Capítulo 11
Bg 11.1
अर्जुन उवाच ।
मदनुग्रहाय परमं गुह्यमध्यात्मसंज्ञितम् ।
यत्त्वयोक्तं वचस्तेन मोहोऽयं विगतो मम ॥१॥
arjuna uvāca
mad-anugrahāya paramaṁ
guhyam adhyātma-saṁjñitam
yat tvayoktaṁ vacas tena
moho ‘yaṁ vigato mama
arjunaḥ uvāca—Arjuna disse; mat-anugrahāya—apenas para favorecer-me; paramam—supremo; guhyam—confidencial; adhyātma—espiritual; saṁjñitam—no que diz respeito a; yat—o que; tvayā—por Ti; uktam—dito; vacaḥ—palavras; tena—por isso; mohaḥ—ilusão; ayam—esta; vigataḥ—dissipa-se; mama—minha.
Arjuna disse: Ouvi Tuas instruções sobre os assuntos espirituais confidenciais que tão bondosamente me transmitiste, e minha ilusão agora se dissipou.
Este capítulo revela Kṛṣṇa como a causa de todas as causas. Ele é até mesmo a causa do Mahā-Viṣṇu, e é Dele que emanam os universos materiais. Kṛṣṇa não é uma encarnação; Ele é a fonte de todas as encarnações. Isso ficou plenamente explicado no capítulo anterior.
Ora, no que se refere a Arjuna, ele afirma que sua ilusão acabou. Isso significa que Arjuna já não pensa em Kṛṣṇa como um simples ser humano, como um amigo seu, e sim como a fonte de tudo. Arjuna está muito iluminado e alegra-se por ter um grande amigo como Kṛṣṇa, mas agora pondera que, embora ele possa aceitar Kṛṣṇa como a fonte de tudo, talvez outros não o aceitem. Assim, a fim de estabelecer a divindade de Kṛṣṇa para todos, neste capítulo ele pede a Kṛṣṇa que lhe mostre Sua forma universal. Na verdade, quando alguém vê a forma universal de Kṛṣṇa, fica aterrorizado, como Arjuna, mas Kṛṣṇa é tão bondoso que, depois de mostrá-la, retorna novamente à Sua forma original. Arjuna concorda diversas vezes com o que Kṛṣṇa diz. Kṛṣṇa fala-lhe apenas para seu benefício, e Arjuna reconhece que tudo isto lhe está sucedendo pela graça de Kṛṣṇa. Ele agora está convicto de que Kṛṣṇa é a causa de todas as causas e está presente no coração de todos como a Superalma.
Bg 11.10-11
अनेकवक्त्रनयनमनेकाद्भुतदर्शनम् ।
अनेकदिव्याभरणं दिव्यानेकोद्यतायुधम् ॥१०॥
दिव्यमाल्याम्बरधरं दिव्यगन्धानुलेपनम् ।
सर्वाश्चर्यमयं देवमनन्तं विश्वतोमुखम् ॥११॥
aneka-vaktra-nayanam
anekādbhuta-darśanam
aneka-divyābharaṇaṁ
divyānekodyatāyudham
divya-mālyāmbara-dharaṁ
divya-gandhānulepanam
sarvāścarya-mayaṁ devam
anantaṁ viśvato-mukham
aneka—várias; vaktra—bocas; nayanam—olhos; aneka—várias; adbhuta—maravilhosa; darśanam—visão; aneka—muitos; divya—divinos; ābharaṇam—ornamentos; divya—divinas; aneka—várias; udyata—erguidas; āyudham—armas; divya—divinas; mālya—guirlandas; ambara-dharam—vestidos com as roupagens; divya—divina; gandha—fragrância; anulepanam—ungido; sarva—toda; aścaryamayam—maravilhosa; devam—resplandecente; anantam—ilimitada; viśvataḥ-mukham—onipenetrante.
Naquela forma universal, Arjuna viu ilimitadas bocas e ilimitados olhos. Tudo era prodigioso. A forma estava decorada com divinos e deslumbrantes ornamentos e revestida de muitos trajes. Estava gloriosamente engrinaldada, e havia muitas fragrâncias ungidas em Seu corpo. Tudo era magnífico, em expansão constante, ilimitado. Foi isto que Arjuna viu.
Estes dois versos indicam que não há limite para as mãos, bocas, pernas, etc., do Senhor. Estas manifestações estão distribuídas por todo o universo e são ilimitadas. Pela graça do Senhor, Arjuna podia vê-las estando em um só lugar. Isso se deve à inconcebível potência de Kṛṣṇa.
Bg 11.12
दिवि सूर्यसहस्रस्य भवेद्युगपदुत्थिता ।
यदि भाः सदृशी सा स्याद्भासस्तस्य महात्मनः ॥१२॥
divi sūrya-sahasrasya
bhaved yugapad utthitā
yadi bhāḥ sadṛśī sā syād
bhāsas tasya mahātmanaḥ
divi—no céu; sūrya—sóis; sahasrasya—de muitos milhares; bhavet—houvesse; yugapat—simultaneamente; utthitā—presentes; yadi—se; bhāḥ—luz; sadṛśī—assim; sā—essa; syāt—poderia ser; bhāsaḥ—refulgência; tasya—há; mahātmanaḥ—do grande Senhor.
Se centenas de milhares de sóis se erguessem ao mesmo tempo no céu, sua luz talvez se assemelhasse à refulgência da Pessoa Suprema naquela forma universal.
O que Arjuna viu era indescritível, mas Sañjaya tenta dar a Dhṛtarāṣṭra uma imagem mental dessa grande revelação. Nem Sañjaya nem Dhṛtarāṣṭra estavam presentes, mas Sañjaya, pela graça de Vyāsa, podia ver tudo o que acontecia. Assim, ele agora compara a situação, na medida em que pode ser compreendida, a um fenômeno imaginável (isto é, milhares de sóis).
Bg 11.13
तत्रैकस्थं जगत्कृत्स्नं प्रविभक्तमनेकधा ।
अपश्यद्देवदेवस्य शरीरे पाण्डवस्तदा ॥१३॥
tatraika-sthaṁ jagat kṛtsnaṁ
pravibhaktam anekadhā
apaśyad deva-devasya
śarīre pāṇḍavas tadā
tatra—ali; ekastham—em um lugar; jagat—universo; kṛtsnam—completamente; pravibhaktam—dividido em; anekadhā—muitas espécies; apaśyat—pôde ver; deva-devasya—da Suprema Personalidade de Deus; śarīre—na forma universal; pāṇḍavaḥ—Arjuna; tadā—naquele momento.
Naquele momento, Arjuna pôde ver na forma universal do Senhor as ilimitadas expansões do universo situadas em um só lugar, embora divididas em muitos e muitos milhares.
A palavra tatra (ali) é muito significativa. Indica que tanto Arjuna como Kṛṣṇa estavam sentados na quadriga quando Arjuna viu a forma universal. Os demais no campo de batalha não podiam ver esta forma, pois Kṛṣṇa concedeu a visão somente a Arjuna. No corpo de Kṛṣṇa, Arjuna podia ver muitos milhares de universos. Como aprendemos das escrituras Védicas, há muitos universos e muitos planetas. Alguns deles são feitos de terra, alguns são feitos de ouro, alguns são feitos de joias, alguns são muito grandes, outros nem tanto, e assim por diante. Sentado em sua quadriga, Arjuna podia ver todos estes universos. Mas ninguém podia compreender o que se passava entre Arjuna e Kṛṣṇa.
Bg 11.14
ततः स विस्मयाविष्टो हृष्टरोमा धनञ्जयः ।
प्रणम्य शिरसा देवं कृताञ्जलिरभाषत ॥१४॥
tataḥ sa vismayāviṣṭo
hṛṣṭa-romā dhanañjayaḥ
praṇamya śirasā devaṁ
kṛtāñjalir abhāṣata
tataḥ—em seguida; saḥ—ele; vismayāviṣṭaḥ—dominado pelo assombro; hṛṣṭa-romā—com os pelos do corpo arrepiados devido ao seu grande êxtase; dhanañjayaḥ—Arjuna; praṇamya—oferecendo reverências; śirasā—com a cabeça; devam—à Suprema Personalidade de Deus; kṛtāñjaliḥ—de mãos postas; abhāṣata—começou a falar.
Então, perplexo e atônito, com os pelos arrepiados, Arjuna pôs-se a orar de mãos postas, oferecendo reverências ao Senhor Supremo.
Uma vez revelada a visão divina, a relação entre Kṛṣṇa e Arjuna muda imediatamente. Antes, Kṛṣṇa e Arjuna mantinham uma relação baseada na amizade, mas aqui, após a revelação, Arjuna oferece reverências com grande respeito e, de mãos postas, ora a Kṛṣṇa. Ele louva a forma universal. Assim, a relação de Arjuna torna-se mais de assombro do que de amizade. Os grandes devotos veem Kṛṣṇa como o reservatório de todas as relações. Nas escrituras se mencionam doze tipos básicos de relações, e todas elas estão presentes em Kṛṣṇa. Diz-se que Ele é o oceano de todas as relações trocadas entre dois seres vivos, entre os deuses, ou entre o Senhor Supremo e Seus devotos.
Diz-se que Arjuna foi inspirado pela relação de assombro e, nesse assombro, embora por natureza fosse muito sóbrio, calmo e tranquilo, tornou-se extático, seus pelos arrepiaram-se, e ele começou a oferecer reverências ao Senhor Supremo de mãos postas. Não estava, certamente, com medo. Foi afetado pelas maravilhas do Senhor Supremo. O contexto imediato é o assombro; sua amizade amorosa natural foi sobrepujada pelo assombro, e por isso ele reagiu dessa forma.
Bg 11.15
अर्जुन उवाच ।
पश्यामि देवांस्तव देव देहे
सर्वांस्तथा भूतविशेषसङ्घान् ।
ब्रह्माणमीशं कमलासनस्थ-
मृषींश्च सर्वानुरगांश्च दिव्यान् ॥१५॥
arjuna uvāca
paśyāmi devāṁs tava deva dehe
sarvāṁs tathā bhūta-viśeṣa-saṅghān
brahmāṇam īśaṁ kamalāsana-stham
ṛṣīṁś ca sarvān uragāṁś ca divyān
arjunaḥ uvāca—Arjuna disse; paśyāmi—vejo; devān—todos os semideuses; tava—Teu; deva—ó Senhor; dehe—no corpo; sarvān—todos; tathā—também; bhūta—entidades vivas; viśeṣa-saṅghān—especificamente reunidas; brahmāṇam—o Senhor Brahmā; īśam—o Senhor Śiva; kamala-āsana-stham—sentado sobre a flor de lótus; ṛṣīn—grandes sábios; ca—também; sarvān—todos; uragān—serpentes; ca—também; divyān—divinas.
Arjuna disse: Meu querido Senhor Kṛṣṇa, vejo reunidos em Teu corpo todos os semideuses e várias outras entidades vivas. Vejo Brahmā sentado sobre a flor de lótus, bem como o Senhor Śiva e muitos sábios e serpentes divinas.
Arjuna vê tudo no universo; portanto, vê Brahmā, que é a primeira criatura do universo, e a serpente celestial sobre a qual Garbhodakaśāyī Viṣṇu repousa nas regiões inferiores do universo. Esse leito de serpente chama-se Vāsuki. Há também outras serpentes conhecidas como Vāsuki. Arjuna pode ver desde Garbhodakaśāyī Viṣṇu até a parte mais elevada do universo, no planeta da flor de lótus, onde reside Brahmā, a primeira criatura do universo. Isto significa que, do princípio ao fim, tudo podia ser visto por Arjuna estando em um só lugar em sua quadriga. Isto foi possível pela graça do Senhor Supremo, Kṛṣṇa.
Bg 11.16
अनेकबाहूदरवक्त्रनेत्रं
पश्यामि त्वां सर्वतोऽनन्तरूपम् ।
नान्तं न मध्यं न पुनस्तवादिं
पश्यामि विश्वेश्वर विश्वरूप ॥१६॥
aneka-bāhūdara-vaktra-netraṁ
paśyāmi tvāṁ sarvato ‘nanta-rūpam
nāntaṁ na madhyaṁ na punas tavādiṁ
paśyāmi viśveśvara viśva-rūpa
aneka—muitos; bāhū—braços; udara—ventres; vaktra—bocas; netram—olhos; paśyāmi—vejo; tvām—a Ti; sarvataḥ—de todos os lados; ananta-rūpam—forma ilimitada; na antam—não há fim; na madhyam—não há meio; na punaḥ—nem tampouco; tava—Teu; ādim—princípio; paśyāmi—vejo; viśveśvara—ó Senhor do universo; viṣva-rūpa—na forma do universo.
Ó Senhor do universo, vejo em Teu corpo universal muitas e muitas formas — ventres, bocas, olhos — expandindo-se sem limite. Não há fim, não há princípio, e não há meio em tudo isto.
Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus e é ilimitado; assim, através Dele tudo podia ser visto.
Bg 11.17
किरीटिनं गदिनं चक्रिणं च
तेजोराशिं सर्वतो दीप्तिमन्तम् ।
पश्यामि त्वां दुर्निरीक्ष्यं समन्ताद्
दीप्तानलार्कद्युतिमप्रमेयम् ॥१७॥
kirīṭinaṁ gadinaṁ cakriṇaṁ ca
tejo-rāśiṁ sarvato dīptimantam
paśyāmi tvāṁ durnirīkṣyaṁ samantād
dīptānalārka-dyutim aprameyam
kirīṭinam—com elmos; gadinam—com maças; cakriṇam—com discos; ca—e; tejorāśim—refulgência; sarvataḥ—de todos os lados; dīptimantam—resplandecente; pasyāmi—vejo; tvām—a Ti; durnirīkṣyam—difícil de contemplar; samantāt—por toda parte; dīpta-anala—fogo flamejante; arka—sol; dyutim—luz solar; aprameyam—imensurável.
Tua forma, adornada com vários elmos, maças e discos, é difícil de contemplar por causa de sua deslumbrante refulgência, que é ígnea e imensurável como o sol.
Bg 11.18
त्वमक्षरं परमं वेदितव्यं
त्वमस्य विश्वस्य परं निधानम् ।
त्वमव्ययः शाश्वतधर्मगोप्ता
सनातनस्त्वं पुरुषो मतो मे ॥१८॥
tvam akṣaraṁ paramaṁ veditavyaṁ
tvam asya viśvasya paraṁ nidhānam
tvam avyayaḥ śāśvata-dharma-goptā
sanātanas tvaṁ puruṣo mato me
tvam—Tu; akṣaram—inesgotável; paramam—supremo; veditavyam—a ser compreendido; tvam—Tu; asya—deste; viśvasya—do universo; param—supremo; nidhānam—fundamento; tvam—Tu és; avyayaḥ—inesgotável; śāśvata-dharma-goptā—mantenedor da religião eterna; sanātanaḥ—eterna; tvam—Tu; puruṣaḥ—Personalidade Suprema; mataḥ me—é minha opinião.
Tu és o supremo objetivo primordial; Tu és o melhor em todos os universos; Tu és inesgotável, e Tu és o mais antigo; Tu és o mantenedor da religião, a eterna Personalidade de Deus.
Bg 11.19
अनादिमध्यान्तमनन्तवीर्य-
मनन्तबाहुं शशिसूर्यनेत्रम् ।
पश्यामि त्वां दीप्तहुताशवक्त्रं
स्वतेजसा विश्वमिदं तपन्तम् ॥१९॥
anādi-madhyāntam ananta-vīryam
ananta-bāhuṁ śaśi-sūrya-netram
paśyāmi tvāṁ dīpta-hutāśa-vaktraṁ
sva-tejasā viśvam idaṁ tapantam
anādi—sem princípio; madhya—sem meio; antam—sem fim; ananta—ilimitada; vīryam—glória; ananta—ilimitados; bāhum—braços; śaśi—lua; sūrya—sol; netram—olhos; paśyāmi—vejo; tvām—a Ti; dīpta—flamejante; hutāśa-vaktram—fogo saindo de Tua boca; sva-tejasā—com Teu; viśvam—este universo; idam—este; tapantam—aquecendo.
Tu és a origem sem princípio, meio nem fim. Tens inúmeros braços, e o sol e a lua estão entre Teus grandes e ilimitados olhos. Com Tua própria refulgência, aqueces este universo inteiro.
Não há limite para a extensão das seis opulências da Suprema Personalidade de Deus. Aqui e em muitas outras passagens há repetição, mas, segundo as escrituras, a repetição das glórias de Kṛṣṇa não constitui defeito literário. Diz-se que, em momento de perplexidade, assombro ou grande êxtase, as afirmações repetem-se incessantemente. Isso não é uma falha.
Bg 11.2
भवाप्ययौ हि भूतानां श्रुतौ विस्तरशो मया ।
त्वत्तः कमलपत्राक्ष माहात्म्यमपि चाव्ययम् ॥२॥
bhavāpyayau hi bhūtānāṁ
śrutau vistaraśo mayā
tvattaḥ kamala-patrākṣa
māhātmyam api cāvyayam
bhava—aparecimento; apyayau—desaparecimento; hi—certamente; bhūtānām—de todas as entidades vivas; śrutau—ouvi; vistaraśaḥ—detalhe; mayā—por mim; tvattaḥ—de Ti; kamala-patrākṣa—ó Tu de olhos de lótus; māhātmyam—glórias; api—também; ca—e; avyayam—inesgotáveis.
Ó Tu de olhos de lótus, ouvi de Ti em detalhe sobre o aparecimento e o desaparecimento de cada entidade viva, conforme manifestado por Tuas inesgotáveis glórias.
Arjuna dirige-se ao Senhor Kṛṣṇa como “de olhos de lótus” (os olhos de Kṛṣṇa parecem-se com as pétalas de uma flor de lótus) movido pela alegria, pois Kṛṣṇa lhe assegurou, no último verso do capítulo anterior, que Ele sustenta o universo inteiro com apenas um fragmento de Si mesmo. Ele é a fonte de tudo nesta manifestação material, e Arjuna ouviu sobre isso do Senhor em pormenor. Arjuna sabe ainda que, apesar de ser a fonte de todos os aparecimentos e desaparecimentos, Ele permanece à parte deles. Sua personalidade não se perde, embora Ele seja onipenetrante. Tal é a opulência inconcebível de Kṛṣṇa que Arjuna admite ter compreendido por completo.
Bg 11.20
द्यावापृथिव्योरिदमन्तरं हि
व्याप्तं त्वयैकेन दिशश्च सर्वाः ।
दृष्ट्वाद्भुतं रूपमुग्रं तवेदं
लोकत्रयं प्रव्यथितं महात्मन् ॥२०॥
dyāv ā-pṛthivyor idam antaraṁ hi
vyāptaṁ tvayaikena diśaś ca sarvāḥ
dṛṣṭvādbhutaṁ rūpam ugraṁ tavedaṁ
loka-trayaṁ pravyathitaṁ mahātman
dyau—no espaço sideral; āpṛthivyoḥ—da terra; idam—este; antaram—entre; hi—certamente; vyāptam—penetrado; tvayā—por Ti; ekena—por um só; diśaḥ—direções; ca—e; sarvāḥ—todas; dṛṣṭvā—ao ver; adbhutam—maravilhosa; rūpam—forma; ugram—terrível; tava—Tua; idam—esta; loka—sistema planetário; trayam—três; pravyathitam—perturbado; mahātman—ó grandioso.
Embora sejas um só, Tu Te estendes pelo céu, pelos planetas e por todo o espaço entre eles. Ó grandioso, ao contemplar esta terrível forma, vejo que todos os sistemas planetários se perturbam.
Dyāv āpṛthivyoḥ (o espaço entre o céu e a terra) e lokatrayam (os três mundos) são palavras significativas neste verso, pois fica patente que não somente Arjuna viu esta forma universal do Senhor, mas outros, em outros sistemas planetários, também a viram. A visão não foi um sonho. Todos os que estavam espiritualmente despertos com a visão divina viram-na.
Bg 11.21
अमी हि त्वां सुरसङ्घा विशन्ति
केचिद्भीताः प्राञ्जलयो गृणन्ति ।
स्वस्तीत्युक्त्वा महर्षिसिद्धसङ्घाः
स्तुवन्ति त्वां स्तुतिभिः पुष्कलाभिः ॥२१॥
amī hi tvāṁ sura-saṅghā viśanti
kecid bhītāḥ prāñjalayo gṛṇanti
svastīty uktvā maharṣi-siddha-saṅghāḥ
stuvanti tvāṁ stutibhiḥ puṣkalābhiḥ
amī—todos esses; hi—certamente; tvām—a Ti; sura-saṅghāḥ—grupos de semideuses; viśanti—entrando; kecit—alguns deles; bhītāḥ—de medo; prāñjalayaḥ—de mãos postas; gṛṇanti—oferecendo orações a; svasti—toda a paz; iti—assim; uktvā—falando dessa forma; maharṣi—grandes sábios; siddha-saṅghāḥ—sábios perfeitos; stuvanti—cantando hinos; tvām—a Ti; stutibhiḥ—com orações; puṣkalābhiḥ—hinos Védicos.
Todos os semideuses estão rendendo-se e adentrando em Ti. Estão assaz amedrontados, e, de mãos postas, cantam os hinos Védicos.
Os semideuses em todos os sistemas planetários temiam a manifestação aterradora da forma universal e sua resplandecente refulgência, e por isso oraram por proteção.
Bg 11.22
रुद्रादित्या वसवो ये च साध्या
विश्वेऽश्विनौ मरुतश्चोष्मपाश्च ।
गन्धर्वयक्षासुरसिद्धसङ्घा
वीक्षन्ते त्वां विस्मिताश्चैव सर्वे ॥२२॥
rudrādityā vasavo ye ca sādhyā
viśve ‘śvinau marutaś coṣmapāś ca
gandharva-yakṣāsura-siddha-saṅghā
vīkṣante tvāṁ vismitāś caiva sarve
rudra—manifestações do Senhor Śiva; ādityāḥ—os Ādityas; vasavaḥ—os Vasus; ye—todos esses; ca—e; sādhyāḥ—os Sādhyas; viśve—os Viśvadevas; aśvinau—os Aśvinīkumāras; marutaḥ—os Maruts; ca—e; uṣmapāḥ—os antepassados; ca—e; gandharva—os Gandharvas; yakṣa—os Yakṣas; asura-siddha—os demônios e os semideuses perfeitos; saṅghāḥ—assembleias; vīkṣante—estão vendo; tvām—a Ti; vismitāḥ—em assombro; ca—também; eva—certamente; sarve—todos.
As diferentes manifestações do Senhor Śiva, os Ādityas, os Vasus, os Sādhyas, os Viśvadevas, os dois Aśvins, os Maruts, os antepassados, os Gandharvas, os Yakṣas, os Asuras e todos os semideuses perfeitos contemplam-Te com assombro.
Bg 11.23
रूपं महत्ते बहुवक्त्रनेत्रं
महाबाहो बहुबाहूरुपादम् ।
बहूदरं बहुदंष्ट्राकरालं
दृष्ट्वा लोकाः प्रव्यथितास्तथाहम् ॥२३॥
rūpaṁ mahat te bahu-vaktra-netraṁ
mahā-bāho bahu-bāhūru-pādam
bahūdaraṁ bahu-daṁṣṭrā-karālaṁ
dṛṣṭvā lokāḥ pravyathitās tathāham
rūpam—forma; mahat—imensa; te—de Ti; bahu—muitas; vaktra—faces; netram—olhos; mahā-bāho—ó Tu de braços poderosos; bahu—muitos; bāhu—braços; ūru—coxas; pādam—pernas; bahu-udaram—muitos ventres; babu-daṁṣṭrā—muitos dentes; karālam—horríveis; dṛṣṭvā—vendo; lokāḥ—todos os planetas; pravyathitāḥ—perturbados; tathā—de modo semelhante; aham—eu.
Ó Tu de braços poderosos, todos os planetas, com seus semideuses, estão perturbados ao verem Tuas muitas faces, olhos, braços, ventres e pernas, e Teus terríveis dentes, e, assim como eles estão perturbados, eu também estou.
Bg 11.24
नभःस्पृशं दीप्तमनेकवर्णं
व्यात्ताननं दीप्तविशालनेत्रम् ।
दृष्ट्वा हि त्वां प्रव्यथितान्तरात्मा
धृतिं न विन्दामि शमं च विष्णो ॥२४॥
nabhaḥ-spṛśaṁ dīptam aneka-varṇaṁ
vyāttānanaṁ dīpta-viśāla-netram
dṛṣṭvā hi tvāṁ pravyathitāntar-ātmā
dhṛtiṁ na vindāmi śamaṁ ca viṣṇo
nabhaḥ spṛśam—tocando o céu; dīptam—resplandecente; aneka—muitas; varṇam—cores; vyāttā—aberta; ānanam—boca; dīpta—resplandecentes; viśāla—imensos; netram—olhos; dṛṣṭvā—ao ver; hi—certamente; tvām—a Ti; pravyathitā—perturbada; antaḥ—dentro; ātmā—alma; dhṛtim—firmeza; na—não; vindāmi—tenho; śamam—tranquilidade mental; ca—também; viṣṇo—ó Senhor Viṣṇu.
Ó Viṣṇu onipenetrante, já não consigo manter meu equilíbrio. Vendo Tuas cores radiantes a preencher os céus e contemplando Teus olhos e bocas, sinto medo.
Bg 11.25
दंष्ट्राकरालानि च ते मुखानि
दृष्ट्वैव कालानलसन्निभानि ।
दिशो न जाने न लभे च शर्म
प्रसीद देवेश जगन्निवास ॥२५॥
daṁṣṭrā-karālāni ca te mukhāni
dṛṣṭvaiva kālānala-sannibhāni
diśo na jāne na labhe ca śarma
prasīda deveśa jagan-nivāsa
daṁṣṭrā—dentes; karālāni—assim; ca—também; te—Tuas; mukhāni—faces; dṛṣṭvā—vendo; eva—assim; kālānala—o fogo da morte; sannibhāni—como se flamejantes; diśaḥ—direções; na jāne—não sei; na labhe—nem obtenho; ca śarma—e graça; prasīda—digna-Te; deveśa—ó Senhor de todos os senhores; jagat-nivāsa—refúgio dos mundos.
Ó Senhor dos senhores, ó refúgio dos mundos, sê benigno comigo. Não consigo manter meu equilíbrio ao ver, dessa forma, Tuas faces flamejantes como a morte e Teus dentes terríveis. Em todas as direções estou perplexo.
Bg 11.26-27
अमी च त्वां धृतराष्ट्रस्य पुत्राः
सर्वे सहैवावनिपालसङ्घैः ।
भीष्मो द्रोणः सूतपुत्रस्तथासौ
सहास्मदीयैरपि योधमुख्यैः ॥२६॥
वक्त्राणि ते त्वरमाणा विशन्ति
दंष्ट्राकरालानि भयानकानि ।
केचिद्विलग्ना दशनान्तरेषु
सन्दृश्यन्ते चूर्णितैरुत्तमाङ्गैः ॥२७॥
amī ca tvāṁ dhṛtarāṣṭrasya putrāḥ
sarve sahaivāvani-pāla-saṅghaiḥ
bhīṣmo droṇaḥ sūta-putras tathāsau
sahāsmadīyair api yodha-mukhyaiḥ
vaktrāṇi te tvaramāṇā viśanti
daṁṣṭrā-karālāni bhayānakāni
kecid vilagnā daśanāntareṣu
sandṛśyante cūrṇitair uttamāṅgaiḥ
amī—todos esses; ca—também; tvām—a Ti; dhṛtarāṣṭasya—de Dhṛtarāṣṭra; putrāḥ—filhos; sarva—todos; saha eva—juntamente com; avanipāla—reis guerreiros; saṅghaiḥ—com os grupos; bhīṣmaḥ—Bhīṣmadeva; droṇaḥ—Droṇācārya; sūta-putraḥ—Karṇa; tathā—também; asau—esse; saha—com; asmadīyaiḥ—nossos; api—também; yodha-mukhyaiḥ—chefe entre os guerreiros; vaktrāṇi—bocas; te—Tuas; tvaramāṇāḥ—temerosos; viśanti—entrando; daṁṣṭrā—dentes; karālāni—terríveis; bhayānakāni—assustadores; kecit—alguns deles; vilagnāḥ—sendo atacados; daśanāntareṣu—entre os dentes; sandṛśyante—sendo vistos; cūrṇitaiḥ—esmagados; uttama-aṅgaiḥ—pela cabeça.
Todos os filhos de Dhṛtarāṣṭra, juntamente com seus reis aliados, e Bhīṣma, Droṇa e Karṇa, e também todos os nossos soldados, precipitam-se em Tuas bocas, com suas cabeças esmagadas pelos Teus terríveis dentes. Vejo que alguns também estão sendo triturados entre Teus dentes.
Em um verso anterior, o Senhor prometeu mostrar a Arjuna coisas que ele teria muito interesse em ver. Ora, Arjuna vê que os líderes do partido adversário (Bhīṣma, Droṇa, Karṇa e todos os filhos de Dhṛtarāṣṭra), seus soldados e os próprios soldados de Arjuna estão todos sendo aniquilados. Isto indica que Arjuna sairá vitorioso da batalha, apesar das pesadas perdas em ambos os lados. Menciona-se também aqui que Bhīṣma, supostamente invencível, igualmente será destroçado. O mesmo acontecerá a Karṇa. Não somente os grandes guerreiros do outro partido, como Bhīṣma, serão destroçados, mas também alguns dos grandes guerreiros do lado de Arjuna.
Bg 11.28
यथा नदीनां बहवोऽम्बुवेगाः
समुद्रमेवाभिमुखा द्रवन्ति ।
तथा तवामी नरलोकवीरा
विशन्ति वक्त्राण्यभिविज्वलन्ति ॥२८॥
yathā nadīnāṁ bahavo ‘mbu-vegāḥ
samudram evābhimukhā dravanti
tathā tavāmī nara-loka-vīrā
viśanti vaktrāṇy abhivijvalanti
yathā—assim como; nadīnām—dos rios; bahavaḥ—muitas; ambu-vegāḥ—ondas das águas; samudram—oceano; eva—certamente; abhimukhāḥ—em direção a; dravanti—correm; tathā—de modo semelhante; tava—Teus; amī—todos esses; nara-lokavīrāḥ—os reis da sociedade humana; viśanti—entrando; vaktrāṇi—nas bocas; abhivijvalanti—flamejantes.
Assim como os rios desembocam no mar, todos esses grandes guerreiros adentram Tuas flamejantes bocas e perecem.
Bg 11.29
यथा प्रदीप्तं ज्वलनं पतङ्गा
विशन्ति नाशाय समृद्धवेगाः ।
तथैव नाशाय विशन्ति लोकास्-
तवापि वक्त्राणि समृद्धवेगाः ॥२९॥
yathā pradīptaṁ jvalanaṁ pataṅgā
viśanti nāśāya samṛddha-vegāḥ
tathaiva nāśāya viśanti lokās
tavāpi vaktrāṇi samṛddha-vegāḥ
yathā—assim como; pradīptam—flamejante; jvalanam—fogo; pataṅgāḥ—mariposas; viśanti—adentram; nāśāya—destruição; samṛddha—total; vegāḥ—velocidade; tathā eva—de modo semelhante; nāśāya—para destruição; viśanti—adentrando; lokāḥ—todas as pessoas; tava—em Ti; api—também; vaktrāṇi—nas bocas; samṛddha-vegāḥ—em plena velocidade.
Vejo todas as pessoas precipitarem-se a toda velocidade em Tuas bocas, como mariposas que se lançam em um fogo flamejante.
Bg 11.3
एवमेतद्यथात्थ त्वमात्मानं परमेश्वर ।
द्रष्टुमिच्छामि ते रूपमैश्वरं पुरुषोत्तम ॥३॥
evam etad yathāttha tvam
ātmānaṁ parameśvara
draṣṭum icchāmi te rūpam
aiśvaraṁ puruṣottama
evam—assim; etat—isto; yathāttha—tal como é; tvam—Tu; ātmānam—a alma; parameśvara—o Senhor Supremo; draṣṭum—ver; icchāmi—desejo; te—Tua; rūpam—forma; aiśvaram—divina; puruṣottama—ó melhor das personalidades.
Ó maior de todas as personalidades, ó forma suprema, embora veja aqui diante de mim Tua posição real, desejo, contudo, ver como entraste nesta manifestação cósmica. Quero ver essa Tua forma.
O Senhor disse que, por ter entrado no universo material por meio de Sua representação pessoal, a manifestação cósmica tornou-se possível e segue em curso. Ora, no que diz respeito a Arjuna, ele se sente inspirado pelas afirmações de Kṛṣṇa, mas, a fim de convencer outros no futuro que possam pensar que Kṛṣṇa é uma pessoa comum, deseja vê-lO efetivamente em Sua forma universal, para constatar como Ele atua dentro do universo, embora esteja apartado dele. O fato de Arjuna pedir permissão ao Senhor também é significativo. Como o Senhor é a Suprema Personalidade de Deus, Ele está presente dentro do próprio Arjuna; portanto, conhece o desejo de Arjuna e pode compreender que ele não tem nenhum desejo especial de vê-lO em Sua forma universal, pois está plenamente satisfeito em vê-lO em Sua forma pessoal de Kṛṣṇa. Mas Ele pode compreender também que Arjuna deseja ver a forma universal a fim de convencer outros. Arjuna não tinha nenhum desejo pessoal de confirmação. Kṛṣṇa também compreende que Arjuna deseja ver a forma universal para estabelecer um critério, pois no futuro haveria muitíssimos impostores que se apresentariam como encarnações de Deus. As pessoas, por isso, devem estar atentas; aquele que afirma ser Kṛṣṇa deve estar preparado para mostrar sua forma universal, a fim de confirmar tal alegação ao povo.
Bg 11.30
लेलिह्यसे ग्रसमानः समन्ताल्-
लोकान्समग्रान्वदनैर्ज्वलद्भिः ।
तेजोभिरापूर्य जगत्समग्रं
भासस्तवोग्राः प्रतपन्ति विष्णो ॥३०॥
lelihyase grasamānaḥ samantāl
lokān samagrān vadanair jvaladbhiḥ
tejobhir āpūrya jagat samagraṁ
bhāsas tavogrāḥ pratapanti viṣṇo
lelihyase—lambendo; grasamānaḥ—devorando; samantāt—de todas as direções; lokān—pessoas; samagrān—completamente; vadanaiḥ—pela boca; jvaladbhiḥ—com flamejantes; tejobhiḥ—com refulgência; āpūrya—cobrindo; jagat—o universo; samagram—todo; bhāsaḥ—iluminando; tava—Teus; ugrāḥ—terríveis; pratapanti—abrasando; viṣṇo—ó Senhor onipenetrante.
Ó Viṣṇu, vejo-Te devorando todas as pessoas em Tuas flamejantes bocas e cobrindo o universo com Teus imensuráveis raios. Abrasando os mundos, Tu Te manifestas.
Bg 11.31
आख्याहि मे को भवानुग्ररूपो
नमोऽस्तु ते देववर प्रसीद ।
विज्ञातुमिच्छामि भवन्तमाद्यं
न हि प्रजानामि तव प्रवृत्तिम् ॥३१॥
ākhyāhi me ko bhavān ugra-rūpo
namo ‘stu te deva-vara prasīda
vijñātum icchāmi bhavantam ādyaṁ
na hi prajānāmi tava pravṛttim
ākhyāhi—digna-Te de explicar; me—a mim; kaḥ—quem; bhavān—Tu; ugra-rūpaḥ—forma feroz; namaḥ astu—reverências; te—a Ti; deva-vara—o grande entre os semideuses; prasīda—sê benigno; vijñātum—apenas para saber; icchāmi—desejo; bhavantam—a Ti; ādyam—o original; na—nunca; hi—certamente; prajānāmi—conheço; tava—Tua; pravṛttim—missão.
Ó Senhor dos senhores, com forma tão feroz, dize-me, por favor, quem és Tu. Ofereço-Te minhas reverências; sê benigno comigo. Não sei qual é Tua missão, e desejo ouvi-la.
Bg 11.32
श्रीभगवानुवाच ।
कालोऽस्मि लोकक्षयकृत्प्रवृद्धो
लोकान्समाहर्तुमिह प्रवृत्तः ।
ऋतेऽपि त्वां न भविष्यन्ति सर्वे
येऽवस्थिताः प्रत्यनीकेषु योधाः ॥३२॥
śrī-bhagavān uvāca
kālo ‘smi loka-kṣaya-kṛt pravṛddho
lokān samāhartum iha pravṛttaḥ
ṛte ‘pi tvāṁ na bhaviṣyanti sarve
ye ‘vasthitāḥ pratyanīkeṣu yodhāḥ
śrī bhagavān uvāca—a Personalidade de Deus disse; kālaḥ—tempo; asmi—sou; loka—os mundos; kṣaya-kṛt—destruidor; pravṛddhaḥ—a ocupar-me; lokān—todas as pessoas; samāhartum—destruir; iha—neste mundo; pravṛttaḥ—a ocupar-me; ṛte api—sem sequer; tvām—tu; na—nunca; bhaviṣyanti—serão; sarve—todos; ye—que; avasthitāḥ—situados; pratyanīkeṣu—no lado oposto; yodhāḥ—os soldados.
O Senhor Abençoado disse: Sou o tempo, o destruidor dos mundos, e vim para ocupar todas as pessoas. Com exceção de vós [os Pāṇḍavas], todos os soldados aqui presentes em ambos os lados serão mortos.
Embora Arjuna soubesse que Kṛṣṇa era seu amigo e a Suprema Personalidade de Deus, ainda assim ficou perplexo com as várias formas exibidas por Kṛṣṇa. Por isso, indagou mais sobre a real missão dessa força devastadora. Está escrito nos Vedas que a Verdade Suprema destrói tudo, até mesmo Brahmā. Yasya brahme ca kṣatram ca ubhe bhavata odanaḥ/mṛtyur yasyopasecanaṁ ka itthā veda yatra saḥ. Por fim, todos os brāhmaṇas, kṣatriyas e todos os demais são devorados pelo Supremo. Esta forma do Senhor Supremo é a de um gigante que tudo devora, e aqui Kṛṣṇa Se apresenta sob essa forma do tempo que tudo devora. Com exceção de uns poucos Pāṇḍavas, todos os que estavam presentes naquele campo de batalha seriam por Ele devorados.
Arjuna não era favorável à luta, e julgava melhor não lutar; assim, não haveria frustração. Em resposta, o Senhor diz que, mesmo que ele não lutasse, todos seriam destruídos, pois esse é Seu plano. Se ele deixasse de lutar, eles morreriam de outra maneira. Não se pode deter a morte, ainda que ele não lutasse. De fato, eles já estavam mortos. O tempo é destruição, e todas as manifestações devem ser aniquiladas por desejo do Senhor Supremo. Tal é a lei da natureza.
Bg 11.33
तस्मात्त्वमुत्तिष्ठ यशो लभस्व
जित्वा शत्रून् भुङ्क्ष्व राज्यं समृद्धम् ।
मयैवैते निहताः पूर्वमेव
निमित्तमात्रं भव सव्यसाचिन् ॥३३॥
tasmāt tvam uttiṣṭha yaśo labhasva
jitvā śatrūn bhuṅkṣva rājyaṁ samṛddham
mayaivaite nihatāḥ pūrvam eva
nimitta-mātraṁ bhava savya-sācin
tasmāt—portanto; tvām—tu; uttiṣṭha—levanta-te; yaśaḥ—fama; labhasva—conquista; jitvā—conquistando; śatrūn—inimigos; bhuṅkṣva—desfruta; rājyam—reino; samṛddham—florescente; mayā—por Mim; eva—certamente; ete—todos estes; nihatāḥ—já mortos; pūrvam eva—por elementos anteriores; nimitta-mātram—apenas torna-te o instrumento; bhava—torna-te; savyasācin—ó Savyasācin.
Portanto, levanta-te e prepara-te para lutar. Após conquistares teus inimigos, desfrutarás de um próspero reino. Eles já estão mortos por arranjo Meu, e tu, ó Savyasācin, podes ser apenas um instrumento na luta.
Savyasācin refere-se àquele que pode disparar flechas com grande perícia no campo de batalha; assim, dirige-se a Arjuna como guerreiro perito, capaz de disparar flechas para matar seus inimigos. “Torna-te apenas um instrumento”: nimitta-mātram. Esta palavra também é assaz significativa. O mundo inteiro se move conforme o plano da Suprema Personalidade de Deus. As pessoas tolas, que não dispõem de conhecimento suficiente, pensam que a natureza se move sem plano e que todas as manifestações não passam de formações acidentais. Há muitos supostos cientistas que sugerem que talvez tenha sido assim, ou talvez assado, mas não há nada de “talvez”. Há um plano específico que se executa neste mundo material. Qual é este plano? Esta manifestação cósmica é uma oportunidade para as almas condicionadas voltarem ao Supremo, voltarem ao lar. Enquanto tiverem a mentalidade dominadora que as faz tentar enfeitiçar a natureza material, permanecem condicionadas. Mas quem quer que possa compreender o plano do Senhor Supremo e cultivar a consciência de Kṛṣṇa é o mais inteligente. A criação e a destruição da manifestação cósmica estão sob a orientação superior de Deus. Assim, a Batalha de Kurukṣetra travou-se conforme o plano de Deus. Arjuna recusava-se a lutar, mas foi-lhe dito que ele deveria lutar e, ao mesmo tempo, desejar o Senhor Supremo. Então seria feliz. Aquele que está em plena consciência de Kṛṣṇa e cuja vida se dedica a Seu serviço transcendental é perfeito.
Bg 11.34
द्रोणं च भीष्मं च जयद्रथं च
कर्णं तथान्यानपि योधवीरान् ।
मया हतांस्त्वं जहि मा व्यथिष्ठा
युध्यस्व जेतासि रणे सपत्नान् ॥३४॥
droṇaṁ ca bhīṣmaṁ ca jayadrathaṁ ca
karṇaṁ tathānyān api yodha-vīrān
mayā hatāṁs tvaṁ jahi mā vyathiṣṭhā
yudhyasva jetāsi raṇe sapatnān
droṇam ca—também Droṇa; bhīṣmam ca—também Bhīṣma; jayadratham ca—também Jayadratha; karṇam—também Karṇa; tathā—também; anyān—outros; api—certamente; yodha-vīrān—grandes guerreiros; mayā—por Mim; hatān—já mortos; tvam—tu; jahi—torna-te vitorioso; mā—nunca; vyathiṣṭhāḥ—te perturbes; yudhyasva—simplesmente luta; jetāsi—simplesmente conquista; raṇe—na luta; sapatnān—inimigos.
O Senhor Abençoado disse: Todos os grandes guerreiros — Droṇa, Bhīṣma, Jayadratha, Karṇa — já estão destruídos. Simplesmente luta, e vencerás teus inimigos.
Cada plano é elaborado pela Suprema Personalidade de Deus, mas Ele é tão bondoso e misericordioso para com Seus devotos que deseja dar o crédito a Seus devotos que executam Seu plano segundo Seu desejo. A vida, por isso, deve transcorrer de tal modo que cada um aja em consciência de Kṛṣṇa e compreenda a Suprema Personalidade de Deus por intermédio de um mestre espiritual. Os planos da Suprema Personalidade de Deus são compreendidos por Sua misericórdia, e os planos dos devotos equivalem aos Seus planos. Deve-se seguir tais planos e ser vitorioso na luta pela existência.
Bg 11.35
सञ्जय उवाच ।
एतच्छ्रुत्वा वचनं केशवस्य
कृताञ्जलिर्वेपमानः किरीटी ।
नमस्कृत्वा भूय एवाह कृष्णं
सगद्गदं भीतभीतः प्रणम्य ॥३५॥
sañjaya uvāca
etac chrutvā vacanaṁ keśavasya
kṛtāñjalir vepamānaḥ kirītī
namaskṛtvā bhūya evāha kṛṣṇaṁ
sa-gadgadaṁ bhīta-bhītaḥ praṇamya
sañjayaḥ uvāca—Sañjaya disse; etat—assim; śrutvā—ouvindo; vacanam—discurso; keśavasya—de Kṛṣṇa; kṛtāñjaliḥ—de mãos postas; vepamānaḥ—trêmulo; kirītī—Arjuna; namaskṛtvā—oferecendo reverências; bhūyaḥ—de novo; eva—também; āha kṛṣṇam—disse a Kṛṣṇa; sa-gadgadam—titubeante; bhīta-bhītaḥ—temeroso; praṇamya—oferecendo reverências.
Sañjaya disse a Dhṛtarāṣṭra: Ó rei, depois de ouvir estas palavras da Suprema Personalidade de Deus, Arjuna, trêmulo, ofereceu reverências temerosamente, de mãos postas, e começou a falar, titubeante, da seguinte maneira:
Como já explicamos, devido à situação criada pela forma universal da Suprema Personalidade de Deus, Arjuna ficou perplexo de assombro; assim, começou a oferecer suas respeitosas reverências a Kṛṣṇa repetidas vezes e, com voz titubeante, começou a orar, não como amigo, mas como devoto em assombro.
Bg 11.36
अर्जुन उवाच ।
स्थाने हृषीकेश तव प्रकीर्त्या
जगत्प्रहृष्यत्यनुरज्यते च ।
रक्षांसि भीतानि दिशो द्रवन्ति
सर्वे नमस्यन्ति च सिद्धसङ्घाः ॥३६॥
arjuna uvāca
sthāne hṛṣīkeśa tava prakīrtyā
jagat prahṛṣyaty anurajyate ca
rakṣāṁsi bhītāni diśo dravanti
sarve namasyanti ca siddha-saṅghāḥ
arjunaḥ uvāca—Arjuna disse; sthāne—com razão; hṛṣīkeśa—ó mestre de todos os sentidos; tava—Tuas; prakīrtya—glórias; jagat—o mundo inteiro; prahṛṣyati—rejubila-se; anurajyate—apega-se; rakṣāṁsi—os demônios; bhītāni—de medo; diśaḥ—direções; dravanti—fugindo; sarve—todos; namasyanti—oferecendo respeito; ca—também; siddha-saṅghāḥ—os seres humanos perfeitos.
Ó Hṛṣīkeśa, o mundo se rejubila ao ouvir Teu nome, e assim todos se apegam a Ti. Embora os seres perfeitos Te ofereçam suas respeitosas homenagens, os demônios sentem medo e fogem para todos os lados. Tudo isso se dá com razão.
Arjuna, depois de ouvir de Kṛṣṇa o desfecho da Batalha de Kurukṣetra, tornou-se um devoto iluminado do Senhor Supremo. Admitiu que tudo o que Kṛṣṇa faz é totalmente cabível. Arjuna confirmou que Kṛṣṇa é o mantenedor e o objeto de adoração para os devotos e o destruidor dos indesejáveis. Suas ações são igualmente boas para todos. Aqui, Arjuna entendeu que, ao concluir-se a Batalha de Kurukṣetra, no espaço sideral estavam presentes muitos semideuses, siddhas e a intelectualidade dos planetas superiores, todos observando a luta porque Kṛṣṇa estava presente. Quando Arjuna viu a forma universal do Senhor, os semideuses sentiram prazer, mas outros, que eram demônios e ateus, não puderam suportar quando o Senhor foi louvado. Por seu temor natural à devastadora forma da Suprema Personalidade de Deus, fugiram. Arjuna louva o tratamento que Kṛṣṇa dispensa aos devotos e aos ateus. Em todos os casos, o devoto glorifica o Senhor, pois sabe que tudo o que Ele faz é bom para todos.
Bg 11.37
कस्माच्च ते न नमेरन्महात्मन्
गरीयसे ब्रह्मणोऽप्यादिकर्त्रे ।
अनन्त देवेश जगन्निवास
त्वमक्षरं सदसत्तत्परं यत् ॥३७॥
kasmāc ca te na nameran mahātman
garīyase brahmaṇo ‘py ādi-kartre
ananta deveśa jagan-nivāsa
tvam akṣaraṁ sad-asat tat paraṁ yat
kasmāt—por que; ca—também; te—a Ti; na—não; nameran—ofereceriam reverências apropriadas; mahātman—ó grandioso; garīyase—Tu és melhor que; brahmaṇaḥ—Brahmā; api—embora; ādi-kartre—o criador supremo; ananta—ilimitado; deveśa—Deus dos deuses; jagat-nivāsa—ó refúgio do universo; tvam—Tu és; akṣaram—imperecível; sat-asat—causa e efeito; tat-param—transcendental; yat—porque.
Ó grandioso, que estás acima até mesmo de Brahmā, Tu és o senhor original. Por que não Te ofereceriam suas homenagens, ó ilimitado? Ó refúgio do universo, Tu és a fonte invencível, a causa de todas as causas, transcendental a esta manifestação material.
Ao oferecer estas reverências, Arjuna indica que Kṛṣṇa é digno da adoração de todos. Ele é onipenetrante e é a Alma de cada alma. Arjuna se dirige a Kṛṣṇa como mahātmā, o que significa que Ele é magnânimo e ilimitado em grau supremo. Ananta indica que não há nada que não esteja abrangido pela influência e energia do Senhor Supremo, e deveśa significa que Ele é o controlador de todos os semideuses e está acima de todos eles. Ele é o centro do universo inteiro. Arjuna pensava também que era cabível que todas as entidades vivas perfeitas e todos os poderosos semideuses oferecessem suas respeitosas reverências a Ele, pois ninguém é maior que Ele. Menciona, em especial, que Kṛṣṇa é maior que Brahmā porque Brahmā é criado por Ele. Brahmā nasce do caule de lótus que brota do ventre umbilical de Garbhodakaśāyī Viṣṇu, que é a expansão plenária de Kṛṣṇa; portanto, Brahmā e o Senhor Śiva, que nasce de Brahmā, e todos os outros semideuses devem oferecer suas respeitosas reverências. Assim, o Senhor é respeitado pelo Senhor Śiva, por Brahmā e por outros semideuses semelhantes. A palavra akṣaram é assaz significativa, pois esta criação material está sujeita à destruição, mas o Senhor está acima desta criação material. Ele é a causa de todas as causas, e, sendo assim, é superior a todas as almas condicionadas dentro desta natureza material, bem como à própria manifestação cósmica material. Ele é, por conseguinte, o todo-grandioso Supremo.
Bg 11.38
त्वमादिदेवः पुरुषः पुराणस्-
त्वमस्य विश्वस्य परं निधानम् ।
वेत्तासि वेद्यं च परं च धाम
त्वया ततं विश्वमनन्तरूप ॥३८॥
tvam ādi-devaḥ puruṣaḥ purāṇas
tvam asya viśvasya paraṁ nidhānam
vettāsi vedyaṁ ca paraṁ ca dhāma
tvayā tataṁ viśvam ananta-rūpa
tvam—Tu; ādi-devaḥ—o original Deus Supremo; puruṣaḥ—personalidade; purāṇaḥ—antigo; tvam—Tu; asya—deste; viśvasya—universo; param—transcendental; nidhānam—refúgio; vettā—conhecedor; asi—és; vedyam ca—e o cognoscível; param ca—e transcendental; dhāma—refúgio; tvayā—por Ti; tatam—penetrado; viśvam—universo; ananta-rūpa—forma ilimitada.
Tu és a Personalidade original, a Divindade. Tu és o único santuário deste mundo cósmico manifestado. Tu sabes tudo, e Tu és tudo o que se pode saber. Tu estás acima dos modos materiais. Ó forma ilimitada! Toda esta manifestação cósmica está penetrada por Ti!
Tudo repousa na Suprema Personalidade de Deus; portanto, Ele é o repouso último. Nidhānam significa que tudo, até mesmo a refulgência do Brahman, repousa na Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa. Ele é o conhecedor de tudo o que sucede neste mundo, e, se o conhecimento tem algum fim, Ele é o fim de todo o conhecimento; portanto, Ele é o conhecido e o cognoscível. Ele é o objeto do conhecimento porque é onipenetrante. Por ser a causa no mundo espiritual, é transcendental. É também a personalidade principal do mundo transcendental.
Bg 11.39
वायुर्यमोऽग्निर्वरुणः शशाङ्कः
प्रजापतिस्त्वं प्रपितामहश्च ।
नमो नमस्तेऽस्तु सहस्रकृत्वः
पुनश्च भूयोऽपि नमो नमस्ते ॥३९॥
vāyur yamo ‘gnir varuṇaḥ śaśāṅkaḥ
prajāpatis tvaṁ prapitāmahaś ca
namo namas te ‘stu sahasra-kṛtvaḥ
punaś ca bhūyo ‘pi namo namas te
vāyuḥ—ar; yamaḥ—controlador; agniḥ—fogo; varuṇaḥ—água; śaśāṅkaḥ—lua; prajāpatiḥ—Brahmā; tvam—Tu; prapitāmahaḥ—avô; ca—também; namaḥ—oferecendo reverências; namaḥ te—de novo ofereço minhas reverências a Ti; astu—são; sahasra-kṛtvaḥ—mil vezes; punaḥ ca—e novamente; bhūyaḥ—de novo; api—também; namaḥ—ofereço minhas reverências; namaḥ te—oferecendo minhas reverências a Ti.
Tu és o ar, o fogo, a água, e Tu és a lua! Tu és o controlador supremo e o avô. Assim, ofereço-Te minhas respeitosas reverências mil vezes, e novamente, e mais uma vez!
O Senhor é aqui invocado como ar, pois o ar é a representação mais importante de todos os semideuses, sendo onipresente. Arjuna também invoca Kṛṣṇa como o avô, porque Ele é o pai de Brahmā, a primeira criatura viva no universo.
Bg 11.4
मन्यसे यदि तच्छक्यं मया द्रष्टुमिति प्रभो ।
योगेश्वर ततो मे त्वं दर्शयात्मानमव्ययम् ॥४॥
manyase yadi tac chakyaṁ
mayā draṣṭum iti prabho
yogeśvara tato me tvaṁ
darśayātmānam avyayam
manyase—se Tu pensas; yadi—se; tat—isso; śakyam—capaz de ver; mayā—por mim; draṣṭum—ver; iti—assim; prabho—ó Senhor; yogeśvara—o Senhor de todo o poder místico; tataḥ—então; me—a mim; tvam—Tu; darśaya—mostra; ātmānam—a Ti mesmo; avyayam—eterno.
Se pensas que sou capaz de contemplar Tua forma cósmica, ó meu Senhor, ó mestre de todo poder místico, então tem a bondade de mostrar-me esse Teu eu universal.
Diz-se que ninguém pode ver, ouvir, compreender nem perceber o Senhor Supremo, Kṛṣṇa, pelos sentidos materiais. Mas se a pessoa se ocupa em amoroso serviço transcendental ao Senhor desde o início, então pode ver o Senhor por revelação. Cada entidade viva é apenas uma centelha espiritual; portanto, não lhe é possível ver ou compreender o Senhor Supremo. Arjuna, como devoto, não depende de sua força especulativa; antes, admite suas limitações como entidade viva e reconhece a posição inestimável de Kṛṣṇa. Arjuna podia compreender que, para uma entidade viva, não é possível compreender o ilimitado infinito. Se o infinito Se revelar, então é possível compreender a natureza do infinito pela graça do infinito. A palavra yogeśvara também é muito significativa aqui, pois o Senhor possui poder inconcebível. Se Lhe aprouver, Ele pode revelar-Se por Sua graça, embora seja ilimitado. Por isso, Arjuna implora a graça inconcebível de Kṛṣṇa. Ele não dá ordens a Kṛṣṇa. Kṛṣṇa não é obrigado a revelar-Se a quem quer que seja, a menos que a pessoa se renda plenamente em consciência de Kṛṣṇa e se ocupe em serviço devocional. Assim, não é possível àqueles que dependem da força de suas especulações mentais ver Kṛṣṇa.
Bg 11.40
नमः पुरस्तादथ पृष्ठतस्ते
नमोऽस्तु ते सर्वत एव सर्व ।
अनन्तवीर्यामितविक्रमस्त्वं
सर्वं समाप्नोषि ततोऽसि सर्वः ॥४०॥
namaḥ purastād atha pṛṣṭhatas te
namo ‘stu te sarvata eva sarva
ananta-vīryāmita-vikramas tvaṁ
sarvaṁ samāpnoṣi tato ‘si sarvaḥ
namaḥ—oferecendo reverências; purastāt—pela frente; atha—também; pṛṣṭhataḥ—por trás; te—a Ti; namaḥ astu—ofereço meus respeitos; te—a Ti; sarvataḥ—de todos os lados; eva sarva—porque Tu és tudo; ananta-vīrya—potência ilimitada; amita-vikramaḥ—força ilimitada; tvam—Tu; sarvam—tudo; samāpnoṣi—abranges; tataḥ asi—portanto, és; sarvaḥ—tudo.
Reverências pela frente, por trás e por todos os lados! Ó poder sem limites, Tu és o senhor da força ilimitada! Tu és onipenetrante e, assim, és tudo!
Por amoroso êxtase por Kṛṣṇa, seu amigo, Arjuna oferece seus respeitos por todos os lados. Ele aceita que Ele é o senhor de todas as potências e de todas as proezas, muitíssimo superior a todos os grandes guerreiros reunidos no campo de batalha. Diz-se no Viṣṇu Purāṇa: yo ‘yaṁ tavāgato deva-samīpaṁ devatā-gaṇaḥ sa tvam eva jagat-sraṣṭā yataḥ sarva-gato bhavān. “Quem quer que se apresente diante de Ti, ainda que seja um semideus, é criado por Ti, ó Suprema Personalidade de Deus.”
Bg 11.41-42
सखेति मत्वा प्रसभं यदुक्तं
हे कृष्ण हे यादव हे सखेति ।
अजानता महिमानं तवेदं
मया प्रमादात्प्रणयेन वापि ॥४१॥
यच्चावहासार्थमसत्कृतोऽसि
विहारशय्यासनभोजनेषु ।
एकोऽथवाप्यच्युत तत्समक्षं
तत्क्षामये त्वामहमप्रमेयम् ॥४२॥
sakheti matvā prasabhaṁ yad uktaṁ
he kṛṣṇa he yādava he sakheti
ajānatā mahimānaṁ tavedaṁ
mayā pramādāt praṇayena vāpi
yac cāvahāsārtham asat-kṛto ‘si
vihāra-śayyāsana-bhojaneṣu
eko ‘tha vāpy acyuta tat-samakṣaṁ
tat kṣāmaye tvām aham aprameyam
sakhā—amigo; iti—assim; matvā—pensando; prasabham—temporário; yat—tudo o que; uktam—dito; he krṣṇa—ó Kṛṣṇa; he yādava—ó Yādava; he sakhā iti—ó meu querido amigo; ajānatā—sem conhecer; mahimānam—glórias; tava—Tuas; idam—isto; mayā—por mim; pramādāt—por insensatez; pranayena—por amor; vā api—quer; yat—tudo o que; ca—também; avahāsārtham—por gracejo; asatkṛtaḥ—desonra; asi—tenha sido feita; vihāra—em descanso; śayyā—em gracejo; āsana—em um lugar de repouso; bhojaneṣu—ou comendo juntos; ekaḥ—sozinho; athavā—ou; api—outros; acyuta—ó infalível; tat-samakṣam—como Teu rival; tat—tudo isso; kṣāmaye—desculpa; tvām—a Ti; aham—eu; aprameyam—imensurável.
No passado, dirigi-me a Ti como “ó Kṛṣṇa”, “ó Yādava”, “ó meu amigo”, sem conhecer Tuas glórias. Por favor, perdoa o que possa ter feito por insensatez ou por amor. Desonrei-Te muitas vezes, descansando ou recostado no mesmo leito, ou comendo juntos, às vezes a sós e às vezes diante de muitos amigos. Por favor, desculpa-me por todas as minhas ofensas.
Embora Kṛṣṇa Se manifeste diante de Arjuna em Sua forma universal, Arjuna se lembra de sua relação amistosa com Kṛṣṇa e, por isso, lhe pede perdão e implora que O desculpe pelos muitos gestos informais que decorrem da amizade. Ele admite que antes não sabia que Kṛṣṇa pudesse assumir tal forma universal, embora Kṛṣṇa lho tivesse explicado como amigo íntimo. Arjuna não sabia quantas vezes O havia desonrado ao dirigir-se a Ele como “ó meu amigo, ó Kṛṣṇa, ó Yādava”, etc., sem reconhecer Sua opulência. Mas Kṛṣṇa é tão bondoso e misericordioso que, apesar de tal opulência, brincava com Arjuna como amigo. Tal é a transcendental reciprocidade amorosa entre o devoto e o Senhor. A relação entre a entidade viva e Kṛṣṇa fixa-se eternamente; não pode ser esquecida, como podemos ver pelo comportamento de Arjuna. Embora Arjuna tenha visto a opulência na forma universal, não pôde esquecer sua relação amistosa com Kṛṣṇa.
Bg 11.43
पितासि लोकस्य चराचरस्य
त्वमस्य पूज्यश्च गुरुर्गरीयान् ।
न त्वत्समोऽस्त्यभ्यधिकः कुतोऽन्यो
लोकत्रयेऽप्यप्रतिमप्रभाव ॥४३॥
pitāsi lokasya carācarasya
tvam asya pūjyaś ca gurur garīyān
na tvat-samo ‘sty abhyadhikaḥ kuto ‘nyo
loka-traye ‘py apratima-prabhāva
pitā—pai; asi—és; lokasya—de todo o mundo; cara—móvel; acarasya—imóvel; tvam—Tu és; asya—deste; pūjyaḥ—digno de adoração; ca—também; guruḥ—mestre; garīyān—glorioso; na—nunca; tvat-samaḥ—igual a Ti; asti—há; abhyadhikaḥ—maior; kutaḥ—como é possível; anyaḥ—outro; loka-traye—nos três sistemas planetários; api—também; apratima—imensurável; prabhāva—poder.
Tu és o pai desta completa manifestação cósmica, o chefe digno de adoração, o mestre espiritual. Ninguém é igual a Ti, nem alguém pode tornar-se uno contigo. Dentro dos três mundos, Tu és imensurável.
O Senhor Kṛṣṇa é digno de adoração assim como um pai é digno da adoração de seu filho. Ele é o mestre espiritual porque originalmente transmitiu a Brahmā as instruções Védicas, e agora também está instruindo o Bhagavad-gītā a Arjuna; portanto, Ele é o mestre espiritual original, e qualquer mestre espiritual genuíno na atualidade deve descender da linha de sucessão discipular que parte de Kṛṣṇa. Sem ser representante de Kṛṣṇa, ninguém pode tornar-se professor ou mestre espiritual de assuntos transcendentais.
O Senhor recebe reverências sob todos os aspectos. Sua grandeza é imensurável. Ninguém pode ser maior que a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, pois ninguém é igual ou superior a Kṛṣṇa em qualquer manifestação, espiritual ou material. Todos estão abaixo Dele. Ninguém pode superá-lO.
O Senhor Supremo, Kṛṣṇa, tem sentidos e um corpo como o homem comum, mas, para Ele, não há diferença entre Seus sentidos, Seu corpo, Sua mente e Ele mesmo. Pessoas tolas, que não O conhecem perfeitamente, dizem que Kṛṣṇa é diferente de Sua alma, mente, coração e tudo o mais. Kṛṣṇa é absoluto; portanto, Suas atividades e potências são supremas. Afirma-se também que Ele não tem sentidos como os nossos. Ele pode realizar todas as atividades sensoriais; portanto, Seus sentidos não são imperfeitos nem limitados. Ninguém pode ser maior que Ele, ninguém pode ser igual a Ele, e todos são inferiores a Ele.
Quem conhece Seu corpo transcendental, Suas atividades e Sua perfeição, depois de abandonar o corpo, retorna a Ele e não volta mais a este mundo miserável. Por isso, deve-se saber que as atividades de Kṛṣṇa são diferentes das dos demais. A melhor política é seguir os princípios de Kṛṣṇa; isso tornará a pessoa perfeita. Afirma-se também que ninguém é mestre de Kṛṣṇa; todos são Seus servos. Somente Kṛṣṇa é Deus, e todos são servos. Todos cumprem Sua ordem. Ninguém pode negar Sua ordem. Todos agem segundo Sua direção, sob Sua superintendência. Como se afirma na Brahma-saṁhitā, Ele é a causa de todas as causas.
Bg 11.44
तस्मात्प्रणम्य प्रणिधाय कायं
प्रसादये त्वामहमीशमीड्यम् ।
पितेव पुत्रस्य सखेव सख्युः
प्रियः प्रियायार्हसि देव सोढुम् ॥४४॥
tasmāt praṇamya praṇidhāya kāyaṁ
prasādaye tvām aham īśam īḍyam
piteva putrasya sakheva sakhyuḥ
priyaḥ priyāyārhasi deva soḍhum
tasmāt—portanto; praṇamya—depois de oferecer reverências; praṇidhāya—prostrando; kāyam—o corpo; prasādaye—implorar misericórdia; tvām—a Ti; aham—eu; īśam—ao Senhor Supremo; īḍyam—que é digno de adoração; pitā iva—como um pai; putrasya—de um filho; sakhā iva—como um amigo; sakhyuḥ—de um amigo; priyaḥ—amante; priyāyāḥ—do mais querido; arhasi—deves; deva—meu Senhor; soḍhum—tolerar.
Tu és o Senhor Supremo, digno de adoração de cada ser vivo. Por isso, prostro-me para Te oferecer meus respeitos e pedir Tua misericórdia. Por favor, tolera os erros que possa ter cometido contra Ti e suporta-me como o pai suporta o filho, ou o amigo, o amigo, ou o amante, a amada.
Os devotos de Kṛṣṇa relacionam-se com Kṛṣṇa em diversas relações; pode-se tratá-lO como filho, como esposo, como amigo, como amo, etc. Kṛṣṇa e Arjuna estão relacionados pela amizade. Assim como o pai tolera, ou o esposo, ou o amo tolera, assim também Kṛṣṇa tolera.
Bg 11.45
अदृष्टपूर्वं हृषितोऽस्मि दृष्ट्वा
भयेन च प्रव्यथितं मनो मे ।
तदेव मे दर्शय देव रूपं
प्रसीद देवेश जगन्निवास ॥४५॥
adṛṣṭa-pūrvaṁ hṛṣito ‘smi dṛṣṭvā
bhayena ca pravyathitaṁ mano me
tad eva me darśaya deva rūpaṁ
prasīda deveśa jagan-nivāsa
adṛṣṭa-pūrvam—nunca antes vista; hṛṣitaḥ—contente; asmi—estou; dṛṣṭvā—ao ver; bhayena—de medo; ca—também; pravyathitam—perturbada; manaḥ—mente; me—minha; tat—portanto; eva—certamente; me—a mim; darśaya—mostra; deva—ó Senhor; rūpam—a forma; prasīda—digna-Te; deveśa—ó Senhor dos senhores; jagat-nivāsa—o refúgio do universo.
Depois de ver esta forma universal, que jamais havia visto antes, sinto-me contente, mas, ao mesmo tempo, minha mente se perturba de medo. Por isso, peço-Te a graça de revelares novamente Tua forma como Personalidade de Deus, ó Senhor dos senhores, ó morada do universo.
Arjuna sempre desfruta da intimidade com Kṛṣṇa, pois é um amigo muito querido, e, assim como o querido amigo se contenta com a opulência de seu amigo, Arjuna está jubiloso por ver que seu amigo, Kṛṣṇa, é a Suprema Personalidade de Deus e pode mostrar tão maravilhosa forma universal. Mas, ao mesmo tempo, depois de ver essa forma universal, ele teme ter cometido tantas ofensas a Kṛṣṇa por causa de sua amizade pura. Assim, sua mente se perturba de medo, embora não houvesse motivo para temer. Por isso, Arjuna pede a Kṛṣṇa que lhe mostre Sua forma de Nārāyaṇa, pois Ele pode assumir qualquer forma. Esta forma universal é material e temporária, assim como o mundo material é temporário. Mas nos planetas Vaikuṇṭha Ele tem Sua forma transcendental de quatro braços como Nārāyaṇa. Há inúmeros planetas no céu espiritual, e em cada um deles Kṛṣṇa Se faz presente por meio de Suas manifestações plenárias de diferentes nomes. Assim, Arjuna desejava ver uma das formas manifestadas nos planetas Vaikuṇṭha. Naturalmente, em cada planeta Vaikuṇṭha a forma de Nārāyaṇa é de quatro braços, e as quatro mãos seguram diferentes símbolos: o búzio, a maça, o lótus e o disco. Conforme as diferentes mãos em que estes quatro objetos são segurados, os Nārāyaṇas recebem nomes. Todas estas formas são uma e a mesma com Kṛṣṇa; portanto, Arjuna pede para ver Seu aspecto de quatro braços.
Bg 11.46
किरीटिनं गदिनं चक्रहस्तं
इच्छामि त्वां द्रष्टुमहं तथैव ।
तेनैव रूपेण चतुर्भुजेन
सहस्रबाहो भव विश्वमूर्ते ॥४६॥
kirīṭinaṁ gadinaṁ cakra-hastam
icchāmi tvāṁ draṣṭum ahaṁ tathaiva
tenaiva rūpeṇa catur-bhujena
sahasra-bāho bhava viśva-mūrte
kirīṭinam—com elmo; gadinam—com clava; cakra-hastam—disco na mão; icchāmi—desejo; tvām—a Ti; draṣṭum—ver; aham—eu; tathā eva—nessa posição; tena eva—com aquela; rūpeṇa—forma; catur-bhujena—de quatro mãos; sahasra-bāho—ó Tu de mil braços; bhava—simplesmente Te tornes; viśva-mūrte—ó forma universal.
Ó Senhor universal, desejo ver-Te em Tua forma de quatro braços, com a cabeça encimada por elmo e com a clava, a roda, o búzio e a flor de lótus em Tuas mãos. Anseio ver-Te nessa forma.
Na Brahma-saṁhitā afirma-se que o Senhor Se situa eternamente em centenas e milhares de formas, e as principais são as como Rāma, Nṛsiṁha, Nārāyaṇa, etc. Há inúmeras formas. Mas Arjuna sabia que Kṛṣṇa é a Personalidade de Deus original que assume Sua forma universal temporária. Ele agora pede para ver a forma de Nārāyaṇa, uma forma espiritual. Este verso estabelece sem qualquer dúvida a afirmação do Śrīmad-Bhāgavatam de que Kṛṣṇa é a Personalidade de Deus original e todos os outros aspectos originam-se Dele. Ele não é diferente de Suas expansões plenárias, e é Deus em qualquer de Suas inúmeras formas. Em todas estas formas Ele permanece sempre fresco como um jovem. Tal é o aspecto constante da Suprema Personalidade de Deus. Quem conhece Kṛṣṇa imediatamente liberta-se de toda a contaminação do mundo material.
Bg 11.47
श्रीभगवानुवाच ।
मया प्रसन्नेन तवार्जुनेदं
रूपं परं दर्शितमात्मयोगात् ।
तेजोमयं विश्वमनन्तमाद्यं
यन्मे त्वदन्येन न दृष्टपूर्वम् ॥४७॥
śrī-bhagavān uvāca
mayā prasannena tavārjunedaṁ
rūpaṁ paraṁ darśitam ātma-yogāt
tejo-mayaṁ viśvam anantam ādyaṁ
yan me tvad anyena na dṛṣṭa-pūrvam
śrī bhagavān uvāca—a Suprema Personalidade de Deus disse; mayā—por Mim; prasannena—com alegria; tava—a ti; arjuna—ó Arjuna; idam—esta; rūpam—forma; param—transcendental; darśitam—mostrada; ātma-yogāt—pela Minha potência interna; tejomayam—plena de refulgência; viśvam—o universo inteiro; anantam—ilimitado; ādyam—original; yat me—aquilo que é Meu; tvat-anyena—senão a ti; na dṛṣṭa-pūrvam—ninguém viu antes.
O Senhor Abençoado disse: Meu querido Arjuna, com alegria mostro-te esta forma universal dentro do mundo material por Minha potência interna. Ninguém antes de ti jamais viu esta forma ilimitada e ofuscantemente refulgente.
Arjuna desejava ver a forma universal do Senhor Supremo, e por isso, em Sua misericórdia para com Seu devoto Arjuna, o Senhor Kṛṣṇa lhe mostrou Sua forma universal cheia de refulgência e opulência. Esta forma resplandecia como o sol, e suas muitas faces mudavam rapidamente. Kṛṣṇa mostrou esta forma apenas para satisfazer o desejo de Seu amigo Arjuna. Esta forma foi manifestada por Kṛṣṇa por meio de Sua potência interna, inconcebível à especulação humana. Ninguém havia visto esta forma universal do Senhor antes de Arjuna, mas, por ela ter sido mostrada a Arjuna, outros devotos nos planetas celestiais e em outros planetas no espaço sideral também puderam vê-la. Não a tinham visto antes, mas, devido a Arjuna, também puderam vê-la. Em outras palavras, todos os devotos discipulares do Senhor puderam ver a forma universal que foi mostrada a Arjuna pela misericórdia de Kṛṣṇa. Alguém comentou que esta forma também foi mostrada a Duryodhana quando Kṛṣṇa foi a Duryodhana negociar a paz. Lamentavelmente, Duryodhana não aceitou a oferta de paz, mas naquele momento Kṛṣṇa manifestou algumas de Suas formas universais. Mas aquelas formas são diferentes desta mostrada a Arjuna. Diz-se claramente que ninguém jamais viu esta forma antes.
Bg 11.48
न वेदयज्ञाध्ययनैर्न दानैर्-
न च क्रियाभिर्न तपोभिरुग्रैः ।
एवंरूपः शक्य अहं नृलोके
द्रष्टुं त्वदन्येन कुरुप्रवीर ॥४८॥
na veda-yajñādhyayanair na dānair
na ca kriyābhir na tapobhir ugraiḥ
evaṁ-rūpaḥ śakya ahaṁ nṛ-loke
draṣṭuṁ tvad anyena kuru-pravīra
na—nunca; veda—estudo Védico; yajña—sacrifício; adhyayanaiḥ—estudando; na dānaiḥ—pela caridade; na—nunca; ca—também; kriyābhiḥ—por atividades piedosas; na tapobhiḥ—por sérias penitências; ugraiḥ—severas; evam—assim; rūpaḥ—forma; śakyaḥ—pode ser vista; aham—Eu; nṛloke—neste mundo material; draṣṭum—ver; tvat—tu; anyena—por outro; kuru-pravīra—ó melhor entre os guerreiros Kuru.
Ó melhor dos guerreiros Kuru, ninguém antes de ti jamais viu esta Minha forma universal, pois nem pelo estudo dos Vedas, nem pela realização de sacrifícios, nem pela caridade ou atividades semelhantes pode-se ver esta forma. Somente tu a viste.
A visão divina, neste contexto, deve ser claramente compreendida. Quem pode ter visão divina? Divino significa semelhante a Deus. A menos que a pessoa atinja o status de divindade como semideus, não pode ter visão divina. E o que é um semideus? Afirma-se nas escrituras Védicas que aqueles que são devotos do Senhor Viṣṇu são semideuses. Aqueles que são ateus, isto é, que não acreditam em Viṣṇu, ou que reconhecem apenas o aspecto impessoal de Kṛṣṇa como o Supremo, não podem ter a visão divina. Não é possível depreciar Kṛṣṇa e, ao mesmo tempo, ter a visão divina. Ninguém pode ter visão divina sem tornar-se divino. Em outras palavras, aqueles que têm visão divina podem também ver como Arjuna.
O Bhagavad-gītā fornece a descrição da forma universal, e essa descrição era desconhecida de todos antes de Arjuna. Ora, depois deste episódio, alguma ideia do viśva-rūpa pode ser concebida; aqueles que são realmente divinos podem ver a forma universal do Senhor. Mas ninguém pode ser divino sem ser um devoto puro de Kṛṣṇa. Os devotos, no entanto, que estão realmente situados na natureza divina e que têm visão divina, não estão muito interessados em ver a forma universal do Senhor. Como descrito no verso anterior, Arjuna desejava ver a forma de quatro mãos do Senhor Kṛṣṇa como Viṣṇu, e na verdade temia a forma universal.
Neste verso há algumas palavras significativas, como veda-yajñādhya-yanaiḥ, que se refere ao estudo da literatura Védica e ao tema das regulamentações sacrificiais. Veda refere-se a todos os tipos de literatura Védica, a saber, os quatro Vedas (Ṛk, Yajus, Sāma e Atharva) e os dezoito Purāṇas e Upaniṣads, e o Vedānta-sūtra. Pode-se estudá-los em casa ou em qualquer outro lugar. De modo semelhante, há sūtras, Kalpa-sūtras e Mīmāṁsā-sūtras, para o estudo do método de sacrifício. Dānaiḥ refere-se à caridade que se oferece a uma parte adequada, tais como aqueles que estão ocupados no transcendental serviço amoroso ao Senhor, os brāhmaṇas e os vaiṣṇavas. De modo semelhante, atividades piedosas referem-se ao agni-hotra, etc., os deveres prescritos das diferentes castas. E a aceitação voluntária de algumas dores corporais chama-se tapasya. Assim, pode-se realizar tudo isto, aceitar penitências corporais, dar caridade, estudar os Vedas, etc., mas, a menos que a pessoa seja um devoto como Arjuna, não é possível ver essa forma universal. Aqueles que são impersonalistas também imaginam que estão vendo a forma universal do Senhor, mas, pelo Bhagavad-gītā, compreendemos que os impersonalistas não são devotos. Por isso, são incapazes de ver a forma universal do Senhor.
Há muitas pessoas que criam encarnações. Alegam falsamente que um ser humano comum é uma encarnação, mas tudo isso é tolice. Devemos seguir os princípios do Bhagavad-gītā; do contrário, não há possibilidade de alcançar conhecimento espiritual perfeito. Embora o Bhagavad-gītā seja considerado o estudo preliminar da ciência de Deus, ainda assim é tão perfeito que se pode distinguir o que é o quê. Os seguidores de uma pseudoencarnação podem dizer que também viram a encarnação transcendental de Deus, a forma universal, mas isso não é aceitável, pois aqui se afirma claramente que, a menos que a pessoa se torne um devoto de Kṛṣṇa, não pode ver a forma universal de Deus. Assim, é preciso primeiro tornar-se devoto puro de Kṛṣṇa; então pode-se afirmar que se pode mostrar a forma universal daquilo que se viu. Um devoto de Kṛṣṇa não pode aceitar falsas encarnações nem seguidores de falsas encarnações.
Bg 11.49
मा ते व्यथा मा च विमूढभावो
दृष्ट्वा रूपं घोरमीदृङ्ममेदम् ।
व्यपेतभीः प्रीतमनाः पुनस्त्वं
तदेव मे रूपमिदं प्रपश्य ॥४९॥
mā te vyathā mā ca vimūḍha-bhāvo
dṛṣṭvā rūpaṁ ghoram īdṛṅ mamedam
vyapeta-bhīḥ prīta-manāḥ punas tvaṁ
tad eva me rūpam idaṁ prapaśya
mā—que não seja; te—a ti; vyathā—perturbação; mā—que não seja; ca—também; vimūḍha-bhāvaḥ—perplexidade; dṛṣṭvā—ao ver; rūpam—forma; ghoram—horrível; īdṛk—desta maneira; mama—Minha; idam—tal como é; vyapetabhīḥ—simplesmente livra-te de todo o medo; prīta-manāḥ—contenta a tua mente; punaḥ—de novo; tvam—tu; tat—essa; eva—assim; me—Minha; rūpam—forma; idam—esta; prapaśya—simplesmente vê.
Tua mente foi perturbada ao ver este Meu aspecto horrível. Que isto cesse agora. Meu devoto, livra-te de toda a perturbação. Com a mente serena, podes agora ver a forma que desejas.
No início do Bhagavad-gītā, Arjuna se preocupava em matar Bhīṣma e Droṇa, seus veneráveis avós e mestres. Mas Kṛṣṇa disse que ele não precisava temer matar seu avô. Quando tentaram desnudar Draupadī na assembleia, Bhīṣma e Droṇa permaneceram em silêncio, e por tal negligência do dever deveriam ser mortos. Kṛṣṇa mostrou Sua forma universal a Arjuna apenas para mostrar-lhe que essas pessoas já estavam mortas por sua ação ilegal. Aquela cena foi mostrada a Arjuna porque os devotos são sempre pacíficos e não podem realizar tais ações horríveis. O propósito da revelação da forma universal foi exposto; agora Arjuna queria ver a forma de quatro braços, e Kṛṣṇa lha mostrou. O devoto não está muito interessado na forma universal, pois ela não permite reciprocar sentimentos amorosos. O devoto deseja oferecer seus respeitosos sentimentos de adoração; assim, deseja ver a forma de duas mãos ou de quatro mãos de Kṛṣṇa, para poder reciprocar em serviço amoroso com a Suprema Personalidade de Deus.
Bg 11.5
श्रीभगवानुवाच ।
पश्य मे पार्थ रूपाणि शतशोऽथ सहस्रशः ।
नानाविधानि दिव्यानि नानावर्णाकृतीनि च ॥५॥
śrī-bhagavān uvāca
paśya me pārtha rūpāṇi
śataśo ‘tha sahasraśaḥ
nānā-vidhāni divyāni
nānā-varṇākṛtīni ca
śrī bhagavān uvāca—a Suprema Personalidade de Deus disse; paśya—contempla; me—Minhas; pārtha—ó filho de Pṛthā; rūpāṇi—formas; śataśaḥ—centenas; atha—também; sahasraśaḥ—milhares; nānā-vidhāni—variegadas; divyāni—divinas; nānā—variegadas; varṇa—coloridas; akṛtīni—formas; ca—também.
O Senhor Abençoado disse: Meu querido Arjuna, ó filho de Pṛthā, contempla agora Minhas opulências, centenas de milhares de variadas formas divinas, multicoloridas como o mar.
Arjuna queria ver Kṛṣṇa em Sua forma universal, a qual, embora seja uma forma transcendental, é manifestada apenas em função da manifestação cósmica e está, portanto, sujeita ao tempo temporário desta natureza material. Assim como a natureza material se manifesta e se desmanifesta, da mesma forma esta forma universal de Kṛṣṇa se manifesta e se desmanifesta. Ela não está eternamente situada no céu espiritual como as demais formas de Kṛṣṇa. No que se refere ao devoto, este não anseia ver a forma universal; mas, como Arjuna desejava ver Kṛṣṇa dessa maneira, Kṛṣṇa revela esta forma. Esta forma universal não pode ser vista por nenhum homem comum. Kṛṣṇa precisa conceder à pessoa o poder de vê-la.
Bg 11.50
सञ्जय उवाच ।
इत्यर्जुनं वासुदेवस्तथोक्त्वा
स्वकं रूपं दर्शयामास भूयः ।
आश्वासयामास च भीतमेनं
भूत्वा पुनः सौम्यवपुर्महात्मा ॥५०॥
sañjaya uvāca
ity arjunaṁ vāsudevas tathoktvā
svakaṁ rūpaṁ darśayām āsa bhūyaḥ
āśvāsayām āsa ca bhītam enaṁ
bhūtvā punaḥ saumya-vapur mahātmā
sañjayaḥ uvāca—Sañjaya disse; iti—assim; arjunam—a Arjuna; vāsudevaḥ—Kṛṣṇa; tathā—dessa forma; uktvā—dizendo; svakam—Sua própria; rūpam—forma; darśayāmāsa—mostrou; bhūyaḥ—de novo; āśvāsayāmāsa—também o tranquilizou; ca—também; bhītam—temeroso; enam—a ele; bhūtvā punaḥ—tornando-se de novo; saumya-vapuḥ—bela forma; mahātmā—o grandioso.
Sañjaya disse a Dhṛtarāṣṭra: A Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, falando dessa forma a Arjuna, exibiu Sua verdadeira forma de quatro braços e, por fim, mostrou-lhe Sua forma de duas mãos, encorajando assim o temeroso Arjuna.
Quando Kṛṣṇa apareceu como filho de Vasudeva e Devakī, primeiramente apareceu como o Nārāyaṇa de quatro braços, mas, ao ser solicitado por Seus pais, transformou-Se, em aparência, em uma criança comum. De modo semelhante, Kṛṣṇa sabia que Arjuna não estava interessado em ver uma forma de quatro mãos de Kṛṣṇa, mas, como ele pediu para ver esta forma de quatro mãos, Ele lha mostrou de novo e, em seguida, Se mostrou em Sua forma de duas mãos. A palavra saumya-vapuḥ é assaz significativa. Saumya-vapu é uma forma muito bela; é conhecida como a forma mais bela. Quando estava presente, todos eram atraídos simplesmente pela forma de Kṛṣṇa, e, como Kṛṣṇa é o diretor do universo, Ele simplesmente baniu o medo de Arjuna, Seu devoto, e mostrou-lhe novamente Sua bela forma de Kṛṣṇa. Na Brahma-saṁhitā afirma-se que somente uma pessoa cujos olhos estão ungidos com o bálsamo do amor pode ver a bela forma de Śrī Kṛṣṇa.
Bg 11.51
अर्जुन उवाच ।
दृष्ट्वेदं मानुषं रूपं तव सौम्यं जनार्दन ।
इदानीमस्मि संवृत्तः सचेताः प्रकृतिं गतः ॥५१॥
arjuna uvāca
dṛṣṭvedaṁ mānuṣaṁ rūpaṁ
tava saumyaṁ janārdana
idānīm asmi saṁvṛttaḥ
sa-cetāḥ prakṛtiṁ gataḥ
arjunaḥ uvāca—Arjuna disse; dṛṣṭvā—vendo; idam—esta; mānuṣam—ser humano; rūpam—forma; tava—Tua; saumyam—muito bela; janārdana—ó castigador dos inimigos; idānīm—neste momento; asmi—estou; saṁvṛttaḥ—restabelecido; sa-cetāḥ—em minha consciência; prakṛtim—à minha própria; gataḥ—tornei.
Quando Arjuna assim viu Kṛṣṇa em Sua forma original, disse: Vendo esta forma de aparência humana, tão belíssima, minha mente está agora apaziguada, e estou restabelecido em minha natureza original.
Aqui as palavras mānuṣaṁ rūpam indicam claramente que a Suprema Personalidade de Deus é originalmente de duas mãos. Aqueles que zombam de Kṛṣṇa, considerando-O uma pessoa comum, mostram-se aqui ignorantes de Sua natureza divina. Se Kṛṣṇa é como um ser humano comum, como Lhe seria possível mostrar a forma universal e em seguida mostrar a forma de Nārāyaṇa de quatro braços? Assim, afirma-se com toda clareza no Bhagavad-gītā que aquele que pensa que Kṛṣṇa é uma pessoa comum e desorienta o leitor afirmando que é o Brahman impessoal dentro de Kṛṣṇa que está falando, comete a maior das injustiças. Kṛṣṇa de fato mostrou Sua forma universal e Sua forma de Viṣṇu de quatro mãos. Como, então, poderia ser um ser humano comum? Um devoto puro não se confunde com comentários enganadores sobre o Bhagavad-gītā, pois sabe o que é o quê. Os versos originais do Bhagavad-gītā são tão claros como o sol; não requerem a luz da lâmpada de comentadores tolos.
Bg 11.52
श्रीभगवानुवाच ।
सुदुर्दर्शमिदं रूपं दृष्टवानसि यन्मम ।
देवा अप्यस्य रूपस्य नित्यं दर्शनकाङ्क्षिणः ॥५२॥
śrī-bhagavān uvāca
su-durdarśam idaṁ rūpaṁ
dṛṣṭavān asi yan mama
devā apy asya rūpasya
nityaṁ darśana-kāṅkṣiṇaḥ
śrī bhagavān uvāca—a Suprema Personalidade de Deus disse; sudur-darśana—muito difícil de ser vista; idam—esta; rūpam—forma; dṛṣṭavān asi—tal como viste; yat—que; mama—de Mim; devāḥ—os semideuses; api asya—também desta; rūpasya—forma; nityam—eternamente; darśana-kāṅkṣiṇaḥ—sempre aspiram a ver.
O Senhor Abençoado disse: Meu querido Arjuna, a forma que agora estás vendo é muito difícil de contemplar. Mesmo os semideuses estão sempre buscando a oportunidade de ver esta forma que é tão querida.
No quadragésimo oitavo verso deste capítulo, o Senhor Kṛṣṇa concluiu a revelação de Sua forma universal e informou a Arjuna que esta forma não pode ser vista por meio de tantas atividades, sacrifícios, etc. Ora, aqui se usa a palavra sudurdarśam, indicando que a forma de duas mãos de Kṛṣṇa é ainda mais confidencial. É possível ver a forma universal de Kṛṣṇa acrescentando uma pequena dose de serviço devocional a várias atividades como penitência, estudo Védico e especulação filosófica, etc. Pode ser possível, mas, sem uma dose de bhakti, não se pode ver; isso já foi explicado. Ainda assim, além dessa forma universal, a forma de Kṛṣṇa como homem de duas mãos é ainda mais difícil de ver, mesmo para semideuses como Brahmā e o Senhor Śiva. Eles desejam vê-lO, e há evidências no Śrīmad-Bhāgavatam de que, quando se supunha que Ele estivesse no ventre de Sua mãe, Devakī, todos os semideuses do céu vieram ver a maravilha de Kṛṣṇa. Eles até esperaram para vê-lO. Uma pessoa tola pode dele zombar, mas isso é uma pessoa comum. Kṛṣṇa, na verdade, é desejado por semideuses como Brahmā e Śiva em Sua forma de dois braços.
No Bhagavad-gītā também se confirma que Ele não é visível para as pessoas tolas que dele zombam. O corpo de Kṛṣṇa, conforme confirmado pela Brahma-saṁhitā e por Ele próprio no Bhagavad-gītā, é completamente espiritual e pleno de bem-aventurança e eternidade. Seu corpo nunca é como um corpo material. Mas, para alguns que estudam Kṛṣṇa lendo o Bhagavad-gītā ou escrituras Védicas semelhantes, Kṛṣṇa é um problema. Para alguém que utiliza um processo material, Kṛṣṇa é considerado uma grande personalidade histórica e um filósofo muito erudito. Mas Ele não é um homem comum. Mas alguns pensam que, embora fosse tão poderoso, teve de aceitar um corpo material. Em última análise, pensam que a Verdade Absoluta é impessoal; portanto, pensam que, a partir de Seu aspecto impessoal, Ele assumiu um aspecto pessoal apegado à natureza material. Tal é o cálculo materialista do Senhor Supremo. Outro cálculo é especulativo. Aqueles que estão à procura do conhecimento também especulam sobre Kṛṣṇa e O consideram menos importante que a forma universal do Supremo. Assim, alguns pensam que a forma universal de Kṛṣṇa que se manifestou a Arjuna é mais importante que Sua forma pessoal. Segundo eles, a forma pessoal do Supremo é algo imaginário. Crêem que, em última instância, a Verdade Absoluta não é uma pessoa. Mas o processo transcendental é descrito no Bhagavad-gītā, Capítulo Dois: ouvir sobre Kṛṣṇa de autoridades. Esse é o processo Védico real, e aqueles que estão de fato na linha Védica ouvem sobre Kṛṣṇa de uma autoridade e, ao ouvirem repetidamente sobre Ele, Kṛṣṇa Se torna querido. Como já discutimos várias vezes, Kṛṣṇa está coberto por Sua potência yoga-māyā. Ele não pode ser visto nem revelado a qualquer um. Somente quem recebe Sua revelação pode vê-lO. Isso se confirma na literatura Védica; para a alma rendida, a Verdade Absoluta pode realmente ser compreendida. O transcendentalista, pela contínua consciência de Kṛṣṇa e pelo serviço devocional a Kṛṣṇa, pode ter seus olhos espirituais abertos e pode ver Kṛṣṇa por revelação. Tal revelação não é possível sequer para os semideuses; portanto, é difícil mesmo para os semideuses compreender Kṛṣṇa, e os semideuses avançados sempre têm a esperança de ver Kṛṣṇa em Sua forma de duas mãos. A conclusão é que, embora ver a forma universal de Kṛṣṇa seja muito, muito difícil e não seja possível para qualquer um, é ainda mais difícil compreender Sua forma pessoal como Śyāmasundara.
Bg 11.53
नाहं वेदैर्न तपसा न दानेन न चेज्यया ।
शक्य एवंविधो द्रष्टुं दृष्टवानसि मां यथा ॥५३॥
nāhaṁ vedair na tapasā
na dānena na cejyayā
śakya evaṁ-vidho draṣṭuṁ
dṛṣṭavān asi māṁ yathā
na—nunca; aham—Eu; vedaiḥ—pelo estudo dos Vedas; na—nunca; tapasā—por sérias penitências; na—nunca; dānena—pela caridade; na—nunca; ca—também; ijyayā—pela adoração; śakyaḥ—é possível; evam-vidhaḥ—dessa maneira; draṣṭum—ver; dṛṣṭavān—vendo; asi—estás; mām—a Mim; yathā—como.
A forma que estás vendo com teus olhos transcendentais não pode ser compreendida simplesmente pelo estudo dos Vedas, nem submetendo-se a sérias penitências, nem pela caridade, nem pela adoração. Não é por estes meios que se pode ver-Me como sou.
Kṛṣṇa primeiro apareceu diante de Seus pais, Devakī e Vasudeva, em uma forma de quatro mãos, e em seguida transformou-Se na forma de duas mãos. Este mistério é muito difícil de compreender para os ateus ou para aqueles desprovidos de serviço devocional. Para os eruditos que simplesmente estudaram a literatura Védica por meio da especulação ou por mero interesse acadêmico, Kṛṣṇa não é fácil de compreender. Tampouco pode ser compreendido pelas pessoas que vão oficialmente ao templo para oferecer adoração. Fazem sua visita, mas não conseguem compreender Kṛṣṇa como Ele é. Kṛṣṇa só pode ser compreendido pela senda do serviço devocional, como o próprio Kṛṣṇa explica no verso seguinte.
Bg 11.54
भक्त्या त्वनन्यया शक्य अहमेवंविधोऽर्जुन ।
ज्ञातुं द्रष्टुं च तत्त्वेन प्रवेष्टुं च परन्तप ॥५४॥
bhaktyā tv ananyayā śakya
aham evaṁ-vidho ‘rjuna
jñātuṁ draṣṭuṁ ca tattvena
praveṣṭuṁ ca parantapa
bhaktyā—pelo serviço devocional; tu—mas; ananyayā—sem estar misturado a atividades fruitivas ou conhecimento especulativo; śakyaḥ—possível; aham—Eu; evam-vidhaḥ—dessa maneira; arjuna—ó Arjuna; jñātum—conhecer; draṣṭum—ver; tattvena—de fato; praveṣṭum—e adentrar; ca—também; parantapa—ó Tu de braços poderosos.
Meu querido Arjuna, somente pelo serviço devocional indiviso é que posso ser compreendido como sou, postado diante de ti, e assim ser visto diretamente. Somente dessa maneira poderás adentrar os mistérios de Minha compreensão.
Kṛṣṇa só pode ser compreendido pelo processo do serviço devocional indiviso. Ele explica isso de modo explícito neste verso, para que os comentadores não autorizados, que tentam compreender o Bhagavad-gītā pelo processo especulativo, saibam que estão simplesmente perdendo seu tempo. Ninguém pode compreender Kṛṣṇa, ou como Ele veio dos pais em uma forma de quatro mãos e imediatamente Se transformou em uma forma de duas mãos. Aqui se afirma claramente que ninguém pode vê-lO. Aqueles que, no entanto, são estudantes muito experientes da literatura Védica, podem aprender sobre Ele a partir da literatura Védica de várias maneiras. Há tantas regras e regulamentações, e, se a pessoa quiser de fato compreender Kṛṣṇa, deve seguir os princípios regulativos descritos na literatura autorizada. Pode-se realizar penitência conforme esses princípios. Quanto à caridade, é evidente que a caridade deve ser dada aos devotos de Kṛṣṇa que estão ocupados em Seu serviço devocional para difundir a filosofia de Kṛṣṇa, ou consciência de Kṛṣṇa, pelo mundo afora. A consciência de Kṛṣṇa é uma bênção para a humanidade. O Senhor Caitanya foi descrito por Rūpa Gosvāmī como o homem mais magnânimo na caridade, pois o amor a Kṛṣṇa, que é tão difícil de obter, foi por Ele distribuído gratuitamente. E, se alguém adora conforme prescrito no templo (nos templos da Índia há sempre alguma estátua, geralmente de Viṣṇu ou Kṛṣṇa), isso é uma oportunidade de progresso. Para os iniciantes no serviço devocional ao Senhor, a adoração no templo é assaz essencial, e isso se confirma na literatura Védica.
Aquele que tem devoção inabalável pelo Senhor Supremo e é orientado pelo mestre espiritual pode ver a Suprema Personalidade de Deus por revelação. Para quem não recebe instrução pessoal sob a orientação de um mestre espiritual genuíno, é impossível sequer começar a compreender Kṛṣṇa. A palavra tu é especificamente usada aqui para indicar que nenhum outro processo pode ser empregado, recomendado, ou ter êxito na compreensão de Kṛṣṇa.
As formas pessoais de Kṛṣṇa, a forma de duas mãos e a de quatro mãos, são completamente diferentes da temporária forma universal mostrada a Arjuna. A forma de quatro mãos é Nārāyaṇa, e a forma de duas mãos é Kṛṣṇa; são eternas e transcendentais, ao passo que a forma universal exibida a Arjuna é temporária. A própria palavra sudurdarśam, que significa difícil de ver, sugere que ninguém viu aquela forma universal. Sugere também que, entre os devotos, não havia necessidade de mostrá-la. Aquela forma foi exibida por Kṛṣṇa a pedido de Arjuna, para que, no futuro, quando alguém se apresentasse como encarnação de Deus, as pessoas pudessem pedir para ver sua forma universal.
Kṛṣṇa muda da forma universal para a forma de quatro mãos de Nārāyaṇa e em seguida para Sua própria forma natural de duas mãos. Isso indica que as formas de quatro mãos e outras formas mencionadas na literatura Védica são todas emanações do Kṛṣṇa original de duas mãos. Ele é a origem de todas as emanações. Kṛṣṇa é distinto até mesmo dessas formas, sem falar da concepção impessoal. Quanto às formas de quatro mãos de Kṛṣṇa, afirma-se claramente que mesmo a forma de quatro mãos mais idêntica a Kṛṣṇa (que é conhecida como Mahā-Viṣṇu, que jaz no oceano cósmico e de cuja respiração tantos inúmeros universos saem e entram) é também uma expansão do Senhor Supremo. Por conseguinte, deve-se conclusivamente adorar a forma pessoal de Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus, que é eternidade, bem-aventurança e conhecimento. Ele é a fonte de todas as formas de Viṣṇu, é a fonte de todas as formas de encarnação, e é a Personalidade Suprema original, como se confirma no Bhagavad-gītā.
Na literatura Védica afirma-se que a Suprema Verdade Absoluta é uma pessoa. Seu nome é Kṛṣṇa, e Ele às vezes desce a esta terra. De modo semelhante, no Śrīmad-Bhāgavatam há a descrição de todas as espécies de encarnações da Suprema Personalidade de Deus, e ali se diz que Kṛṣṇa não é uma encarnação de Deus, mas a própria Suprema Personalidade de Deus original. Kṛṣṇas tu bhagavān svayam. De modo semelhante, no Bhagavad-gītā o Senhor diz: mattaḥ parataram nānyāt: “Não há nada superior à Minha forma como a Personalidade de Deus Kṛṣṇa.” Ele também diz, em outra passagem do Bhagavad-gītā: aham ādir hi devānām: “Eu sou a origem de todos os semideuses.” E, depois de compreender o Bhagavad-gītā a partir de Kṛṣṇa, Arjuna confirma isso com as seguintes palavras: paraṁ brahma paraṁ dhāma pavitraṁ paramaṁ bhavān: “Agora compreendo plenamente que Tu és a Suprema Personalidade de Deus, a Verdade Absoluta, e que Tu és o refúgio de tudo.” Por isso, a forma universal que Kṛṣṇa mostrou a Arjuna não é a forma original de Deus. A original é a forma de Kṛṣṇa. A forma universal, com seus milhares e milhares de cabeças e mãos, manifesta-se apenas para chamar a atenção daqueles que não têm amor por Deus. Não é a forma original de Deus.
A forma universal não é atrativa para os devotos puros, que estão apaixonados pelo Senhor em diferentes relações transcendentais. A Suprema Divindade troca amor transcendental em Sua forma original de Kṛṣṇa. Por isso, para Arjuna, que estava tão intimamente relacionado com Kṛṣṇa pela amizade, esta forma da manifestação universal não era agradável; pelo contrário, era assustadora. Arjuna, que é companheiro constante de Kṛṣṇa, certamente possuía olhos transcendentais; não era um homem comum. Por isso, não foi cativado pela forma universal. Esta forma pode parecer maravilhosa para as pessoas envolvidas em elevar-se por meio de atividades fruitivas, mas, para as pessoas ocupadas em serviço devocional, a forma de duas mãos de Kṛṣṇa é a mais querida.
Bg 11.55
मत्कर्मकृन्मत्परमो मद्भक्तः सङ्गवर्जितः ।
निर्वैरः सर्वभूतेषु यः स मामेति पाण्डव ॥५५॥
mat-karma-kṛn mat-paramo
mad-bhaktaḥ saṅga-varjitaḥ
nirvairaḥ sarva-bhūteṣu
yaḥ sa mām eti pāṇḍava
mat-karma-kṛt—ocupado em realizar Meu trabalho; mat-paramaḥ—considerando-Me a Mim, o Supremo; mat-bhaktaḥ—ocupado em Meu serviço devocional; saṅga-varjitaḥ—livre da contaminação das atividades anteriores e da especulação mental; nirvairaḥ—sem inimigo; sarva-bhūteṣu—para com toda entidade viva; yaḥ—aquele que; saḥ—ele; mām—a Mim; eti—vem; pāṇḍava—ó filho de Pāṇḍu.
Meu querido Arjuna, aquele que se ocupa em Meu serviço devocional puro, livre das contaminações das atividades anteriores e da especulação mental, que é amistoso para com toda entidade viva, certamente vem a Mim.
Quem quer que deseje aproximar-se do Supremo de todas as Personalidades de Deus, no planeta Kṛṣṇaloka, no céu espiritual, e estar intimamente conectado com a Personalidade Suprema, Kṛṣṇa, deve adotar esta fórmula, conforme afirmada pelo próprio Supremo. Por isso, este verso é considerado a essência do Bhagavad-gītā. O Bhagavad-gītā é um livro dirigido às almas condicionadas, ocupadas no mundo material com o propósito de assenhorear-se da natureza e que desconhecem a vida espiritual real. O Bhagavad-gītā destina-se a mostrar como se pode compreender a própria existência espiritual e a relação eterna com a Suprema Personalidade Espiritual, e a ensinar como voltar ao lar, voltar ao Supremo. Eis aqui o verso que explica claramente o processo pelo qual se pode alcançar êxito na atividade espiritual: o serviço devocional. No que diz respeito ao trabalho, deve-se transferir a energia inteiramente para atividades em consciência de Kṛṣṇa. Nenhum trabalho deve ser realizado por homem algum, exceto em relação a Kṛṣṇa. Isso se chama Kṛṣṇa-karma. Pode-se ocupar-se em várias atividades, mas não se deve estar apegado ao resultado de seu trabalho; o resultado deve ser feito para Ele. Por exemplo, pode-se estar ocupado em negócios, mas, para transformar essa atividade em consciência de Kṛṣṇa, é preciso fazer negócios para Kṛṣṇa. Se Kṛṣṇa é o proprietário do negócio, então Kṛṣṇa deve desfrutar do lucro do negócio. Se um homem de negócios possui milhares e milhares de dólares, e se tiver de oferecer tudo isso a Kṛṣṇa, pode fazê-lo. Isto é trabalho para Kṛṣṇa. Em vez de construir um grande edifício para sua gratificação dos sentidos, pode construir um belo templo para Kṛṣṇa, e pode instalar a Deidade de Kṛṣṇa e providenciar o serviço da Deidade, conforme delineado nos livros autorizados de serviço devocional. Tudo isto é Kṛṣṇa-karma. Não se deve estar apegado ao resultado do trabalho; antes, o resultado deve ser oferecido a Kṛṣṇa. Deve-se também aceitar como prasādam, alimento, os restos das oferendas a Kṛṣṇa. Se, contudo, a pessoa não puder construir um templo para Kṛṣṇa, pode ocupar-se em limpar o templo de Kṛṣṇa; isso também é Kṛṣṇa-karma. Pode-se cultivar um jardim. Quem quer que tenha terra — na Índia, ao menos, qualquer homem pobre tem certa quantidade de terra — pode utilizá-la para Kṛṣṇa cultivando flores para Lhe oferecer. Pode semear plantas tulasī, pois as folhas de tulasī são muito importantes, e Kṛṣṇa o recomendou no Bhagavad-gītā. Kṛṣṇa deseja que se Lhe ofereça uma folha, ou uma flor, ou um pouco de água, e Ele Se satisfaz. Esta folha refere-se especialmente à tulasī. Assim, pode-se semear folhas de tulasī e regar a planta. Desse modo, mesmo o homem mais pobre pode ocupar-se no serviço de Kṛṣṇa. Estes são alguns dos exemplos de como se pode ocupar-se em trabalhar para Kṛṣṇa.
A palavra mat-paramaḥ refere-se àquele que considera a associação com Kṛṣṇa em Sua morada suprema como a mais alta perfeição da vida. Tal pessoa não deseja ser elevada aos planetas superiores, como a lua, o sol ou os planetas celestiais, ou mesmo o planeta mais elevado deste universo, Brahmaloka. Não tem atração por isso. Atrai-se somente por ser transferida ao céu espiritual. E, mesmo no céu espiritual, não se contenta em fundir-se na resplandecente refulgência brahmajyoti, pois deseja entrar no mais elevado planeta espiritual, a saber, Kṛṣṇaloka, Goloka Vṛndāvana. Tem pleno conhecimento desse planeta e, por isso, não está interessada em nenhum outro. Como indicado pela palavra mad-bhaktaḥ, ocupa-se plenamente em serviço devocional, especificamente nos nove processos de ocupação devocional: ouvir, cantar, lembrar-se, adorar, servir aos pés de lótus do Senhor, oferecer orações, executar as ordens do Senhor, fazer amizade com Ele e render-Lhe tudo. Pode-se ocupar nos nove processos devocionais, ou em oito, ou em sete, ou ao menos em um, e isso certamente tornará a pessoa perfeita.
O termo saṅga-varjitaḥ é assaz significativo. Deve-se desassociar-se de pessoas que estão contra Kṛṣṇa. Não somente as pessoas ateístas estão contra Kṛṣṇa, mas também aqueles que se atraem por atividades fruitivas e especulação mental. Por isso, a forma pura de serviço devocional descreve-se no Bhakti-rasāmṛta-sindhu da seguinte maneira: anyābhilāṣitā-śūnyaṁ jñāna-karmādy-anāvṛtam ānukūlyena kṛṣṇānuśīlanaṁ bhaktir uttamā. Neste verso, Śrīla Rūpa Gosvāmī afirma claramente que, se alguém deseja executar serviço devocional puro, deve estar livre de toda espécie de contaminação material. Deve estar livre da associação com pessoas que se entregam a atividades fruitivas e especulação mental. Quando, livre dessa associação indesejada e da contaminação dos desejos materiais, a pessoa cultiva favoravelmente conhecimento sobre Kṛṣṇa, isso se chama serviço devocional puro. Ānukūlyasya saṅkaplaḥ prātikūlyasya varjanam. Deve-se pensar em Kṛṣṇa e agir favoravelmente para Kṛṣṇa, não desfavoravelmente. Kaṁsa era inimigo de Kṛṣṇa. Desde o nascimento de Kṛṣṇa, ele planejou de tantas maneiras matá-lO e, como sempre fracassava, sempre pensava em Kṛṣṇa. Assim, ao trabalhar, ao comer e ao dormir, sempre estava consciente de Kṛṣṇa em todos os aspectos, mas essa consciência de Kṛṣṇa não era favorável e, por isso, apesar de sempre pensar em Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia, foi considerado um demônio, e Kṛṣṇa, por fim, o matou. Naturalmente, quem quer que seja morto por Kṛṣṇa alcança imediatamente a salvação, mas esse não é o objetivo do devoto puro. O devoto puro nem mesmo deseja a salvação. Não deseja ser transferido sequer ao planeta mais elevado, Goloka Vṛndāvana. Seu único objetivo é servir a Kṛṣṇa onde quer que esteja.
Um devoto de Kṛṣṇa é amistoso para com todos. Por isso se diz aqui que ele não tem inimigo. Como assim? Um devoto situado em consciência de Kṛṣṇa sabe que somente o serviço devocional a Kṛṣṇa pode aliviar uma pessoa de todos os problemas da vida. Tem experiência pessoal disso e, por isso, deseja introduzir esse sistema, a consciência de Kṛṣṇa, na sociedade humana. Há muitos exemplos na história de devotos do Senhor que arriscaram a vida pela difusão da consciência de Deus. O exemplo predileto é o do Senhor Jesus Cristo. Foi crucificado pelos não-devotos, mas sacrificou Sua vida pela difusão da consciência de Deus. Naturalmente, seria superficial entender que Ele foi morto. De modo semelhante, na Índia também há muitos exemplos, como Ṭhākur Haridāsa. Por que correr tal risco? Porque queriam difundir a consciência de Kṛṣṇa, e isso é difícil. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa sabe que, se alguém está sofrendo, isso se deve a seu esquecimento da relação eterna com Kṛṣṇa. Por isso, o maior benefício que se pode prestar à sociedade humana é aliviar o próximo de todos os problemas materiais. Dessa maneira, um devoto puro ocupa-se no serviço do Senhor. Ora, podemos imaginar quão misericordioso é Kṛṣṇa para com aqueles que se ocupam em Seu serviço, arriscando tudo por Ele. Por isso, é certo que tais pessoas devem alcançar o planeta supremo após deixarem o corpo.
Em síntese, a forma universal de Kṛṣṇa, que é uma manifestação temporária, e a forma do tempo que tudo devora, e mesmo a forma de Viṣṇu, de quatro mãos, foram todas exibidas por Kṛṣṇa. Assim, Kṛṣṇa é a origem de todas estas manifestações. Não é que Kṛṣṇa seja uma manifestação do viśva-rūpa original, ou de Viṣṇu. Kṛṣṇa é a origem de todas as formas. Há centenas e milhares de Viṣṇus, mas, para um devoto, nenhuma forma de Kṛṣṇa é importante senão a forma original, o Śyāmasundara de duas mãos. Na Brahma-saṁhitā afirma-se que aqueles que estão apegados à forma de Śyāmasundara de Kṛṣṇa em amor e devoção podem vê-lO sempre dentro do coração e não conseguem ver mais nada. Deve-se compreender, portanto, que o propósito deste Décimo Primeiro Capítulo é que a forma de Kṛṣṇa é essencial e suprema.
Assim terminam os Significados Bhaktivedanta do Décimo Primeiro Capítulo do Śrīmad-Bhagavad-gītā no que se refere à Forma Universal.
Bg 11.6
पश्यादित्यान्वसून्रुद्रानश्विनौ मरुतस्तथा ।
बहून्यदृष्टपूर्वाणि पश्याश्चर्याणि भारत ॥६॥
paśyādityān vasūn rudrān
aśvinau marutas tathā
bahūny adṛṣṭa-pūrvāṇi
paśyāścaryāṇi bhārata
paśya—vê; ādityān—os doze filhos de Aditi; vasūn—os oito Vasus; rudrān—as onze formas de Rudra; aśvinau—os dois Aśvins; marutaḥ—os quarenta e nove Maruts (semideuses do vento); tathā—também; bahūni—muitas; adṛṣṭa—que não ouviste nem viste; pūrvāṇi—antes; paśya—contempla; āścaryāṇi—todas as coisas maravilhosas; bhārata—ó melhor dos Bhāratas.
Ó melhor dos Bhāratas, contempla aqui as diferentes manifestações dos Ādityas, dos Rudras e de todos os semideuses. Vê as muitas coisas que ninguém jamais viu nem ouviu antes.
Embora Arjuna fosse um amigo pessoal de Kṛṣṇa e o mais avançado dos eruditos, ainda assim não lhe era possível saber tudo a respeito de Kṛṣṇa. Aqui se afirma que os seres humanos nunca ouviram nem conheceram todas estas formas e manifestações. Ora, Kṛṣṇa revela estas maravilhosas formas.
Bg 11.7
इहैकस्थं जगत्कृत्स्नं पश्याद्य सचराचरम् ।
मम देहे गुडाकेश यच्चान्यद् द्रष्टुमिच्छसि ॥७॥
ihaika-sthaṁ jagat kṛtsnaṁ
paśyādya sa-carācaram
mama dehe guḍākeśa
yac cānyad draṣṭum icchasi
iha—neste; ekastham—em um só lugar; jagat—o universo; kṛtsnam—completamente; paśya—contempla; adya—imediatamente; sa—com; cara—móveis; acaram—imóveis; mama—Meu; dehe—neste corpo; guḍākeśa—ó Arjuna; yat—aquilo que; ca—também; anyat—outro; draṣṭum—ver; icchasi—desejes.
Tudo o que desejares ver, podes vê-lo de uma só vez neste corpo. Esta forma universal pode mostrar-te tudo o que agora desejas, bem como tudo o que possas vir a desejar no futuro. Tudo está aqui completamente.
Ninguém pode ver o universo inteiro estando em um só lugar. Mesmo o cientista mais avançado não pode ver o que se passa em outras partes do universo. Kṛṣṇa concede-lhe o poder de ver tudo o que ele queira ver — passado, presente e futuro. Assim, pela misericórdia de Kṛṣṇa, Arjuna é capaz de ver tudo.
Bg 11.8
न तु मां शक्यसे द्रष्टुमनेनैव स्वचक्षुषा ।
दिव्यं ददामि ते चक्षुः पश्य मे योगमैश्वरम् ॥८॥
na tu māṁ śakyase draṣṭum
anenaiva sva-cakṣuṣā
divyaṁ dadāmi te cakṣuḥ
paśya me yogam aiśvaram
na—nunca; tu—mas; mām—a Mim; śakyase—és capaz; draṣṭum—ver; anena—com estes; eva—certamente; sva-cakṣuṣā—com teus próprios olhos; divyam—divinos; dadāmi—dou; te—a ti; cakṣuḥ—olhos; paśya—contempla; me—Meu; yogam aiśvaram—poder místico inconcebível.
Mas tu não podes ver-Me com teus olhos atuais. Por isso, dou-te olhos divinos, com os quais poderás contemplar Minha opulência mística.
Um devoto puro não gosta de ver Kṛṣṇa em forma alguma, exceto em Sua forma de duas mãos; o devoto deve ver a forma universal por Sua graça, não com a mente, mas com olhos espirituais. Para ver a forma universal de Kṛṣṇa, diz-se a Arjuna que não mude sua mente, mas sua visão. A forma universal de Kṛṣṇa não é muito importante; isto ficará claro nos versos seguintes. Contudo, como Arjuna desejava vê-la, o Senhor lhe concede a visão particular requerida para se contemplar essa forma universal.
Os devotos que estão corretamente situados em uma relação transcendental com Kṛṣṇa atraem-se por Seus aspectos amorosos, não por uma exibição ímpia de opulências. Os companheiros de brincadeira de Kṛṣṇa, os amigos de Kṛṣṇa e os pais de Kṛṣṇa nunca querem que Kṛṣṇa exiba Suas opulências. Eles estão de tal modo imersos em puro amor que sequer sabem que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Em sua troca amorosa, esquecem-se de que Kṛṣṇa é o Senhor Supremo. No Śrīmad-Bhāgavatam afirma-se que os meninos que brincam com Kṛṣṇa são todos almas altamente piedosas, e somente após muitíssimos nascimentos podem brincar com Kṛṣṇa. Esses meninos não sabem que Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Eles O tomam como amigo pessoal. A Pessoa Suprema é considerada como o Brahman impessoal pelos grandes sábios, como a Suprema Personalidade de Deus pelos devotos, e como produto desta natureza material pelos homens comuns. O fato é que o devoto não está interessado em ver o viśva-rūpa, a forma universal, mas Arjuna desejava vê-la para fundamentar a afirmação de Kṛṣṇa, de modo que, no futuro, as pessoas pudessem compreender que Kṛṣṇa não Se apresentou como o Supremo apenas teórica ou filosoficamente, mas Se apresentou efetivamente como tal a Arjuna. Arjuna deve confirmar isso, porque Arjuna é o início do sistema paramparā. Aqueles que estão genuinamente interessados em compreender a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, e que seguem os passos de Arjuna, devem compreender que Kṛṣṇa não Se apresentou como o Supremo apenas teoricamente, mas efetivamente Se revelou como o Supremo.
O Senhor concedeu a Arjuna o poder necessário para ver Sua forma universal, pois sabia que Arjuna não tinha um desejo particular de vê-la, conforme já explicamos.
Bg 11.9
सञ्जय उवाच ।
एवमुक्त्वा ततो राजन्महायोगेश्वरो हरिः ।
दर्शयामास पार्थाय परमं रूपमैश्वरम् ॥९॥
sañjaya uvāca
evam uktvā tato rājan
mahā-yogeśvaro hariḥ
darśayām āsa pārthāya
paramaṁ rūpam aiśvaram
sañjayaḥ uvāca—Sañjaya disse; evam—assim; uktvā—dizendo; tataḥ—em seguida; rājan—ó rei; mahā-yogeśvaraḥ—o mais poderoso místico; hariḥ—a Suprema Personalidade de Deus, Kṛṣṇa; darśayāmāsa—mostrou; pārthāya—a Arjuna; paramam—divina; rūpam—forma universal; aiśvaram—opulências.
Sañjaya disse: Ó rei, falando assim, o Supremo, o Senhor de todo poder místico, a Personalidade de Deus, exibiu Sua forma universal a Arjuna.