Capítulo 11 · 52 / 52
11.55
मत्कर्मकृन्मत्परमो मद्भक्तः सङ्गवर्जितः ।
निर्वैरः सर्वभूतेषु यः स मामेति पाण्डव ॥५५॥
mat-karma-kṛn mat-paramo
mad-bhaktaḥ saṅga-varjitaḥ
nirvairaḥ sarva-bhūteṣu
yaḥ sa mām eti pāṇḍava
mat-karma-kṛt—ocupado em realizar Meu trabalho; mat-paramaḥ—considerando-Me a Mim, o Supremo; mat-bhaktaḥ—ocupado em Meu serviço devocional; saṅga-varjitaḥ—livre da contaminação das atividades anteriores e da especulação mental; nirvairaḥ—sem inimigo; sarva-bhūteṣu—para com toda entidade viva; yaḥ—aquele que; saḥ—ele; mām—a Mim; eti—vem; pāṇḍava—ó filho de Pāṇḍu.
Meu querido Arjuna, aquele que se ocupa em Meu serviço devocional puro, livre das contaminações das atividades anteriores e da especulação mental, que é amistoso para com toda entidade viva, certamente vem a Mim.
Quem quer que deseje aproximar-se do Supremo de todas as Personalidades de Deus, no planeta Kṛṣṇaloka, no céu espiritual, e estar intimamente conectado com a Personalidade Suprema, Kṛṣṇa, deve adotar esta fórmula, conforme afirmada pelo próprio Supremo. Por isso, este verso é considerado a essência do Bhagavad-gītā. O Bhagavad-gītā é um livro dirigido às almas condicionadas, ocupadas no mundo material com o propósito de assenhorear-se da natureza e que desconhecem a vida espiritual real. O Bhagavad-gītā destina-se a mostrar como se pode compreender a própria existência espiritual e a relação eterna com a Suprema Personalidade Espiritual, e a ensinar como voltar ao lar, voltar ao Supremo. Eis aqui o verso que explica claramente o processo pelo qual se pode alcançar êxito na atividade espiritual: o serviço devocional. No que diz respeito ao trabalho, deve-se transferir a energia inteiramente para atividades em consciência de Kṛṣṇa. Nenhum trabalho deve ser realizado por homem algum, exceto em relação a Kṛṣṇa. Isso se chama Kṛṣṇa-karma. Pode-se ocupar-se em várias atividades, mas não se deve estar apegado ao resultado de seu trabalho; o resultado deve ser feito para Ele. Por exemplo, pode-se estar ocupado em negócios, mas, para transformar essa atividade em consciência de Kṛṣṇa, é preciso fazer negócios para Kṛṣṇa. Se Kṛṣṇa é o proprietário do negócio, então Kṛṣṇa deve desfrutar do lucro do negócio. Se um homem de negócios possui milhares e milhares de dólares, e se tiver de oferecer tudo isso a Kṛṣṇa, pode fazê-lo. Isto é trabalho para Kṛṣṇa. Em vez de construir um grande edifício para sua gratificação dos sentidos, pode construir um belo templo para Kṛṣṇa, e pode instalar a Deidade de Kṛṣṇa e providenciar o serviço da Deidade, conforme delineado nos livros autorizados de serviço devocional. Tudo isto é Kṛṣṇa-karma. Não se deve estar apegado ao resultado do trabalho; antes, o resultado deve ser oferecido a Kṛṣṇa. Deve-se também aceitar como prasādam, alimento, os restos das oferendas a Kṛṣṇa. Se, contudo, a pessoa não puder construir um templo para Kṛṣṇa, pode ocupar-se em limpar o templo de Kṛṣṇa; isso também é Kṛṣṇa-karma. Pode-se cultivar um jardim. Quem quer que tenha terra — na Índia, ao menos, qualquer homem pobre tem certa quantidade de terra — pode utilizá-la para Kṛṣṇa cultivando flores para Lhe oferecer. Pode semear plantas tulasī, pois as folhas de tulasī são muito importantes, e Kṛṣṇa o recomendou no Bhagavad-gītā. Kṛṣṇa deseja que se Lhe ofereça uma folha, ou uma flor, ou um pouco de água, e Ele Se satisfaz. Esta folha refere-se especialmente à tulasī. Assim, pode-se semear folhas de tulasī e regar a planta. Desse modo, mesmo o homem mais pobre pode ocupar-se no serviço de Kṛṣṇa. Estes são alguns dos exemplos de como se pode ocupar-se em trabalhar para Kṛṣṇa.
A palavra mat-paramaḥ refere-se àquele que considera a associação com Kṛṣṇa em Sua morada suprema como a mais alta perfeição da vida. Tal pessoa não deseja ser elevada aos planetas superiores, como a lua, o sol ou os planetas celestiais, ou mesmo o planeta mais elevado deste universo, Brahmaloka. Não tem atração por isso. Atrai-se somente por ser transferida ao céu espiritual. E, mesmo no céu espiritual, não se contenta em fundir-se na resplandecente refulgência brahmajyoti, pois deseja entrar no mais elevado planeta espiritual, a saber, Kṛṣṇaloka, Goloka Vṛndāvana. Tem pleno conhecimento desse planeta e, por isso, não está interessada em nenhum outro. Como indicado pela palavra mad-bhaktaḥ, ocupa-se plenamente em serviço devocional, especificamente nos nove processos de ocupação devocional: ouvir, cantar, lembrar-se, adorar, servir aos pés de lótus do Senhor, oferecer orações, executar as ordens do Senhor, fazer amizade com Ele e render-Lhe tudo. Pode-se ocupar nos nove processos devocionais, ou em oito, ou em sete, ou ao menos em um, e isso certamente tornará a pessoa perfeita.
O termo saṅga-varjitaḥ é assaz significativo. Deve-se desassociar-se de pessoas que estão contra Kṛṣṇa. Não somente as pessoas ateístas estão contra Kṛṣṇa, mas também aqueles que se atraem por atividades fruitivas e especulação mental. Por isso, a forma pura de serviço devocional descreve-se no Bhakti-rasāmṛta-sindhu da seguinte maneira: anyābhilāṣitā-śūnyaṁ jñāna-karmādy-anāvṛtam ānukūlyena kṛṣṇānuśīlanaṁ bhaktir uttamā. Neste verso, Śrīla Rūpa Gosvāmī afirma claramente que, se alguém deseja executar serviço devocional puro, deve estar livre de toda espécie de contaminação material. Deve estar livre da associação com pessoas que se entregam a atividades fruitivas e especulação mental. Quando, livre dessa associação indesejada e da contaminação dos desejos materiais, a pessoa cultiva favoravelmente conhecimento sobre Kṛṣṇa, isso se chama serviço devocional puro. Ānukūlyasya saṅkaplaḥ prātikūlyasya varjanam. Deve-se pensar em Kṛṣṇa e agir favoravelmente para Kṛṣṇa, não desfavoravelmente. Kaṁsa era inimigo de Kṛṣṇa. Desde o nascimento de Kṛṣṇa, ele planejou de tantas maneiras matá-lO e, como sempre fracassava, sempre pensava em Kṛṣṇa. Assim, ao trabalhar, ao comer e ao dormir, sempre estava consciente de Kṛṣṇa em todos os aspectos, mas essa consciência de Kṛṣṇa não era favorável e, por isso, apesar de sempre pensar em Kṛṣṇa vinte e quatro horas por dia, foi considerado um demônio, e Kṛṣṇa, por fim, o matou. Naturalmente, quem quer que seja morto por Kṛṣṇa alcança imediatamente a salvação, mas esse não é o objetivo do devoto puro. O devoto puro nem mesmo deseja a salvação. Não deseja ser transferido sequer ao planeta mais elevado, Goloka Vṛndāvana. Seu único objetivo é servir a Kṛṣṇa onde quer que esteja.
Um devoto de Kṛṣṇa é amistoso para com todos. Por isso se diz aqui que ele não tem inimigo. Como assim? Um devoto situado em consciência de Kṛṣṇa sabe que somente o serviço devocional a Kṛṣṇa pode aliviar uma pessoa de todos os problemas da vida. Tem experiência pessoal disso e, por isso, deseja introduzir esse sistema, a consciência de Kṛṣṇa, na sociedade humana. Há muitos exemplos na história de devotos do Senhor que arriscaram a vida pela difusão da consciência de Deus. O exemplo predileto é o do Senhor Jesus Cristo. Foi crucificado pelos não-devotos, mas sacrificou Sua vida pela difusão da consciência de Deus. Naturalmente, seria superficial entender que Ele foi morto. De modo semelhante, na Índia também há muitos exemplos, como Ṭhākur Haridāsa. Por que correr tal risco? Porque queriam difundir a consciência de Kṛṣṇa, e isso é difícil. Uma pessoa consciente de Kṛṣṇa sabe que, se alguém está sofrendo, isso se deve a seu esquecimento da relação eterna com Kṛṣṇa. Por isso, o maior benefício que se pode prestar à sociedade humana é aliviar o próximo de todos os problemas materiais. Dessa maneira, um devoto puro ocupa-se no serviço do Senhor. Ora, podemos imaginar quão misericordioso é Kṛṣṇa para com aqueles que se ocupam em Seu serviço, arriscando tudo por Ele. Por isso, é certo que tais pessoas devem alcançar o planeta supremo após deixarem o corpo.
Em síntese, a forma universal de Kṛṣṇa, que é uma manifestação temporária, e a forma do tempo que tudo devora, e mesmo a forma de Viṣṇu, de quatro mãos, foram todas exibidas por Kṛṣṇa. Assim, Kṛṣṇa é a origem de todas estas manifestações. Não é que Kṛṣṇa seja uma manifestação do viśva-rūpa original, ou de Viṣṇu. Kṛṣṇa é a origem de todas as formas. Há centenas e milhares de Viṣṇus, mas, para um devoto, nenhuma forma de Kṛṣṇa é importante senão a forma original, o Śyāmasundara de duas mãos. Na Brahma-saṁhitā afirma-se que aqueles que estão apegados à forma de Śyāmasundara de Kṛṣṇa em amor e devoção podem vê-lO sempre dentro do coração e não conseguem ver mais nada. Deve-se compreender, portanto, que o propósito deste Décimo Primeiro Capítulo é que a forma de Kṛṣṇa é essencial e suprema.
Assim terminam os Significados Bhaktivedanta do Décimo Primeiro Capítulo do Śrīmad-Bhagavad-gītā no que se refere à Forma Universal.