga. O processo de jñāna-yoga, embora conduza ao mesmo objetivo, é muito difícil, ao passo que a senda do bhakti-yoga, o processo de prestar serviço direto à Suprema Personalidade de Deus, é mais fácil e natural para a alma corporificada. A alma individual está corporificada desde tempos imemoriais. É muito difícil para ela compreender simplesmente em teoria que não é o corpo. Por isso, o bhakti-yogī aceita a Deidade de Kṛṣṇa como adorável, porque há certa concepção corporal fixada na mente, que pode assim ser aplicada. É claro que a adoração à Suprema Personalidade de Deus em Sua forma dentro do templo não é idolatria. Há evidência na literatura Védica de que a adoração pode ser saguṇa e nirguṇa — do Supremo possuindo ou não atributos. A adoração à Deidade no templo é adoração saguṇa, pois o Senhor é representado por qualidades materiais. Mas a forma do Senhor, embora representada por qualidades materiais como pedra, madeira ou tinta a óleo, não é, na verdade, material. Essa é a natureza absoluta do Senhor Supremo.
Pode-se dar aqui um exemplo rudimentar. Podemos encontrar algumas caixas de correio na rua e, se postarmos nossas cartas nessas caixas, elas naturalmente chegarão ao seu destino sem dificuldade. Mas qualquer caixa antiga, ou uma imitação, que possamos encontrar em algum lugar, que não seja autorizada pelos correios, não fará o serviço. De modo semelhante, Deus tem uma representação autorizada na forma da Deidade, que se chama arca-vigraha. Esta arca-vigraha é uma encarnação do Senhor Supremo. Deus aceitará o serviço por meio dessa forma. O Senhor é onipotente e todo-poderoso; portanto, por Sua encarnação como arca-vigraha, Ele pode aceitar os serviços do devoto, apenas para tornar isso conveniente para o homem em vida condicionada.
Assim sendo, para um devoto, não há dificuldade em aproximar-se do Supremo imediata e diretamente, mas, para aqueles que seguem o caminho impessoal rumo à percepção espiritual, a senda é difícil. Eles têm de compreender a representação imanifesta do Supremo através de literaturas Védicas, como os Upaniṣads, e têm de aprender a língua, compreender os sentimentos não perceptuais, e têm de perceber todos esses processos. Isso não é muito fácil para o homem comum. Uma pessoa em consciência de Kṛṣṇa, ocupada no serviço devocional, simplesmente pela orientação do mestre espiritual genuíno, simplesmente oferecendo reverências regulativas à Deidade, simplesmente ouvindo as glórias do Senhor e simplesmente comendo os restos dos alimentos oferecidos ao Senhor, percebe a Suprema Personalidade de Deus muito facilmente. Não há dúvida de que os impersonalistas estão tomando desnecessariamente uma senda difícil, com o risco de não perceberem a Verdade Absoluta no fim último. Mas o personalista, sem qualquer risco, dificuldade ou problema, aproxima-se da Personalidade Suprema diretamente. Uma passagem semelhante aparece no Śrīmad-Bhāgavatam. Afirma-se ali que, se a pessoa precisa, em última análise, render-se à Suprema Personalidade de Deus (esse processo de rendição chama-se bhakti), mas, em vez disso, dá-se ao trabalho de compreender o que é Brahman e o que não é Brahman, e gasta toda a sua vida desse modo, o resultado é simplesmente penoso. Por conseguinte, aconselha-se aqui que não se deva tomar essa senda difícil de autorrealização, porque há incerteza no resultado final.
Uma entidade viva é eternamente uma alma individual, e, se desejar fundir-se no todo espiritual, poderá realizar a percepção dos aspectos eternos e cognoscíveis de sua natureza original, mas a porção bem-aventurada não é percebida. Pela graça de algum devoto, tal transcendentalista, altamente erudito no processo de jñāna-yoga, pode chegar ao ponto do bhakti-yoga, ou serviço devocional. Nesse momento, a longa prática do impersonalismo torna-se também uma fonte de problemas, pois ele não consegue abandonar a ideia. Logo, uma alma corporificada está sempre em dificuldade com o imanifesto, tanto no momento da prática como no momento da percepção. Toda alma viva é parcialmente independente, e deve-se saber, com certeza, que essa percepção do imanifesto é contrária à natureza do seu eu espiritual e bem-aventurado. Não se deve adotar esse processo. Para cada entidade viva individual, o processo da consciência de Kṛṣṇa, que implica plena ocupação no serviço devocional, é o melhor caminho. Caso alguém queira ignorar este serviço devocional, há o perigo de voltar-se para o ateísmo. Dessa forma, este processo de centrar a atenção no imanifesto, no inconcebível, que está além do alcance dos sentidos — como já se exprimiu neste verso —, jamais deve ser estimulado, especialmente nesta era. Não é aconselhado pelo Senhor Kṛṣṇa.
Bg 12.6-7
ये तु सर्वाणि कर्माणि मयि संन्यस्य मत्परः ।
अनन्येनैव योगेन मां ध्यायन्त उपासते ॥६॥
तेषामहं समुद्धर्ता मृत्युसंसारसागरात् ।
भवामि नचिरात्पार्थ मय्यावेशितचेतसाम् ॥७॥
ye tu sarvāṇi karmāṇi
mayi sannyasya mat-parāḥ
ananyenaiva yogena
māṁ dhyāyanta upāsate
teṣām ahaṁ samuddhartā
mṛtyu-saṁsāra-sāgarāt
bhavāmi na cirāt pārtha
mayy āveśita-cetasām
ye—aquele que; tu—mas; sarvāṇi—tudo; karmāṇi—atividades; mayi—a Mim; sannyasya—entregando; mat-parāḥ—estando apegado a Mim; ananyena—sem divisão; eva—certamente; yogena—pela prática de tal bhakti-yoga; mām—em Mim; dhyāyantaḥ—meditando; upāsate—adoram; teṣām—deles; aham—Eu; samuddhartā—libertador; mṛtyu—essa; saṁsāra—existência material; sāgarāt—do oceano; bhavāmi—torno-Me; na cirāt—em pouco tempo; pārtha—ó filho de Pṛthā; mayi—em Mim; āveśita—fixas; cetasām—daqueles cujas mentes assim estão.
Para aquele que Me adora, entregando-Me todas as suas atividades e sendo devotado a Mim sem desvio, ocupado no serviço devocional e sempre meditando em Mim, que fixou sua mente em Mim, ó filho de Pṛthā, para esse, Eu sou o veloz libertador do oceano de nascimentos e mortes.
Afirma-se aqui explicitamente que os devotos são muito afortunados em serem libertos muito rapidamente da existência material pelo Senhor. No serviço devocional puro, percebe-se que Deus é grande e que a alma individual é subordinada a Ele. Seu dever é prestar serviço ao Senhor — e, se assim não fizer, prestará serviço à māyā.
Como afirmado anteriormente, o Senhor Supremo só pode ser apreciado pelo serviço devocional. Por conseguinte, é preciso ser plenamente devotado. Deve-se fixar a mente plenamente em Kṛṣṇa para alcançá-Lo. Deve-se trabalhar somente para Kṛṣṇa. Não importa em que tipo de trabalho a pessoa se ocupe, mas esse trabalho deve ser feito apenas para Kṛṣṇa. Esse é o padrão do serviço devocional. O devoto não deseja nenhuma realização que não seja agradar à Suprema Personalidade de Deus. A missão de sua vida é agradar a Kṛṣṇa, e ele pode sacrificar tudo pela satisfação de Kṛṣṇa, assim como Arjuna fez na Batalha de Kurukṣetra. O processo é muito simples: pode-se dedicar-se à própria ocupação e ao mesmo tempo ocupar-se em cantar Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare. Tal canto transcendental atrai o devoto à Personalidade de Deus.
O Senhor Supremo aqui promete que sem demora libertará um devoto puro assim ocupado do oceano da existência material. Aqueles que são avançados na prática do yoga podem, à vontade, transferir a alma para qualquer planeta que desejem pelo processo do yoga, e outros aproveitam a oportunidade de várias maneiras, mas, no que diz respeito ao devoto, está claramente afirmado aqui que o próprio Senhor o leva. Ele não precisa esperar para tornar-se muito experiente a fim de transferir-se ao céu espiritual.
No Varāha Purāṇa aparece este verso:
nayāmi paramaṁ sthānam arcirādi-gatiṁ vinā
garuḍa-skandham āropya yatheccham anivāritaḥ
O significado deste verso é que o devoto não precisa praticar aṣṭāṅga-yoga a fim de transferir sua alma aos planetas espirituais. A responsabilidade é assumida pelo próprio Senhor Supremo. Ele afirma claramente aqui que Ele próprio Se torna o libertador. Uma criança é completamente cuidada por seus pais, e, dessa forma, sua posição é segura. De modo semelhante, o devoto não precisa esforçar-se para transferir-se mediante a prática de yoga a outros planetas. Pelo contrário, o Senhor Supremo, por Sua grande misericórdia, vem imediatamente, montado em Sua ave, Garuḍa, e libera de pronto o devoto desta existência material. Embora um homem que tenha caído no oceano possa esforçar-se muito e ser muito perito em natação, não pode salvar-se a si próprio. Mas, se alguém vier e tirá-lo da água, então será facilmente resgatado. De modo semelhante, o Senhor tira o devoto desta existência material. Basta praticar o fácil processo da consciência de Kṛṣṇa e ocupar-se plenamente no serviço devocional. Qualquer homem inteligente deve sempre preferir o processo do serviço devocional a todas as outras sendas. No Nārāyaṇīya, isto é confirmado da seguinte maneira:
yā vai sādhana-sampatti-puruṣārtha-catuṣṭaye
tayā vinā tad-āpnoti naro nārāyaṇāśrayaḥ
O significado deste verso é que não se deve ocupar-se nos diferentes processos de atividade fruitiva, nem cultivar conhecimento pelo processo especulativo mental. Aquele que é devotado à Personalidade Suprema pode obter todos os benefícios derivados de outros processos iógicos, da especulação, dos rituais, dos sacrifícios, das caridades, etc. Essa é a bênção específica do serviço devocional.
Simplesmente cantando o santo nome de Kṛṣṇa — Hare Kṛṣṇa, Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa Kṛṣṇa, Hare Hare/ Hare Rāma, Hare Rāma, Rāma Rāma, Hare Hare —, o devoto do Senhor pode aproximar-se do destino supremo fácil e felizmente, mas tal destino não pode ser alcançado por nenhum outro processo religioso.
A conclusão do Bhagavad-gītā é apresentada no Décimo Oitavo Capítulo:
sarva-dharmān parityajya mām ekaṁ śaraṇaṁ vraja
ahaṁ tvāṁ sarva-pāpebhyo mokṣayiṣyāmi mā śucaḥ.
Deve-se abandonar todos os outros processos de autorrealização e simplesmente executar o serviço devocional em consciência de Kṛṣṇa. Isso permitirá à pessoa alcançar a mais elevada perfeição da vida. Não há necessidade de a pessoa considerar as ações pecaminosas de sua vida passada, porque o Senhor Supremo Se incumbe plenamente dela. Por isso, não se deve tentar inutilmente libertar-se na percepção espiritual. Que cada um se refugie no Supremo, no onipotente Deus Kṛṣṇa. Essa é a mais elevada perfeição da vida.
Bg 12.8
मय्येव मन आधत्स्व मयि बुद्धिं निवेशय ।
निवसिष्यसि मय्येव अत ऊर्ध्वं न संशयः ॥८॥
mayy eva mana ādhatsva
mayi buddhiṁ niveśaya
nivasiṣyasi mayy eva
ata ūrdhvaṁ na saṁśayaḥ
mayi—em Mim; eva—certamente; manaḥ—mente; ādhatsva—fixa; mayi—em Mim; buddhim—inteligência; niveśaya—aplica; nivasiṣyasi—residirás; mayi—em Mim; eva—certamente; ataḥ—portanto; ūrdhvam—acima; na—nunca; saṁśayaḥ—dúvida.
Apenas fixa tua mente em Mim, a Suprema Personalidade de Deus, e ocupa toda a tua inteligência em Mim. Assim, viverás em Mim para sempre, sem dúvida alguma.
Aquele que está ocupado no serviço devocional ao Senhor Kṛṣṇa vive em uma relação direta com o Senhor Supremo, de modo que não há dúvida de que sua posição é transcendental desde o início. O devoto não vive no plano material — vive em Kṛṣṇa. O santo nome do Senhor e o Senhor não são diferentes; portanto, quando um devoto canta Hare Kṛṣṇa, Kṛṣṇa e Sua potência interna dançam na língua do devoto. Quando ele oferece alimento a Kṛṣṇa, Kṛṣṇa diretamente aceita esses comestíveis, e o devoto torna-se “krsnizado” comendo os restos. Aquele que não se ocupa em tal serviço não pode compreender como isso é assim, embora se trate de um processo recomendado no Gītā e em outras literaturas Védicas.
Bg 12.9
अथ चित्तं समाधातुं न शक्नोषि मयि स्थिरम् ।
अभ्यासयोगेन ततो मामिच्छाप्तुं धनञ्जय ॥९॥
atha cittaṁ samādhātuṁ
na śaknoṣi mayi sthiram
abhyāsa-yogena tato
mām icchāptuṁ dhanañjaya
atha—se, portanto; cittam—mente; samādhātam—fixar; na—não; śaknoṣi—és capaz; mayi—em Mim; sthiram—fixa; abhyāsa—prática; yogena—pelo serviço devocional; tataḥ—portanto; mām—a Mim; icchā—desejo; āptum—obter; dhanañjaya—ó Arjuna.
Meu querido Arjuna, ó conquistador de riquezas, se não és capaz de fixar tua mente em Mim sem desvio, então segue os princípios regulativos do bhakti-yoga. Dessa maneira, desenvolverás o desejo de alcançar-Me.
Neste verso, indicam-se dois processos diferentes de bhakti-yoga. O primeiro aplica-se àquele que de fato desenvolveu apego por Kṛṣṇa, a Suprema Personalidade de Deus, mediante o amor transcendental. E o outro destina-se a quem ainda não desenvolveu apego pela Pessoa Suprema mediante o amor transcendental. Para esta segunda classe, há diferentes regras e regulações prescritas, que se podem seguir para, em última análise, ser elevado ao estágio do apego por Kṛṣṇa.
O bhakti-yoga é a purificação dos sentidos. No presente momento, na existência material, os sentidos estão sempre impuros, ocupando-se na gratificação dos sentidos. Mas, pela prática do bhakti-yoga, esses sentidos podem purificar-se, e, no estado purificado, entram em contato direto com o Senhor Supremo. Nesta existência material, posso estar ocupado em algum serviço a algum patrão, mas não sirvo realmente meu patrão com amor. Apenas sirvo para receber algum dinheiro. E o patrão também não está em amor; ele recebe serviço de mim e me paga. De modo que não há possibilidade de amor. Mas, para a vida espiritual, é preciso elevar-se ao estágio puro do amor. Esse estágio de amor pode ser alcançado pela prática do serviço devocional, executado com os sentidos atuais.
Esse amor a Deus encontra-se agora em estado latente no coração de todos. E, ali, o amor a Deus manifesta-se de diferentes maneiras, mas está contaminado pela associação material. Ora, a associação material precisa ser purificada, e esse amor latente e natural por Kṛṣṇa precisa ser revivido. Esse é todo o processo.
Para praticar os princípios regulativos do bhakti-yoga, deve-se, sob a orientação de um mestre espiritual experiente, seguir certos princípios: deve-se levantar cedo pela manhã, banhar-se, entrar no templo e oferecer orações e cantar Hare Kṛṣṇa, depois colher flores para oferecer à Deidade, cozinhar alimentos para oferecer à Deidade, tomar prasādam, e assim por diante. Há várias regras e regulações que se devem seguir. E deve-se ouvir constantemente o Bhagavad-gītā e o Śrīmad-Bhāgavatam dos lábios de devotos puros. Esta prática pode ajudar qualquer um a elevar-se ao nível do amor a Deus, e, então, ele estará certo de seu progresso para o reino espiritual de Deus. Esta prática do bhakti-yoga, sob as regras e regulações, com a orientação de um mestre espiritual, certamente conduzirá a pessoa ao estágio do amor a Deus.